20.10 A ambição informativa da Gazeta

A ambição informativa e as características jornalísticas da Gazeta “da Restauração” (1641-1647)

 

Jorge Pedro Sousa

Universidade Fernando Pessoa e Centro de Investigação Media & Jornalismo

jorgepedrosousa@gmail.com

 

 

O estudo aqui desenvolvido tem por objectivo demonstrar a ambição informativa e expor as características jornalísticas da Gazeta “da Restauração”, primeiro periódico português (1641-1647).

Para esse efeito, recorreu-se à análise do discurso qualitativa, com um enfoque histórico-cultural, no sentido de que se procuraram interpretar os factos discursivos à luz da conjuntura histórica do século XVII e do que então se entendia por “jornalismo” antes mesmo de se falar com propriedade em jornalismo.

 

 

1. A intenção primeira da Gazeta: noticiar

 

Embora pudesse fazer propaganda quer da Restauração quer do Catolicismo, de forma clara ou dissimulada, embora pudesse fantasiar em certas notícias ou mesmo falar de acontecimentos inventados e falsos (talvez mais por causa da credulidade dos redactores do que por mentira intencional), a primeira intenção da Gazeta foi a de dar informação, alguma de produção externa, resultante, designadamente da tradução de notícias de jornais estrangeiros, mas muita dela de produção própria, produzida a partir da observação directa do que se passava, de cartas, de relatos orais dos viajantes e de outras fontes.

Na verdade, o propósito principal de um jornal informativo é noticiar, responder à pergunta “o que há de novo?”, de maneira a que os leitores se sintonizem com o mundo e obtenham informações que podem vir a ser relevantes para a sua vida, para a sua acção e sobrevivência, bem como para a vida, acção e sobrevivência da sua descendência. Dentro das limitações enfrentadas por um jornal seiscentista e tendo em consideração a conjuntura da época, a Gazeta “da Restauração” não se afasta desse propósito predominante, nele se concretizando o seu contrato de leitura com o leitor, conforme se pode observar na generalidade das notícias, entre as quais as seguintes:

 

Foi Sua Majestade visitar os armazéns e a Armada Real.

D. Fernando Teles de Faro foi nomeado capitão-mor da vila de Campo Maior.

Morreu o conde de Odemira.

Da cidade de Elvas fugiu um soldado estrangeiro cavaleiro. Foram no seu alcance e colheram-no escondido num mato, perto do caminho de Badajoz. Trouxeram-no outra vez para o corpo de guarda e (...) o enforcaram. (Dezembro de 1641)

 

O conde da Vidigueira que vai por embaixador a França está para sair com o primeiro tempo.

O monteiro-mor do Reino foi para as fronteiras do Alentejo como general de cavalaria.

Rui de Moura Teles vai por governador de Mazagão. (Março de 1642)

 

A Gazeta é, assim, um registo sumariado e selectivo (por vezes excessivamente selectivos – devido à censura, por exemplo, os leitores da Gazeta nada souberam sobre a batalha do Montijo) de vários acontecimentos ocorridos em Portugal (em especial no primeiro período de publicação: 1641-1642), na Europa e, por vezes, noutros pontos do mundo. Esses acontecimentos são noticiados em sucessão, sem grandes preocupações de ordem ou hierarquização. Entre muitos outros exemplos que poderiam ser dados, observem-se os seguintes:

 

Vieram algumas naus de França, as quais trouxeram muitos soldados portugueses que militavam por El-Rei Dom Filipe nas praças da Catalunha.

O General Martim Afonso de Melo mandou algumas tropas de gente sobre a Codiceira vila de Castela, na qual entraram. E depois de fazerem recolher o inimigo com grandíssimo dano, foram saqueando o lugar e se pôs fogo à maior parte dele.

Estão declarados os capitães da armada Real que se vai aprestando para sair este Verão, que consta de famosos galeões do Estado. (Maio de 1642)

 

Algumas “notícias” da Gazeta são descaradamente fantasiosas, mas é possível que esta situação se deva mais a uma hipotética credulidade dos redactores seiscentistas naquilo que ouviam e liam do que a uma intencional difusão de mentiras. Na realidade, emana da generalidade das notícias da Gazeta uma intenção de verdade, alicerçada num ânimo de factualidade, que já Azevedo (1644), ainda durante o período de publicação da Gazeta, exigia aos periódicos de novidades e que se transformou num valor jornalístico. Por exemplo, logo na primeira notícia do primeiro número relata-se um combate naval entre castelhanos e holandeses, mas não se escamoteia que os holandeses, aliados dos portugueses, tiveram “algum dano”, o que fez os seus navios “recolherem-se” ao porto. Entre muitos outros exemplos que poderiam ser dados, na quarta notícia do primeiro número são relatados actos de indisciplina entre os marinheiros do galeão Santa Margarida, opção jornalística que não dava boa imagem da governação real e do estado da frota portuguesa. Até certo ponto, a Gazeta mostrava-se, assim, algo incómoda para o poder, devido, precisamente, à sua intenção de verdade e à sua ambição de noticiar (“todos”) os acontecimentos com valor jornalístico, o que motivaria, inclusivamente, a suspensão da sua publicação, em 1642, e a sua reaparição como periódico dedicado unicamente às notícias “de fora do Reino”.

Entre centenas de factos que poderia ter referenciado, a Gazeta noticia apenas alguns, seleccionados pelos seus redactores, principais gatekeepers do processo de produção de informação neste periódico, entre os que obedeciam aos critérios de noticiabilidade que, de certa forma, são intemporais, já que se relacionam, nomeadamente, com a sobrevivência.

A Gazeta funciona, ainda, como uma espécie de registo historiográfico do quotidiano, um registo selectivo, é certo, distinto da construção da História pelos historiadores mas, paradoxalmente, fonte para essa mesma História (ver: Beltrão, 1992: 71). A Gazeta é, portanto, acima de tudo, um periódico de novidades. Não é, nem os seus redactores certamente pretenderam que o fosse, um mero instrumento de propaganda ao serviço da causa brigantina, embora se detectem intenções propagandísticas da Restauração quer nas omissões de factos historicamente relevantes passados na época (especialmente no segundo período de publicação do periódico), quer em certas matérias, por vezes apenas pontualmente, em determinadas passagens, como no caso da segunda notícia do primeiro número (Novembro de 1641), em que o Rei é apresentado como possuindo “natural benignidade”.

Mesmo as notícias sobre os actos da administração real, que podem parecer propagandísticas, tal como é sugerido pela generalidade dos autores que se debruçaram sobre a Gazeta, podem ser encaradas como as notícias contemporâneas sobre os actos de governo:

 

Despachou El-Rei Nosso Senhor ao Conde da Vidigueira por embaixador em França, para assistir na Corte de Paris.

Dom Antão de Almada (que foi por embaixador extraordinário a Inglaterra) fica assistente para tratar dos negócios do Reino.

(…)

Estão nomeados mestres de campo Cristóvão de Mello, filho do monteiro-mor do Reino, e Dom Sancho Manuel.

(Novembro de 1641)

 

Efectivamente, ao contrário de leituras mais apressadas, as notícias sobre a governação de D. João IV, em que o Soberano e outros governantes surgem exercendo o poder, o que reforçava e contribuía para legitimar a sua posição, não devem ser vistas como mera propaganda, mas sim como matérias de interesse público, pois permitiam conectar os cidadãos com a realidade política do país. Ao dar conta dos actos dos governantes que poderiam ter repercussão directa na vida do país e dos seus habitantes, a Gazeta não fazia, em consequência, mais do que a sua “obrigação” jornalística, tal e qual como faz qualquer periódico generalista contemporâneo.

 

 

2. Modernidade “jornalística” da Gazeta “da Restauração”

 

A primeira consideração que deve ser feita sobre o jornalismo português seiscentista é o de que ele se aproxima no estilo do jornalismo contemporâneo. Longe ficavam, nomeadamente, as Relações de Manuel Severim de Faria, que começavam e acabavam como cartas (ver Sousa e tal., 2006) – eram “cartas de novas gerais”. Na Gazeta, não só se vai directo às notícias como também estas são claras e, frequentemente, concisas:

 

A Armada Real de Castela anda dividida em duas esquadras, uma no cabo de São Vicente e outra na barra de Cádis, esperando a frota. É general o duque de Maqueda. (Novembro de 1641)

 

Morreu o conde de Odemira.

(Dezembro de 1641)

 

Um segundo aspecto relevante que deve ser considerado relaciona-se com as respostas que se procuravam dar ao leitor no enunciado jornalístico. Responder às perguntas tradicionais do enunciado noticioso (Quem? O quê? Quando? Onde? Como? Porquê?) não é uma invenção contemporânea, mas sim uma invenção da retórica clássica, muito bem recuperada pelo jornalismo. Por isso, cientes dos princípios estabelecidos pela retórica clássica, que Peucer, inclusivamente, referiu na sua tese doutoral de 1690 (a primeira tese mundial sobre jornalismo e comunicação), também os redactores da Gazeta procuraram, nas notícias, explicitar as circunstâncias de sujeito (quem?), objecto (o quê?), lugar (onde?), tempo (quando?) e, por vezes, também de modo (como?) e causa (porquê?):

 

De Entre-Douro e Minho [onde?], no primeiro sábado deste mês [quando], veio uma carta em que se avisa que um capitão de infantaria francês, tenente-coronel [quem?], enfadado da suspensão das armas e do grande ódio em que os soldados estavam na cidade de Braga, por causa do Inverno [porquê?], deliberou sair em campanha e entrar pelas terras dos inimigos (…) [o quê?]. (Março de 1642)

 

 

Quarta-feira de Cinzas à tarde [quando?] saiu da cidade de Elvas [onde?] Gaspar Pinto Pestana, comandante de cavalaria, com 700 cavaleiros [quem?], e foi alojar-se a Campo Maior [onde?]. Logo foram duas companhias reconhecer o campo e encontraram num posto [como?], a que chamam o Cabeço da Cerva, junto ao rio de Abrilongo [onde?], um clérigo castelhano, que chamam o licenciado Gordito, com 25 cavalgaduras e alguns soldados de escolta [quem?]. Deram neles, mataram-lhes seis homens, renderam os restantes, tomaram as cavalgaduras e deram uma ao clérigo para que se fosse [o quê e como?] (…). (Março de 1642)

 

As notícias seiscentistas eram, tendencialmente, factuais. Mesmo as mais longas eram construídas com base no mesmo entrelaçado de factos a que Tuchman (1978) se viria a referir como a teia de facticidade, sendo que o desenvolvimento da acção assentava num modelo diacrónico ou cronológico. Observe-se como a notícia anterior continua:

 

Quarta-feira de Cinzas à tarde saiu da cidade de Elvas Gaspar Pinto Pestana, comandante de cavalaria, com 700 cavaleiros, e foi alojar-se a Campo Maior. [Facto 1]

Logo foram duas companhias reconhecer o campo e encontraram num posto, a que chamam o Cabeço da Cerva, junto ao rio de Abrilongo, um clérigo castelhano, que chamam o licenciado Gordito, com 25 cavalgaduras e alguns soldados de escolta. [Facto 2]

Deram neles, mataram-lhes seis homens, renderam os restantes, tomaram as cavalgaduras e deram uma ao clérigo para que se fosse. [Facto 3]

No dia seguinte, saiu de Campo Maior o comissário com a cavalaria e com 500 mosqueteiros. [Facto 4]

Correu à campanha e deixando os mosqueteiros de emboscada num posto que chamam Nossa Senhora da Botouva (que é na passagem para Badajoz) [Facto 6]

escalou os campos de Vilar del Rei, deu volta ao lugar e seus contornos [Facto 7]

E chegou-se tanto que dentro das trincheiras mataram dois cavaleiros [Facto 8]

Mas os nossos tiraram a vida a trinta castelhanos e aprisionaram 24. [Facto 9]

E não houve em todo aquele circuito herdade, moinho, quinta, seara, defesa ou olival que não alcançasse o destroço deste assalto. Depois de não te r o que destruir, retirou-se o comissário com grande número de vacas, porcos, ovelhas, cabras, cavalgaduras e muitas cargas de roupa branca. [Facto 10]  (Março de 1642)

 

Um terceiro aspecto que merece ser equacionado na Gazeta, porque comunga características com algum do jornalismo político do início do século XIX (o jornalismo do jornal de um homem só), com os blogs e com os meios”jornalísticos” de autoria colectiva, potenciados pelas novas tecnologias, é a presença da figura do cidadão-repórter, do correspondente que é testemunha presencial dos acontecimentos e que, por carta, dá conta do que viu aos redactores dos jornais. A rede de correspondentes amadores, à falta de jornalistas profissionais que fizessem o trabalho, foi, de resto, um dos instrumentos jornalísticos que permitiu às organizações noticiosas cobrir vastos territórios e eventos dos mais variados tipos, desde as guerras aos acontecimentos sociais. Eis exemplos de actuação do cidadão-repórter:


De Constantinopla nos escrevem que havendo sabido o grão senhor da nova da perda dos seus (…) baixéis que o nosso general (…) lhe tomou (…) fizera prender o seu grão-vizir, mas que a grande diligência da sultana, mãe de Sua Alteza, com duzentas sultanas mais, que o dito grão-vizir havia pleitado, o livrou da prisão, onde não esteve mais de sis horas, e havendo sido restabelecido no seu cargo, enviou ordens expressas ao paxá que governa a Canea que se fizesse senhor de todo aquele Reino ou lhe levasse sua cabeça com as de todos os seus oficiais. (Setembro de 1647)

 

Para além das centenas de notícias que se resumem ao que hoje em dia classificaríamos como lead de impacto, noutras peças mais desenvolvidas da Gazeta também encontramos esta estrutura, que lança o resto do texto, estruturado em blocos, a partir da informação mais importante (e que para o caso assume a forma de sumário):

 

De Marselha, a 9 de Março de 1643

As grandes chuvas que em Itália houve desde o princípio de Novembro até ao fim de Dezembro passado engrossaram de maneira os rios da Lombardia e particularmente o Pó, que saindo do leito inundou a maior parte das cidades, vilas e terras vizinhas. Neste dilúvio afogaram-se tantas pessoas, ruíram tantas casas e perderam-se outros bens, que se não dera crédito e autoridade [lead].

Começou esta inundação na cidade de Mântua, por causa do grande lago em que está situada, o qual havendo extraordinariamente crescido, derrubou rande quantidade de casas e entre outras três ricos palácios do duque de Mântua, a saber Gonzaga, São Bento e Burgo forte, com perda de mais de 1200 pessoas, que se afogaram (...). [Bloco 1]

E para juntar o socorro do Céu ao da terra, o bispo de Mântua fez expor o Santíssimo Sacramento pelas 40 horas e mandou fazer procissões gerais aos moradores que haviam escapado deste perigo, com as cabeças descobertas e os pés descalços, pedindo e bradando Misericórdia para abrandar a ira de Deus. [Bloco 2]

A cidade de Viadana, deste mesmo país, a qual é de alguns mil fogos, rica pelas suas mercadorias que repartia por todo aquele distrito, foi de todo submergida, por ter a situação muito baixa, e se perderam nelas 1500 pessoas. [Bloco 3]

(...)

 

O principal género jornalístico que ocorre na Gazeta é a notícia. Há notícias breves e notícias longas, comentadas ou “secas”, sendo, porém, que várias das notícias longas se aproximam da reportagem, inclusive nos aspectos explicativos, descritivos e analíticos e nos “quadros vivos” da situação descrita:

 

A tomada de Dixmuda pelo Marechal de Rantzau

Havendo-se o marechal de Rantzau separado do corpo de exército (...), continuou o seu caminho para a cidade de Dixmunda (...). E para a cercar de todos os lados, ordenou ao senhor de Clanca, marechal de campo, que partisse, como ele fez, com diligência, de Carteau para Amiens (...). Chegando para este fim a Dunquerque aos 8 do corrente, onde juntou alguns 440 batéis (…), partiu aos 9 por Furnas, onde chegando de noite com alguns 1600 homens, mandou quatrocentos que ao outro dia de manhã fossem tomar seu posto entre Dixmuda e Neiuport, ou Portonovo, que é uma cidade pequena, mas muito boa, com um castelo assaz forte e um porto acomodado e bem frequentado a três léguas de Dunquerque. (…) Fez prontamente desembarcar os seus soldados (…) até ao reduto de Knoke (…) o qual depois de ser defendido três horas e depois de haver sofrido somente um tiro de canhão se rendeu (…). E assim lhe enviou o senhor de Balloy, marechal de batalha (…), com a nova desta presa e receber as (…) ordens, (…) que foram marchar (…) ao longo da ribeira para estar (…) antes do amanhecer a um tiro de canhão de Dixmuda (…). Resolveu-se que invadiriam no mesmo dia os arrabaldes da praça, que consistiam numa meia-lua (…), de altura extraordinária, bem entrincheirada, e com dois fossos secos muito profundos, e três meias luas mais à esquerda entrincheiradas do mesmo modo, com seus fossos cheios de água. Mandou o marechal de Rantzau 400 homens de guarda franceses, 200 do Piemonte e 300 suíços atacar a grande meia-lua, enquanto 200 homens (…) faziam um falso ataque a outra meia-lua (…). Vindo a noite, se foi direito ao ataque (…), que foi executado com grande vigor e generosidade, porque ainda que tivesse sido necessário marchar mais de cem passos a descoberto, durante a claridade da lua (…), nem por isso os nossos, não obstante as muitas cargas de mosqueteria e pedras, com granadas, que sobre eles lançavam do alto da dita meia-lua, depois de haverem cortado e derrubado as paliçadas, deixaram de subir dentro e lançar os inimigos, aos quais obrigaram a também deixar a outra meia-lua, apertando com eles tão fortemente que lançando-os além do fosso, da parte da praça alguns dos nossos passaram envoltos com eles por uma pequena ponte feita de duas pranchas (…). Animados os nossos batalhões com o exemplo (…), havendo-os seguido para tomarem a cidade por assalto, quebrou a ponte sobre eles e obrigou a nossa gente a se entrincheirar na grande meia-lua (…). E estando os senhores de Noermotier e de Clauleu ocupados (…), foram ambos feridos (…), e querendo dissimular por algum tempo as suas feridas para não desmotivar os seus soldados que ali estavam (…) expostos ao contínuo fogo que os inimigos faziam (…), foram finalmente constrangidos, pelo excesso das suas dores, a retirarem-se (…). As outras duas meias-luas, havendo sido levadas pelos escoceses e suíços, o marechal de Rantzau os fez retirar, por entender que lhe não convinha muito a guarda delas. E ele esteve sempre a cavalo, ao pé da contra-escarpa (…). Ao seguinte dia (…) os moradores obrigaram o presídio a capitular (…). (Agosto de 1647)

[Exemplo de notícia longa, pequena reportagem diacrónica.]

 

De Leipzig, 4 de Julho de 1647

Aos 27 do passado rendeu-se a aos suecos o castelo de Hoff, os quais permitiram que os oficiais pudessem retirar-se, mas obrigaram os soldados a ali estar em suas tropas. (Agosto de 1647)

[Exemplo de notícia factual curta]

 

Temendo as galés de Nápoles que o duque de Richelieu, general da Armada de França, as investisse, no porto colocaram muitas cadeias de ferro e madeiros. E sabendo que se havia feito à vela na volta da Provença, saíram no mesmo dia 29 do passado e tomaram a rota de Nápoles. (Agosto de 1647)

[Exemplo de notícia curta comentada: invoca as razões para um acontecimento.]

 

Várias notícias apresentam um recorte analítico, embora no geral a Gazeta seja menos analítica do que, por exemplo, as Relações de Manuel Severim de Faria (cf. Sousa et al., 2006):

 

Os diferendos entre El-Rei da Grã-Bretanha com o Parlamento estão cada dia em pior condição, porque cada qual pretende sustentar sua razão e assim há grandes aparências de que antes de muitos dias cheguem a batalha. (Outubro de 1642 – 1ª)

 

O porto de Piombino é tão importante por ser necessário passarem os navios por este estreito de mar de três léguas que está entre a ilha de Elba e o dito porto. Quem é senhor de Piombino fica senhor do mar e dos navios que vão de Génova para Nápoles ou vêm de Nápoles para Génova, porque além de dilatarem-se na navegação, arriscar-se-ão muito os navios que forem forçados a deixar a ilha de Elba (…) e ir buscar a costa de África além da ilha da Sardenha (…). (Novembro de 1646)

 

Podemos ver ainda, pela tabela seguinte, que os redactores da Gazeta já evidenciavam preocupações jornalísticas de tom contemporâneo, mostrando que os valores jornalísticos e as constantes norteadoras do profissionalismo jornalístico têm raízes históricas que recuam ao século XVII ou, para sermos mais precisos, recuam aos tempos clássicos em que gregos como Tucídides, Xenofonte e mesmo, até certo ponto, Heráclito começaram a escrever história animados da dupla intenção da verdade e da facticidade. Observam-se, nomeadamente

 

1) Preocupações de credibilizar a informação pela referência às fontes, ou mesmo pela crítica dessas mesmas fontes;

 

2) Intenção de verdade, traduzida, por exemplo, pela correcção de informações incorrectas;

 

3) Citações, mecanismo de defesa do jornalista e de credibilização da informação que também empresta vivacidade ao relato;

 

4) Inclusão de notícias de última hora;

 

5) Preocupação em datar e localizar as notícias.

 

Questões jornalísticas

Excerto textual ilustrativo

Referência e crítica às fontes

O que se disse de França (...) foi informação de pessoa mal intencionada e pouco afecta às coisas deste e daquele Reino. (Julho de 1643).

 

 

Referência e crítica às fontes

As mais destas novas são colhidas de cartas e pessoas dignas de crédito, que vieram de várias partes. E o que se diz do bispo de Lamego se sabe por via da nau de Inglaterra que veio no mês passado. E de Itália, havia já aqui carta em que se diz que ficava em Leorne, de onde se vai a Roma em pouco mais de três dias. (Dezembro de 1641)

Referência a fontes

No princípio deste mês escreveu-se da Província do Alentejo que no dia de São João vieram os inimigos a Olivença (...). (Julho de 1642)

Referência a fontes

novas que tivemos da Índia Oriental, por um correio (Março de 1642)

Referência a fontes

Por carta de Münster se soube (…). (Novembro de 1646)

Referência a fontes

Pessoa digna de crédito que veio de Madrid afirma (…). (Dezembro de 1641)

Referência a fontes

Chegaram aqui dois navios holandeses, os quais dão as novas que se seguem (…). (Setembro e Outubro de 1646)

Referência a fontes e datação da informação

Há carta nesta Corte da Ilha de São Cristóvão, situada nas Índias de Castela, feita nos últimos de Novembro, em como a maior parte das Índias tinham negado a obediência ao Castelhano, e que só um vice-rei estava por eles, havendo (...) grandes revoluções. (Março e Abril de 1644)

Notícias de última hora

No mesmo ponto em que se acabou de imprimir este papel, veio da ilha Terceira Jorge de Mesquita e trouxe aviso de que a fortaleza se havia rendido e estava já por El-Rei Nosso Senhor. Por ser nova de grande alegria para este Reino, se pôs nesta Gazeta, não obstante pertencer à do mês de Abril. (Março de 1642)

Referência a fontes, ao processo de obtenção de informações e à datação da notícia

A nova da Ilha Terceira, de que se fala (...) na gazeta do mês de Março, veio aos oito do mês de Abril no navio Sol Dourado. (Abril 1942)

Referência a fontes e ao processo de obtenção de informações

Chegou aqui um frade dominicano que chamam frei João Correia, filho de Lisboa, que vem de Madrid. Não dá novas frescas por haver muito que partiu daquela corte (...). (Março e Abril de 1644)

 

Referência a fontes, ao processo de obtenção de informações e à datação da notícia

De Amesterdão, 12 de Agosto de 1647. Chegaram há pouco dez navios das Índias Orientais, mas com muito menos mercadorias do que tinham de costume. Dão por novas que na ilha de Ceilão os moradores mataram alguns 450 holandeses e fizeram mais de 200 prisioneiros, após o que lhes ganharam um pequeno forte. (Setembro de 1647)

Referência ao trajecto da notícia

Soube-se cá, por via de Cádis, Sevilha e Segóvia, como os franceses tinham tomado Lérida (…). (Julho e Agosto de 1646)

Datação da notícia

Aos oito do corrente houve uma grande altercação popular na cidade de Cosenza, na Calábria...

Intenção de verdade e de correcção de informações incorrectas (embora possa ser reflexo de uma tentativa de correcção de rumo devido a “excesso de verdade” sobre o ambiente interno de um país aliado

O que na Gazeta do mês passado se disse de França que com as presentes guerras se passavam muitas necessidades é falso e parece que foi informação de pessoa mal intencionada e pouco afecta às coisas deste e daquele Reino. (Julho de 1643)

Intenção de verdade e de correcção ou complemento de informações incorrectas

No que se diz na Gazeta de Dezembro acerca de São Tomé se advirta que o governador Manuel Quaresma era já morto. (Fevereiro de 1642)

 

 

Citações directas

Neste ponto olhou o cura para os nossos, que estavam perto, e defronte dele, e começou a dizer em altos gritos: “Senhores portugueses, aqui está um castelhano vivo entre estes mortos, acudam vossas mercês e levem-no, que eu não trago comissão para retirar vivos e não quero enganar a ninguém, que sou cristão e temo a Deus”. [aspas nossas] (Janeiro de 1642)

 

 

 

 

Vivacidade e sensacionalismo do relato em jeito de reportagem

 

Aos oito do corrente houve uma grande altercação popular na cidade de Cosenza, na Calábria, durante a qual mataram um homem muito principal, cujo corpo foi arrastado pelas ruas da cidade. E prenderam alguns quarenta mais, que favoreciam os espanhóis, que levaram ao vice-rei de Nápoles. Nas cidades de Salerno e de Bari não têm sido menores os tumultos, seguindo o exemplo das demais. Na primeira, queimaram-se mais de 25 casas; na segunda, os moradores elegeram uma cabeça [um líder], que se fez grandemente temer pelas muitas execuções que faz (...) e a maior parte dos vassalos de diversos lugares deste Reino tem montado cercos aos seus senhores, por quererem suportar o governo dos espanhóis. (Setembro de 1647)

 

Ainda do ponto de vista jornalístico, e interessante notar que a Gazeta segue os assuntos que noticia. Há notícias em desenvolvimento e desenvolvimentos das notícias anteriores. O caso das notícias das guerras é o mais visível, mas outras matérias também cabem no exemplo, como as notícias sobre o destino de hipotéticos conspiradores:

 

O conde de Castanheira, que estava preso numa torre de Setúbal, pediu a El-Rei nosso Senhor que lhe mudasse a prisão porque estava indisposto e El-Rei nosso Senhor (...) o mandou trazer para o castelo de Lisboa” (Novembro de 1641).

O conde de Castanheira, o conde de Vale de Rei e Gonçalo Pires de Carvalho estão já em suas casas. (Dezembro de 1641)

 

Por vezes, corrigem-se notícias dadas, acrescenta-se informação ou anuncia-se o desenvolvimento futuro de outras, agarrando o leitor/comprador.

 

No que se diz na Gazeta de Dezembro acerca de São Tomé se advirta que o governador Manuel Quaresma era já morto. (Fevereiro de 1642)

 

No mesmo ponto em que se acabou de imprimir este papel, veio da ilha Terceira Jorge de Mesquita e trouxe aviso de que a fortaleza se havia rendido e estava já por El-Rei Nosso Senhor. Por ser nova de grande alegria para este Reino, se pôs nesta gazeta, não obstante que pertence à do mês de Abril. (Março de 1642)

 

Em algumas gazetas, após a denominação, os títulos são sucedidos por uma espécie de manchete, que sumaria a notícia mais importante e atractiva. Há também aqui um registo de contemporaneidade jornalística, já que mimetiza os títulos contemporâneos:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1643

Com o protesto que fez a Sua Santidade o Bispo de Lamego, embaixador deste Reino de Portugal, quando saiu de Roma.

 

Mesmo algumas notícias são antecedidas de um título específico:

 

Relação da ditosa morte do padre Thomas Hollanda, sacerdote da Companhia de Jesus, inglês de nação e natural da província de Lancaster no Reino de Inglaterra (...).

Foi preso o padre Thomas Hollanda (…). (Maio de 1643)

 

É, finalmente, de salientar que, à semelhança dos jornais contemporâneos, também a Gazeta possuía “secções”, em particular durante o primeiro período de publicação (até Outubro de 1642), pois as notícias eram segmentadas entre as do Reino e as de fora do Reino.

 

 

Considerações finais

 

Durante os seus dois períodos de publicação (Novembro de 1641 a Julho de 1642 e Outubro de 1642 até 1647), a Gazeta ofereceu aos leitores, directos e indirectos, notícias sobre uma grande variedade de assuntos: batalhas e operações militares no continente europeu; iniciativas políticas e diplomáticas portuguesas e estrangeiras; negociações de paz; cartas pontifícias; alianças, tratados e outros acordos; livros publicados; cerimónias civis e religiosas; invenções e descobertas; crimes; vida social; execução de condenados e Autos de Fé; e mesmo fenómenos insólitos. A Gazeta cumpriu uma função noticiosa, mas também historiográfica, constituindo um indício da forma peculiar de se verem a si mesmas e de olhar para o mundo das elites pró-independência do Portugal Restaurado. O noticiário da Gazeta é diversificado, ainda que desequilibrado, já que se centra nos conflitos bélicos, devido quer ao interesse estratégico dos portugueses nos mesmos, quer ao misto de atracção e temor que as guerras suscitam.

Assim, num tom algo laico e seco, as gazetas contribuíram, como acontece com os jornais actuais, para levar os seus leitores a construir referências compartilhadas, mais ou menos indiciáticas, sobre o mundo, integrando e categorizando o particular no geral; embora ao mostrarem e evidenciarem algo, inevitavelmente também ocultem algo, como acontece com todos os discursos, as gazetas concorreram para edificar conhecimento comum sobre o mundo, para arquitectar o acervo social de conhecimento de que falavam Berger e Luckmann (1966/1991). Um conhecimento não estrutural, é certo, mas um conhecimento − o conhecimento jornalístico (cf. Park, 1940; Meditsch, 1992), que, em grande medida, depende dos enquadramentos impostos aos acontecimentos. As gazetas tiveram, consequentemente, efeitos cognitivos, para além dos efeitos afectivos que produziram ao narrar as venturas e desventuras dos protagonistas das notícias.

 

Bibliografia

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BELTRÃO, L. (1992). Iniciação à Filosofia do Jornalismo. São Paulo: Editora da USP e Com-Arte [edição original de 1960].

BERGER, P. L. e LUCKMANN, T. (1991). A Construção Social da Realidade. 9ª edição. Petrópolis: Vozes [Edição original de 1966].

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Jornais UFP,
31 de out de 2010 03:06