20.09 Em busca do primeiro jornal português

Em busca do primeiro jornal português: as Relações de Manuel Severim de Faria e a Gazeta “da Restauração”

 

Jorge Pedro Sousa

Universidade Fernando Pessoa

jorgepedrosousa@gmail.com

 

Resumo

Este trabalho, baseado em pesquisas conduzidas pelo autor, pretende resgatar o contributo das Relações de Manuel Severim de Faria (1626 – 1628) e da Gazeta “da Restauração” (1641 – 1647) para o surgimento da ideia de periodismo em Portugal e nos territórios colonizados por portugueses. Para esta investigação, usaram-se dois métodos: a descrição formal e a análise quantitativa e qualitativa do discurso. Entre as principais conclusões, pode dizer-se que se nota uma evolução das Relações para a Gazeta, já que nesta última o design se afasta mais decididamente do dos livros (o frontispício, por exemplo, desaparece). No que respeita ao conteúdo, também se nota uma evolução, pois enquanto as Relações eram cartas novas, característica bem vincada pelo seu início e final serem redigidos em forma de carta, a Gazeta já era, decididamente, um jornal, dirigido ao público em geral. Noutros aspectos dos conteúdos, há algumas semelhanças. Apesar das Relações não serem periódicas, antes constituindo uma espécie de anuários de intenção simultaneamente historiográfica e jornalística, enquanto a Gazeta era um jornal periódico, ambas as publicações eram predominantemente noticiosas (96% dos conteúdos da Gazeta e 100% dos conteúdos das Relações são notícias) e ambas incluíam abundante informação internacional (40% nas Relações e 82% na Gazeta). A elevada percentagem de notícias internacionais da Gazeta, que faz esta publicação diferir das Relações, deve-se ao facto de, em 1642, em plena Guerra da Restauração da Independência, ter sido proibida a circulação de jornais com notícias do Reino, em Portugal. Por outro lado, por força da diferente conjuntura histórica que ambas as publicações enfrentaram, a Gazeta dá significativamente mais notícias sobre “vida militar e acontecimentos bélicos” (49%) do que as Relações (36%). Os restantes conteúdos de ambas as publicações são relativamente semelhantes entre si e estruturalmente semelhantes aos que encontraríamos num jornal actual, o que evidencia a natureza profundamente cultural dos critérios de noticiabilidade: 23% das notícias das Relações são sobre “vida política e administrativa” (24% na Gazeta); 29% sobre “vida social e religiosa” (9% na Gazeta); 3% sobre economia (percentagem igual na Gazeta). Os acontecimentos negativos ou estranhos não merecem muito destaque em nenhuma das publicações: 7% de notícias sobre acidentes e catástrofes naturais nas Relações (3% na Gazeta); 1% de notícias sobre doenças e fome nas Relações (3% na Gazeta); 1% de notícias sobre acontecimentos insólitos nas Relações (2% na Gazeta). Apenas a Gazeta traz notícias de crimes (2%).

Nota-se, finalmente, que apesar de durante o período de publicação das Relações Portugal e Espanha terem tido o mesmo Rei, a identidade portuguesa é sempre bem vincada no discurso (nós vs. eles), ainda que a narração releve, igualmente, a aliança entre as armas de Portugal e de Espanha.

 

Palavras-chave

História do jornalismo; Portugal; periodismo; Relações de Manuel Severim de Faria; Gazeta “da Restauração”.

 

Introdução

Como surgiu o periodismo, isto é, a ideia de publicar jornais periodicamente, em Portugal? Este texto, elaborado com base em dados obtidos no âmbito de dois projectos de pesquisa sobre a origem do jornalismo em Portugal desenvolvidos pelo autor e financiados pela Fundação Fernando Pessoa, tem por objectivo contribuir para a resposta a essa questão, enfatizando-se, nesse contexto, o papel e as características de duas publicações seiscentistas portuguesas: as Relações de Manuel Severim de Faria (1626 – 1628) e a Gazeta “da Restauração” (1641 – 1647). Justifica-se o estudo de ambas porque representam os primeiros passos para a solidificação da ideia de que o país precisava de publicações noticiosas periódicas capazes de “iluminar” os espíritos, pelo menos os espíritos das elites instruídas.

Viviam-se, então, os tempos conturbados de entrada na Idade Moderna. A Guerra dos Trinta Anos dilacerava o Velho Continente, mas da Paz de Vestefália, que assinala simbolicamente o fim do conflito, haveria de emergir o conceito de Estado-Nação soberano, que baseou o sistema de relações internacionais que se desenvolveu desde então. Os valores iluministas começavam a progredir na sociedade europeia, dando continuidade ao espírito do Renascimento e da Reforma Protestante. Parte do sucesso do jornalismo emergente deveu-se, precisamente, ao espírito iluminista da ilustração pessoal, mas também:

 

1) Ao incremento do comércio e do empreendedorismo capitalista (fundado na iniciativa privada e disponibilidade para correr riscos), que promoveu um substancial desenvolvimento económico na Europa, o enriquecimento das elites burguesas e a melhoria das condições de vida da generalidade da população;

 

2) À urbanização, às melhorias acentuadas nas vias de comunicação e à instituição de sistemas internacionais de correio;

 

3) Aos progressos na alfabetização, desencadeados quer pela Reforma Protestante quer pela mais utilitária necessidade de as elites, os soldados (de exércitos cada vez maiores e mais complexos) e os operários manufactureiros necessitarem de trocar informações escritas, lerem instruções e fazer contas.

 

Que o jornalismo emergia, então, na primeira metade do século XVII? Era um jornalismo policromático, onde coexistiam publicações impressas e manuscritas, monotemáticas e politemáticas, ocasionais e periódicas. No entanto, todas elas partilhavam uma característica relevante: eram noticiosas, mesmo que por vezes extravasassem essa função para caírem no moralismo, na opinião e até na propaganda. A notícia começava a ser entendida como uma mercadoria comerciável, capaz de dar lucro a tipógrafos empreendedores, metamorfoseados em editores. Alguns deles, nomeadamente os que começaram a imprimir publicações noticiosas periódicas, não tinham capacidade de resposta individual ao trabalho que estas exigiam, pelo que começaram a contratar pessoas para colherem, traduzirem, processarem e imprimirem notícias. Começava a delinear-se, assim, uma nova profissão: a de “jornalista”, ou, mais concretamente, de “gazeteiro”.

Gazeteiro porquê? Porque gazeteiro era precisamente o funcionário que obtinha, traduzia e escrevia notícias para as gazetas e que colaborava na impressão destas publicações.

As gazetas, cuja denominação deriva de uma moeda italiana que se pagava para se escutar a leitura pública de notícias, são o antepassado directo do jornal contemporâneo. Surgiram da evolução do conceito de livro noticioso, publicações anuais ou semestrais, de ambição simultaneamente historiográfica e jornalística, que começaram a surgir no século XVI e nas quais se compilavam notícias anteriormente publicadas em folhetos noticiosos ocasionais (normalmente monotemáticos). Com o tempo, o conceito de livro noticioso deu lugar ao conceito de gazeta, uma publicação noticiosa mais frequente e barata, com poucas páginas e não encadernada, que correspondia melhor às crescentes necessidades informativas de uma sociedade sujeita a fenómenos de instabilidade e mudança, que ademais precisava de saber das coisas em tempo útil. Duas publicações repartem o mérito de serem as primeiras gazetas: La Gazette Français, de Marcellin Allard e Pierre Chevalier, surgida em 1604[1]; e a Nieuwe Antwersche Tijdinghe, surgida em 1605, em Anvers, pela mão do impressor flamengo Abraham Verhoeve e redigida em francês e flamengo, publicando notícias locais, nacionais e do estrangeiro. Esta gazeta durou vários anos, estabilizando numa periodicidade semanal a partir de 1617 e trissemanal a partir de 1620. No início da terceira década de Seiscentos já existiam gazetas publicadas quatro e mais vezes por semana, na Holanda e na Alemanha, que, portanto, se podem considerar diárias[2]. A Gazeta “da Restauração”, de que se fala neste texto, é o primeiro jornal periódico português que reivindicou, justificadamente, a denominação de gazeta. As Relações de Manuel Severim de Faria, igualmente objecto deste texto, não são gazetas, mas já apresentam várias das suas características.

 

1. As Relações de Manuel Severim de Faria

As Relações a que aqui se alude foram redigidas pelo cónego e chantre da Sé de Évora Manuel Severim de Faria, sob o pseudónimo de Francisco d’Abeu. Elaboraram-se numa época em que Portugal tinha perdido a sua independência, diluindo-se no Império Espanhol dos Filipes. Imprimiram-se dois números. O primeiro foi editado em 1626 e reeditado em 1627. Designava-se Relação Universal do Que Sucedeu em Portugal & Mais Províncias do Ocidente e Oriente, Desde o Mês de Março de 625 Até Todo Setembro de 626. Contém Muitas Particularidades & Curiosidades. O segundo número foi editado em 1628, sob o título Relação do Que Sucedeu em Portugal e Nas Mais Províncias do Ocidente e Oriente Desde Março de 1626 Até Agosto de 1627. A questão da reedição do primeiro número das Relações é interessante. Se houve uma reedição, é porque a primeira edição circulou bastante e teve tiragem insuficiente, sendo necessária uma segunda edição. Poderá ainda ter-se dado o caso de poucos exemplares terem chegado ao Norte do país, o que possibilitou fazer-se a reedição, em Braga.

As referidas Relações são uma espécie de anuários noticiosos, colectâneas de notícias sobre acontecimentos passados num determinado período. Numa época em que as finalidades e fronteiras do jornalismo emergente não estavam bem definidas, as Relações de Severim de Faria tinham, certamente, uma intenção simultaneamente historiográfica e jornalística. Podem, assim, considerar-se como partilhando da tradição dos livros noticiosos, popularizados com o nome de mercúrios, de que são uma manifestação tardia e já contaminada com características do periodismo, que então dava os primeiros passos com a aparição das gazetas.

As Relações atrás citadas não tiveram carácter periódico, mas, como outras publicações similares da mesma época, podem ser consideradas antepassadas dos actuais jornais (inclusivamente, continuam a ser publicados anuários de notícias). Aliás, a ausência de periodicidade regular das Relações poderá dever-se não somente às intenções ou possibilidades do autor, mas também às limitações técnicas, uma vez que o processo tipográfico era bastante lento; aos imperativos legais, que retardavam a circulação da publicação; e ainda à dificuldade e irregularidade das comunicações.

As Relações impressas de Severim de Faria fazem parte da obra maior História Portuguesa e de Outras Províncias do Ocidente, Desde o Ano de 1610 Até o de 1640 da Feliz Aclamação d’El Rei D. João o IV Escrita em Trinta e Uma Relações, do mesmo autor, que integra 31 relações manuscritas, de que foram impressas a 16ª (Relação Universal..., de 1626, reeditada em 1627) e a 17ª (Relação do Que Sucedeu..., de 1628). Algumas dessas 31 relações manuscritas têm, no início e no fim, a forma de cartas. A 16ª, primeira das Relações impressas, foi dirigida a um indivíduo que residia no Norte do país; a 17ª, segunda das Relações impressas, foi dirigida a Gil de Nicola, cavaleiro francês. Se todas elas tivessem sido impressas periodicamente, teriam, possivelmente sem grandes controvérsias, constituído o ponto inicial da história do jornalismo periódico português, pelo menos tendo em conta os dados que hoje em dia possuímos. Podemos, de qualquer modo, considerar que as Relações se inserem dentro da tipologia das cartas novas que então circulavam um pouco por toda a Europa.

É de salientar que as Relações de Severim de Faria foram feitas para circularem e serem vendidas, como o comprovam as taxas pagas. Esta característica aproxima-as dos dispositivos jornalísticos impressos contemporâneos. Sendo caras, dirigiam-se, certamente, às elites e, eventualmente, a vendedores errantes que em cada terra liam as notícias a troco de dinheiro.

Os aspectos mais relevantes do design das Relações constam do quadro 1.

 

Quadro 1

Aspectos relevantes do design das Relações

Papel

Linho

Formato

Quarto (sensivelmente 13,5 x 19 cm, sensivelmente o formato A5). As dimensões variam alguns milímetros de número para número.

Primeira página

Os dois números e a reedição do primeiro número têm frontispício, mas só o do primeiro número é ilustrado com uma vinheta.

Ambos os frontispícios são emoldurados decorativamente.

Indicação da página

Não têm. Irregularmente, há referências tipográficas ao número do caderno resultante da dobragem da folha de impressão, inseridas em rodapé e centradas.

Margens

Todos os números têm margens tipográficas suficientemente largas para que o olhar repouse. Simbolicamente, apela a uma leitura pausada, evocativa da razão.

Entrelinhado

Denso (mais do que na Gazeta), com 40 a 42 linhas por página.

Parágrafos

Indentados, começando dois ou três toques para a direita.

Colunas

Todo o texto é paginado a uma coluna.

Estilos

A maioria das notícias é paginada com letra de recorte gótico em estilo normal.

Usa-se o itálico para grafar locuções latinas, para determinados textos ou excertos de textos (por exemplo, cartas, textos de acordos transcritos nas notícias, etc.) e ainda para inserir o texto administrativo (taxas, impressores, etc.).

Usam-se MAIÚSCULAS para alguns separadores de secção (exemplo: “CONQUISTAS DE PORTUGAL”) e para terminar cada Relação (“LAUS DEO”).

O corpo do tipo de letra é menor do que na Gazeta.

Letras capitulares

Usam-se no início do texto corrido de ambas as Relações.

Vinhetas decorativas

Apenas uma, no frontispício do primeiro número.

Filetes

Não são usados.

Secções

O primeiro número não tem quaisquer secções. No segundo número, há uma secção “Portugal”, uma secção “Conquistas de Portugal” subdividida pelos territórios (Brasil, Índia Oriental...) e ainda secções dedicadas a vários países estrangeiros (França, Itália, Holandeses...). Uma notícia é encabeçada pelo título “Descobrimento do Cataio” (sobre a descoberta do Tibete).

Publicidade

Não existente.

Referências administrativas (taxas, impressores, etc.)

Referências em ambos os frontispícios e ainda nas páginas 2 e 3 (primeiro número) e na página 2 (segundo número).

 

As Relações impressas de Manuel Severim de Faria (incluindo a reedição do primeiro número) apresentam-se em papel de linho e em formato de quarto (dimensões de cerca de 14 X 20 cm, sensivelmente o formato A5). Não possuem capa individualizada e dura (todas as páginas, incluindo a um e a última, são no mesmo papel). O design é simples e em tudo semelhante ao dos livros da mesma época, até porque, para os homens do início do século XVII, provavelmente não haveria grandes diferenças entre as Relações e um livro: as primeiras seriam apenas mais um “livro”, ou, mais precisamente, uma nova publicação.

As Relações têm uma página um (frontispício) em que surge o título (as primeiras linhas apenas em maiúsculas − caixa alta − e as restantes, normalmente, em maiúsculas e minúsculas − caixa alta e baixa), o nome do autor, uma gravura (apenas as duas edições do primeiro número), a data e o local de impressão e o impressor. Nas duas edições do primeiro número, é ainda incluída na “um” a menção “com todas as licenças necessárias”. O segundo número, impresso em Évora, tem uma dedicatória na primeira página.

A segunda página insere as licenças e as taxas (na primeira edição da primeira Relação há duas páginas com menções a licenças).

A partir da página 3, surgem as notícias, seguidas, impressas a uma só coluna, sem qualquer intervalo umas das outras (apenas se iniciam em parágrafos diferentes) e, no primeiro número, sem qualquer outra distinção gráfica (no segundo, as notícias são expostas país a país, parte delas agrupadas na secção “Conquistas de Portugal”).

O texto noticioso começa com uma letra capitular nos dois números das Relações. Apenas é usado um tipo de letra, gótico, em cada uma delas. As licenças são grafadas em itálico e o resto do texto em estilo normal. Separa-se, assim, graficamente o texto “administrativo” do conteúdo noticioso. As citações directas (várias em latim) também são grafadas em itálico. Os parágrafos assinalam-se com dois ou três espaços para a direita. As margens espaciais que rodeiam a mancha gráfica são suficientemente largas para o olhar repousar, mas o entrelinhado é muito denso, mais do que na Gazeta, e o corpo da letra também é mais pequeno do que nesta última publicação. Não aparece publicidade. A sobriedade gráfica das Relações aponta mais para a razão do que para a emoção, mas a densidade do entrelinhado dificulta a leitura e torna simbolicamente mais “confuso” o universo de que o texto dá conta.

É de destacar que, formalmente, o título de cada uma das Relações de Severim de Faria é individualizado, situando-se em todas elas no cabeçalho do frontispício. O título identifica-se com o conteúdo, o que fortalece a identidade das publicações.

O conteúdo das Relações é, todo ele, noticioso. Percentualmente, tal como podemos observar no quadro 2, a maioria das notícias diz respeito a acontecimentos de cariz militar.

 

Quadro 2

Temas predominantes das matérias das Relações

MATÉRIAS

%

Vida política e administrativa

23

Vida social e religiosa

29

Vida económica

3

Vida militar e conflitos bélicos

36

Catástrofes naturais e acidentes

7

Doenças e fome

1

Crimes

0

Acontecimentos insólitos

1

Total

100

 

Podemos inferir, pelo quadro 2, que o noticiário das Relações, do país e estrangeiro, se centra nos conflitos bélicos (36% das matérias), na política e administração (23% das matérias) e na vida social e religiosa (29% das matérias), sendo que, neste caso, se deve assumir que a religião era, no início do século XVII, o principal traço da vida social (missas, procissões, festas religiosas...). O equilíbrio do noticiário era um critério de noticiabilidade com pouco sentido nesses dias, excepção feita ao equilíbrio entre matérias sobre política e administração, conflitos bélicos e vida social e religiosa. No geral, em termos do que foi notícia, as Relações não se afastam muito daquilo que, estruturalmente, hoje é notícia nos jornais generalistas. Os padrões de noticiabilidade, conforme argumenta Stephens (1988), têm-se mantido estáveis ao longo do tempo. Ontem como hoje, a política e a administração dos países, a guerra e os acontecimentos relevantes da vida em comunidade ocupam grande parte das notícias.

 

 

2. A Gazeta “da Restauração”

A Gazeta “da Restauração” por vezes é denominada pelo título daquele que aparentemente foi o seu primeiro número (Gazeta em Que Se Relatam as Novas Todas Que Houve Nesta Corte e Que Vieram de Várias Partes no Mês de Novembro de 1641) e outras vezes pelo plural “Gazetas da Restauração”. “Restauração” é, no entanto, uma mera alcunha, referente ao período em que foi publicada.

Embora nem sempre tenha tido uma periodicidade certa, a Gazeta pode considerar-se uma publicação periódica no sentido de que foram publicados sucessivamente (pelo menos) 37 números ao longo de quase seis anos, entre Novembro de 1641 e Setembro de 1647, possibilitando ao público o consumo de novas informações com alguma regularidade. Pode, porém, colocar-se a hipótese de que outros números da Gazeta tenham sido publicados mas não tenham sobrevivido.

Autores como Eurico Gomes Dias (2006: XXIV) consideram que da série da Gazeta faz parte uma Relação de 1648, intitulada Relação da Famosa Vitória Que Alcançou em 20 de Agosto deste ano de 1648... e Gazeta de Novas e Sucessos de Fora do Reino em que Se Dá Conta das Coisas de Nápoles (...). Porém, é mais provável que esse jornal não pertença à série da Gazeta. Apenas foi encadernado pela Biblioteca Nacional junto com vários números do primeiro periódico português[3]. De relembrar, a propósito, que outros autores, como José Manuel Tengarrinha (1989: 39), Rocha Martins (1942: 22) e Alfredo da Cunha (1941: 35-70) também balizam a publicação documentada da Gazeta entre Novembro de 1641 e Setembro de 1647.

Diga-se que em Julho de 1642 a Gazeta suspendeu a publicação por força de uma lei promulgada a 19 de Agosto de 1642, que proibia as gazetas “com notícias do Reino ou de fora, em razão da pouca verdade de muitas e do mau estilo de todas elas”. De qualquer maneira, a Gazeta retomou a publicação em Outubro de 1642, mas passou a ostentar a designação “de Novas Fora do Reino”, embora, entre Outubro de 1642 e Setembro de 1647, tenha publicado notícias sobre a “frente” do Alentejo, sobre missões diplomáticas portuguesas, etc., certamente com o consentimento, ou mesmo com a conivência, do poder político.

Assim sendo, pode dizer-se que o poder político desconfiava das incipientes publicações jornalísticas, mesmo quando estas estavam ao seu serviço, como é o caso da Gazeta, e fossem sujeitas ao licenciamento e à censura prévia, civil e eclesiástica.

As taxas, que encareciam a Gazeta, e a baixa alfabetização conspiravam para que a publicação fosse adquirida pelas elites, embora não seja de excluir que alguns exemplares adquiridos por “mercadores de notícias”, fossem lidos de terra em terra.

Manuel de Galhegos foi o primeiro editor da Gazeta, por alvará régio de 16 de Novembro de 1641. Sabe-se, também, que João Franco Barreto, por alvará régio de 29 de Julho de 1642, teve licença para “traduzir e imprimir as relações de França e suas gazetas”, embora isso não implique que tenha passado a ser ele o editor da Gazeta após essa data e muito menos que tenha sido o seu único redactor, já que quer Manuel de Galhegos quer ainda Frei Francisco Brandão podem ter dado a sua colaboração. Aliás, a Gazeta continuou, mesmo após 1642, a trazer notícias traduzidas de gazetas publicadas noutros países que não a França.

Pelo menos três impressores alternaram-se na edição da Gazeta: Lourenço de Anvers, Domingos Lopes Rosa e António Alvarez. Em cinco números não há referência ao impressor. Sabendo-se que o privilégio real de publicação do primeiro número da Gazeta foi concedido a Manuel de Galhegos, por alvará de 14 de Novembro de 1641, então os editores e promotores da Gazeta não coincidiam com os impressores (o mesmo, aliás, se verificava com as Relações de Severim de Faria). Na Europa seiscentista, coexistiam, na realidade, iniciativas jornalísticas de dois tipos: em alguns casos, eram os próprios impressores a ter a iniciativa de redigir e publicar gazetas, enquanto noutros casos os promotores, redactores e editores da publicação não coincidiam com os impressores.

Graficamente, a Gazeta apresentava-se de acordo com a sinopse do quadro 3.

 

Quadro 3

Aspectos relevantes do design da Gazeta “da Restauração”

Papel

Linho

Formato

Quarto (sensivelmente 13,5 x 19 cm, sensivelmente o formato A5). As dimensões variam alguns milímetros de número para número.

Primeira página

O primeiro número tem frontispício. Os restantes não, sendo a primeira página ocupada pelo título da publicação em maiúsculas (normalmente com referência ao mês de edição, o que prometia uma determinada periodicidade) e por notícias. O frontispício do primeiro número é de papel idêntico ao das restantes folhas.

Indicação da página

Não têm. Irregularmente, há referências tipográficas ao número do caderno resultante da dobragem da folha de impressão, inseridas em rodapé e centradas.

Margens

Todos os números têm margens tipográficas. O rodapé de alguns números é diminuto devido à necessidade de aproveitamento da mancha gráfica.

Entrelinhado

Denso, diminuindo do primeiro para os restantes números. O primeiro número tem em média 30 linhas por página, enquanto outros apresentam 36 e mais linhas por página.

Parágrafos

Indentados, começando dois ou três toques para a direita.

Colunas

A maioria das notícias é paginada a uma coluna. Em casos pontuais, usam-se duas colunas (por exemplo, para a inserção de listas, como listas de prisioneiros).

Estilos

A maioria das notícias é paginada com letra de recorte gótico em estilo normal.

Usa-se o itálico para grafar as “manchetes”, a proveniência de certas notícias (“De Paris aos 23 de Julho de 1643”), determinadas palavras (como locuções latinas e títulos de livros e outras publicações), para determinados textos ou excertos de textos (por exemplo, cartas, textos de acordos transcritos nas notícias, etc.) e ainda para inserir o texto administrativo (taxas, impressores, etc.).

Usam-se MAIÚSCULAS para grafar determinadas palavras a que se quer dar ênfase (por exemplo, “DOM JOÃO o QUARTO”) e ainda para identificar a publicação (“GAZETA DO MÊS DE FEVEREIRO DE 1642”). Por vezes, o título da secção de “NOVAS DE FORA DO REINO” é também grafado em maiúsculas.

Letras capitulares

Presentes de forma irregular, no início de certas notícias ou de grupos de notícias (por exemplo, num grupo de notícias de França, a primeira letra da primeira notícia podia ser capitular).

Vinhetas decorativas

O frontispício do primeiro número inclui o brasão real joanino. Alguns outros números incluem vinhetas decorativas que ajudam, por exemplo, a separar secções.

Filetes

Raramente usados. Podiam servir para separar notícias de última hora, rectificações ou ainda o texto administrativo do informativo.

Secções

Há uma certa preocupação pela arrumação das notícias, embora não se notem preocupações pelo estabelecimento de uma hierarquia das notícias através do design. Assim, várias gazetas têm, por exemplo, uma secção para notícias do estrangeiro. Grupos de notícias com a mesma proveniência, devidamente referida, também podiam constituir uma espécie de secção.

Publicidade

Não existente.

Referências administrativas (taxas, impressores, etc.)

Na última página, no final. No primeiro número, a referência ao impressor surge no frontispício.

 

A análise do quadro 3 mostra que o design da Gazeta é simples e, inicialmente, semelhante ao dos livros da mesma época, pois o seu primeiro número (Novembro de 1641) tem frontispício, no qual se destaca o brasão real joanino. Porém, depois a Gazeta afastar-se-á desse figurino, abandonando o frontispício e passando a incluir apenas a menção "Gazeta do Mês de…" no cimo da primeira página, sendo que, a partir de Abril de 1643, logo a seguir ao título da publicação aparece, com frequência, uma chamada de atenção para a notícia vista como mais importante, evidenciando que a ideia da manchete tem antecedentes históricos. Assim, além da denominação, as gazetas passam a incluir a informação "Gazeta do Mês Tal de Novas Fora do Reino na Qual se Relata [seguindo-se a informação mais relevante]". Começa-se, então, a assemelhar mais aos jornais contemporâneos, apesar da formatação do texto a uma única coluna, semelhante ao dos livros.

Nos primeiros números, as margens que rodeiam a mancha gráfica são relativamente largas e o entrelinhado suficientemente espaçado para que o olhar repouse. Os parágrafos são indentados, assinalando-se com uma tabulação de dois ou três espaços para a direita. Também o corpo das letras é suficientemente grande e constante para permitir uma leitura repousada. Não há qualquer inserção de publicidade. Porém, com o tempo, a necessidade de incluir mais informações no mesmo espaço (o papel era caro e além disso as taxas sobre o conhecimento e, por consequência, o preço a pagar pelo consumidor incidia sobre o número de páginas) provocou algumas modificações no grafismo da Gazeta. Embora as margens, excluindo o rodapé, não tenham sido muito afectadas, a inclusão de transcrições de cartas, tratados e outros documentos em itálico e com letra de corpo reduzido modificou, ligeiramente, a impressão de ordem dada pelo design original.

As referências aos impressores, às licenças e às taxas são inseridas na última página da publicação (com excepção do primeiro número). Por vezes, as notícias vão quase até ao final da última página, razão pela qual, em alguns números, são suprimidas as referências às licenças, taxas e impressor, algo que, aparentemente, não teve consequências sérias, pois não houve interrupção definitiva da publicação entre o número de Novembro de 1641 e o número de Setembro de 1647. A separação do texto de cariz “administrativo” (referência a taxas, licenças, etc.) do texto de cariz informativo faz-se, sobretudo, através da dosagem dos brancos e do recurso ao itálico.

O design é básico. As notícias são dispostas umas a seguir às outras (apenas se iniciam em parágrafos diferentes) sem grande preocupação de ordem lógica ou hierarquia, a uma coluna, tal e qual como se de um livro se tratasse. No entanto, antes mesmo de a Gazeta passar a incidir unicamente nas Novas De Fora do Reino (a partir de Outubro de 1642 ostentou essa referência no título), já existia uma secção específica para as notícias do exterior, indício da segmentação organizada e hierarquizada dos conteúdos que é norma nos jornais contemporâneos.

Por vezes, usam-se na Gazeta figuras e timbres tipográficos para preencher espaços em branco (função meramente estilística), para separar a secção de notícias do estrangeiro ou com ambas as finalidades. Todavia, à medida que o tempo avançou e a produção noticiosa se rotinizou, ter-se-á intensificado o fluxo de informações, contribuindo para o quase total desaparecimento dessas vinhetas decorativas. Em alguns casos, usam-se filetes horizontais para separar secções ou mesmo notícias. Por exemplo, notícias de última hora podiam ser paginadas no final das restantes, com um filete horizontal a separá-las das anteriores.

A "política" de utilização das letras capitulares não é constante. A primeira letra da primeira palavra da primeira notícia é sempre capitular, tal como era costume na época. Mas as restantes notícias podiam, ou não, ser iniciadas por uma letra capitular. Em alguns casos, a primeira palavra da primeira notícia é toda ela grafada em maiúsculas.

Embora a maior parte do texto surja em estilo gótico moderno, normal, por vezes incluem-se excertos em itálico, por exemplo para a transcrição de documentos. As referências administrativas (taxas, etc.) também surgem em itálico. Ainda em itálico são grafadas as menções à proveniência e data das notícias, por exemplo “De X, aos X de X de 164X”. Estas referências funcionam como títulos, evidenciando-se nelas já o sentido jornalístico da precisão na datação e localização espacial das informações.

As maiúsculas são usadas não apenas em conformidade com as regras gramaticais, mas também para enfatizar determinadas palavras ou sequências de palavras, incluindo, com frequência, o nome do Rei de Portugal. Em última ou outra ocasião, o redactor deixa-se mesmo empolgar pelo relato, dando vivas ao Soberano e enfatizando-as mercê do recurso às letras maiúsculas. O título da publicação “Gazeta do Mês X...” também é grafado em maiúsculas.

É de destacar que, formalmente, o título de cada número das gazetas é individualizado, situando-se em todas elas no cabeçalho da primeira página. Os títulos incluem referência à data da publicação (Gazeta do Mês Tal...), acentuando a ideia de periodicidade. A partir de Abril de 1643, embora com excepções, a Gazeta inclui, como se disse, uma espécie de manchetes a seguir à denominação da própria publicação, grafada, normalmente, em itálico e, por vezes, com as palavras iniciais escritas exclusivamente em maiúsculas. Vê-se, assim, que a noção de título, nomeadamente a noção de manchete, de alguma forma já se encontrava, sublinhamo-lo de novo, presente no jornalismo seiscentista. Ao indiciar e apregoar o conteúdo principal, a Gazeta incitava à sua própria compra e leitura.

Com base numa amostra de 22 números da Gazeta, pode-se afirmar-se que, reflectindo a conjuntura das guerras da Restauração e da Guerra dos Trinta Anos, esta publicação presta significativamente mais atenção aos acontecimentos bélicos do que as Relações de Severim de Faria. É o que se observa no quadro 4.

 

Quadro 4

Temas predominantes das matérias da Gazeta

MATÉRIAS

%

Vida política e administrativa

24

Vida social e religiosa

9

Vida económica

3

Vida militar e conflitos bélicos

49

Catástrofes naturais e acidentes

3

Doenças e fome

3

Crimes

1

Acontecimentos insólitos

2

Descobrimentos

4

Outros assuntos

2

Total

100

 

Além da enorme percentagem de notícias bélicas, não surpreende que 24% das matérias estejam relacionadas com a vida política e administrativa, devido ao esforço diplomático e político do novo regime. Os restantes assuntos são relativamente pouco noticiados, tal como já acontecia nas Relações, com excepção da vida social e religiosa, tema com alguma repercussão noticiosa (9% das notícias). Assim, pode dizer-se que a Gazeta e as Relações comungam até certo ponto uma mesma orientação editorial, fruto da conjuntura da época.

No essencial, as notícias da Gazeta proclamavam a causa da Restauração, denegrindo a imagem e o poder de Castela ao mesmo tempo que enalteciam o novo Rei, relatando, inclusivamente, alegrados milagres que mostrariam o favor divino à causa da independência. Além disso, a Gazeta era usada para combater rumores e boatos no contexto das guerras da Restauração e não ignorava o que se passava no mundo em geral, noticiando, simples e concisamente, as decisões políticas, as descobertas, os crimes, as catástrofes e acidentes, as festas, os eventos religiosos, as doenças, os nascimentos e falecimentos, etc., num tom significativamente mais laico do que o das Relações.

De realçar que uma percentagem significativa das notícias da Gazeta era do estrangeiro. De facto já existia, no século XVII, um fluxo internacional de notícias bastante consolidado, graças às traduções que se faziam das gazetas dos diversos países.

 

Considerações finais

Em primeiro lugar, da descrição feita acima pode concluir-se que, embora não sejam uma publicação noticiosa periódica, as Relações de Manuel Severim de Faria constituem a primeira manifestação portuguesa documentada daquilo que viria a ser o jornalismo noticioso generalista. A Gazeta “da Restauração”, cuja publicação documentada se iniciou 13 anos após o último número impresso das Relações ter sido editado, já corresponde mais perfeitamente ao conceito de periódico generalista, já que se trata de uma publicação noticiosa em que os vários números se foram sucedendo ao longo de sete anos, com frequência bastante regular, sobretudo nos primeiros anos. Com o jornalismo periódico, os leitores habituaram-se esperar, expectantes, por uma nova publicação num determinado período de tempo e a adquirir o hábito de a comprar, pelo que se pode afirmar que a periodicidade foi um dos factores que contribuiu para a institucionalização social do jornalismo, em Portugal e no resto do mundo.

Em segundo lugar, pode concluir-se também que, apesar das Relações serem uma espécie de anuários de intenção simultaneamente historiográfica e jornalística, comungam várias características da Gazeta. Já vimos que ambas as publicações eram noticiosas, mas interessa, em particular, realçar que ambas incluíam abundante informação internacional e que era notícia o que hoje em dia é notícia (guerras, crimes, acidentes, festas, política e diplomacia, comércio, descobertas...), o que evidencia a natureza cultural dos critérios de noticiabilidade e a estabilidade histórica dos valores-notícia, ou seja, das características que dão aos acontecimentos a possibilidade de serem noticiados.

Em terceiro lugar, pode concluir-se que, apesar de tudo, se registam diferenças entre as Relações e a Gazeta, já que na Gazeta o design se afasta mais decididamente do design dos livros (o frontispício, por exemplo, desaparece), favorecendo a ideia de que o jornal é um produto único e para consumo imediato. Por outro lado, enquanto as Relações eram cartas novas, característica bem vincada pelo seu início e final serem redigidos em forma de carta a particulares, a Gazeta já era decididamente um jornal, dirigido ao público em geral.

 

Bibliografia

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DIAS, E. G.  As Gazetas da Restauração : [1641-1648]. Uma Revisão das Estratégias Diplomático-Militares Portuguesas [Edição Transcrita]. Lisboa: Instituto Diplomático/Ministério dos Negócios Estrangeiros, 2006.

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TENGARRINHA, J. História da Imprensa Periódica Portuguesa, 2ª edição revista e ampliada, Lisboa: Caminho, 1989.



[1] Não confundir com a celebrada La Gazette, dirigida por Théophraste Renaudot, tido por muitos franceses como o seu primeiro jornalista, publicada a partir de 30 de Maio de 1631, que serviu de modelo para muitos jornais, incluindo para as nossas Gazetas da Restauração. Foi Renaudot o introdutor do termo Editorial, embora para designar balanços anuais dos acontecimentos e perspectivas para o ano seguinte.

[2] Em 1609, surgiram, em Praga, umas publicações diárias noticiosas (Avisos) que, no entanto, não tinham as características das gazetas: normalmente tratava-se de uma única notícia impressa numa única folha.

[3] A encadernação de várias publicações e opúsculos sob a forma de miscelâneas foi prática corrente nas bibliotecas públicas e privadas pelo menos até ao início do século XX.

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Jornais UFP,
31 de out de 2010 02:54