10. Gazeta: Redactores e impressores

Redactores e impressores da Gazeta “da Restauração”

Gabriel Silva




1. Os Autores


1.1 Manuel de Galhegos


Nascido em 1597, na cidade de Lisboa. Filho de Simão Rodrigues Galhegos e Garcia Mendes Morato. Casou com Luíza Freyre Pacheco de quem terá tido filhos. Depois de viúvo tornou-se sacerdote. Tem várias poesias publicadas em 1629 e 1630. Viveu largo tempo em Espanha, tendo convivido com o grande poeta espanhol Lope de Veja e onde produziu várias obras teatrais, entre as quais: 
Entrada de Filipe en PortugalAlfonso de Albuquerque; El honrado prudenteCasas a gusto por fuerzaLa orente de ChipreLa reina Maria Estuarda, mas todas hoje sem rasto. Conviveu em Madrid com vários intelectuais, portugueses e espanhóis, sendo seu mecenas Diogo Soares, secretário de estado e membro do Conselho de Portugal (Martins, 1964). Regressando a Portugal, dá-se nota de que terá sido capelão do novo rei, D. João IV e obtêm “o privilégio real de publicação do primeiro número da Gazeta concedido a Manuel de Galhegos, por alvará de 14 de Novembro de 1641” (Sousa, 2008).

Embora existam várias conjunturas sobre a co-existência de outros autores ou redactores para as ditas Gazetas que não Manuel de Galhegos, e não se eliminando a priori que um ou outro possam também ter sido seus redactores, o certo é que não faz sentido retirar a autoria principal a este. Não apenas Manuel de Galhegos tinha já sido um propagandístico da causa real de D. João IV (seja na Relação do que tudo aconteceu…., seja ainda no discurso laudatório do casamento do então Duque), o certo é que por norma e sem que se conheça qualquer excepção: as licenças e alvarás eram atribuídos para impressão aos seus autores.

As gazetas “com notícias do Reino ou fora dele”, foram proibidas de publicação, por despacho manuscrito datado de 19 de Agosto de 1642 em razão “da pouca verdade de muitas, e do estilo de todas elas”. A sua publicação foi, no entanto, retomada em Outubro do mesmo ano (Silva:1870:419), mas já com outro editor.

Depois dessa data, não mais dele existem notícias com excepção da data da sua morte.

Obras:

- Gigantomachia – A D. António de Menezes, impresso por Pedro Craesbeeck, 1628, poema. Segue-se Fabula de Anaxarete, ambos em castelhano. 

- Templo da memória: Poema epithalamico nas felicíssimas bodas do ex.mo sr. Duque de Bragança e Barcelos, Marquez de Villa-Viçosa, Conde de Ourem, etc., impresso por Lourenço Craesbeeck, 1635

Relação de tudo o que que se passou na felice acclamação do Mui alto e mui Poderosos Rey Dom João o IV nosso Senhor, cuja monarquia prospere Deos por largos Annos. Dedicado aos fidalgos de Portugal, impresso por Lourenço de Anvers, Lisboa, 1641. Embora anónimo, Barbosa atribui-lhe a autoria e mais tarde ao P. Nicolau da Maia.

Obras varias al real palacio del Buen-Retiro, Madrid, impresso por Maria  de Quimones, 1637.

Discurso poetico, em louvor da Ulisséia de Gabriel Pereira de Castro, impresso por Lourenço Craesbeeck , Lisboa, 1636.

El inferno de amor, inédito publicado por Heitor Martins, Anadia, 1964.




1.2 Frei Francisco Brandão

Segundo Inocêncio Francisco da Silva (Silva:1859: 138), terá sido um dos redactor das Gazetas “desde Julho de 1645 em diante”.

Nasceu na vila de Alcobaça, a 11 de Novembro de 1601, filho de Gaspar Salvado e de Ana Brandão. Irmão de Frei António Brandão, igualmente monge cistercense que veio a ser arcebispo de Goa. Estudou em Santarém, junto de um seu tio, mostrando precoces aptidões nas letras. Ao receber o hábito de monge de Cister, em Alcobaça, a 29 de Agosto de 1619, adoptou o nome de Fr. Francisco das Chagas, mas que abandona, retornando ao seu nome civil quando parte a estudar em Coimbra, onde se doutora em Teologia em 1621.


Regressa a Alcobaça onde ensinou durante seis anos.


Exerceu diversos cargos na sua ordem religiosa, sendo eleito, em 1636, Geral da sua Congregação. Sucede, em 1649, a seu tio, Fr. António de Brandão, como cronista-mor do Reino. Foi eleito como Geral da sua Congregação por duas vezes, a primeira em 1667 e a segunda em 1674 e exerceu outros cargos, como seja o de qualificador do Santo Ofício, examinador das Três Ordens militares e esmoler-mor.


Faleceu no Convento de Nossa Senhora do Desterro, em Lisboa, a 28 de Abril de 1680.

Obras:

Discurso congratulatório sobre o dia da felice restituição e aclamação da Majestade del Rei D. João o IV N. S. dedicado à mesma Majestade, impresso por Lourenço de Anvers, s.d.

- Conselho e voto da Senhora D. Filipa filha do Infante D. Pedro sobre as Terçarias e guerras de Castela com uma breve noticia desta Princesa, impresso por Lourenço de Anvers, Lisboa, 1643.

Quinta parte da Monarquia Lusitana, que contem a história dos primeiros 23 anos del Rei D. Dinis, impressa por Paulo Craesbeeck, Lisboa, 1650.

Sexta parte da Monarquia Lusitana, que contem a história dos ultimos 23 anos del Rei D. Dinis, impresso por João da Costa, Lisboa, 1672.

Relação do Assassino atentando por Castela contra a Majestade delRei D. João o IV impedido miraculosamente, impresso por Paulo Craesbeeck, Lisboa, 1647.

- Sermão nas exéquias que o Mosteiro de Alcobaça fez ao Infante D. Duarte no Real Convento de Santa Maria de Alcobaça em 19 de Dezembro de 1649, impresso na Oficina Craesbeeckiana, Lisboa, 1650.

Fundação do Real Convento de Alcobaça, s.d.

Discurso em comprovação do juramento de D. Afonso Henriques, s.d.




1.3 João Franco Barreto


Nascido em Lisboa, em 1600, filho de Bernardo Franco e Maria da costa Barreto. Estudou no Colégio de Santo Antão onde teve por mestre Francisco de Macedo. Apesar dos seus estudos, embarcou como militar, em 1624, em direcção à Baía na armada destinada a recuperar aquela praça brasileira da ocupação holandesa. 

De regresso a Portugal, estudou Direito Canónico na Universidade de Coimbra a qual abandonou ao fim de 4 anos, em 1640, uma vez que tinha aceite tornar-se preceptor dos filhos de Francisco de Melo, monteiro-mór do Reino. Em 1641, tornou-se seu secretário quando aquele fidalgo foi nomeado embaixador extraordinário junto do Rei de França tendo acompanhado e deixado relato de tal missão. 

Foi casado na Vila do Redondo e teve dois filhos (um rapaz que se tornou ermitão de S. Paulo e uma filha que morreu na juventude). Ficando viúvo passados alguns anos, foi ordenado presbítero e colocado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Vila do Redondo. Em 1648, encontra-se como pároco da Vila do Barreiro.


O seu enorme saber e interesse nas letras cedo o levaram ao campo da poesia, tendo publicado algumas obras próprias, das quais se destaca Cyparriso, fábula mitológica em oitavas que mereceu diversas referências elogiosas, entre as quais se destaca a D. Franciso Manuel de Melo. Foi grande estudioso e divulgador da obra de Luís de Camões e traduziu várias obras do grego clássico. Relacionado com o grande erudito Manuel Severim de Faria, deu início, a instâncias deste, à obra Biblioteca Portuguesa, sumário de obras e autores nacionais que terá deixado incompleta e inédita, mas que Diogo Barbosa Machado completou sob o título de Biblioteca Lusitana.


A 29 de Julho de 1642 obteve o privilégio régio de D. João IV para “traduzir e imprimir as relações de França e suas gazetas”.


Diogo Barbosa Machado (Machado: 1966, 664 sgs) indica como tendo publicado as seguintes obras:

Cyparisso. Fabula Mythologica, Lisboa, impressa por Pedro Crasbeeck, 1631.

Elegia e Soneto à morte de João Perez de Montalvão, Madrid, 1639.

Relação da viagem que a França fizerão Francisco de Mello Monteiro mor do Reino, e o Doutor António Coelho de Carvalho hindo por Embaixadores Extraodinários delRey D. João o IV, de gloriosa memoria a ElRey de França Luiz XIII cognominado o Justo no ano de 1641. Lisboa, impresso por Lourenço de Anvers, 1642.

Cathalogo dos Christianissimos Reys de França e das Raynhas suas Esposas prozapia, annos da sua vida, de seu Reinado, e onde estão enterrados, Lisboa, impresso por Domingos Lopes Rosa, 1642.

Index de todos os nomes próprios, que estão no poema de Luiz de Camões, Lisboa, impresso por Antonio Crasbeeck de Mello, 1669.

Ortografia da língua Portuguesa, Lisboa, impresso por João da Costa, 1671.

Flos Sanctorum. Historia das vidas, e obras insignes dos Santos pelo Reverendo Padre Pedro de Ribandaneira da Companhia de Jesus, e de outros Authores traduzida de Castelhano em Portuguez, Lisboa, impresso por Antonio Crasbeek de Mello, 1674.


Outras obras referenciadas como sendo da sua autoria:

História dos Cardeaes Portuguezes;

Odes de Oracio em Verso Portuguez;

Biblioteca Portugueza;

Relação da Viagem, que a armada de Portugal fez à Bahia de todos os santos, e da restauração da cidade de S. Salvador ocupada das armas Olandezas;

Discurso Apologetico sobre a visão do Indo e Ganges introduzido com excellente Prosopopeya pelo insigne, e heróico Poeta Luiz de Camoens em o Canto 4. Dos seus Lusiadas;

Batrachomyomachia de homero;

Geneologia dos Deuses Gentilicos,

Rimas varias.

Outras obras que lhe são atribuídas:

Puras verdades da musa lusitana, compostas por um curioso portuguez, oferecidas a Santo Antonio, Lisboa, impresso por Lourenço de Anvers, 1641.

Rimas de Luiz de Camões Principe dos Poetas Portugueses: Primeira, Segunda, e terceira parte, nesta nova impressam emendadas e acrescentadas pelo licenciado Joan Franco Barreto, Lisboa, impresso por António Crasbeeck de Mello, 1666-1669.




2. Impressores da Gazeta


2.1 Lourenço de Anvers (1599-1679)

Responsável pela impressão da Gazeta entre Novembro de 1641 a Janeiro de 1642 e Outubro de 1642 a Julho de 1643

Com oficina estabelecida na cidade de Lisboa, era Lourenço de Anvers, como o nome indica, de origem flamenga, natural da cidade de Antuérpia. Terá sido aprendiz de Pedro Craesbeeck, igualmente flamengo. Teria tido um filho, de seu nome Lourenço de Anvers Pacheco, igualmente impressor de profissão, embora Diogo Barbosa Machado o indique não como filho, mas sim neto (Machado: 1966, 23). É um dos impressores mais activos por alturas da Restauração, com dezenas de obras publicadas, apologistas dos interesses portugueses face a Castela e de D. João IV. 

“Tem-se como muito provável ter falecido em Lisboa, pelo ano de 1677 ou muito próximo dele” (Morais: 1941, 21).


2.2 Domingos Lopez Rosa  (?-1653)

Impressor das Gazetas no período de Fevereiro de 1642 a Julho de 1642 e de Novembro de 1643 a Agosto de 1648. 

Residente em Lisboa, obteve privilégio por dez anos, em 1639, para impressão de um Manual de Orações e, em 1641, para o Flos Sanctorum de Fr. Diogo do Rosário (Slandes, 1881: 68), sendo também de destacar a impressão de várias obras do Padre António Vieira. 

Impressor que, seja por encomenda, seja por iniciativa própria, tomou parte activa no esforço propagandístico português com dezenas de títulos publicados dentro da temática das guerras da Restauração e de luta pela legitimação do novo regime.


2.3 António Alvarez (1620-1659)

Impressor da Gazeta, de Setembro de 1643 a Outubro de 1643. 

Filho de um outro impressor de origem castelhana e com igual nome, é chamado ao serviço do rei D. João IV, pois que Lourenço de Crasbeeck se mudara de Lisboa para Coimbra, em 1639. 

Utiliza em várias obras a expressão «impressor Del Rei N. Senhor».





Bibliografia

DESLANDES, Venâncio Augusto (1881). Documentos para a história da typographia portugueza nos séculos XVI e XVII. Lisboa: Imprensa Nacional.


DIAS, Eurico Gomes (2006). 
Gazetas da Restauração (1641-1648) – Uma revisão das estratégias diplomático-militares portuguesas (edição transcrita). Lisboa: Instituto Diplomático/Ministério dos Negócios Estrangeiros.


DIAS, Eurico Gomes (2003). Frei Francisco Brandão [1601-1680] – Da poligrafia da História ao contributo para o arranque do periodismo em Portugal no século XVII, 
Revista Militar, Vol. LV, nº12, Lisboa.


DIAS, João Alves (1996). 
Craesbeeck. Uma dinastia de impressores em Portugal. Lisboa: APLA.


MACHADO, Diogo Barbosa de (edição fac-similada de 1966). 
Biblioteca Lusitâna. Vol. III. Coimbra: Atlântida Editora.


MARTINS, Heitor (1964). 
Manuel de Galhegos. Um Poeta Entre a Monarquia Dual e a Restauração. Anadia.


MORAIS, Casimiro Augusto de (1941). 
Lourenço de Anvers, primeiro impressor da «Gazeta» da «Restauração». Lisboa: Grémio Nacional dos Industriais de Tipografia e Fotogravura, Anuário – Oficinas Gráficas.


SILVA, Inocêncio Francisco (1859-1870). 
Diccionário Bibliographico Portuguez. Tomo II. Lisboa.


SILVA, Costa (1850-1855). 
Ensaio biográfico-crítico sobre os melhores poetas portugueses.


SOUSA Jorge Pedro, DUARTE, Carlos, SILVA, Gabriel, SILVA, Nair, DELICATO, Mônica (2008). A génese do jornalismo periódico em Portugal: as Relações de Manuel Severim de Faria e a Gazeta “da Restauração”, 
in Actas das III Jornadas Internacionais de Jornalismo. Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa.


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Jornais UFP,
23 de jun de 2010 11:54