20.01 As relações de naufrágios como reportagens

As relações de naufrágios como reportagens

Jorge Pedro Sousa

Universidade Fernando Pessoa, Porto, Portugal, e Centro de Investigação Media e Jornalismo, Lisboa, Portugal

 

Sandra Tuna

Universidade Fernando Pessoa, Porto, Portugal

stuna@ufp.edu.pt

 

Resumo

Neste trabalho, apresentam-se as três relações de naufrágios que, documentadamente, foram editadas em Portugal no século XVI, recolhidas na História Trágico-Marítima de Bernardo Gomes de Brito (século XVIII), discutindo-se o seu carácter de reportagens pré-jornalísticas, já que apresentam: (1) um discurso informativo e redigido com intenção de verdade, ainda que, por vezes, dramatizado; (2) uma estrutura de “múltiplas pirâmides invertidas”, bastante comum na imprensa hodierna; e (3) um propósito de difusão pública de informação susceptível de gerar proveitos ao autor. Além disso, as relações configuram-se como relatos extensivos de um acontecimento, em que o autor, ocasionalmente, introduz as suas próprias análises e impressões, e obedecem a vários critérios de noticiabilidade usados actualmente, que, em consequência, devem ser vistos como “intemporais”.

 

Introdução

No século XV e XVI, começaram a surgir um pouco por toda a Europa folhas noticiosas ocasionais de diferentes tipos e formatos e com diversas denominações (notícia, relação, carta, etc.). Algumas delas eram só constituídas por uma ou várias folhas agrafadas, por vezes com frontispício. Outras foram publicadas sob a forma de livro, tendo, por vezes, várias dezenas de folhas. Legais ou clandestinas, elas podem ser vistas como uma forma de jornalismo “de reportagem” que antecipa o jornalismo moderno.

As primeiras dessas folhas ocasionais falavam apenas de um único assunto. Porém, a partir do final do século XVI, começaram a surgir as primeiras colectâneas de notícias, recolhidas nas folhas ocasionais ou de produção própria. Essas colectâneas, que gradualmente adquiriram periodicidade regular, foram os antepassados dos actuais jornais.

As folhas noticiosas ocasionais terão surgido em Itália, concretamente em Bolonha, Veneza e Génova, mas espalharam-se rapidamente por toda a Europa, sendo vendidas em feiras e lugares concorridos. Frequentemente, as pessoas, maioritariamente analfabetas, juntavam-se em sessões de leitura pública de folhas noticiosas. No entanto, há que dizer que a alfabetização se incrementava (Belo, 2001), o que ajuda a explicar o sucesso dos dispositivos pré-jornalísticos.

Em Portugal, algumas dessas folhas ocasionais foram chamadas relações, no sentido de serem um relato monotemático, como é o caso de várias das relações de naufrágios que são objecto do presente estudo[1].

Os temas das folhas ocasionais eram variados. Política, comércio, fenómenos insólitos e curiosos, acontecimentos sociais, crimes e criminosos, calamidades, batalhas, lugares, etc. são exemplos de alguns dos muitos temas que serviram de pretexto para a sua elaboração. Tengarrinha (1989: 29) fez um levantamento das relações portuguesas de que se tem conhecimento ou que ainda se conservam, publicadas entre 1555 e 1641 (ano em que surge o primeiro periódico português estável), tendo chegado ao número de 32, abarcando as seguintes temáticas: (1) Expansão marítima, naufrágios, relações com povos e descrições de terras distantes, proselitismo religioso: 14 (43,7%)[2]; (2) Assuntos religiosos: 6 (18,8%); (3) Notícias da Corte: 6 (18,8%); (4) Acontecimentos gerais do País e o estrangeiro: 3 (9,4%); (5) Batalhas: 2 (6,2%); (6) Descrição de Lisboa: 1 (3,1%).

A mais antiga folha noticiosa ocasional de que se conserva registo foi editada em Itália (Bolonha, 1470) e relata a queda de Constantinopla e do Império Romano do Oriente (Império Bizantino), em 1453, e os subsequentes avanços dos turcos otomanos pelo Mediterrâneo oriental. Outras folhas fazem referência a factos como a queda de Granada e a expulsão dos mouros de Espanha (1492), a queda de um meteorito em Ensisheim (1492), a descoberta da América por Colombo (1493), a entrada de Carlos VIII em Florença (1494) ou a batalha de Flodden Field, em Inglaterra (1513). Um outro tipo de folha noticiosa oferecia informação comercial e política aos mercadores e era produzida no seio das grandes casas comerciais europeias. Podemos dizer, assim, que as notícias das relações já obedeciam a critérios de noticiabilidade idênticos aos contemporâneos, o que acentua a natureza cultural e histórica dos valores-notícia (negatividade, referência a fenómenos insólitos, novidade, referência a pessoas de elite, utilidade prática das informações, etc.).

Tendo em conta o papel das folhas ocasionais na génese do jornalismo, este trabalho tem por objectivo descrever, enquanto dispositivos jornalísticos, as relações de naufrágios impressas das quais há evidência que tenham sido publicadas em Portugal no século XVI, enfatizando o seu contributo para a génese do jornalismo lusófono. Segundo o julgamento de Lanciani (1979)[3], essas relações são as seguintes:

 

1) Relação da Muito Notável Perda do Galeão Grande São João em que se Recontam os Casos Desvairados que Aconteceram ao Capitão Manuel de Sousa de Sepúlveda, e o Lamentável Fim que Ele e Sua Mulher e Filhos e Toda a Mais Gente Houveram, o Qual Se Perdeu no Ano de 1552, a 24 de Junho, na Terra do Natal [autor anónimo]

 

2) [Naufrágio da Nau São Bento] Relação Sumária da Viagem que Fez Fernão d’Álvares Cabral Desde Que Partiu Deste Reino por Capitão-Mor da Armada que Foi no Ano de 1553 às Partes da Índia Até Que Se Perdeu no Cabo da Boa Esperança no Ano de 1554, Escrita por Manuel de Mesquita Perestrelo, Que Se Achou no Dito Naufrágio[4]

 

3) Relação da Viagem e Naufrágio da Nau São Paulo que Foi para a Índia no Ano de 1560. De que Era Capitão Rui de Melo da Câmara, Mestre João Luís e Piloto António Dias, Escrita por Henrique Dias, Criado do Sr. D. António Prior do Crato[5]

 

Procuraremos analisar essas relações de naufrágios à luz de conceitos contemporâneos sobre jornalismo e reportagem e tentaremos estabelecer pontes entre o tipo de relato que elas apresentavam e formas de relato anteriores e posteriores, desde que “jornalísticas” ou aparentadas com o jornalismo[6].

 

1. Intenções dos autores das relações

A ideia primeira dos autores das relações de naufrágios, conforme eles próprios enunciam, é contar aos leitores histórias verídicas, não ficcionais, assentes na narração de factos, o que apela, simultaneamente, quer ao valor jornalístico da verdade quer à ideia da estruturação das notícias com base numa rede de facticidade, conforme falava Tuchman (1978) ao referir-se à noção de objectividade dos jornalistas. Por exemplo, os autores das relações dos naufrágios das naus São Bento e São Paulo advertem-nos que tentaram, respectivamente, “sem acrescentar nem diminuir a verdade (...) escrever somente a verdade” e usar “de toda a verdade”. Por outro lado, os relatos são construídos em torno de factos encadeados cronologicamente, por vezes com informações de grande rigor, conforme se pode observar no seguinte excerto do relato do naufrágio da nau São João: “Partiu neste Galeão Manuel de Sousa, de Cochim, a 3 de Fevereiro de 1552 (...). E sendo já em 11 de Março, eram Nordeste-Sudoeste com o Cabo da Boa Esperança, 25 léguas ao mar, aí lhe deu o vento Oeste e Oeste-Noroeste (...).”

Os autores das relações, por vezes, mergulham na narrativa para tecer considerações pessoais sobre os factos e as pessoas, retardando a acção e imprimindo a sua visão do mundo ao texto, para formular juízos morais ou fazer reflexões e relatos dos estados de ânimo, ou ainda para evocar assuntos e recordações por vezes alheios ao fio condutor da narrativa, seguindo uma modalidade de relato e de tradição literária afastada das práticas dominantes do jornalismo actual, mas perfeitamente em consonância com a cultura da época e os cânones da crónica tardo-medieval. Por exemplo, o recurso ao discurso indirecto é corrente. Os autores das relações também fazem análises[7] às situações, conforme poderíamos ter numa reportagem contemporânea. Leiam-se os seguintes exemplos:

 

Reflexão opinativa do autor (São João): “Parece verdadeiramente que a graça de Nosso Senhor supria aqui, porque sem ela não pudera uma mulher tão fraca, e tão pouco acostumada a trabalhos, andar tão compridos e ásperos caminhos” (reflexão);

 

Análise do autor (São João): “E ainda que a nau levava pouca pimenta, nem por isso deixou de ir muito carregada de outras mercadorias, no que se havia de ter muito cuidado pelo grande risco que correm as naus muito carregadas”;

 

Análise estereotipada (São Paulo): “São os homens do mar muito semelhantes às mulheres nos tempos de seus partos, em suas muito estranhas e grandíssimas dores, que juram, se daquela escapam, não terem mais cópula nem ajuntamento nunca com varão. Assim nestes perigos evidentes, e de tanto temor e espanto, qual há aí que não jure e prometa de outra nunca tal lhe acontecer ou em outra tal se achar? O que passado, passou-se e acabou-se a memória de tudo, e tudo são folias, pandeiros e zombarias.”

 

Este último excerto indicia que apesar da intenção de verdade dos escritores e da homogeneidade estrutural que os relatos revelam, os autores das relações eram autónomos na análise e mesmo na edificação de uma linha narrativa, embora estivessem sintonizados nos enquadramentos justificativos dos naufrágios e, como veremos, na postura religiosa.

Os autores das relações, por vezes, gostavam de mostrar a sua erudição e eloquência. Os textos eram os palcos para alguns deles brilharem, como o fez Henrique Dias, autor da Relação do Naufrágio da Nau São Paulo, que enxameia a narrativa de excertos latinos, bíblicos e outros. Todavia, o facto de apenas se ter detectado a ambição do brilho pessoal no autor na Relação do Naufrágio da Nau São Paulo mostra que, possivelmente, a maioria dos autores de relações procuravam anular-se, para deixar a narrativa viver dos factos e da informação, uma atitude jornalística.

 

2 Dimensão ideológica das relações

As relações de naufrágios aqui estudadas contam-nos histórias com fundo moral, que questionam a vantagem de se tentar enriquecer desafiando perigos enormes que podem levar à perda da própria vida, dos familiares e dos bens. No entanto, elas não beliscam a hierarquia social, tendo uma dimensão ideológica favorecedora do statu quo. Nas relações de naufrágios, a responsabilidade pelo que sucede é sempre pessoal, não do sistema e muito menos do Rei, de quem, inclusivamente, os autores Henrique Dias (São Paulo) e Manuel de Mesquita Perestrelo (São Bento) se declaram explicitamente leais súbditos e servidores.

A noção de hierarquia social é também vincada pelo facto de, nas relações, apenas os homens “grandes” serem nomeados pelos nomes e cargos, a que, por vezes, ainda se adicionam adjectivos honrosos (exemplo: “Manuel de Sousa, fidalgo mui nobre”). Os outros diluem-se no anonimato, sendo que os nativos, em acréscimo, tendem a ser apresentados com enquadramentos negativos (são, por exemplo, apelidados de “bárbaros”, “cafres” que vivem nas “terras da cafraria”), contrastando com a adjectivação positiva com que são catalogados os portugueses, em especial os nobres, apesar destes últimos serem, em alguns casos, alguns dos principais responsáveis pelos naufrágios, já que os capitães eram nomeados pelo Rei não pela sua competência náutica, mas por linhagem ou por favores que o Rei lhes devia (os autores das relações nunca referem esse dado entre as causas dos desastres). Inclusivamente, quando se referem os nativos, os autores das relações tendem a vincar a oposição “nós” (portugueses, superiores) / “eles” (nativos, inferiores, incivilizados).

Por outro lado, as histórias das relações são marcadamente masculinas; as mulheres, nas poucas vezes que são referidas, são representadas como seres frágeis e dependentes dos homens, tal como as crianças, conforme se nota em excertos como o seguinte: “Ver uma mulher tão nobre, filha e mulher de fidalgos tão honrados, tão maltratada e com tão pouca cortesia” (São João). O discurso das relações, a este nível global, pode classificar-se como tendo uma dimensão não apenas cultural mas também ideológica, reforçando e legitimando, simbolicamente, as relações sociais de poder e dominação, tal como numerosos estudos indiciam para o jornalismo contemporâneo (ver, por exemplo: Sousa, 2000).

 

3. O enquadramento religioso do mundo nas relações

Os enquadramentos das narrativas são, sem excepção, profundamente religiosos, evocando repetidamente o fatalismo cristão: “[contar a história deste naufrágio serve] para os homens muito temerem os castigos do Senhor e serem bons cristãos, trazendo o temor de Deus diante dos olhos” (São João). Diga-se, aliás, que os portugueses se viam a si mesmos mensageiros do Cristianismo, assumindo uma ideologia assente no que criam ser a sua missão civilizadora e evangelizadora. Por um lado, os autores perspectivam uma intervenção directa e constante de Deus sobre o destino dos náufragos; por outro lado, o relato é configurado de maneira a evidenciar-se o pecado (avidez), o castigo divino, o arrependimento e a peregrinação para a expiação do pecado:

 

“tudo (...) estava cheio de (...) coisas preciosas, jazendo muitas delas ao lado dos seus donos, a quem não somente não puderam valer na presente necessidade, mas ainda a alguns, de quem eram sobejamente amadas na vida, com seu peso foram causa da morte; (...) e (...) bastava a memória daquele passo para não ser a pobreza havida por tamanho mal, que por lhe fugir deixemos a Deus e o próximo, pais, irmãos, amigos, mulheres e filhos, e troquemos tantos gostos e inquietações pelos sobejos que cá ficam.” (São Bento – itálico nosso).

 

Mas o perdão (divino, por suposto) só é concedido a alguns, os que se salvam, que nem sempre são os protagonistas principais das histórias. Por exemplo, na Relação da Perda do Galeão São João, Manuel de Sousa de Sepúlveda e sua família, principais protagonistas da história, morrem e o mesmo acontece a Fernão d’Álvares Cabral, na Relação do Naufrágio da Nau São Bento.

É de dizer, também, que a crise portuguesa do final do século XVI ecoa indirectamente nos relatos. Manuel de Sousa de Sepúlveda (São João), por exemplo, é a metáfora do comerciante português da época, empreendedor e corajoso, mas egoísta e cobiçoso, apostado no rápido enriquecimento a qualquer custo, sobrecarregando a nau e aceitando empreender viagem já fora da época aconselhada, tanto quanto a negligenciada nau é a metáfora de um país em crise e o relato do naufrágio simboliza, de certa forma, um inconsciente colectivo povoado de medos e incertezas. É também a cobiça, aliás, que leva a Fernão d’Álvares Cabral deixar sobrecarregar a nau São Bento, causa primeira da sua perdição, como nos relembra o autor da relação do seu naufrágio, Manuel de Mesquita Perestrelo.

 

4. Títulos das relações

Os títulos das três relações estudadas são semelhantes na forma. Todos indicam que os relatos se referem ao naufrágio de determinadas naus[8]. Todos têm um tom bastante actual, no sentido de que antecipam o mais importante da informação, tal e qual os manuais de jornalismo contemporâneos aconselham a fazer. Todos tentam responder a pelo menos algumas das perguntas que a retórica clássica enunciava como sendo essenciais para transmissão de novidades, que já Tobias Peucer recordava, em 1690, e que o jornalismo contemporâneo recuperou como sendo as perguntas “Quem?”, “O Quê?”, “Quando?”, “Onde?”, “Como?” e “Porquê?”. De facto, os títulos das relações aqui estudadas podem não ter a brevidade e o carácter incisivo e selectivo dos títulos jornalísticos contemporâneos, mas o essencial está lá, como poderemos ver pelo quadro 1:

 

Quadro 1

Regras retóricas da narração de novidades e sua aplicação nos títulos das relações

Regra retórica e jornalística da enunciação de novidades

Exemplos

 

Mencionar o objecto (o acontecimento)

 

 

− Naufrágio do galeão São João e consequências nefastas para principais sobreviventes

− Viagem e naufrágio da nau São Bento

− Viagem e naufrágio da nau São Paulo

 

 

Referir os sujeitos da acção

 

− Manuel de Sousa de Sepúlveda, mulher, filhos e demais gente

− Fernão d’Álvares Cabral, Manuel de Mesquita Perestrelo

− Capitão Rui de Melo da Câmara, Mestre João Luís e Piloto António Dias

Causa

− Não referido

Modo

− Não referido

Local

− Terra do Natal (São João)

− Cabo da Boa Esperança (São Bento)

Tempo

− 24 de Junho de 1552 (São João)

− 1554 (São Bento)

− [1560]

Assinatura do autor

− Manuel de Mesquita Perestrelo (São Bento)

− Henrique Dias, “criado do Sr. Dom António Prior do Crato”

 

A grande extensão dos títulos das três relações permite-lhes funcionar como lead[9], ou entrada[10], já que informam o leitor não apenas sobre o que aconteceu e os principais sujeitos da acção, mas também sobre quando aconteceu e, em dois casos (São João e São Bento), onde aconteceu, seguindo, como dissemos, os cânones da retórica clássica.

É de referir que, apesar da primeira das relações estudadas (São João) ser anónima, as duas restantes têm autores definidos, que se “puxam” a si mesmos para o título, conforme seria usual no século XVI. Corresponderia, hoje, à assinatura do jornalista que redigiu a matéria. Essa estratégia está relacionada com a assunção de um determinado ethos por parte do autor, que procura credibilizar a informação dando “a cara” por ela.

O título completo da Relação da Perda do Galeão São João antecipa, ainda, que o capitão da nau e a sua família morreram por causa do naufrágio, informação que, de resto, será várias vezes apresentada ao longo da narrativa, retardando a narração da acção. Entre os títulos das três relações, o título dessa é, assim, o que melhor funciona como uma espécie de lead ou entrada. Tendo sido, cronologicamente, o primeiro, também poderá ter funcionado como modelo para os demais.

Embora só o título da primeira das relações (São João) o refira, as três folhas ocasionais aqui apresentadas, como veremos, narram também o que aconteceu aos sobreviventes do naufrágio, parte que constitui, aliás, o foco das narrativas.

 

5 Estrutura das relações

Segundo Lanciani (1979), as relações de naufrágios portuguesas dos séculos XVI e XVII sofreram a influência estrutural de crónicas de viagens medievais, seguindo, assim, cânones retóricos já existentes, tendo, habitualmente, as seguintes partes: exordium, proposito, narratio, conclusio, centrando-se, porém, na terceira (narratio).

O exordium e o proposito formam, na retórica clássica, a introdução a um discurso, o espaço apropriado para se explicitar o respectivo tema e finalidade. Por vezes, é no exordium e proposito que o autor salienta o seu ethos, revelado nas suas capacidades e qualidades e nas circunstâncias em que produziu o discurso. A chamada de atenção para o ethos do autor tem por objectivo reforçar a sua credibilidade perante a audiência.

O exordium e o proposito, com ou sem ênfase no ethos do autor, são raros nas reportagens jornalísticas contemporâneas. Quando aparecem, não são mais do que um mero recurso estilístico dos jornalistas. Neste ponto, as relações de naufrágios que possuem exordium e proposito são nitidamente datadas, distinguindo-se da generalidade das reportagens contemporâneas. Porém, das três relações estudadas, só a Relação da Perda do Galeão São João tem um exordium e um proposito bem definidos, ainda que ocupem somente umas breves linhas. O autor dessa relação anuncia que o relato se destina a ensinar os homens a “temerem os castigos do Senhor e serem bons cristãos, trazendo o temor de Deus diante dos olhos, para não quebrar seus mandamentos”. Acrescenta que redigiu o texto por lhe parecer que a história “da morte deste fidalgo [Manuel de Sousa de Sepúlveda], e de toda a sua companhia” serviria de “exemplo a todos (...) para que os homens que andam pelo mar se encomendem continuamente a Deus, e a Nossa Senhora que rogue por todos”. As duas restantes relações têm uma introdução ao tema, mas nenhuma delas possui exordium ou proposito nitidamente definidos no início do relato.

Na narrativa (narratio), parte mais extensa das três obras, são contadas as histórias dos naufrágios, suas causas e consequências. A estrutura da narrativa das relações aqui estudadas é similar ao de outras relações de naufrágios da mesma época, que evocam, por sua vez, a própria estrutura narrativa de alguma literatura medieval (Lanciani, 1979), podendo dividir-se nos seguintes segmentos narrativos: 1) Antecedentes e partida; 2) Tempestade; 3) Naufrágio e Arribação; 4) Peregrinação (onde se foca a maior parte dos relatos); 5) Retorno e salvação (de alguns), que funciona como conclusio. É de salientar, no entanto, que a estrutura apresenta alguma elasticidade, sendo possível, por exemplo, apercebermo-nos somente das causas do desastre, que deveriam, pela lógica, ser descritas nos antecedentes, já durante a narração da tempestade, como acontece na Relação da Perda do Galeão São João, em que o autor só se refere às velas deploráveis com que a nau tinha sido equipada já durante a narração do temporal.

A organização cronológica das três narrativas empresta uma sensação de ordem aos textos, sendo, por isso, uma das modalidades estruturais que se mantêm na reportagem jornalística (Fernández Parrat, 2001).

Tendo em conta os dados acima referidos, pode dizer-se que as três relações têm uma estrutura bastante semelhante, que corresponde, grosso modo, à técnica das múltiplas pirâmides invertidas, com início e final fortes, comum nas reportagens contemporâneas (Fernández Parrat, 2001; Sousa, 2005). Os formatos jornalísticos de hoje não são, afinal, mais do que uma recuperação e reconversão dos formatos narrativos do passado. Aliás, os próprios jornalistas tendem a repetir modelos fixados profissionalmente, como a técnica da pirâmide invertida.

 

Conclusões

A principal conclusão a tirar deste trabalho é a possibilidade de afirmar que as três relações quinhentistas estudadas podem considerar-se exemplos do jornalismo emergente. Sofrendo a influência das crónicas medievais (Lanciani, 1979), já elas exemplos de quase-reporagens, as três relações aqui estudadas constituem-se como reportagens de acontecimentos notáveis, recentes e dramáticos e foram elaboradas para terem ampla difusão pública.

São várias as características que nos permitem considerar as três relações em causa como reportagens, nomeadamente se descontarmos as questões de estilo próprias da época:

 

1) Descrevem acontecimentos reais em profundidade, mais extensiva que compreensivamente, e exploram, analiticamente, causas e consequências dos mesmos;

 

2) Foram elaboradas à luz de critérios de valor noticioso intemporais (actualidade, possibilidade de personalização e dramatização das histórias, referência a tragédias, lutas e morte e à vida de pessoas famosas, negatividade...);

 

3) Apesar das liberdades analíticas e estilísticas dos seus autores, destinadas a intensificar e enquadrar (por vezes religiosamente) os relatos, nota-se que os textos foram, jornalisticamente, produzidos com intenção de verdade, rigor e ânimo de fidelidade aos factos, sendo várias as referências rigorosas a datas e locais, as citações directas ou sob a forma de paráfrase, etc.

 

É de realçar que outras marcas das relações estudadas são comuns às reportagens contemporâneas. Por exemplo, a referida intervenção dos autores no relato, para analisar, enquadrar e mesmo dar conta das suas próprias vivências dos factos narrados, ou ainda para referir as circunstâncias em que ouviram e citaram as fontes de informação, são comuns às reportagens jornalísticas contemporâneas.

 

A segunda conclusão a tirar é a de os esquemas narrativos usados nas relações são homólogos, estando ainda hoje presentes no discurso jornalístico. Pode dizer-se, assim, que vários formatos e formas de narrar se repetem ao longo dos tempos, mais ou menos reconvertidos e reconfigurados. Se os conteúdos jornalísticos têm uma história, as formas de relatar também as têm, sendo que os conteúdos se adaptam à forma, como observámos nas três relações aqui estudadas, que seguem, como provou Lanciani (1979), a estrutura de contos e relatos medievais e obedecem a regras da retórica clássica, cujas bases remontam ao Mundo Antigo. Aliás, numa época em que pontificavam em Portugal cronistas extraordinários e bem formados, como Damião de Góis, Diogo do Couto[11] e João de Barros, é natural que as crónicas, incluindo as medievais, tivessem servido de modelo para as relações quinhentistas e seiscentistas. As relações aqui estudadas podem mesmo ser consideradas manifestações populares das grandes crónicas, menos eruditas, menos prolixas, mais sensacionalistas e dramáticas, destinadas a emocionar, a moralizar e a serem consumidas o mais massivamente possível[12], para dar lucro ao autor e ao editor. A este propósito, pode-se, também, realçar que se nota nas três relações uma tendência dos autores para a análise das situações, o que aproxima esses relatos da enunciação jornalística especializada contemporânea. Aliás, é possível afirmar, ainda, que o sucesso dos relatos de naufrágios antecipa, de certa maneira, o sucesso do jornalismo de reportagem, do jornalismo de viagens e do jornalismo popular e ilustra a existência prévia de algumas das condições que vieram a permitir o êxito do jornalismo industrial popular e sensacionalista no século XIX.

 

A terceira conclusão que podemos extrair do trabalho é a de que, ao contrário das grandes crónicas, as relações de naufrágios dão conta de uma conjuntura desfavorável ao Portugal quinhentista. Depois de muitos anos de omnipresença no comércio intercontinental, provocada pelo início da feliz epopeia dos Descobrimentos, Portugal começava já a entrar numa crise económica e social profunda[13], masoquisticamente indiciada pelos relatos de naufrágios, metáforas pré-jornalísticas de um país adiado e de incerto futuro, em que o temor habitava o inconsciente colectivo. A conservação dos navios era descurada, as melhores rotas eram desrespeitadas, os capitães eram nomeados mais pelos seus títulos nobiliárquicos do que pelas suas capacidades e os períodos mais favoráveis para navegar eram desprezados por causa da cobiça de comerciantes apostados no lucro antes de todas as coisas, que ainda por cima sobrecarregavam as naus com mercadorias. Pode-se, assim, afirmar que os relatos jornalísticos, ontem como hoje, são histórias que indiciam o mundo real e as circunstâncias de cada época, por vezes atentando mais no particular do que no geral, naquelas pequenas coisas que afectam directa e quotidianamente as pessoas do que nos grandes temas, mais abstractos. O jornalismo tem, afinal, uma história e essa história revela-se, como vimos, nas formas e nos conteúdos das notícias. O jornalismo é, pois, uma história do mundo continuada, é um curriculum da humanidade. As notícias de hoje acrescentam novidade às antigas, mas como os critérios de noticiabilidade são, de certa forma, intemporais, parece que há novidade sem verdadeira mudança, como disse Phillips (1976).

 

Finalmente, como última conclusão, pode explicitar-se que, ao contrário do que argumenta Tengarrinha (1989: 29), parece emanar das três relações o apego dos respectivos autores à verdade e aos factos, seguindo, aliás, a tradição da historiografia iniciada por autores como Tucídides e Xenofonte na Grécia Antiga. O valor jornalístico da verdade no relato é, assim, notoriamente, um valor historicamente consolidado, que transcende, inclusivamente, as fronteiras do jornalismo.

 

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[1] Algumas delas, originalmente, não foram publicadas com a designação relação, mas com outras designações, como História, ou Notícia, mas na História Trágico-Marítima surgem com o nome “relação”.

[2] Muitas das folhas noticiosas sobre naufrágios foram compiladas nos dois volumes da História Trágico-Marítima, de Bernardo Gomes de Brito (1735/1736).

[3] Tengarrinha (1989: 29), contra a opinião de Lanciani, afirma que a primeira folha ocasional portuguesa foi a Relação do Lastimoso Naufrágio da Nau Conceição Chamada Algaravia a Nova de que Era Capitão Francisco Nobre a Qual Perdeu nos Baixos de Pêro dos Banhos em 22 de Agosto de 1555, mas alguns dos seus conteúdos indiciam que esta relação tenha sido publicada somente no início do século XVII. Não deixa de ser estranho, porém, que na sua primeira Relação impressa, de 1626, Manuel Severim de Faria anuncie que se acabou de saber do naufrágio do galeão São João, que se teria perdido em 1552.

[4] O título original, segundo Lanciani (1979: 11), inicia-se por Naufrágio da Nau São Bento, que optámos por colocar entre parênteses. Além disso, o título original não inclui a palavra “relação”, começando por “Sumário da Viagem...”. Finalmente, na primeira edição, apesar de o autor se identificar no título, não indica que foi um dos náufragos da nau São Bento.

[5] O título inserido na História Trágico-Marítima, acima registado, também não coincide totalmente com o título da primeira das edições que se conserva. O título original era “Nau São Paulo. Viagem e Naufrágio da Nau São Paulo que Foi para a Índia no Ano de 1560. Capitão: Rui de Melo da Câmara, Mestre João Luís, Piloto António Dias.

[6] É de destacar, porém, que este texto apenas traduz uma súmula dessa análise, já que o trabalho original tem 170 mil caracteres.

[7] A análise assenta em factos.

[8] No caso da relação ao naufrágio da nau São Bento, a menção ao navio naufragado surge no título da primeira edição.

[9] Relembre-se que no relato noticioso jornalístico o lead é o primeiro parágrafo de uma notícia. Quando esta foi elaborada com base na técnica da pirâmide invertida, o lead deve conter a informação mais importante, que usualmente coincide com a resposta a “Quem?”, “O Quê?”, “Quando?” e “Onde?”, por vezes também, ainda que de forma breve, “Como?” e “Porquê?”.

[10] A entrada, também designada super-lead, entre outras denominações possíveis é o texto que abre uma matéria, procurando suscitar o interesse do leitor. Normalmente, a entrada redige-se como uma espécie de sumário cativante da peça jornalística.

[11] Uma das relações seiscentistas de naufrágios é precisamente da autoria de Diogo do Couto. Trata-se da Relação do Naufrágio da Nau São Tomé da Terra dos Fumos no Ano de 1589 e dos Grandes Trabalhos que Passou Dom Paulo de Lima nas Terras da Cafraria até à Sua Morte. Escrita por Diogo do Couto, Guarda-Mor da Torre do Tombo. A rogo da Senhora D. Ana de Lima, Irmã do Dito Paulo de Lima, no Ano de 1611.

[12] Algumas das folhas ocasionais tiravam mais de mil exemplares por edição, numa época em que a tiragem média de livros na Europa andava pelos 300 exemplares.

[13] Crise essa de que ainda não recuperou, e que o ouro do Brasil e a expansão colonial não fizeram mais do que camuflar, mas que foi agudizada pela Ditadura do Estado Novo, pelo período conturbado e de excessos do pós-25 de Abril (Processo Revolucionário em Curso) e pela ineficácia que os sucessivos governos pós 1974 denotaram nas tentativas de modernização do país, e que foi atenuada somente graças à integração europeia.

 

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Jornais UFP,
31 de out de 2010 01:08