20.11 O primeiro noticiarista português

Manuel Severim de Faria: primeiro jornalista português

 

Gabriel Silva; Jorge Pedro Sousa; Mônica Delicato; Nair Silva (Universidade Fernando Pessoa)

2grabrielsilva@gmail.com

 

Sumário

Neste trabalho, apresenta-se, resumidamente, a vida e obra de Manuel Severim de Faria, um erudito português que publicou, em 1626, 1627 e 1628, Relações noticiosas impressas que podem ser consideradas o primeiro jornal português, pois, apesar da ausência de periodicidade, tiveram como finalidade a difusão pública de informação e a venda. Nesse contexto, Manuel Severim de Faria, noticiarista, historiógrafo e editor, pode ser considerado o primeiro jornalista português.

 

 

Introdução

No final do primeiro quartel do século XVII, numa época em que o Mundo Ocidental vivia os tempos conturbados de entrada na Idade Moderna e em que Portugal tinha perdido a sua independência, diluindo-se no Império Espanhol dos Filipes, um erudito português, chamado Manuel Severim de Faria, chantre da Sé de Évora, usando o pseudónimo Francisco de Abreu, mandou imprimir duas Relações multitemáticas de notícias, extraídas de uma série de 31 relações manuscritas intituladas História Portuguesa e de Outras Províncias do Ocidente, Desde o Ano de 1610 Até o de 1640 da Feliz Aclamação d’El Rei D. João o IV Escrita em Trinta e Uma Relações. A primeira foi impressa em Lisboa, em 1626, e reimpressa em Braga, em 1627. A segunda foi impressa em Évora, em 1628.

Numa altura em que, beneficiando da invenção tipográfica de Gutemberg, o jornalismo impresso dava os primeiros passos, ainda num contexto pré-industrial, essas Relações, uma espécie de anuários, podem ser consideradas os primeiros jornais portugueses noticiosos e multitemáticos impressos, ou pelo menos são os mais antigos entre aqueles de que se conservam exemplares e registos documentais. Assim sendo, o autor, Manuel Severim de Faria, pode ser considerado o primeiro jornalista português, pois foi o primeiro noticiarista e historiógrafo a editar e, presumivelmente, vender um jornal impresso, para difundir publicamente notícias. O presente trabalho, extraído de uma investigação de maior dimensão sobre as Relações, visa, precisamente, traçar o perfil biográfico de Manuel Severim de Faria, considerado por Joaquim Palminha Silva (2003) “o mais douto português do seu tempo”, para melhor entendermos a sua vida e obra e as próprias Relações de que foi autor.

Para desenvolvimento da investigação, usou-se como método exclusivo a pesquisa bibliográfica em várias bibliotecas públicas portuguesas, tendo-se feito um levantamento exaustivo dos materiais que diziam respeito à vida e obra de Severim de Faria.

 

 

A biografia de Manuel Severim de Faria

 

Manuel Severim de Faria terá nascido em 1584, em dia desconhecido do mês de Fevereiro (Silva, 2003:7), na freguesia de Santa Justa da cidade de Lisboa, sendo baptizado a 22 desse mesmo mês. Era filho de Gaspar Gil Severim, Escrivão da Fazenda e Executor-Mor do Reino, e de Juliana de Faria. A sua família remontava à presença entre as tropas de D. João I, na tomada de Ceuta, de um cavaleiro chamado Pierre de Severim, o qual teria, posteriormente, contraído matrimónio com Constança Pires de Camões, da família do famoso poeta luso.

Manuel Severim de Faria foi para a cidade de Évora ainda criança, ali tendo sido educado por um tio, Baltasar de Faria Severim, Cónego e Chantre[1] da Sé de Évora. Tal cargo viria a assumir um carácter quase hereditário na sua família, uma vez que o próprio Manuel Severim de Faria sucederia a seu tio, sucedendo-lhe, posteriormente, um sobrinho, Manuel Faria de Severim, em 1642, e a este Francisco Severim de Menezes, seu sobrinho (Vasconcelos, 1922). Manuel Severim de Faria viveu, assim, grande parte da sua vida sob a Monarquia Dual, que terá aceite resignadamente (Jorge, 2003: 31), até porque não conheceu outra até ter idade já avançada. Segundo Maria Fernanda Jorge (2003: 33), num julgamento que compartilhamos, esse facto “é importante tanto para a compreensão das suas ideias e pontos de vista políticos, como para a análise da sua obra e das preocupações e interesses que o motivaram”.

Manuel Severim de Faria frequentou a Universidade de Évora, vindo a ser Mestre em Artes e Doutor em Teologia, para além ter recebido as várias ordens sagradas católicas. Seu tio Baltasar renunciou, repentinamente, ao lugar de chantre da Sé de Évora, em 1609, possivelmente porque não quis colocar-se ao serviço de D. Filipe II (D. Filipe I de Portugal), que quereria vê-lo como seu embaixador em Roma. Baltasar de Faria tornou-se, assim, frade na Cartuxa[2] de Évora, da qual tinha sido um dos fundadores e onde viria, mais tarde, a ser prior, para além de ocupar outros cargos, como visitador da sua Ordem. Chegou a fundar vários novos conventos.

Manuel Severim de Faria, então com 25 anos, sucedeu, assim, a seu tio no Cabido da Sé de Évora, adquirindo o direito de receber somas elevadas, fruto de disposições eclesiásticas que lhe asseguraram diversas rendas e outros benefícios. Devido à sua formação escolástica e forma de ser, Severim de Faria pôde aplicar as avultadas verbas a que tinha acesso na aquisição de uma das mais famosas e bem apetrechadas bibliotecas do seu tempo. De acordo com o seu primeiro biógrafo, José Barbosa (cit. in Faria, 2003: 298), tal biblioteca conteria não apenas as principais obras publicadas ao tempo, como inúmeros manuscritos de diversas épocas, incluindo papiros egípcios, entre outras preciosidades. Da sua biblioteca, reunida ao longo da sua vida a expensas próprias, temos notícia (Leal, 1899) de que se comporia de quase 400 volumes (Vasconcelos, 1914:6). Era também referenciado como disponibilizando frequentemente a viajantes, curiosos e amigos tal espólio para consulta e estudo.

O carácter pessoal de Severim de Faria, um curioso e estudioso, levou-o também, desde bem cedo, a interessar-se pela história em geral, podendo ser considerado como um dos primeiros arqueólogos portugueses, por via das inúmeras peças romanas que foi juntando, recolhidas e adquiridas um pouco por todo o Alentejo. Nesse âmbito, a sua colecção de moedas romanas[3], dos reinos godos e mouros e dos reis de Portugal tornou-se famosa, tendo Severim de Faria publicado vários estudos numismáticos e notícias. Ainda na sua vertente de historiador, efectuou vários estudos genealógicos sobre os reis de Portugal e famílias nobres.

No entanto, Manuel Severim de Faria não se limitou a destacar-se nas áreas da sua formação (teologia e filosofia) ou como historiador. Também procurou fazer reflexão e, quiçá, intervenção política. Em 1624, por exemplo, Severim de Faria publicou a obra Discursos Vários Políticos, na qual advogou, nomeadamente, a transferência da sede da corte de Madrid para Lisboa (Severim de Faria, 1999: 9). Sob o olhar contemporâneo, mais problemáticos são, porém, os escritos anti-semitas do chantre da Sé de Évora, elaborados, possivelmente, no calor das duradoiras reacções contra o perdão dos cristãos novos, de 1601, concedido a troco da entrega de elevada quantia de dinheiro à Coroa pelos judeus de Lisboa. Numa época em que o catolicismo era fundamentalista e sectário, inclemente para com outras religiões, abundavam os discursos anti-judaicos, que propagavam o ódio aos judeus, acusados de todos os males do mundo, incluindo a fome e as doenças epidémicas que, periodicamente, afectavam a população. Também Severim de Faria juntou a sua voz aos católicos mais radicais, escrevendo pelo menos dois textos anti-semitas: Razões Para Não Se Admitirem Sinagogas em Portugal e Relação dos Castigos Que Tiveram os Reis de Portugal Que Favoreceram os Judeus. Por causa das perseguições, e apesar dos contributos monetários para a Coroa, os judeus continuaram o seu êxodo de Portugal, dirigindo-se, nomeadamente, para a Holanda e a Inglaterra, países religiosamente mais tolerantes dentro do difícil contexto da época.

A obra mais conhecida e referenciada de Manuel Severim de Faria é, contudo, o livro Notícias de Portugal, compilação de vários textos (Discursos) onde se debruça sobre os mais variados temas, como sejam a Milícia, a Nobreza, a Moeda, as Universidades, a Evangelização, a Carreira das Naus e a Peregrinação, aos quais se juntam, ainda, várias biografias dos Cardeais portugueses até então e alguns elogios da sua autoria e de outros autores sobre vários personagens. Publicado em 1655, no ano da sua morte, o livro Notícias de Portugal surgiu 21 anos depois da publicação dos Discursos Vários Políticos (Severim de Faria,1999). Contudo, os Discursos de ambas as publicações eram, similarmente, direccionados à “instrução política das artes, em que hão-de ser doutrinados os mancebos nobres da República, conforme os preceitos do filósofo” (Severim de Faria, 2003:5), explicando ainda da razão de ser da distância temporal das duas publicações referidas e da sua génese:

 

“tendo eu naquele tempo uma obra grande, que intitulava: Noticia de Portugal, e suas conquistas: já quase em estado para se poder imprimir (…) com tudo como as cousas daqueles anos para cá tiveram tão grande mudança, recresceram tais inconvenientes, que sustive na execução de tal intento. Porém, entendendo eu, que não seriam de menor serviço público alguns discursos dos muitos, que nesta obra se continham sobe diversas matérias, assim políticas, como de vária lição, me pareceu comunicá-los a todos, e pelo que participam de seu primeiro original, dar-lhe o título de Notícias de Portugal.” (Severim de Faria, 2003: 5).

 

Certamente os “inconvenientes” referidos diriam respeito às condições políticas de então, pois Portugal encontrava-se sob o domínio filipino. Porém, mesmo após a Restauração, certas reservas se terão mantido, pois que, se após a finalização do livro, em Outubro de 1653, correram normalmente os prazos das várias autorizações para a sua publicação, as mesmas se interromperam por mais de um ano e meio, apenas sendo dadas as duas finais já em cima da momento da morte do autor (Severim de Faria, 2003:10). Dos textos originalmente previstos para a referida Notícia de Portugal e Suas Conquistas, foram apenas publicados parcialmente alguns, nos indicados Discursos Vários Políticos e nas Notícias de Portugal (embora aqui acrescentados e revistos), ainda que Leite de Vasconcelos confirme a existência de outros manuscritos, os quais seriam partes da mesma obra (Leite, 1914: 10; Leite, 1917: 6).

Do conteúdo das Notícias de Portugal, destacam-se os oito Discursos, sendo que foram ainda incluídos um Catálogo dos Cardeais Portugueses e quatro Elogios a várias personagens, “por inadvertência do impressor” (Severim Faria, 2003:6), pois certamente destinados originalmente a obra diversa,

Dos discursos, sobressai o primeiro, certamente dos mais interessantes e importantes, devido ao seu conteúdo de política geral, versando “sobre o aumento da povoação deste Reino; porque sendo a multidão da gente o fundamento de todos os estados, em Portugal é isto muito mais necessário, pois tem mais conquistas, que nenhum outro Reino da Europa; e assim necessita mais de tratar desta matéria” (Severim de Faria, 2003: 5). Severim de Faria advoga em primeiro lugar que a parte da grandeza e prosperidade das nações do seu tempo advêm da relação do território ocupado e respectiva população, capaz de sustentar os meios a tal prosperidade, que seriam quatro, a saber, “Agricultura, para a sustentação necessária às Artes mecânicas, para a vida política, e à Mercância, para levar os frutos próprios às Províncias alheias; e a trazer das alheias, os que nos faltam, e à Milícia, para defensão da pátria” (Severim de Faria, 2003: 13).

Assim, produção agrícola, indústria transformadora, comércio e defesa militar serão os pilares em que assentará a independência e prosperidade dos Estados. Ora, para o autor, em Portugal haveria ao tempo falta de gente, sendo que a “principal causa da falta de gente, que se padece neste Reino são as nossas conquistas” (Severim de Faria, 2003: 18), pois que ainda que úteis para a expansão do Evangelho e do comércio, faziam falta. A segunda causa para a diminuição da população seria “por não terem ofícios, com que ganhem de comer” e como os homens não têm de que sustentem, não se querem casar: e muitos com esta ocasião se fazem de vadios” ou “outros que se passam a Reinos estrangeiros” (Severim de Faria, 2003: 19). A terceira causa seria “por não terem neste Reino terras, que cultivem, e que possam tirar a sua sustentação”, defendendo os primórdios de uma reforma agrária, pois que “o Alentejo, que pudera socorrer a esta falta, por tão espaçoso, como o resto do Reino; como está todo dividido em herdades, e as muito delas muito grandes, nem se povoa, nem se cultiva” (Severim de Faria: 19). Do remédio para tais problemas, Severim de Faria (2003: 21), defende que das conquistas, deveriam privilegiar-se apenas as que ficavam mais perto, nomeadamente as que se situavam até ao Cabo da Boa Esperança, apontando os territórios da Índia como um sorvedouro de gente e dinheiro, tanto pela distância, pelos perigos e acidentes de viagem, como pela necessidade de inúmeros efectivos para defender as cidades conquistadas de populações vizinhas numerosas, “pelo que naquele Estado não nos convinha mais ter do que uma, ou duas fortalezas nos portos, em que haveriam de invernar as nossas naus, e armadas para poder continuar livremente o comércio”, para além da existência de um corpo militar residente e permanente.

Quanto à segunda causa, a falta de ofícios no Reino, o remédio seria “exercitarem-se nele as artes mecânicas”, nomeadamente as relacionadas com as matérias-primas de que o país dispunha (Severim de Faria, 2003: 24). Nesse contexto, seria particularmente importante não se permitir “que se levem para fora dos seus Estados os materiais crus, como são as lãs, seda, madeira, metais, nem outras semelhantes coisas” pois “além de viver muito mais gente do trato de matéria lavrada, que da matéria simples, como apontamos, as rendas do Príncipe são com excesso mais ricas pelas sacas das obras” (Severim de Faria, 2003: 25).

Nesta defesa da mais-valia da transformação face à mera produção ou extracção, as ideias de Manuel Severim apenas viriam a ter algum desenvolvimento e aplicação, cem anos depois, com a política económica traçada pelo Marquês de Pombal, e duzentos anos depois com a tentativa de industrialização de Fontes Pereira de Melo. No entanto, como o próprio já fazia notar na sua obra, as demais nações europeias já tinham optado por esse caminho, com óbvias vantagens para o seu desenvolvimento económico, e, consequentemente, político.

Um terceiro aspecto defendido por Severim de Faria na obra Notícias de Portugal foi o da dinamização do povoamento interno do país, nomeadamente por intermédio de cartas de privilégio, concedendo incentivos e isenções a populações para se fixarem em territórios escassamente povoados, especialmente no seu Alentejo, pois este está “dividido em herdades, das quais os lavradores não são senhores; mas somente arrendadores”, não podendo dispor da terra como bem queriam, nem dar resposta aos que a queriam trabalhar, por a mesma não ser sua. Também aqui o problema nunca foi definitivamente resolvido, apesar de ser essa a intenção aquando da expropriação dos bens das ordens religiosas, já em pleno século XIX, ainda que com escassos resultados práticos.

Por fim, aponta Manuel Severim de Faria uma quarta medida que poderia obviar à reduzida capacidade de renovação populacional seria a de proteger e educar os órfãos, “recolhendo estes órfãos, e enjeitados, em quando são pequenos, e dando-lhe criação”, pois que, “criando-se em boa doutrina, até se poderem pôr aos ofícios, ficariam sendo de grande utilidade à República” (Severim de Faria, 2003: 33). 

O próprio autor daria o exemplo na adopção desta medida concreta, mediante a fundação, por sua sugestão, do Colégio dos Meninos Órfãos de Évora, que o seu sobrinho Manuel Faria de Severim empreendeu, tendo seu tio efectuado várias e volumosas doações (Machado, 1966:369).                                 

Do Discurso Sexto, versando Sobre a Pregação do Evangelho nas Províncias da Guiné[4] salienta-se a sua defesa de que a evangelização, para além de poderosa aliada na consolidação e salvaguarda dos interesses e da presença dos portugueses, deveria ser reformulada, nomeadamente pela inovadora ideia, ao seu tempo, da criação de clero local: 

 

um só meio, o qual é ordenar Sua Majestade, que haja Seminários nos lugares, que parecer mais convenientes, (...), em que se crie certo número de moços de cada uma destas Províncias, onde estão os nossos Governos, (...), de maneira que quando os Seminaristas tornarem para sua Pátrias, possam fazer o ofício de Pregadores, e sucedendo uns aos outros, continuem na cultivação espiritual daquelas Províncias, até as converter de todo.” (Severim de Faria, 2003:204).

 

As vantagens que aponta seriam as de estes seminaristas não se ausentariam das suas terras, ao contrário dos eclesiásticos enviados da metrópole. Por outro lado, teria a vantagem de não terem de aprender língua diversa da sua própria, bem como gozarem de maior naturalidade e prestigio junto dos seus povos, e, argumento curioso, mas não despido de sensatez, “se evitarão com isso as doenças e mortes, que padecem os nossos, que vão pregar para a Guiné, porque como sejam estes Moços naturais da terra, seguramente podem andar e viver nela” (Severim de Faria, 2003: 205).

Do curioso Discurso Oitavo, Sobre a Peregrinação Manuel Severim discorre sobre a importância e relevância das viagens, mas apenas quanto feitas na juventude, pois, com excepção das peregrinações religiosas, defende que “só por razão de alcançar as ciências, e artes necessárias ao comum, e particular, se deve sair da pátria”. Numa visão, directamente decorrente da sua própria experiência, enaltece e aponta o advento da imprensa, como razão de uma fundamental alteração da forma de obtenção de conhecimento:

 

 “Quanto mais, que sem algum tempo se pode escusar a notícia do mundo adquirida pessoalmente, é neste Século, em que o conhecimento dele está em grau tão subido com tantos livros, que nos mostram aos olhos, não só as Províncias e Reinos, mas ainda as próprias cidades, e povos com tanta perfeição, e com tal particularidade, que é impossível um caminhante por mais curioso, e inteligente que seja alcançar a menor parte destas coisas, vendo, e andando, como em casa se conhecem todas, lendo, e estudando” (Severim de Faria, 2003: 225).

 

Com efeito, não foi Manuel Severim de Faria especialmente viajado, tendo, ao que se sabe, passado quase inteiramente a sua vida em Évora, com excepção de um período mais ou menos longo em Lisboa, provavelmente durante vários meses (Silva, 2003: 20). Nesta sua missão, ao serviço do seu Cabido, era o responsável pela aquisição de fornecimentos alimentares que mitigassem as necessidades dos eborenses, que se encontravam em estado de penúria e pré-revolta, em virtude de vários e gravosos novos impostos lançados pelo rei D. Filipe IV (D. Filipe III de Portugal). Da correspondência que trocou durante a sua estadia em Lisboa, manifesta-se um outro aspecto da sua personalidade, a de pessoa que não apenas se preocupava com os demais semelhantes, mas também que era depositária de grande confiança pela sua comunidade, mercê da responsabilidade que lhe foi conferida de gerir avultadas somas e garantir de forma célere e eficaz o transporte de mantimentos e outras mercadorias para Évora. Ou seja, a ser, sem dúvida, um intelectual de elevada craveira, não deixaria de ser também um bom gestor executivo.

Realizando apenas três viagens, Severim de Faria, fazendo jus à sua forma de ser, simultaneamente, curioso e estudioso, deixou relatos pormenorizados e circunstanciados, os quais constituem dos primeiros e mais importantes estudos sobre a realidade sócio-etnográfica do seu tempo e elementos imprescindíveis para os estudos da época (Serrão:1974). Significativo foi que, nas suas andanças, notasse e realçasse a continuidade e unidade quanto à geografia, formas de vida e história das diversas regiões por onde passava, num todo que era espelho da existência de um nação, o que indicia a sua posição política face ao contexto da época (Serrão:1974:17).

Na primeira viagem, realizada ainda na sua juventude, em 1604, o chantre da Sé de Évora realizou uma peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, no reino de Castela, juntamente com seu tio Baltazar, o qual ali se deslocou para dar cumprimento do agradecimento e oferenda, por motivo da protecção recebida pela cidade de Évora aquando da grave crise de peste que grassou no Reino e em especial em Lisboa nos anos de 1598/1599 (Serrão, 1974:23). Apesar de jovem, pois tinha então apenas 20 anos, e de ser a primeira vez que saía da cidade onde sempre vivera, Severim de Faria relata e descreve pormenorizadamente as peripécias da sua viagem e tudo quanto viu, desde os monumentos e localidades do Alentejo e Castela ao número aproximado de habitantes, incluindo ainda os costumes agrícolas, as paisagens, as tradições locais e outros aspectos da vida social e cultural de então.

Na segunda viagem, entre Évora e Miranda do Douro, foi efectuada no ano de 1609, por ocasião da nomeação do prelado local, D. Diogo de Sousa, como novo Bispo de Évora, tendo Severim de Faria sido encarregue de apresentar cumprimentos e votos de obediência por parte do seu Cabido. De acordo com Serrão (1974: 24), trata-se de um importante testemunho e descrição da história e geografia local.

Em 1625, o autor das Relações fez uma terceira viagem entre Évora e Maçãs de Dona Maria, junto a Tomar, por motivo de peregrinação à Nossa Senhora da Paz, no lugar de Constantina, em Ancião, de cuja imagem terá saído água que teria realizado diversas curas milagrosas, mas a mesma foi descrita por seu sobrinho e sucessor na Sé de Évora, Manuel Faria de Severim, notando-se uma maior ligeireza e pobreza de pormenores quando comparadas com as obras do chantre da Sé de Évora.

Homem multifacetado, Manuel Severim de Faria escreveu várias dezenas de obras, das quais se conhecem 56 (Silva, 2003:36), número muito significativo e ilustrativo do seu saber e capacidades, atendendo à diversidade de matérias abordadas e do esforço e tempo necessárias para a sua realização.

Entre os seus textos, além dos já citados, pode ainda destacar-se a Vida de Luís de Camões, no qual o autor recorre, originalmente, à própria obra do poeta, constituindo um minucioso estudo crítico-literário. Nessa obra, incluída nos Discursos Vários Políticos, de 1624, e publicada em Évora (Severim de Faria, 1999), ficou também para a posteridade o célebre retrato de Camões, o qual constitui a imagem de marca do próprio poeta. Ainda no campo biográfico, e também incluídas nos Discursos Vários Políticos, destacam-se a Vida de João de Barros e a Vida de Diogo Couto, textos que demonstram um aturado estudo e conhecimento desses personagens e, sobretudo, evidenciam um estilo limpo, preciso e objectivo, livre do estilo panegírico de obras similares e tão populares ao tempo.

Da sua posição como chantre, e certamente pela consideração de terceiros pelo seu saber, Manuel Severim de Faria construiu uma vasta rede de contactos sociais, fosse entre as famílias relevantes da sua cidade, fosse entre os missionários de várias congregações e mesmo da corte, onde seu meio-irmão Francisco Severim de Faria havia sucedido a seu pai como Escrivão-mor do Reino (Vasconcelos, 1922:8). Certo é que essa rede de contactos lhe possibilitava aceder a todo o tipo de informações, receber novas de todas as partes do mundo, para além de se corresponder, igualmente, com pessoas deslocadas e viajantes pelos quatro quantos do mundo conhecido, o que de muito lhe terá valido para os seus escritos, incluindo para a elaboração das Relações, e para a obtenção da sua valiosa biblioteca. Por exemplo, nas suas Notícias Importantes dos Anos de 1606, 1607, 1608 Em Que Se Compreendem Várias Coisas Pertencentes à História de Portugal (Jorge, 2003:44), Severim de Faria vai dando conta, por vezes pormenorizadamente, dos principais acontecimentos ocorridos em Portugal e na Europa. É o início do seu labor “noticioso” que se veio a consubstanciar em 31 relações escritas entre 1610 e 1640 (História Portuguesa...), relatos manuscritos anuais dos principais eventos, certamente dirigidas a uma pluralidade de personalidades. Dessas relações manuscritas extraiu-se o conteúdo das duas únicas objecto de publicação, que constituem o cerne do presente estudo.

Manuel Severim de Faria terá ainda contribuído para a primeira publicação da obra de Fernão Mendes Pinto Peregrinação, em virtude de contactos que tinha com eruditos e tradutores castelhanos (Silva, 2003: 35).

Sentindo-se cansado pelos anos e afectado por várias maleitas, renunciou em favor do seu sobrinho Manuel Faria de Severim, primeiramente como Cónego, em 1633, e posteriormente como chantre, em 1642 (Machado, 1966: 369), no dia seguinte a ter terminado o Índex do Cartório do Cabido da Sé de Évora (Jorge, 2003:70).

Em 1638, Severim de Faria escreveu as Razões Contra a União Que se Pretenda Juntar o Reino de Portugal ao de Castela (Jorge, 2003:56) onde, reflectindo sobre uma problemática que cruzava a sociedade de então, o autor defende, na linha das suas observações e escritos anteriores, a inviabilidade dessa hipotética união, em virtude das diferentes características, costumes, cultura e história dos dois reinos. É também tal obra uma discussão aberta em que se prenuncia já a ruptura entre os dois reinos, que ocorreria em 1640. A propósito, afirma Maria Fernanda Jorge (2003: 33):

 

“Algumas das obras de Manuel Severim de Faria reflectem os sentimentos da sociedade do seu tempo, ou seja, a esperança e o sentimento generalizado de que a união das duas coroas ibérias restituísse a Portugal a grandeza perdida. No entanto, a actuação dos sucessivos governos filipinos não trouxe grandes melhorias para a difícil situação portuguesa. As expectativas foram goradas e os escritos de Manuel Severim de Faria vão traduzindo a desilusão que a governação castelhana provocou em Portugal. Há uma clara disforia no modo como o chantre vai progressivamente abordando os assuntos de interesse quotidiano”.

 

Um sinal do presumível regozijo de Severim de Faria pela Restauração foi a denominação que deu ao seu conjunto de relações manuscritas: História Portuguesa e de Outras Províncias do Ocidente, Desde o Ano de 1610 Até o de 1640 da Feliz Aclamação d’El-Rei D. João o IV Escrita em Trinta e Uma Relações [negrito nosso].

Após a Restauração, os escritos de Manuel Severim de Faria reflectem já não tanto aquelas características eu lhe eram comuns como sejam a profunda e apaixonada reflexão e intervenção nas grandes questões do seu tempo, mas mais um carácter espiritual, como o comprovam a finalização em 1642 da Relação da Vida Solitária da Serra da Ossa, em 1643 a obra Exercícios de Perfeição e doutrina espiritual Para Extinguir e Adquirir Virtudes, impressa em Lisboa (Jorge, 2003: 70) e, em 1651, o Prontuário Espiritual (Vasconcelos, 1914:31). Terá terminado a sua profícua obra, já na antevisão do seu próprio fim, com um escrito de carácter autobiográfico: Lembranças Próprias, ou Memórias da Sua Vida, e Tempo Desde 1609 Até 1655 (Silva, 2003:37).

Manuel Severim de Faria faleceu em 1655 (a 25 de Setembro, segundo Silva, 2003: 37) ou a 16 de Dezembro (Severim de Faria, 2002: 300), aos 71 anos de idade, em virtude de uma forte crise de icterícia, ficando sepultado, por seu desejo expresso, junto a seu tio Baltasar Faria de Severim, na Cartuxa de Évora.

Com a extinção das ordens religiosas, decretada em 1834, e com a demolição do antigo Convento de São Domingos de Évora para a construção no local de uma nova praça, os cidadãos locais pretenderam preservar a memória de um outro religioso eborense famoso, André de Resende, organizando-se para a transladação dos seus restos mortais para a sé de Évora. Na sequência, foi recordado Manuel Severim de Faria, e por forma a sua memória não correr igual risco, uma vez que a Cartuxa de Évora se encontrava abandonada, a 30 de Julho de 1839 os seus restos mortais, juntamente com os de Baltasar Faria de Severim, foram transladados para a Sé Catedral de Évora (Silva, 2003:37), onde actualmente se encontra o seu túmulo, cuja tampa, mandada realizar pelo próprio (Jorge:2003:72), tem a seguinte inscrição: “Manuel Severim de Faria Chantre e Cónego da Sé de Évora elegeo para si esta sepultura assim por sua devoção, como por estar nella o corpo do P. D. Basílio de Faria seu tio, que falleceo sendo Prior deste Convento a 5 de Abril de 1625.

 

 

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[1] O Chantre era o responsável pelos ofícios litúrgicos e procissões, sendo ainda responsável pela selecção e ensino dos elementos do Coro, geralmente crianças. Era uma função de grande relevância dentro da hierarquia da Igreja local, pois tinha grande visibilidade pública, não só como responsável por todos os elementos mais visuais e artísticos da liturgia, mas também como elemento preponderante e fundamental da acção catequética, formativa, cultural e educativa das comunidades locais. Não nos devemos esquecer que, numa sociedade profundamente marcada pelos ritos religiosos, estes eram, em grande parte, as principais, se não mesmo únicas, formas culturais de algum relevo na sociedade daquele tempo.

[2] A Ordem Cartuxa, fundada por São Bruno, é uma ordem religiosa totalmente dedicada à oração e contemplação, na qual os frades praticam voto de silêncio perpétuo. É caracterizada por um grande isolamento e despojamento.

[3] “....às minhas mãos tem vindo mais de 3.000 moedas de outro, prata, metal Coríntio, e bronze de todos os imperadores” (Severim de Faria, 2003: 137).

[4] Expressão genérica que designa os territórios da costa ocidental do continente africano: “o Senhorio que os Reis de Portugal têm em Guiné, em que se incluem os Estados do Cabo Verde, Mina, S. Tomé, Angola, e parte do Congo” (Severim de Faria, 2003:199)

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Jornais UFP,
31 de out de 2010 03:15