20.18 Relação do Mercúrio Português com os públicos

Relação com os públicos:

Uma análise do discurso do Mercúrio Português

Resumo

Este estudo procura investigar, através de critérios de noticiabilidade reconhecidos, a influência exercida pelo Mercúrio Português, jornal do século XVII, junto dos seus públicos. Pretende-se fundamentalmente comprovar que os artigos jornalísticos escritos ao longo de cinco anos não têm por desiderato único informar os leitores. Analisando algumas passagens deste periódico, é objectivo fulcral desta pesquisa atestar o carácter propagandístico do jornal e os efeitos produzidos naqueles que o liam.

 

Palavras-chave

Mercúrio Português, Jornalismo, Século XVII, Públicos, Critérios de Noticiabilidade

 

Abstract

The following study seeks to investigate, through recognized news criteria, the influence carried out by the Mercúrio Português, a 17th century newspaper, among their audiences.

Fundamentally, our purpose is to prove that the written journalistic articles along five years don’t have any desire of informing its readers. By analyzing some of the newspaper passages, one of the main goals of this research is to attest the propagandistic nature of the newspaper and its importance among those who read it.

 

Keywords

Mercúrio Português, Journalism, XVII Century, Public, News Criteria

 

Introdução

Não é uma discussão milenar, mas tem semeado a discórdia entre os teóricos que se ocupam do estudo da história do jornalismo: em que época se pode situar a origem da actividade jornalística? As opiniões dividem-se, sem que até hoje fosse alcançada unanimidade quanto a esta interrogação.

O autor Alejandro Pizarroso Quintero (1996, pp. 8-11) dá-nos algumas pistas sobre esta problemática e avança com três perspectivas sobre a génese do jornalismo: a primeira visão defende que os primórdios jornalísticos remontam à Antiguidade, uma vez que desde há alguns séculos antes de Cristo que há registo da difusão de conteúdos com carácter actual – notícias, portanto – que se assemelham aos que presenciamos diariamente; a segunda visão preconiza a Modernidade como sendo o berço do nascimento do jornalismo, devido à periodicidade incutida nas publicações, bem como ao surgimento da tipografia de Gutenberg; por último, os defensores da terceira visão apregoam que foi no século XIX, nomeadamente nos primeiros anos, aquando da Revolução Industrial, através do desenvolvimento de impressoras e rotativas, que o mundo viu nascer o fenómeno jornalístico.

Independentemente destas posições antagónicas, é consensual o reconhecimento da importância que o século XVII teve na corporização da actividade jornalística como hoje a conhecemos. Neste caso concreto em análise, é inegável a relevância que o Mercúrio Português adquiriu no panorama jornalístico e literário da época. Por conseguinte, urge estudar as suas componentes, tendo em vista um conhecimento mais consolidado do jornal, mas também da realidade histórica seiscentista.

 

1. Contextualização histórica

A Guerra da Restauração foi um dos episódios mais marcantes dos quase novecentos anos de História em Portugal. Após a aclamação de D. João IV como Rei de Portugal, a 1 de Dezembro de 1640, Portugal e Castela batalharam durante 27 anos, numa guerra que teve três fases: a primeira fase abrangeu 1641 e 1646; a segunda fase compreendeu os anos de 1647 e 1656; a terceira fase ocorreu entre 1657 e 1668, até ser assinado o Tratado de Paz. (Costa, 2004). Ora, o Mercúrio iria atravessar a fase decisiva da Guerra e relatar os acontecimentos mais importantes.

Foi também no século XVII que começaram a aparecer as primeiras reflexões sobre jornalismo. Após alguns contributos de autores alemães, é John Milton o primeiro a destacar-se, com um manifesto contra as restrições acopladas à actividade jornalística. O inglês clama, na sua obra Areopagitica, pela liberdade de expressão desfigurada pela censura de um poder político absolutista (Traquina, 2002, p. 28).

Milton defende que “só a apresentação de todos os lados de uma questão poderá permitir a sua compreensão” e que “entre o verdadeiro e o falso, a verdade será triunfante” (Traquina, 2002, p. 28). O autor inglês inicia assim uma cruzada contra a censura, que seria mais tarde abolida em Inglaterra no ano 1695; a Areopagitica foi o primeiro passo dado nesse sentido. Depois, autores como Thomas Hobbes – no seu livro Leviathan – retomariam esta temática com afinco (Sousa, 2008, p. 156); já no século XVIII, seria Mirabeau a aproveitar o legado de Milton para elaborar a Primeira Constituição democrática (Fontcuberta et al, 1986, p. 38).

Depois, autores como John Locke e Tobias Peucer discorreriam igualmente sobre diversas incidências concernentes ao estudo do jornalismo.

Para além do já citado Mercúrio Português, houve no século XVII, nomeadamente na primeira parte, duas outras publicações proeminentes em Portugal: As Relações de Manuel Severim de Faria e a Gazeta da “Restauração”. Até ao final do século em questão, surgiram outras publicações menores que, não sendo escritas em solo lusitano, abordam temas directamente relacionados com o Portugal seiscentista: O Le Mercure Portugais, em 1643; dois anos depois, o Mercurius Ibernicus e, finalmente, em 1689, o Mercúrio da Europa. (Tengarrinha, 1989, p. 42).

 

2. Análise do objecto de estudo

A análise terá como objecto o Mercúrio Português, jornal de periodicidade mensal, publicado entre Janeiro de 1663 e Julho de 1667. Ao longo de mais de cinquenta publicações – e alguns números extraordinários –, foram publicadas centenas de matérias noticiosas em plena Guerra da Restauração.

 

2.1. Metodologia

Para esta análise, seguiu-se uma metodologia qualitativa. Com efeito, determinou-se alguns critérios de noticiabilidade (também conhecidos como valores-notícia) para posteriormente se proceder à pesquisa de elementos textuais no Mercúrio, passíveis de comprovar as relações com os públicos de então.

Foram seleccionados cinco critérios – actualidade, proximidade, dramatização, personalização e concorrência – e, através do significado que encerram, complementou-se a análise com transcrições do periódico que demonstrassem cabalmente a influência que os conteúdos tinham perante os leitores.

 

3. Uma análise ao discurso do Mercúrio Português

Antes de mais, importa discriminar quais os públicos que aderiam à leitura de jornais no século XVII. Dado o elevado analfabetismo que se registava nesse período, a leitura do Mercúrio estava apenas ao alcance de uma camada da população. Atente-se no que Joaquim Veríssimo Serrão assevera sobre este ponto:

 

“(…) os políticos, os diplomatas, os militares, os letrados e os comerciantes, sobretudo os que já haviam sulcado as estradas do velho continente, tomavam consciência dos sucessos alheios, o que lhes permitia encurtar a distância geográfica e estabelecer novos elos com os seus confrades de outros países. O nascimento da imprensa periódica tornou-se assim um meio transmissor de notícias históricas, graças aos primeiros jornais que surgiram em Portugal.” (Serrão, 1962 p. 170).

 

Importa ainda esclarecer que as transcrições aventadas nos próximos subcapítulos sofreram uma adaptação em termos de caracteres, visando uma leitura mais fluida.

 

3.1. A actualidade

A resposta para a pergunta acerca da homogeneidade temática do Mercúrio Português (os relatos versavam quase sempre os acontecimentos ligados à Guerra da Restauração) encontra-se num dos desígnios jornalísticos mais reconhecidos pelo público, o da actualidade. O facto de o jornal ter tido a sua publicação num período em que se disputava uma guerra de grandes dimensões e preponderância para Portugal, contribuiu para que a temática da Restauração fosse privilegiada. Inversamente, ao incidir o foco noticioso neste conflito, o jornal conseguiu cumprir a função de actualidade que é hoje imputada a qualquer meio de comunicação jornalístico. De certo modo, pode afirmar-se que o Mercúrio surgiu também para dar resposta às necessidades informativas do público.

De seguida pode ler-se um excerto que sustenta o que no parágrafo de cima foi referido:

 

Mercúrio Português, Janeiro de 1663

“Em 22 deste mês de Janeiro o Conde de S. João Governador das Armas da Província de Trás-os-Montes, sabendo que o inimigo havia alojado por aquelas partes muita gente do exército que retirara de Entre Douro e Minho e que estava com pouca prevenção, entrou em Castela com setecentos cavalos e quatrocentos infantes escolhidos, pela parte Monforte, para amanhecer entre aqueles alojamentos, como sucedeu, e investindo os quartéis de Soutochão, Berrande, & Arsoa, escaparam muito poucos inimigos de mortos, ou prisioneiros principalmente do regimento de D. Diogo Dense; e entre os mortos foram cinco Capitães de infantaria, & sete ou oito oficiais reformados e vieram prisioneiros, além do grande número dos soldados um Capitão & cinco Alferes; sem que da nossa parte houvesse morto ou ferido, porque o descuido com que estavam não fez resistência; e se naquela manhã não houvera uma grande névoa, fora muito maior o dano do inimigo.”

 

Neste excerto publicado logo no primeiro número do periódico em Janeiro de 1663, é possível verificar a minuciosidade da informação veiculada, o que de algum modo contribui para justificar a presença constante da actualidade no Mercúrio. No presente caso, a preocupação em referenciar a data exacta em que os factos relatados sucederam – 22 de Janeiro, como se pode ler logo na primeira linha – é igualmente ilustrativa da importância que uma narrativa actual constituiu para o jornal. O mesmo pode ser afirmado na seguinte passagem:

 

Mercúrio Português, Junho de 1663

“Na segunda feira pela manhã saiu Dom João de Áustria com todo o seu poder (excepto a carruagem e poucos soldados, que deixou na cidade, blasonando de querer batalha). Formou três baterias com dezasseis peças, que trabalharam toda a noite, sem ofenderem mais que dois cavalos, pela boa disposição do nosso campo.”

 

3.2. A proximidade

 

Autores como Galtung e Ruge já tinham chamado a atenção para o facto de um acontecimento que ocorra num local próximo, independentemente dessa proximidade ser afectiva, cultural ou geográfica, ganhar com mais facilidade o estatuto de notícia. (Sousa et al, 2008, p. 189). O público interessa-se, geralmente e dependendo das proporções da ocorrência, pelo que lhe é próximo.

 

No Mercúrio Português foram inúmeras as alusões a regiões, cidades e vilas portuguesas ou a territórios espanhóis situados já próximos à fronteira portuguesa. De resto, e por contraponto, raramente foram mencionados reinos e países distantes de Portugal, sendo a publicação de Março de 1667 uma das poucas excepções a esta regra.

 

A constante referência a localidades portuguesas vai ao encontro não só da vertente comunicativa territorial, como da afectiva, já que os leitores tendem também a valorizar sentimentalmente aquilo que lhes é próximo. Nos trechos do Mercúrio abaixo exibidos esta realidade encontra-se evidenciada:

 

Mercúrio Português, Março de 1663

“Pela província do Alentejo se licenciava tanto a cavalaria que o inimigo tem em Arronches, que pareceu necessário ao Conde de Vila Flor Governador das armas, refrear aquela ousadia. Ordenou ao Tenente-general Dom João da Silva, que com aquela cavalaria de Elvas e algumas tropas de Campo Maior fosse pela parte de Barbacena a busca-la e que em saindo da praça, a carregasse quanto fosse possível.”

Mercúrio Português, Maio de 1663

Em 24 deste mês de Maio à tarde chegou a esta corte de Lisboa a nova da entrega de Évora e divulgando-se no dia 25 pela manhã, foi tal o fervor do povo para a defesa de sua pátria que concorreu tumultuosamente ao Terreiro do Paço clamando todos que queriam ir pelejar com o Castelhano.

 

Mercúrio Português, Janeiro de 1663

“Não cessa o despacho dos negócios, para o que levou consigo um dos secretários e alguns conselheiros; deixando outro em Lisboa para se comunicarem e um ou dois dias antes do de cinza voltará a esta corte.”

 

Mercúrio Português, Abril de 1663

“No princípio deste mês de Abril de 1663 chegaram a esta corte relações impressas em castelhano e gazetas em francês com a substância delas, referindo haver entrado na cidade do Porto socorro de oito mil soldados ingleses: haverem os castelhanos por Galiza alcançado em Lapella grandes vitórias.”

 

3.3. A dramatização

 

Nélson Traquina fez notar a importância que uma escrita atractiva e estimulante assume na eficácia da veiculação da mensagem para os leitores nos tempos actuais. A relevância da maneira como o conteúdo é exposto pelos órgãos informativos associado aos valores-notícia foi, por isso, salientada pelo autor. A esta área ligada ao estilo discursivo dos media, Traquina apelidou de valor-notícia de construção.

 

A este respeito, Nelson Traquina fez notar um critério cuja especificidade se encontra, em particular, espelhada no Mercúrio Português por diversas ocasiões, o da dramatização. Para lá das temáticas presumivelmente interessantes para o público, o autor enaltece o papel da escrita e a forma como a exposição do conteúdo influi no interesse dos leitores:

 

“Por dramatização entendemos o reforço dos aspectos mais críticos, o reforço do lado emocional, a natureza conflitual. Na sua discussão sobre as notícias da imprensa e as notícias televisivas, Paul Weaver defende que são semelhantes pelo facto de «serem relatados melodramáticos de assuntos actuais». Acrescenta Weaver: «Os modos e o sensacionalismo são tendências de ambos os media.»” (Traquina, 2002, p. 199)

 

No Mercúrio, o papel de uma escrita apelativa foi fundamental para que a mensagem de apologia à restauração fosse passada com eficácia. Por outro lado, a emotividade e dramatismo empregues nalgumas passagens ajudam a que se denote alguma falta de objectividade nos relatos. Um exemplo disto pode ser encontrado na seguinte transcrição:

 

Mercúrio Português, Junho de 1665

“Foi verdadeiramente gloriosíssima para Portugal esta defesa pela fraqueza da praça com tão poucos soldados, pelo grande poder e furiosa obstinação dos inimigos, que envergonhados da resistência pelejavam já pela reputação. Sempre viverá a memória de tais defensores, cujos nomes pregoará a fama, ainda que, ou forçada, ou mal cortada, os cale a pena.”

 

Aqui é feito um elogio rasgado às forças portuguesas e ao seu heroísmo ao conseguir resistir, mesmo em inferioridade numérica, a um ataque espanhol a Vila Viçosa. Saliente-se também a ideia subjacente de exaltação dos valores associados aos soldados portugueses contra a fúria do exército castelhano.

 

A dramatização literária no Mercúrio foi algo que marcou toda a publicação do jornal. No entanto, nem sempre esta hiperbolização discursiva tinha por objectivo o louvor à pátria. O seguinte trecho é disto um bom exemplar:

 

Mercúrio Português, Junho de 1667

“Era impossível poder-se presidiar e sustentar dos nossos, pela muita distância de nossas praças: pois não pode o coração fomentar os membros desproporcionalmente distantes e menos os desunidos e assim passando ainda a maior miséria, foi toda entregue aos incêndios do fogo que brevemente voraz a converteu em funestas cinzas metamorfoses cruéis e porém filhos de uma inexorável guerra. Acompanharam sua desgraçada sorte as povoações súbditas e circunvizinhas e como se fossem tantas, que por muitas lhe ignoram os nomes, ainda os mais práticos em aqueles países: tais e tão crescidas eram as labaredas que a seu horror e estrondo pareceu que o mesmo inferno e havia desafogado por alguma abertura da Galiza. Oh! Se tantas hórridas luminárias, quanto o céu mostra nas terras de Castela a conduzissem já ao dia aprazível do desengano! A contemplação do leitor deixa o Mercúrio o amargo pranto dos vencidos e o doce contentamento dos vencedores.”

 

O trecho acima exposto difere a nível de conteúdo em relação ao de Julho de 1665. No entanto, a tipologia de escrita mantém o mesmo registo. Neste caso, o Mercúrio põe em evidência os horrores e as consequências nefastas da guerra. Concretamente, o incêndio de uma vila que havia sido submetida às confrontações luso-espanholas. O uso de uma interjeição, bem como de algumas exclamações e de uma escrita inflamante, contribuiu para marcar e dramatizar ainda mais um acontecimento que já por si continha uma carga emocional elevada.

Convém que se refira que passagens como a primeira, em que de algum modo é feita uma alusão aos malefícios da guerra, foram uma excepção. A primeira transcrição deste ponto é bem mais exemplificativa da forma como o Mercúrio usou o estilo dramático em benefício das forças portuguesas. Por todo o periódico estão presentes menções a acontecimentos onde a valentia e a determinação dos soldados lusos são exaltadas, por oposição às forças castelhanas, por diversas vezes apelidadas de “inimigo”. O objectivo seria o de sensibilizar os leitores para a virtude da causa restauradora.

 

3.4. A personalização

 

Ainda no que confere aos valores-notícia de construção evidenciados por Traquina e à sua relação com o Mercúrio Português, há a destacar a personalização. Ou seja, segundo o académico, as notícias que nomeassem ou individualizassem uma determinada pessoa em concreto teriam uma hipótese maior de sucesso junto do público. O autor refere que “por personalizar, entendemos valorizar as pessoas envolvidas no acontecimento: acentuar o factor pessoa”. (Traquina, 2002, p. 199)

No Mercúrio foram múltiplos os casos, ao longo de toda a publicação, em que as novas faziam referência à acção de uma ou mais pessoas em concreto. Como facilmente se perceberá as pessoas eram mencionadas em função da sua proeminência social ou da sua influência no desenrolar da acção (normalmente, acções de cariz bélico). Veja-se a propósito disto os seguintes excertos:

 

Mercúrio Português, Julho de 1666

“Enquanto o exército castelhano fugia na parte do Minho, o mestre de campo general dom Baltazar Pantoja, a quem ficara a mão folgada na entrada passada por Trás-os-Montes, fez outra em vinte e um pela mesma província, mas não lhe sucedeu como cuidava. “

 

Mercúrio Português, Setembro de 1666

“Dom Manuel Lobo fez preza em duzentos e cinquenta boys; vieram seguindo a preza oitenta paisanos montados em éguas e cavalos, voltou dom Manuel, e os derrotou, tomando quarenta e tantos e os cavalos e éguas em que vinham.”

 

“Manuel Travassos recolheu-se com trezentas e cinquenta rezes e trezentos porcos, havendo pegado em mais de oitocentos, mas a maior parte lhe morreu pelo caminho pela grande calma que houve e trouxe mais quarenta e três éguas.”

 

Mercúrio Português, Novembro de 1666

“E aos 14, o general da artilharia António Soares da Costa que ali governava, entrou com 440 infantes pagos e mil auxiliares da Guarda e Viseu e 350 cavalos por Val de Polvora passou o Elge e por junto de Trevilho passou a Serra da Gata e aos 15 amanheceu sobre a Vila de Hoyos, que é de mais de setecentos vizinhos em sítio aprazível com muitos pomares; grande número deles de frutas de espinho muito curiosos e regados de abundância de agoas; sem ser sentido mais do que sentinelas da fortificação. “

 

Em todas as situações são noticiadas e destacadas as acções de determinadas individualidades. No primeiro caso, o Mercúrio Português faz referência ao general castelhano Baltazar Pantoja e à sua disputa por Trás-os-Montes. Na segunda transcrição são Manuel Lobo e Manuel Travassos os nomes mencionados pelo periódico como merecendo realce noticioso, dada a sua envolvência nos acontecimentos. Por fim, no último excerto, o Mercúrio Português refere a acção de António Soares da Costa e dos seus homens numa das muitas batalhas propiciadas da Guerra da Restauração. 

 

3.5. A concorrência

Nos tempos contemporâneos a concorrência entre órgãos de comunicação jornalísticos é algo comummente reconhecido. A ânsia de uma notícia exclusiva ou a divulgação de algo que desacredite e descredibilize o concorrente ocorre de modo constante. A este propósito, Traquina enalteceu o seguinte:

 

“Todas as empresas são concorrentes, mas cada empresa jornalística tem os seus concorrentes de estimação, isto é, os seus concorrentes directos, como, por exemplo, o Jornal Público em relação ao Diário de notícias e vice-versa.” (Traquina, 2002, p. 199)

 

A concorrência entre os meios informativos afecta fatalmente o público que é muitas vezes incitado a desvalorizar aquilo que é dito por outro meio adversário. Como se percebe pelas palavras de Nélson Traquina acima transcritas, a “rivalidade” ocorre geralmente entre órgãos com um estilo, uma especialidade temática e um fim idênticos.

Fazendo a ponte da realidade actual para o século XVII e para o caso do Mercúrio Português em particular, constata-se que também neste tempo o factor concorrencial estava bem patente. Também o Mercúrio viveu numa relação de concorrência constante. No caso, a concorrência de estimação eram as gazetas oriundas de Castela. Sem nunca nomear nenhuma em particular, o periódico português procurou constantemente desvalorizar tudo o que nos jornais castelhanos era publicado. Repare-se, a título exemplificativo, na seguinte passagem:

 

 

Mercúrio Português, Abril de 1663

“Entre outro se chegou um português velho de presença venerável a saber a causa daquele ajuntamento e quando viu o que era disse com algum enrado: Guides que se liam algumas novas; inventaram os castelhanos comédia e relações semelhantes não são novas, é já coisa muito ordinária e velha. Respondeu-lhe o cônsul de Inglaterra: Antes há muito que ver nisto, porque nunca se viu tanta mentira em tão pouco papel. Acudiu um gentil homem francês que milita em Portugal: Entendo que não foi tenção dos autores mentir tanto; isto foi sonho, porque os castelhanos sonham (e têm razão) com o conde de Cantanhede que ali nomeiam por general daquele exército. Replicou-lhes um moço português de muito engenho vivo: Sim senhores estrangeiros, mas os castelhanos sabem mais que vossas mercês, imprimem estes papéis para os enganar e o conseguem, sustentando-se na opinião do que metem em cabeça às nações estranhas, sem elas se desenganarem com tantas experiências. Disse então o cônsul dos estados de Holanda muito pausado: Vossa mercê e eles são os que se enganam, porque estamos tão firmes que nunca falam verdade, que ainda que alguma vez a queiram falar, não lhe daremos crédito. Ora senhores (tornou um cavaleiro do hábito de Cristo) daqui me fica grande consolação em que depois de ver estas relações, não hei-de crer as que vir de seus bons sucessos em outras partes, cujas novas me poderiam dar pena. E que lhe parece a v.m. (acrescentou um capitão reformado) da ignorância com que falam das pessoas, sítios e distância das nossas praças? Parece-lhe a vossa mercê que quem sabe tão pouco delas nos há-de conquistar?”

 

Esta é talvez a passagem do Mercúrio Português em que o ataque à imprensa castelhana é maior. O jornal faz o relato de um diálogo resultante de um ajuntamento entre dois cônsules e outras pessoas. Em toda a conversa perpassa o tom jocoso com que os indivíduos envolvidos se referem ao que as gazetas espanholas publicavam. Com ironia, e até troça, as pessoas iam comentando os relatos castelhanos. Saliente-se aqui a intervenção do cônsul holandês, ao afirmar que mesmo que dos jornais castelhanos saíssem informações verdadeiras, estas não teriam crédito da parte dos portugueses. Percebe-se igualmente a preocupação do periódico em persuadir os seus leitores a corroborar da ideia de superioridade e desprezo por Castela e pelos seus meios informativos.     

 

Seguem-se mais dois exemplos destas menções depreciativas aos órgãos de informação espanhóis:

 

Mercúrio Português, Setembro de 1664

“Chegou-nos impressa uma relação de Castela, intitulada: Noticias de los años de 1663 y 1664, omitense por este año los sucesos particulares de la guerra por la brevedad del despacho. Bom expediente para não referir suas misérias; famosos são os castelhanos nisto e se lhes podem perdoar algumas coisas, por outras tem galantíssimas. A brevidade do despacho impediu de dar notícias dos sucessos de guerra e a relação, por brevidade, é de quatro folhas de papel de letra miúda, que só contém impertinências”.

 

Mercúrio Português, Dezembro de 1666

“Conseguiu o intento que o incitou a escrever, que foi tapar a boca aos castelhanos, que vendo-nos mudos, imprimiam licenciosamente relações fantásticas do que desejavam, fiados em que os estrangeiros lhes davam crédito, parecendo-lhes que em calarmos consentíamos e que depois Mercúrio escreveu não se atreveram a prosseguir; certo que se estivermos no tempo daquela cega gentilidade se reputara por milagre deste seu Deus o haver posto silêncio (bem necessário para o nosso século) a tais faladores, sobre os mais porque era venerado.”

 

Na primeira transcrição a mensagem veiculada é novamente de menosprezo em relação aos conteúdos das gazetas castelhanas. Neste caso, o jornal torna a acusar explicitamente a imprensa espanhola de desviar as atenções das derrotas sofridas na guerra com outras temáticas, no entender do Mercúrio, irrelevantes.

O segundo excerto retirado traz um conteúdo diferente acerca desta matéria, comparativamente com o outro que foi apresentado. Aqui é feita a revelação de duas das intenções primaciais do Mercúrio Português: estabelecer uma concorrência directa com Castela a nível comunicacional e constituir um veículo de propaganda das valias portuguesas para os leitores.

 

Conclusão

Após esta breve reflexão sobre a relação do Mercúrio Português com o público torna-se possível tecer algumas considerações finais de relevo.

Mesmo sendo a publicação do jornal datada de uma época distante (o século XVII), algumas das características patenteadas nos estudos jornalísticos da contemporaneidade estão bem visíveis no Mercúrio. Esta é talvez a maior prova da transversalidade temporal de algumas das especificidades formais do periódico.

Critérios pelos quais hoje vários jornais se regem na hora de privilegiar determinados acontecimentos em detrimento de outros, são igualmente tidos em linha de conta na produção noticiosa feita no Mercúrio Português. As constantes marcas de actualidade no conteúdo informativo do jornal analisado são disso o maior exemplo.

Por outro lado, há a destacar também a dramatização de diversas passagens, assim como a crítica cerrada à concorrência da imprensa castelhana. Ambas as marcas discursivas permitem salientar o carácter fortemente panfletário e propagandístico de que Eurico Gomes Dias também deu conta:

Além de ser um órgão periódico, o Mercurio Portuguez foi, na sua essência, um tributo ao Soldado português, esse elemento anónimo que constituiu a portugalidade. Glorificou-se a Guerra, mas aquela guerra por Portugal e, por esse tempo, foi o Mercurio Portuguez o seu mais incontestado arauto (Eurico Gomes Dias, XLV, 2010).

Como nota final, realce-se que todas estas particularidades tiveram, como em qualquer órgão de informação hodierno, a preocupação de definir os critérios redactoriais em função do público e dos seus interesses. No caso concreto do Mercúrio Português, este cuidado em relação ao público foi acompanhado por mensagens de cariz político e de apologia ao movimento de restauração da independência de Portugal.

 

Bibliografia

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