09. Gazeta: Análise linguística

Análise fónico-gráfica, morfo-sintáctica, lexico-semântica e estilística da Gazeta “da Restauração”

Mário Pinto


Proémio

Proceder, a partir da hodiernidade e com base nos seus conceitos, à exegese de um conjunto de textos (as Gazetas da Restauração) grafados e dados à estampa num passado assaz recuado (mais concretamente, há três séculos e meio) e em circunstâncias muito específicas, porque num contexto sócio-cultural, político e económico peculiar, pode constituir um repto aliciante (e, de facto, assim acontece), mas cuja concreção implica a superação de pletora de obstáculos e dificuldades de diversa índole (e não só as decorrentes das transformações gráficas entretanto ocorridas), de que se antevê pejado o percurso.

No essencial, por estar em causa uma época, a Clássica, dotada de uma idiossincrasia muito própria, quer nos reportemos ao seu primeiro período, o designado quinhentismo (1526/1580), quer ao segundo, o seiscentista (que se espraia pelo último quartel do século XVI, todo o XVII e, ainda, a primeira metade do XVIII (1580/1750)), comummente designado gongórico/barroco e cuja característica mais marcante, no que à poesia concerne, é o hermetismo expressivo, que, sendo nele hegemónico, está omnipresente. Com efeito, é na sequência de uma fase a vários títulos estuante da vida nacional e graças à acção da vasta plêiade de artistas – em que pontificam vultos como Gil Vicente, Sá de Miranda, António Ferreira e, acima de todos, Camões, e, na prosa, João de Barros (historiografia), Fernão Mendes Pinto (narrativa de viagens), Bernardim Ribeiro (novela) e Samuel Usque (prosa edificante e doutrinária) –, que com a sua produção enriqueceram de forma substantiva e não menos notória as letras pátrias, que a língua ganha uma maleabilidade e um amadurecimento que fazem deste o período áureo da prosa nacional, tal como o precedente o fora em relação à poesia. E se, na transição ocorrida, esta regride – porque, ao descambar num exagerado rebusco da forma e dos conceitos, se artificializa e futiliza – e assume um estilo afectado, já a prosa, ao invés, fruto da plasticidade que imbui a língua consegue alcandorar-se, e em todos os seus géneros, a uma elegância assinalável. Seja qual for o ângulo sob o qual a perspectivemos: quer se trate da oratória (em que pontificam o Padre António Vieira e o Padre Manuel Bernardes), da didáctica (com Rodrigues Lobo e D. Francisco Manuel de Melo), da epistolar (António Vieira e Francisco Manuel de Melo) ou da histórica, é o esplendor da prosa barroca, incisiva, penetrante, mas sempre de uma riqueza ímpar.

Características que vêm acrescer ao carácter ciclópico do repto antes referido outras dificuldades, e não de menor monta, entre as quais se destaca a ontogénese entretanto ocorrida (e ainda em curso), que mais complexifica a concreção da tarefa. Desde logo porque, não sendo a língua um corpo inerte, antes algo em permanente devir, seja na sua estrutura seja na semântica, ab initio se adivinhava dela irem emanar surpresas mais ou menos impactantes, e se receavam obstáculos de envergadura, que a disquisição efectuada só parcialmente veio confirmar. De facto, o que mesmo uma primeira leitura (de superfície, mas sem ser à vol d’oiseau) permite inferir – quem sabe se devido ao género que lhe subjaz (o jornalístico) ou ao tom coloquial que, pontualmente, os embebe – é a inexistência de verdadeiras barreiras intransponíveis para a intelecção do narrado, além de ser digno de realce o rigor e correcção dos textos em análise. Ademais, graças a uma construção frásica em que, em perfeita simbiose, se mesclam e fundem a ordem sintáctica lógica (que visa a correcção) e a ordem sintáctica psicológica (que busca a riqueza expressiva), o resultado é um texto vivo, apelativo, motivador.

Após este sucinto preâmbulo contextualizador, passemos então à análise do conjunto dos textos em apreço, a qual terá necessariamente de ser compartimentada de molde a permitir equacionar as vertentes mais pertinentes – fónico-gráfica, morfo-sintáctica, léxico-semântica e estilística –, contempladas, sempre que possível, de diferentes prismas.

 

1. Fónico-gráfica

Começando pela vertente em epígrafe a análise ora empreendida, convém desde já esclarecer que, apesar de a mesma contemplar duas perspectivas (diferentes mas complementares, imbricadamente interligadas), a opção aqui seguida incide preferencialmente sobre a segunda - sem que tal possa significar, tampouco indiciar, a depreciação da componente fónica, outrossim relevante, mas que, dado estar em causa a exegese de um livro, cujo modo de veiculação da mensagem é o plasmado na forma gráfica, consideramos, neste âmbito, menos pertinente -, vertente em que nos propomos equacionar antes a questão ortográfica.

Questão que, lato sensu considerada, consubstancia um tema pouco pacífico, quando não um extremar de posições - precipuamente por a seu respeito pontificarem as mais díspares sensibilidades, não raro antagónicas - razão bastante para ser por muitos reputada mais do que mero problema cultural, um problema social e político. O que torna por demais melindrosa a sua abordagem.

Sendo, por definição, a ortografia a “forma correcta de escrever as palavras”, importa ter presente não ser a imutabilidade seu apanágio, sequer condição sine qua non, mas, antes, ter esta sofrido, ao longo dos tempos, alterações mais ou menos profundas, destarte variando o conceito do que é ou não correcto. E se à data em que estes textos foram redigidos, e vieram a lume, a grafia usada - que, impõe-se sublinhá-lo, não estava ainda definitivamente fixada ‒ era a reputada apropriada (tanto quanto a construção frásica), não menos verdade é não constituir tarefa de fácil consecução para o leitor hodierno manter omnipresente este condicionalismo, ou seja, nem por instantes elidir que o texto a cuja consulta procede se reporta a um outro momento, existindo entre ambos (o de produção e o de leitura) um hiato de quase quatro séculos. Lapso temporal que, pela sua dilação, assaz ampla, não pode ter ocorrido sem ocasionar modificações na grafia dos vocábulos - independentemente da riqueza conteudística do texto como documento da vivência de uma época - mudanças que> para o passado, como os exemplos a seguir aduzidos demonstram, o que, num momento de desatenção, pode situar o texto no limiar do non-sens,

 

67

Os Castelhanos que assistem de guarnição nas vilas, que estão fronteiras da província da Beira, entraraõ nos nossos campos, e deraõ no lugar de Forcalhos, de onde se retiraraõ com grandíssimo número de gado, depois de haverem feito algumas hostilidades. Logo se juntaraõ os nossos, e foraõ inquietar os lugares de Castela por aquela parte, que responde a Albergaria e trouxeraõ de lá muito maior quantidade de gado, que a que eles nos haviaõ tomado. Sentiu-se o dano de parte a parte, e assentaraõ que cada um restituísse tudo aquilo […] vieram os Castelhanos da Vila de S. Martim, e entraraõ na aldeia de Fuinhos, donde fizeraõ algum dano, e levaraõ umas poucas de ovelhas que andavaõ pascendo nos montes.

72

De algumas praças, que em Catalunha estão por el Rei Filipe, sairaõ os Castelhanos e procuraraõ descompor o sitio das tropas Francesas, que estão sobre Tarragona, mas não as puderão desalojar (…). […]

Duas galés del Rei Filipe partirão de Cartagena de levante para Génova com 500U. cruzados, padeceraõ grandes tormentas no golfo de Leão e chegarão mui destraçadas.

 

e, por outro lado, as que se reportam às concordâncias sujeito (plural) / predicado (singular):

 

159

As levas, que para a mesma defensa fez Dom Paulo Jordão vem mui devagar, pelo receio que tem (como se entende) de perder a maior parte de seus bens, que tem em Florença.

165

Tem sido as chuvas tão grandes em Catalunha, e particularmente nos bairros onde os castelhanos estavam alojados (…).

287

Escrevem-nos de Itália, que nossas forças […] tem começado a abrir suas trincheiras (…).

… que os nossos generais a tem preferido a quantas podiam esperar em esta campanha (…).

… como defeito nos escrevem de Lérida, que os castelhanos tem cercado Monção, e que tem ordem de dar batalha com a chegada de (…).

359

Porém, não obstante todas estas prevẽnções, os franceses novamente se tẽ apoderado da forte cidade das Rosas (…).

 

Impõe-se, por isso, para ab initio nos situarmos e obstar a desnecessários e perigosos quiproquós, não elidir que, conquanto globalmente considerados os textos sejam paradigma de escrita tersa, casos há em que devido ao lapso temporal antes referido possam apresentar dificuldades pontuais, decorrentes, precipuamente, da grafia à época usada (e, insistimos, convém não obnubilar tratar-se de um período em que esta ainda não está fixada, ainda não se apresenta como hoje a conhecemos).

Condicionalismo agravado pelo uso de uma escrita que, imbuída de certas liberdades, evidencia foros de indefinição, de aleatório, se traduz em formas dissemelhantes (não raro insólitas) para o mesmo vocábulo:

 

1. junto ou separado:

 

78

Fizerão os nossos tantos actos de valor na entrada de Enzinasola, (…).

79

… com a sua gente para dali marchar à EnzinaSola. […]

… lhe trouxeram os seus soldados dois espias um de Enzina Sola, (…).

125

 … do Turco, que ainda que tem com ele tréguas, todavia parece o quer cometer e entrar naquele reino (…).

126

… ainda que com ele tem suspensão de armas por 26 anos, toda via está cada qual desconfiado, por estarem ambos com as armas nas mãos.

163

O exército sueco está descansando ao redor de Leipzic, que toda via está muito apertada.

329

Querendo entrar o Núncio de Sua Santidade em Munster, mandou avisar aos embaixadores para lhe mandarem fazer cortejo de suas carroças, e gentishomens, como é costume, e assim resolveu Monsieur de Avoax Plenipotenciário de França a mandar a sua com doze gentis homens em seus cavalos (…).

 

2. com z ou com s:

 

288

… aos quais fizerão retirar até às trincheiras, e matando muitos, fiserão mais a seis prisioneiros (…).

290

… que se quisessem aceitar o combate, que ele lhes meteria nas mãos o castelo do dito Monção: (…). E partindo-se deixou ao senhor Baltasar de emboscada com 150 cavalos, para dar nos inimigos quando o quizessem seguir (…).

316

O Príncipe de Condé na volta que fez de Borgonha deu à luz um excelentíssimo livro, que compôs em honra do Santíssimo Sacramento (…). E não há muito que o duque de Enguien seu filho deu à lus outro excelentíssimo da Eloquência; (…).

376

… que as coisas dos católicos irlandeses vão cada vez de bem (…).

387

…quando segunda ves o tornou a encontrar o sobredito soldado (…).

 

3. com ou sem h inicial:

 

135

… e foi ver sua sogra, e sua única filha, que avia deixado no berço. […] Entraram os embaixadores, e depois de haverem saudado a el-rei, lhe pediram que (…).

136

… e que se el-rei Frederico se havia governado de outra maneira, se avia de atribuir à falta de seu secretário, e se não devia tirar daí a consequência.

169

… que uma hora antes de morrer avia enviado os mesmos mensageiros a el-rei com o mesmo vigor de espírito, com que o pudera aver feito em o ponto da sua mais inteira saúde. Sua afeição ao serviço, e pessoa del-rei, além do que se avia manifestado (…). Pendente todo o curso desta última enfermidade, como também avia feito em todas as precedentes (…).

 

Caso particular, este (do verbo haver sem o h inicial), de que resulta a coincidência, por demais óbvia, com outras formas verbais, e, daí decorrente, a possibilidade de com elas ser confundido (na situação em apreço com os verbos ouvir e agir) dando origem aos sempre perniciosos equívocos, aqui perspicuamente patentes:

                              

Haver

Ouvir

340

 

Ouve nesta cidade de Lérida uma grande traição por alguns catalães (…).

139

Por todo este reino não se ouve mais que tocar caixas para fazer levas de gente.

346

Em a cidade de Windsor ouve uma grande sedição entre os soldados do presídio (…).

 

 

348

… e ouve uma audiência particular de sua Santidade.

 

 

347

Espera-se todavia que entre estas duas coroas aja algum bom concerto.

 

 

376

… e assim sòmente querem que não aja mais que 2 que são Baptismo e Matrimónio: (…).

 

 

 

Confusões que não são, no entanto, as únicas (nem tampouco as mais graves); muitas outras podem ocorrer e não menos nefastas para o sentido do veiculado, como em:

 

114

Em resposta das quatro preposições sobreditas, fez el-rei outras quatro (…).

135

Suas preposições eram, que el-rei da Dinamarca quisesse fazer continuar o tratado começado (…).

136

… o que foi tido por um grande absurdo: e mostrando os Danos espantar-se destas proposições, o intérprete lhes disse que (…)

 

 

 

100

… correram todo aquele distrito, donde mataram dezoito cegadores, e feriram outros tantos;

104

Escandalizado o comissário […] da impiedade com que os castelhanos mataram os segadores de Campo Maior: vingou este agravo (…).

103

Vieram 600 castelhanos a Vilar Formoso para impedir aos nossos o cegar o trigo: (…).

104

Querendo uns lavradores de Almeida ir segar os seus trigos à raia (…).

 

ou, a concluir, pletora de outras, que, conquanto destituídas de gravidade similar, nem por isso deixam de suscitar a dúvida e afectar a descodificação e compreensão da mensagem:

 

104

… e as chamas espantaram os cavalos do inimigo e o fizeram retirar apreçado e descomposto.

346

O qual sucesso fora ainda maior se os suecos não foram tão apressados, (…).

 

 

161

… foi resoluto pelo senhor de Ayquabonna […] que o Marquez  de Pianazza, se fosse pela parte de Verrue […]. Acentado isto, as tropas chegaram a vistar o Castelo (…).

165

Assí que estando aparelhados para este fim, acentarão seu campo junto a Fráguas, não podendo ir mais avante (…).

380

… que é uma cidade magnífica, e por causa de seu sitio, e assento natural muito forte, e fermosa, e uma das maiores da Europa: (…).

 

 

333

… fez a retirada o Marquez de Aumont, com duzentos cavalos somente, (…).

337

… o Marques de Ruhac (tio do Conde dos Arcos portuguez), (…).

 

 

344

Depois de tomada a famosa fortaleza […] e províncias inteiras pelas armas vitoriosas do Duque de Enguien, o dito Duque investiu a grande cidade Eleitoral de Maguncia, a qual vendo que não podia resistir às armas francesas se resolveu a levar as chaves ao victorioso, (…).

 

 

2. Morfo-sintáctica

 

2.1. Verbo

Prosseguindo, agora da perspectiva acima titulada, a presente análise, o que de imediato chama a atenção, neste âmbito, é a preocupação dos autores[1] dos textos com a criteriosa utilização do verbo: reconhecendo o lugar chave por este desempenhado como núcleo da oração (e da frase), é notório o seu desvelo em lhe conferirem essa posição charneira, usando-o copiosa mas proficientemente na mais vasta panóplia de situações, de modo a tirar pleno partido dos diferentes modos, tempos, conjugações, aspectos (perfectivo, imperfectivo, pontual (incoativo, inceptivo e cessativo) e durativo (iterativo e frequentativo)) e, inclusive, de cambiantes (do verbo de pendor superlativante ao encomiástico, passando pelo depreciativo).

Se, por motivos óbvios, pontifica o indicativo (modo que apresenta o enunciado como real), ainda que sem ser hegemónico, também o conjuntivo é amplamente usado - apesar de, nele, o enunciado ser apresentado como mera possibilidade, desejo, eventualidade ou dúvida, e apesar ainda das consequências que tal atitude de incerteza, que lhe é ingénita, pode produzir no espírito do leitor -, sempre que as circunstâncias o exigem ou quando o contexto prova ser o mais indicado. Como, aliás, aqui acontece, além de em numerosas outras situações ao longo dos textos, mesmo a contrario sensu da opinião que postula que, por o conjuntivo ter um tom abstracto e intelectual, é pouco estimado pela linguagem corrente, a qual prefere às incertezas e hipóteses deste as realidades presentes do indicativo.

 

93

… com as suas companhias numa emboscada para que assaltassem a cavalaria do inimigo, em caso que viesse por aquele sitio (…).

128

… com o que se retirou a seu presídio, sem que os d’el-rei lho pudessem impedir.

129

… até que eles mostrem por obras a quem estão inclinados.

132

… à qual por duas vezes mandou avisar que se rendesse; […] enviando aos 23. um morador do lugar, que estava prisioneiro, a que se rendessem e não os obrigassem a tomar a praça por força (…).

136

… se fizesse rebaptizar, e fizesse profissão de sua religião; […] que por este meio pudesse acrescentar tanto o seu estado (…).

140

… para que quando entrasse a cavalaria, não pudesse romper […]; entendendo que achasse a cavalaria del-rei, porém chegou tarde.

322

… que assistisse aos Círculos, que é uma hora depois de jantar, em que lhe assistem os Príncipes de la sangre, mais seus validos (…).

354

… um buraco por onde sua Eminência e o sobredito mestre de cerimónias pudessem passar com a cruz (…).

361

… para que dissesse a D. Diogo Cavaleiro, que não esperasse o último extremo (…).

377

… com condição que lhes não entrassem em suas casas para roubar: e que se tornassem lá os havião de matar, ou enforcar; (…).

 

Maior décalage de uso é a verificada em relação aos tempos, que, é consabido, indicam o momento em que se situa o enunciado expresso pelo verbo. Com efeito, radicando a essência das gazetas no relato de factos ocorridos, é tão expectável que os tempos preferencialmente usados sejam os que remetem para o passado, precipuamente o pretérito perfeito simples (tempo da fugacidade por excelência),

 

70-71

Com a vitória que o exército dos católicos da Irlanda alcançou do conde de Lesle na província de Vltonia se assegurou aquela cristandade de maneira, que até de Londres se avisa, que não ficou vivo em Irlanda nenhum protestante.

333-334

Os franceses, que têm o campo à sua vista, aos oito deste mês rebateram a sua grande guarda de cavalaria, com tanta confusão que chegaram até seus quartéis, onde o alarma foi tal, que todo seu exército se pôs em batalha detrás das trincheiras, fez a retirada o Marquez de Aumont, com duzentos cavalos somente, os quais fizeram testa a toda a cavalaria dos cercadores. Perderam ali os franceses um capitão […] mas a perda dos Bravareses foi muito maior ainda que o general Meruy escreveu uma carta, que os franceses alcançaram, a qual os espantou muito: porque nela fazia uma grande relação de uma batalha, em que dizia desbaratara quatro regimentos franceses, e lhes ganhara duzentos cavalos; querendo por esta fingida vitória, escurecer a memória da grande revolta, que há pouco lhe deu o marechal de Turena.

 

quanto ser residual o emprego do futuro, que, por razões demasiado evidentes, só em circunstâncias muito peculiares (como as aqui enunciadas) terá cabimento:

 

124

… e cada qual com grande vigilância à mira para ver quem se descuida, que se arriscará a uma desgraça.

331

… está já Embaixador Turco, que partirá para esta Corte, tanto que o nosso se puser a caminho.

337

Está nomeado por Embaixador ordinário de Portugal o Marquês de Ruhac […] o qual partirá brevemente.

347

Fugiu de Madrid com sua mulher D. João de Menezes, e está já no reino de França, donde passará a Portugal mui brevemente. Para Catalunha […] Monsieur de Ancurt, Príncipe da casa Lorena, que partirá por todo mês de Janeiro, e são já partidos todos os demais (…).

385

… espera-se aviso mais certo, e se dirá na Gazeta futura.

 

Idêntica dicotomia se verifica, e com não menor prodigalidade, no que à preferência de uso entre o tempo simples e o composto concerne, mormente quando o primeiro se revela insuficiente para explanar com total pregnância a ideia pretendida. Caso em que os autores não hesitam em recorrer ao tempo composto, opção na qual, ao contrário dos nossos dias - em que as formas que usam o verbo haver são consideradas artificiais - , é iniludível o equilíbrio de utilização entre os auxiliares ter e haver:

 

64

… depois de ter caçado aos religiosos que lhe assistiam, e a muitas outras pessoas.

111

… que os Suecos tinham cercado a Brim na Morávia (…).

119

… aonde havia levantado um trono sobre quatro degraus (…).

121

O Duque da Baviera tem mandado grande socorro de dinheiro, (…).

124

Tinham os castelhanos tomado três fortalezas aos franceses (…).

136

… igual honra à que havia recebido do conde de Woldemar, que el-rei da Dinamarca lhe havia mandado com a embaixada do Inverno passado. Os moscovitas depois de haverem dado seus presentes a el-rei (…).

137

E depois que o mesmo coronel saiu a campanha, tem ganhado aos mesmos (…)

143

E porque a maior parte dos soldados do exército imperial, principalmente das novas levas, se tem acolhido a grandes tropas, se tem ordenado por todo este país, que os vão logo prender (…).

144

Tem-se má satisfação em Viena do general Picolomini, por haver levantado o cerco da cidade de Grosglogaw […]; que não havia recebido o socorro, e as munições, que lhe eram prometidas: que os suecos havendo passado a ribeira do Oder, se haviam alojado entre seu […], e enfim, que os suecos havendo lançado 2 homens (…).

278

Alguns são acusados de haverem chamado o inimigo; outros de o haverem avisado, (…).

119

A catorze de Agosto havendo sido eleita para estas cerimónias (…).

136

… e havia sido derribado desde seus alicerces no tempo das guerras passadas.

 

Sendo, ainda (na situação em que a preferência vai para o auxiliar haver), inequívoca outra particularidade (quase propensão): a de, além deste e do particípio, se utilizar mais um verbo, regra geral no infinitivo:

 

157

Os moradores, que haviam ido apresentar-se a sua Eminência, (…).

145

havendo feito fazer detrás da brecha um fosso coberto de paliçada e abrolhos.

146

… e disseram mandasse logo tirar dali o potro, que havia mandado vir para seu castigo (…).

156

… e havendo feito prender os autores, o duque de Bovillon, que era um deles (…).

301

havendo feito esconder ante manhã 50 soldados seus em um fosso próximo às muralhas da cidade;

303

… o cavaleiro Waller, havendo feito atirar dez ou doze balas de artilharia contra o castelo (…).

304

… e havendo-lhe ela feito saber que ainda não estava reduzida a aceitar estes testemunhos (…).

 

o que nos remete para o âmbito da conjugação perifrástica, no caso de o conceito a veicular o aconselhar, razão por que é tão profusamente empregada (amiúde na mesma página), e com diferentes cambiantes, que tanto podem passar pela combinatória do auxiliar (no tempo que se quer conjugar) com o verbo principal

 

1. no infinitivo:

 

68

… lhes daria bom quartel se quisessem estar por el-rei Dom João de Portugal.

70

… e numa praça pública o mandaram enforcar por conduzir um exército sem ordem do seu rei.

80

… e o capitão mor Manuel de Mello mandou formar outro da sua gente.

… e vendo que ao terço do mestre de campo lhe tocava, procurou ocupar aquele posto com a sua companhia e o conseguiu (…)

99

… e que os nossos os fizeram retirar com morte de muita gente.

… mas o monteiro-mor mandou pegar fogo a todas as casas, e a maior parte delas se abrasou.

102

Mandou tocar a recolher, formou o esquadrão e retirou-se (…).

103

vieram-se-lhe meter nas mãos os inimigos com a presa.

135

… que el-rei da Dinamarca quisesse fazer continuar o tratado começado (…).

156

… ficando sujeitos à vontade de sua Eminência de os querer tornar mandar pelo mesmo caminho a Milão.

393

Porém os ministros de Castela começam a recear que tomem (…)

 

2. no gerúndio:

               

67

… e levaram umas poucas ovelhas que andavam pascendo nos montes.

… por melhor dissimular o seu intento, foi marchando para a vila de Alfaiates;

80

… alguma gente foi ordenando os homens que levava. […]

Foi-se chegando ao lugar, o qual esperou aquela primeira fúria (…).

87

… donde fizeram presa no gado que andava pastando mui longe dos muros.

Chegou ao posto, de onde se viu a cavalaria do inimigo, que andava escaramuçando junto às suas trincheiras (…).

89

… e os foram seguindo até Vilar de Servo, que está meia légua daquela vila (…).

93

... querendo saber o seu desenho (…).

andava correndo a raia (…).

99

… já vinha acudindo socorro da vila (…).

101

… se recolheram levando o mesmo santo com grande festa (…).

102

vinha acudindo socorro de várias partes.

107

O Mariscal de la Mothe vai entrando pelo Reyno (…).

 

3. ou pela utilização simultânea de ambos na mesma frase, como aqui:

69

… que a foi esperar ao canal para a vir acompanhando (…).

75

… e depois de fazerem recolher o inimigo com grandíssimo dano foram saqueando o lugar, e se pôs fogo à maior parte dele.

Estão declarados os capitães da armada real, que se vai aprestando para sair este verão (…). Vão-se alistando os nobres, e os privilegiados nos quatro terços (…)

80

procurou ocupar aquele posto com a sua companhia e o conseguiu com beneplácito do mestre de campo. Foi-se chegando ao lugar, o qual esperou aquela primeira fúria tão bem fortificado (…).

97

querendo sagrar uma igreja mandou desenterrar os ossos de uns bispos protestantes (…).

 

E, a concluir este parâmetro, uma breve referência ao aspecto, que, servindo para exprimir o desenrolar da acção designada pelo verbo, está intimamente relacionado com a noção de tempo: criteriosamente explorado (como, por norma, acontece), tanto pode assumir (e conferir) um pendor incoativo (a indiciar o progressivo desenrolar da acção):

 

129

Mas como agora vai entrando o Inverno, e também as guerras de Inglaterra se vão picando cada ves mais (…).

 

quanto durativo (prolongamento da acção pelo tempo):

 

68

El-rei Cristianíssimo tem junto infinita gente de guerra em Narbona: e em troços a vai comboiando toda para Barcelona.

 

quanto, ainda, iterativo (a repetição frequente da acção):

 

338

… até cujas portas vieram alguns do regimento de Gassion a escaramuçar com os inimigos;

 

Aliás, só esta proficiente utilização das categorias (modos, tempos, formas nominais e adverbiais, vozes e aspectos) e das conjugações verbais, em permanente alternância e meticulosamente concatenadas, consegue imbuir o texto da ductilidade capaz de debelar o tom pesado adveniente do reiterado emprego do gerúndio (que, é consabido, ao apresentar a acção ou o estado no seu desenrolar ou na sua durabilidade propende para o arrastamento).

 

 

2.1.1. Gerúndio

Vício de construção (quase) omnipresente na escrita hodierna, a propensão para o uso abusivo do gerúndio, a raiar a endorréia, em cujo limiar fica - mesmo em contextos em que outras construções (designadamente a oração relativa ou a infinitiva) o substituiriam com inquestionável vantagem para a inteligibilidade da frase - é um facto irrefutável de que, afinal, as próprias gazetas já enfermavam, mas cujas origens se desconhecem. Tal como se ignoram as determinantes que subjazem a semelhante pandemia, consubstanciada num emprego pouco vernáculo, contrário aos usos da linguagem clássica e popular (porque infeliz transposição da construção francesa) e, ademais, destituído de suporte legitimador.

Uso que, malgré tout, persiste, apesar do rigor das normativas gramaticais na regulamentação da sua utilização, quer do simples quer do composto, bem como do seu posicionamento na oração (se anteposto, se posposto à oração principal, situação em que indica uma acção e, em geral, equivale a uma oração coordenada introduzida pela conjunção e).

O que não pode deixar de ser causa de perplexidade, visto também não subsistirem dúvidas de que, em casos pontuais, o seu emprego traz vantagens estilísticas - em particular quando o conteúdo a veicular justifica plenamente o tom arrastado que o gerúndio imprime à frase -, ainda que tal não legitime o seu uso obsessivo, que é o coevo tal como já o era nas gazetas, e de que os próximos quadros (em que ora surge isolado, ora em versão dupla e tripla) são pálida demonstração:

 

93

… foi visto de Valadares marchando com muita gente de guerra: (…).

deixando os capitães […] com as suas companhias numa emboscada (…)

106

… andam com 33 velas do estado de Olanda cruzando o canal (…).

94

… vieram ao seu serviço trazendo também em sua companhia (…)

290

E partindo-se deixou ao senhor Baltazar de emboscada (…).

95

… se haviam retirado de Flandres deixando os seus postos (…).

303

… e passando ali a ribeira, se avançou um pouco ao lado (…).

100

… dois homens falsificando o cunho da moeda (...).

347

… a foram esperar, e descobrindo todas suas velas, deixaram passar (…)

102

… e pondo as pernas ao cavalo rompeu um troço do inimigo de 400 homens (…)

348

… queimar […] a almofada da cama, deixando tal fedor que (…).

 

93

Porém os da emboscada ouvindo disparar dois mosquetes, saíram ao campo cortando o caminho (…).

95

… entram pelas fronteiras de Castela, fazendo presas de grande estimação, e fortificando-se cada vez mais.

111

sabendo o grande aperto em que a cidade estava, e considerando de quanta importância era, se resolveu a socorrê-la, e ajuntando para isto quantas forças pôde (…).

entendendo que o arquiduque Leopoldo vinha marchando para o buscar (…).

126

… que agora vai ordenando e tratando uma assembleia (…).

298

Mylord Hopton indo marchando para a província de Kent, tomou a cidade (…).

323

Como algumas tropas de infantaria, e cavalaria do Duque de Orleães iam entrando por Flandres, e faziam grande destruição abrasando e assolando quanto podiam; chegaram às portas de (…).

375

Sua Majestade britânica se vai reparando e ajuntando gente, (…).

385

… que por Escócia andão campeando e fazendo notáveis perdas e danos (…)

 

Inferência imediata do conjunto de exemplos antes aduzidos - ínfima parte (mesmo se acrescida dos coligidos na rubrica precedente) dos usados ao longo dos textos das gazetas -, é ser recorrente a utilização desta forma adverbial do verbo. Constatação que (hipótese não despicienda, antes plausível), terá levado os autores dos textos, a fim de evitarem incorrer no risco de lhes conferir um tom de arrastamento – não obstante, na maior parte dos casos ser criteriosamente usada quer para traduzir a ideia de continuidade, de perduração da acção (de que certas páginas constituem casos paradigmáticos) quer para realçar os perniciosos efeitos desta – a recorrerem a combinações que, ao mesmo tempo que lhes permitiam ultrapassar esse handicap, viabilizavam a agilização do relato dotando-o de uma vivacidade susceptível de traduzir com rigor a consentaneidade acção/relato. Socorrendo-se, para tal, do emprego do pretérito perfeito, que, magistralmente combinado com o gerúndio, quebra o impacto dolente deste, dando origem a uma exemplar alternância rítmica (ora lenta, ora rápida), sem hegemonia de qualquer deles, de que resulta ganhar a frase em expressividade e eufonia. Como os próximos quadros demonstram sobejamente:

 

90

ganharam, e saquearam o lugar, e pegaram fogo à maior parte dele. Logo foi o tenente general daí a meia légua a um lugar, que chamam Castelejo com uma companhia de cavalos, e outra de mosqueteiros, e lhe pôs também o fogo: com o que se retiraram os nossos vitoriosos, deixando mortos gran número de Castelhanos, e trazendo 90 prisioneiros.

336

… o qual havendo tão pouco tempo, ou dias, que alcançara uma tão grande vitória, dos Parlamentários, vencendo, e desbaratando em batalha campal […] se mudou contra ele a fortuna (digamos assim) de maneira, que encontrando-se outra vez com os do mesmo partido, junto à cidade de York, que cercado tinham, alcançaram dele os Parlamentários uma vitória tal, que se diz, fugiu Sua Majestade vencido para Irlanda; ainda que outros afirmam que não se sabe dele;

337-338

O qual partiu de Perona aos vinte e dois de Maio, e levou seu campo junto a Baupame, […] onde soube que o marechal de la Milharé havia por ali passado o Sábado precedente; aos 25, foi de São Pol a Fruges; aos 26 a Niella, e passou no mesmo dia depois do jantar à vista de Santo Omer, até cujas portas vieram alguns do regimento de Gassion a escaramuçar com os inimigos; e tomando este exército a derrota de Polincoua, se foi a Zouaf, donde enviou ao marechal de la Milharé 500. homens que lhe pediu a cargo do marechal de Gassion, e se foi a Ardres, onde tomou algumas peças de artilharia, e deu as ordens necessárias, para tomarem o forte de Bajetta. Aos 28, deixando o resto do seu exército em seu campo junto a Marc, uma légua de Calés, se foi a Calés, onde pelas oito da tarde recebeu uma carta do marechal de Gassion, em que lhe dava aviso de como o marechal de la Milharé havia tomado o dito forte de Bajetta (…).

341

… quando chegou do castelo o governador Francês, e matando aos catalães traidores, rebateu aos castelhanos, obrigando-os a se recolher a suas trincheiras.

346

O general maior Carlos Gustavo sueco desbaratou uma armada de el-rei da Dinamarca, que constava de 17 navios: dos quais tomou 10, queimou 2 e meteu os demais no fundo, fazendo prisioneiros (…). […]

El-rei da Dinamarca mandou contra ele 1500 cavalos escolhidos, com IU. dragões para lhe dar na retaguarda, mas os suecos que estavam de emboscada, se deram tão boa manha, que dando sobre eles com facilidade os desbarataram de todo matando 1500 e ferindo e cativando os demais. O qual sucesso fora ainda maior se os suecos não foram tão apressados, por quanto todo exército Dano ia já pela outra parte.

354

… mestres de cerimónias, tomaram a cruz, cantando entretanto os músicos da capela. E indo sua Eminência diante, foram à loja da bênção, fazendo derribar o muro das janelas da dita loja, e fazendo apenas um buraco por onde sua Eminência e o sobredito mestre de cerimónias pudessem passar com a cruz, mostraram ao povo, que estava esperando com grande desejo na praça (…).

 

 

2.1.2. Particípio passado

Abundantemente usado ao longo dos textos em apreço, que dele retiram inegável proficuidade, o particípio passado merece-nos, ainda assim, um breve comentário (feito, como é evidente, à luz das normativas vigentes).

Apesar de consabida a sua importância - no dizer de Celso Cunha e Lindley Cintra (1986: 491) o particípio desempenha “importantíssimo papel no sistema do verbo com permitir a formação dos tempos compostos que exprimem o aspecto conclusivo do processo verbal” -, nem isso obsta a que seja tão maltratado quanto o é na sua utilização diária. Sendo nos casos em que o verbo tem dois particípios (um regular e outro irregular, este derivado do latim por via erudita) - situação em que, ensina a norma, a forma irregular se emprega nos tempos compostos com os auxiliares ser e estar, e a forma regular é utilizada para a formação dos tempos compostos com os auxiliares ter e haver - que são perpetrados os maiores atropelos.

Mas será assim tão determinante a diferença? A resposta só pode ser peremptoriamente afirmativa. E porquê?, perguntar-se-á. Deixemos à proficiência de Rodrigues Lapa (1979: 214) a explicação:

 

Nos chamados particípios irregulares (morto, aceso, ganho, gasto, salvo, etc.), a forma verbal cristalizou, por assim dizer, num adjectivo. Uma vez concluída a acção, surgiu um estado que necessita de ser definido por meio de um adjectivo verbal. Por isso se diz: “O homem está morto”. […] são verdadeiros adjectivos que caracterizam o sujeito. Já se dissermos: “Têm matado todas as perdizes” ‒ o particípio regular dá-nos uma noção verbal, activa, do fenómeno realizado.

 

Observações cuja pertinência e justeza é fácil confirmar. Basta, para tal, recorrer aos exemplos aduzidos, em que o primeiro quadro, ao materializar um conjunto de construções correctas,

 

137

E depois que o mesmo coronel saiu a campanha, tem ganhado aos mesmos 6 castelos (…).

287

E assim chegou uma hora ante manhã às portas do dito Castelo, e havendo ganhado a primeira, atacou um petardo à segunda (…).

302

… as escadas foram plantadas, 24 passos de cortina ganhados em um quarto de hora (…)

306

O que conhecendo o presídio, que já havia ganhado a meia lua, os acompanhou (…).

402

… se soube como Orbitello se tinha também entregado aos franceses.

 

torna ainda mais notória, à luz desta teoria, a inadequada utilização do particípio ‘morto’ no segundo. No entanto, o Mestre vai ainda mais longe na explanação do seu pensamento, acrescentando: “Em resumo: com os particípios irregulares exprimimos sobretudo o estado; com os regulares traduzimos a acção. Os primeiros têm um carácter parado, estático; os segundos são vivos e dinâmicos.”

E se nos detivermos sobre o próximo conjunto, irrefutável se torna que nos exemplos com o particípio ‘morto’ se perde o impacto da acção, a representação do acto execrável que o assassínio materializa, e concomitantemente, se esbate a vertente hedionda que o acto em si consubstancia e o particípio matado traduziria em toda a sua crueza:

 

97

… e que sendo presas pelo delito confessaram que elas o haviam morto; (…).

286

… e depois de haverem morto duzentos Turcos que se quiseram opor contra eles (…).

292

… onde os atacou com tanto vigor que depois de haver morto alguns, os outros se renderam.

 

 

2.2. Adjectivo

Não menos impactante do que a pluralidade de utilizações do verbo é a omnipresença do adjectivo, que, não obstante ser o elemento fundamental da caracterização deve, num discurso com as especificidades e o cariz deste (informativo), ser de uso parcimonioso, até porque, como Vicente Huidobro assevera, “o adjectivo quando não dá vida, mata”. Ora, o que pelo contrário aqui acontece é ser o adjectivo profusamente usado, constituindo mesmo uma das marcas peculiares dos textos destas gazetas. O que colide com as normativas vigentes. Se, por um lado, isto pode não constituir surpresa, dado o tom que impregna certas afirmações ser assumidamente valorativo, a verdade, contudo, é que o recurso sistemático à adjectivação (amiúde dupla e, pontualmente, tripla) aliado à não menos reiterada utilização dos superlativos (relativos e absolutos, sintético e analítico) acaba, por outro lado, por conferir ao global do texto um pendor marcadamente laudatório, quase o transformando num discurso panegírico (em cujo limiar fica), dificilmente compaginável com a neutralidade reclamada pelo estilo informativo.

Afirmação que os próximos quadros demonstram cabalmente, a começar pela dupla e tripla (e quádrupla) adjectivação:

 

70

… afirmam pessoas graves e dignas de todo o crédito (…)

106

… donde por ser terra fragosa, e inexpugnável pelo sitio, (…).

124

… a pessoa que estiver aclamada e levantada do povo por rei (…).

128

… 300 ou 400 moços levantados e armados (…).

283

… muito bem recebidos e tratados (…).

289

… um país tão estéril e tão arruinado (…).

314

… que em sua larga e perigosa navegação teve (…).

316

… que reprovava a devação de tão nobre e tão augusto mistério.

364

… que o dito governador é muito digno e merecedor de todas as honras (…).

374

… e outros fidalgos alentados e briosos, aconselharam a el-rei que (…).

… que a dos Parlamentares pela maior parte era canalha popular e visonha.

376

… acrescentam algumas palavras ridículas e supersticiosas: (…).

379

… nomeou por seu general, depois de ficar ferido e vencido Dom André (…).

380

… visto haverem sido vencidos e desbaratados, os que quiseram e não puderam socorrê-la.

381

Tem um grande e forte castelo que edificou o Imperador Carlos V (…)

 

 

 

124

… será recebida e admitida e confirmada por rei (…).

376

Saiu agora no reino de Inglaterra um livro impresso muito perverso e pernicioso; (…).

 

 

 

381

Esta é uma praça marítima situada entre […]. Antiga, e noutro tempo famosa e magnífica: mas é nos tempos presentes (…).

 

passando depois pelos diferentes graus, em que o comparativo (aqui de superioridade) é esporádico,

 

366

… revestidos de uma pedra mais dura que o mármore: (…).

 

o superlativo, na variante relativo de superioridade, igualmente parcimonioso,

 

344

... e outras muitas pessoas das mais notáveis desta corte (…).

346

… e prenderam agora ao general maior Browne, um dos mais afeiçoados que a parte do Parlamentários de Londres tem.

366

… começando assi a tomar posse de uma praça das mais consideráveis de Espanha: (…)

380

… e uma das maiores da Europa: com grandíssimos arrabaldes (…).

397

… e por sua fortaleza a mais segura chave deste reino (…).

 

 por contraste com o absoluto, que tem lugar destacado, seja como composto,

 

91

… mui barato  […]… muito ricos[2]

283

… mil Irlandeses muito bem armados (…).

92

… mui aparentado

322

…presentes muy gaandicsos, e muy de gosto, de que a Rainha se dá por muy obrigada, fazendo muy notáveis mercês (…).

112

… muito arriscado

… muito mal ferido

347

O preço desta acção é muito considerável: (…).

127

… mui apertada

… mui severo

… mui seguro

356

… muito bem fortificada (…).

… que está muito acabada (…).

128

… mui seguros

377

... praças muito fortes (…).

129

…estão mui arriscadas

378

… todos muito enfadados (…).

 

seja como simples (com a terminação ‘íssimo’)

 

111

… um poderosíssimo exército

315

… se tem por aqui por certíssimo

316

… um excelentíssimo livro

320

… o aplauso e concurso foi grandíssimo (…).

323

que são religiosas do instituto apertadíssimo;

358

… dos moradores da praça, que […] se fizeram digníssimos de um grande castigo (…).

380

O exército sueco tem já tomado a fortíssima praça de Brim (…).

383

… movido em parte dos maus termos dos castelhanos, em os dois atrocíssimos casos (…).

388

… para entrar em Sião onde tem uma riquíssima feitoria: (…).

390

… com segurança tal que não podem deixar de ter felicíssimo fim.

 

o qual recorre, inclusive, a um “subterfúgio” de uso que, pela sua recorrência, raia o cliché:

 

67

grandíssimo número de gado

120

grandíssimo preço

75

grandíssimo dano

124

grandíssimo poder

83

grandíssima importância.

126

grandíssimo número de gente

84

grandíssimos poderes

127

grandíssimos exércitos;

105

grandíssimo valor

158

grandíssimo furacão

109

grandíssimo poder

165

grandíssimas incomodidades

112

grandíssimo poder

357

grandíssimas diligências

113

grandíssimo disparate

379

… posto em grandíssimo aperto.

 

Propensão adjectivante que chega a levar à junção de dois graus diferentes no mesmo grupo frásico. Mas não só. A consecução do pretendido tom valorativo é também alcançada graças à inclusão de número não despiciendo de adjectivos a que o sufixo ‘-oso’ confere o mesmo carácter superlativante, como nestes exemplos:

 

68

… e ser a subida dificultosa.

127

… mui lastimosa

… mui animoso

129

… tão lastimosa tragédia

139

… uma lastimosa tragédia.

313

… dos gloriosos progressos

315

… um poderoso socorro

… uma poderosa armada

325

… poriam condições mais proveitosas à Igreja;

362

… voluntários desejosos todos de participar

374

… o inimigo tinha mais gente […] além de andar victorioso (…).

380

… tudo ficou em poder do valeroso e bem afortunado general (…)

381

… e semelhante à populosa cidade de Milão.

 

Tendência outrossim plasmada no uso de uma adjectivação inusitada, não raro a raiar o insólito - dada a inconciliabilidade adjectivo/substantivo - como aqui:

 

70

 … houve na batalha grandes actos de valor de parte a parte, e o estrago foi tão estupendo que afirmam (…).

103

… chegou à vista dos muros e os nossos disseram estupendas injúrias aos Castelhanos (…)

 

por vezes com inaudito pendor redundante, como nestes exemplos,

 

298

… que as duas câmaras nenhuma coisa tanto desejam, como uma boa paz, a qual seja permanente (…).

301

…. e desejo de procurar uma boa paz a seus estados, que todos os assistentes ficaram muito satisfeitos.

123

As coisas deste reino cada vez estão de pior condição, sem nenhuma aparência mais, que uma sangrenta guerra;

126

… para ver se por aquela via pode pacificar as sangrentas guerras do Império (…).

127

… que não há alguma aparência de melhoria, senão de uma sangrenta guerra de fogo, e sangue (…).

127

… e perdição de uma, e de outra parte de maneira que se vão picando guerras sangrentas.

129

… por escusar-se entretanto, até ver em que pára esta sangrenta guerra, e então ver aonde se há-de inclinar (…).

 

e/ou propiciadora da emergência dos sempre disfóricos (e facilmente prescindíveis) clichés (aliás, já contemplados nos últimos cinco dos exemplos precedentes):

 

121

… estão com as mãos nas armas, e com notável desconfiança uns dos outros.

124

… meteu mais forças de gente de guerra no condado de Rossilhon, que causou notável cuidado ao castelhano, (…).

… todos os Cardeais lhe deram os parabéns, com notáveis louvores, e maiores contentamentos.

140

… para que quando entrasse a cavalaria, não pudesse romper, a qual entrou com notável fúria;

159

É coisa notável, e muito para considerar, que depois do encontro que os embaixadores (…).

321

… durou a entrada perto de 2 horas, com notável aplauso dos Reis, (…).

359

… pelo muito que os cercados, pelejando com notável ânimo, e valor (…).

363

… em que todos se ouverão com notável valor.

376

… necessários para a salvação das almas; […] Notável cegueira!

385

… fazendo notáveis perdas e danos, como temos dito.

 

Cliché que, dada a sua reiterada utilização, passe a redundância, nos remete para outra estuante questão - a da colocação do adjectivo, anteposto ou posposto ao substantivo - que pode e deve ser equacionada de outra perspectiva que não só a do estilo: a da objectividade/subjectividade, vertente prioritária do discurso a cuja disquisição procedemos.

É consabida a importância do papel desempenhado pelo adjectivo que, enquanto elemento fundamental da caracterização é essencialmente um modificador do nome e serve, ao juntar-lhe as características que o delimitam, para lhe precisar o significado. Por isso, a pretendida precisão e expressividade do enunciado fazem do adjectivo um elemento imprescindível, o que não dispensa cuidados especiais de utilização, ditados, no essencial, pelo bom-senso do utente.

Se a função de atributo é aquela em que é mais frequentemente usado, e em cujo cumprimento dispõe de uma certa mobilidade ‒ por tanto poder figurar no grupo do sintagma nominal como no do verbal, em anteposição ou posposição relativamente ao substantivo que qualifica - a verdade é que esta liberdade de colocação não é total: há normas específicas que a regulamentam, destarte impedindo o estocástico.

Antes de mais por, na oração declarativa, o normal ser a ordem directa, visto ser esta a que corresponde à sequência progressiva do enunciado lógico, razão pela qual o adjectivo, quando em função de adjunto adnominal vem, regra geral, posposto ao substantivo que qualifica. Mas se esta é a norma, a verdade, contudo, é que o nosso idioma também não rejeita a ordem inversa, em particular nas formas afectivas de linguagem, contextos em que a melhor maneira de dar ao adjectivo a devida ênfase é antepô-lo ao substantivo. E isto porque, quando anteposto, o adjectivo, ao enfatizar o qualificativo, tende a embrandecer-se, a adquirir um matiz afectivo e a imbuir-se de um valor subjectivo, justamente o contrário do que acontece na posposição - que, insistimos, é a norma no enunciado lógico - em que tende a conservar o valor próprio, objectivo.

E é justamente esta vertente - a de potenciadora de subjectividade - que torna a anteposição desaconselhável num discurso deste cariz, o qual deve primar pela objectividade.

Mas se esta faceta constitui já de per si um obstáculo intransponível, Rodrigues Lapa (1979: 142) alerta ainda para um outro inconveniente daí emanente, consubstanciado na tendência do adjectivo anteposto para formar com o substantivo uma espécie de grupo fraseológico, em que ambos os elementos acabam por perder um pouco do seu valor individual em proveito do conjunto, o que, segundo ele, retira precisão ao enunciado.

Se a isto se acrescentar o facto de as posições sentimentais assim materializadas nem sempre serem favoráveis à nitidez das ideias, daí resultando a propensão para o grupo adjectivo/substantivo vir a constituir clichés, fácil se torna inferir quão nefasta pode ser a sua utilização no texto jornalístico. Ora, visto ser a objectividade característica primordial deste discurso, cremos demasiado óbvio o imperativo de, dada a carga afectiva/subjectiva que transmite à frase, evitar a todo o transe a anteposição, a qual, como os exemplos a seguir aduzidos demonstram, constitui um factor perturbador da objectividade de enunciado.

 

331

… depende totalmente desta embaixada e dos ricos presentes que o Embaixador lhe manda.

334

… querendo por esta fingida vitória, escurecer a memória da grande revolta (…). […] Aos dois deste mês fez sua Alteza edificar um poderoso reduto junto à ponte, que está sobre a velha ribeira de Ley (…).

 

 

 

Razão por que, em nossa opinião, a opção pela anteposição, nos exemplos atrás, não só carece de legitimidade como não se justifica: além de não aumentar a expressividade da frase - se o que se pretendia era impregnar o qualificativo de uma aura de afectividade, a pretensão saiu gorada, perdendo-se, concomitantemente, a objectividade ‒ antes contribuiu para a sua falta de rigor.

 

 

2.3. Advérbio

Se, lato sensu considerado, o advérbio é, fundamentalmente, um modificador do verbo, cujo sentido determina ou intensifica (função básica que pode também desempenhar junto do adjectivo ou de outro advérbio), é na subclasse dos advérbios de modo terminados em -mente que as suas potencialidades emergem em toda a plenitude, que mais evidente se torna a polivalência do seu uso.

De facto, são em número assinalável os casos em que esta subclasse do advérbio se apresenta como o modo de dizer mais expressivo - pregnância que lhe advém não só da circunstância de traduzir na perfeição quer a natureza do acto, quer o modo como este decorre ou é praticado, quer ainda por introduzir outras cambiantes, designadamente de continuidade, intensidade, etc. -, o que permite assegurar ser, se utilizado com parcimónia, inquestionável o seu interesse. Ou seja: mesmo abstraídos certos usos, designados de elevação - e que, dado o seu recorte literário, seria impensável exigir de um texto com veleidades de jornalístico, por natureza essencialmente informativo - são, ainda assim, em quantidade não negligenciável as situações em que os fins visados justificam plenamente o emprego do advérbio. Em particular, o anelo de intensificação a que aludimos no item precedente, o qual é aqui conseguido pelo recurso (mais moderado) ao advérbio de modo com função outrossim superlativante:

 

276

… e entre eles ao filho do Marquês de Vievilla, pelejando valerosissimamente.

289

… estavam mais ocupados em sua circulação, que em o atacar poderosamente (…).

292

… havendo sempre até à sua morte trabalhado vigorosamente (…).

293

… levou cinco mil homens ao defunto duque de Weimar, tão aventurosamente, (…).

304

O que foi animosamente executado pelos senhores Peake e Johnson (…).

305

(…) que sobre eles fez com 30 mosqueteiros escolhidos, que animosamente deram sua carga e depois se retiraram.

324

(…) aos quais todos depois da visita banqueteou magnificamente.

 

 

160

… de sorte que a cidade, que ele quer tomar somente por fome, dificultosamente lhe escapará das mãos, porque tem já muita falta de água, de pão, e de pastos (…).

282

… o qual por este meio se achará verisimelmente em estado de laçar o dos inimigos (…).

284

… e mui magnificamente lhes deu as boas vindas.

292

… o qual golpe ele recebeu tão generosamente (…)

296

O senhor de Saulcey, que generosamente defendeu este castelo (…).

300

… mostram grande contentamento por haverem tão generosamente conseguido sua liberdade.

307

(…) partirá brevemente para Aragão, onde deixou o marquês de Monterey.

Que o Cardeal Trivulcio […] devia brevemente partir para Roma.

311

…depois de haver fiel e generosamente servido a Sua Santidade (…).

313

Aqui nos havemos estranhamente alegrado com as novas que de presente recebemos (…).

314

… foi tudo por providencia divina […] que não cessa de velar paternalmente sobre os negócios de Portugal;

346

O que tem notavelmente animado os catalães, mais que nunca resolutos a defender a sua liberdade à custa de suas vidas.

348

… por ter desobedecido e feito direitamente em muitas coisas contra as ordens de sua Majestade Cristianíssima no conclave.

362

… que a fez maravilhosamente bem.

363

… se pelejou de parte a parte mui generosamente: (…).

… que o ajudou valerosamente: (…).

374

… faltaraõ a el-rei os mais de sua cavalleria, fugindo infamemente (…).

… se abraçou com ele tesamente (…).

375

… pelejaraõ desesperadamente até morrerem todos.

384

… e se ateou tão fortemente, que cada dia morrem muitos (…).

 

 

2.4. Construção frásica

No que respeita à construção frásica, considerada na globalidade, conquanto pontifique o que sem hesitar se pode designar por prosa escorreita - com todos os constituintes correctamente colocados e as concordâncias (sujeito, predicado e complementos) rigorosamente observadas, o que se traduz numa escrita fluente, precisa, tersa (e aprazível) - tal não obsta a que, pontualmente, surjam situações passíveis de reparo, que, podendo sê-lo mais pela disforia que causam do que pelas repercussões que têm no fluir do texto, nem por isso são de somenos, não devendo, ipso facto, ser elididas.

Indelevelmente afectada por problemas do cariz dos já ventilados no início da presente reflexão - aquando da alusão à grafia (anómala, para os padrões hodiernos) de certos vocábulos, à qual, dadas as disparidades então identificadas, não podia ficar imune - a construção frásica enferma ainda de outros males, que, para não sermos exaustivos, cingiremos à utilização de uma adjectivação por demais insólita, de difícil compreensão e justificação (como poderá uma injúria ser admirável, extraordinária?), aliada à de verbos em contextos em que nada o justifica e com os quais a sua idiossincrasia não se compadece, porque incompatíveis com o seu ADN (como se pode “rogar” (pedir por favor, suplicar) ao inimigo para vir combater?), aqui exemplificadas,

 

103

(…) depois disto foi atè Badajoz: chegou à vista dos muros; & os nossos dixeraõ estupendas injurias aos Castelhanos rogando-lhes que viessem a escaramuçar; & vendo que ninguem lhes sahia se recolheram, tomando o gado todo, que acharam pellos caminhos.

 

acrescida de outros deslizes, o mais frequente dos quais são as insistentes repetições de extractos (mais ou menos extensos), como estes,

 

127

… cidade na Morávia, que está muy apertada, e com pouca aparência de socorro.

128

… de maneira que a praça está muy apertada, e com pouca aparência de socorro.

 

ou de meras gralhas,

 

81

… que excedendo o bom uso militar entrou todo o esquadrão sem ficar da parte de fora quem resistisse ao socorro ao socorro, que aos inimigos podia vir.

 

e, por fim, a impensável utilização da passiva, cujo (desastroso) resultado estes exemplos plasmam à saciedade:

 

71

Colibre foi entrada pelo exército d’el-rei de França.

77

Foi entrado o lugar, e somente acharam um homem (que por velho não pode seguir os mais) (…).

361

… uma ou duas de suas plataformas abertas e brechas suficientes para ser entrados.

 

Outrossim disfórico - além dos bordões “notável” e “grandíssimo”, já referidos na rubrica “Adjectivo” - é o uso recorrente, seja de palavras cognatas seja de diferentes formas dos mesmos verbos, não só pelo tom pesado, arrastado, que incutem ao relato como, ademais, hipótese não negligenciável, por poderem indiciar um vocabulário limitado, o que os dois quadros que se seguem permitem confirmar:

 

306

De sorte que os Parlamentários perdendo toda esperança levantaram o sitio com perda de mais de mil homens (…).

316

Os dias atrás houve na praça Real, um desafio famoso, em o qual foi desafiado o duque de Guisa (…).

322

Aos dez de Maio chegou o conde Barac […] do Príncipe Thomas, o qual diz que o I. do dito mês el-rei de Castela mandou o Marquês de Cantanhede à dita Marquesa de (…).

324

Avisam que havia divisões entre os ministros em razão do governo, e ministração de dinheiro, e que os franceses haviam entrado (…).

387

Encontrou no caminho um mancebo desencaminhado, o qual se persuadiu que o estudante o ia espreitar (…).

 

84

… o Parlamento de Inglaterra mandou um comissário com grandíssimos poderes a dizer aos Irlandeses que lhe mandassem as condições (…).

306

tomar contas a todos os rendeiros deste reino, os quais por que se lhe não tomasse e lhe dessem quitação (…).

322

.. e se saía a uma varanda, que caía para um pátio, a ver entrar o Marquês na carroça, o qual mandou sair todas as carroças fora do pátio, e foi-se saindo fazendo-lhe reverências (…).

Mandou-lhe pedir a Rainha Regente, que assistisse aos círculos, que é uma hora depois de jantar, em que lhe assistem os Príncipes de la sangre, mais seus validos […] a que o Marquês assiste (…).

324

… e que algumas tropas deles passaram à vista de Cambray que iam passando para Tuinvilla (…)

329

Querendo entrar o núncio de sua Santidade em Munster, mandou avisar aos embaixadores para lhe mandarem fazer cortejo de suas carroças […] Plenipotenciário de França a mandar a sua com doze gentis homens em seus cavalos […] e não quiseram mandar suas carroças fingindo que não sabiam a hora da entrada;

 

Não menos constrangedora é a situação tipificada pelos próximos exemplos, aduzidos precipuamente para demonstrar como certos vícios são intemporais (aliás, estes são disso apodixe): é o caso da reiterada confusão entre o vocábulo ‘conserto’, incorrectamente usado – que, visto não se tratar de qualquer arranjo (na acepção de reparar, consertar), nada permite nem legitima nos contextos em apreço – e o seu homófono ‘concerto’, esse sim totalmente consentâneo com o fim visado (combinação, pacto, conciliação, harmonizar):

 

68

… se entregaram com promessa de dar cada mês o trigo, o azeite e o vinho, que fosse necessário para socorrer a nossa gente que havia de ficar de presídio naquela praça. Celebrou-se o conserto e guarneceu-se o castelo com 300 mosqueteiros (…).

71

O Príncipe de Parma espera concerto em seus negócios. Já se humilha e pede a bênção (…)

114

Em resposta das quatro preposições sobreditas, fez el-rei outras quatro, sem as quais não viria a nenhum concerto.

115

… e vinte mil àquela fronteira, para obrigar a el-rei vir a conserto, ou a pelejar.

 

De um âmbito diferente, e conquanto seja perfeitamente plausível que, à época, pudesse não existir o rigor hodierno neste domínio, é o caso das regências verbais, que, como os exemplos a seguir coligidos demonstram, pecam com demasiada frequência: no primeiro, segundo e quarto exemplos, falta a preposição ‘por’ (por + as = pelas; por + o = pelo); no terceiro, o verbo só rege ‘em’ (não admitindo a preposição ‘com’) e, no último, falta a regência ‘em’ (participar em aquela = naquela)

 

100

Vieram três tropas de cavalaria castelhana à vila de campo Maior: as quais sem serem vistas das nossas sentinelas correram todo aquele distrito (…).

104

… que não teve outro remédio, mais que pôr fogo aos trigos, os quais ajudados do vento arderam (…).

324

… iam passando por Tuinvilla para se encorporarem com outro exército que aí estava.

361

… para que dissesse a D. Diogo Cavaleiro, que não esperasse o último extremo para se defender, pois não tinha aparência alguma de socorro, (…).

362

… voluntários desejosos todos de participar aquela honra de serem os primeiros, que montassem sobre a brecha: (…).

 

Igualmente perturbantes – ainda que, com propriedade, se não possa falar de genuínos solecismos – são determinadas liberdades construtivas que, não raro, redundam em anfibologias (como na situação vertente),

 

102

… vinte cavaleiros, diante dos quais veio com a espada na mão, e pondo as pernas ao cavalo rompeu um troço do inimigo de 400 homens sem outro séquito mais que vinte.

291

… onde o conde se alojou, entraram dentro armados e ferindo mortalmente um dos seus oficiais, que só acudiu ao reboliço, lhe levarão a baixela de prata.

 

mais perniciosas, ao nível da descodificação do texto, do que certas incongruências, como esta, genuíno non-sens:

 

357

O dito rei se diz que está com duas estocadas, ou punhaladas, que não recebeu, em o sítio de Rosas, ou em Agramonte.

 

Solecismos puros são as construções materializadas pelos próximos exemplos, cuja mensagem fica ininteligível

 

86

Publicou-se um édito, que nenhum Bispo ainda que fosse protestante tivesse voto no Parlamento, e agora ficavam presos, e vieram já a juízo parte deles e ainda se não se sabe a sentença.

 

ou liminarmente subvertida por ser veiculada uma informação que, de todo em todo, é a antítese do que se pretendia transmitir:

 

112

A armada naval dos estados está ainda sobre a barra de Dunquerque para impedir que não saia dele a armada, que há mais de dois meses está aviada para sair (…).   […] a pedir mais navios de guerra, para se asigurar mais, e impedir ao inimigo a saída.

125

… e conforme opinião de muitos está arriscado a uma desgraça, porque Monsieur de Hallier, Marechal de França há saído a campanha com desígnio de pelejar com ele, e impedir-lhe não passe avante.

287

A ordem que del-rei de Castela tem, é que se não retirassem até não tomarem a cidade de Balaguer: (…).

315

… de sorte que se tem por aqui por certíssimo que se não concluirá nada em a dieta de Munster, sem que seus interesses não fiquem muito avantajados.

346

impediu que os Parlamentários não pudessem sair daquela praça.

381

Tem um grande, e forte castelo, que edificou o Imperador Carlos V, fica com igual espaço (…)

 

 

Podendo ainda ocorrer outras anomalias, tais como um erro ortográfico (no primeiro exemplo) ou faltar uma (ou mais) palavra(s) (caso do segundo, que fica literalmente destituído de sentido):

 

69

Foi caso este que admirou e confundiu a todos os senhores do Palácio, e até agora senão sabe que era o que o Conde lhe havia dito.

89

… começou-se a peleja dando-se grandes cargas de mosquetaria de uma e outra parte, até que os nossos dispararam duas peças de artilharia, que com grande conduziram àquele posto, e com elas fizeram tanto dano aos inimigos, que lhes quebrantaram o ânimo.

 

 

 

3. Léxico-semântica

Impõe-se, a iniciar esta rubrica, fazê-lo com um alerta cuja crucialidade nos abstemos de sublinhar: o imperativo de ter sempre presente que o livro a cuja leitura (e/ou exegese) procedemos, hic et nunc, foi redigido há 370 anos, num contexto sem paralelo com o actual e dotado de um vocabulário epocal a diversos títulos sui generis, razão determinante das dissemelhanças com que nos vamos confrontar e, concomitantemente, sua justificação e única forma de contra elas nos precavermos. Salvaguarda que, mais do que factor facilitador da compreensão do seu conteúdo, é condição sine qua non para a consecução de semelhante anelo. Antes de mais, dadas as peculiaridades desse vocabulário ‒ cujas dessintonias com o hodierno são óbvias -, que os três exemplos aleatoriamente escolhidos e a seguir aduzidos plasmam à saciedade:

 

101

Entrou nesta corte a Duquesa de Aveiro, e está aposentada numa quinta além de Enxobregas.

104

…os quais ajudados do vento arderam de maneira que o fumo, e as chamas espantaram os cavalos do inimigo e o fizeram retirar apreçado e descomposto.

390

… todos seus triunfos se hão-de converter em tumbas, todos seus troféus em fúnebres aparatos, e todo seu rijo em amargoso pranto: (…).

 

Lida a primeira frase, a sensação emergente só poderá ser de incompletude (e, convenhamos, de alguma perplexidade), o que decorre, no essencial, da circunstância de, na nossa mente, o adjectivo “aposentada” estar intrínseca e indissociavelmente ligado ao conceito de reformado (alguém que deixou de trabalhar), para o qual remete, de imediato e sem reservas (e o dicionário corrobora), acepção cuja inconexão com o contexto é total. O que, não se verificando à data em que foi produzida, permitia e legitimava o seu uso.

Situação não menos potenciadora de equívocos é a consubstanciada pelo segundo exemplo, quer por o adjectivo “apreçado” (algo cujo preço foi indagado ou ajustado) não ter a mínima plausibilidade de uso neste contexto - onde, pelo contrário, o seu homófono “apressado” teria pleno cabimento - quer por, dada a sua plurivocidade, o verbo “espantar” ser utilizado numa acepção que, conquanto dicionarizada (afugentar, atemorizar), é residual em relação a outras (causar espanto, admiração, assombro) comummente usadas. Opção que, se equacionada e admitida a versão corrente, implicaria a existência de uma personificação (a atribuição de características humanas aos equídeos).

E que dizer acerca do terceiro exemplo, de todo em todo ininteligível se lido o vocábulo em negrito com o seu significado actual (duro, inflexível) e não com o que foi utilizado (riso)?

Cumprido o dever de alertar para os perigos emergentes (e exemplificados estes com perspicuidade q.b.), importa esclarecer não ser o atrás referido a tónica dominante. Pelo contrário: abstraído o uso de expressões do cariz das a seguir reproduzidas e de tantas outras liminarmente caídas em desuso

 

103

Este veio dar aviso ao general da cavalaria, o qual montou com grande preça (…).

397

Tendo a semana passada aviso como o senhor de […] estava sobre o lugar (…).

134

… do Embaixador de Castela, que lançou fama, que o de Portugal havia sido o agressor.

366

… e de Badajoz sairaõ agora seis tropas de cavalo, deitando fama, que se hiaõ  alojar em (…).

355

A nau Estrela Dourada flamenga […] deu por novas;

361

… mas também foi preso, e deu por novas, que a armada de Castela não podia (…).

 

a norma é os textos das gazetas pautarem-se maioritariamente pelo emprego de um léxico corrente, tão acessível à época quanto entendível à distância de séculos, em cuja selecção são patentes várias preocupações.

Desde logo, a de evitar repetições, sejam elas tout court, como aqui acontece com a do verbo botar: perante a necessidade de exprimir duas vezes seguidas (no mesmo parágrafo) a mesma ideia, o verbo é substituído, na segunda, por um sinónimo (menos chão)

 

106

Saiu de Inglaterra uma armada de 30 naus […]; botou gente no cabo da Província de […] e daí a 20 léguas deitaram gente na cidade de Galuca.

 

sejam mais subtis, como esta: havendo necessidade de vincar quão marcante era o momento (e o acto) - portanto, de acrescentar algo ao verbo “acabar” susceptível de traduzir esse imperativo - , recorreu-se a um subterfúgio, que mais não é do que uma gradação, pois, significando também o segundo verbo (um eufemismo) acabar, a verdade é que contempla uma dimensão mais radical, que lhe advém da acepção “extinguir-se”, isto é, acabar definitivamente, que era afinal a que se pretendia veicular:

 

271

… e para estarem em maior segurança, passaram em Aragão além do rio Cinca onde se acabaram, e feneceram os desígnios deste poderoso exército composto de muitas nações diferentes (…).

 

Outra preocupação é a de diversificar o vocabulário, procurando, para tal, adequá-lo, na medida do possível, ao contexto de uso: se em ambas as situações apresentadas nos próximos exemplos a ideia a transmitir era a de protelar algo (divergindo, porém, na determinante), no primeiro caso - referente a um falsário que apenas pretendia atrasar a execução da pena, portanto, servir-se de um expediente - foi usado o verbo mais consentâneo, “embaraçar” (na acepção de levantar dificuldades, estorvar, complicar), reservando-se para o segundo, protagonizado por um governador, o substantivo mais cuidado, “dilação” (adiamento, prorrogação):

 

100

… ambos foram condenados na pena da lei: um deles padeceu no mesmo dia […] o outro por ver que se podia embaraçar a execução (…).

364

… pela qual o Governador pedia uma dilação de quinze dias para sair daquela praça: (…).

 

Preocupações cuja superação passa pela remoção de todo e qualquer obstáculo susceptível de perturbar o rigor do relato, este sim anelo maior e objectivo prioritário da selecção vocabular operada. Independentemente da frieza do narrado ‒ e quanta insensibilidade existe na forma como nos é comunicado, no primeiro dos próximos exemplos, que, alguém, atingido por um projéctil, perdera um braço (insensibilidade também explícita nos segundo, terceiro e quarto) ‒ , cuja visualização é conseguida graças à ecfrástica descrição dos factos (segundo, quarto, quinto e sexto), recorrendo, inclusive, a comparações (explícitas ou implícitas) esclarecedoras e ilustrativas q.b. (dois últimos exemplos):

 

160

O conde de Brovay, que se havia retirado a esta cidade com um braço a menos, que lhe levou uma bala, é morto.

347

… além de 400 Turcos que foram mortos a mosquetaços, e feitos pedaços. Em o que foi a fundo se afogaram algumas 800 pessoas, porque a carga toda destes baixeis era de gente.

398

… estando o duque de Brezé ao mastro grande dando algumas ordens, morreu como valeroso capitão de um balaço inimigo que lhe levou a cabeça (…).

374

… se abraçou com ele tesamente um esforçado Parlamentário, cujo atrevimento el-rei castigou com uma valente punhalada, com que matou a seu contrário, e se livrou de tão evidente perigo.

363

… também o senhor de Marina, ao qual quebraram uma perna com uma bala de um mosquete, que primeiro passou de parte a parte as calças ao dito barão de Baumes.

381

Neste assalto foi ferido com três balas o tenente general do exército Cristianíssimo; dizem que ficará aleijado de um braço, em caso que escape: e ainda no último aviso, que daquele campo veio, tinha dentro do corpo 2 balas: quererá Deus livrá-lo, ou pelo menos sua alma do ruim lugar, que na outra vida o espera, (…).

361

… não obstante a dureza do muro, que resistia ao martelo como o próprio mármore, (…).

374

… de um terço deste exército real, dizendo que de tal sorte se uniu entre si, que parecia um muro de bronze impenetrável, (…).

 

 

Quanto aos níveis de linguagem utilizados nas gazetas a cuja exegese procedemos, se pontifica o corrente também não é raro depararmos com ampla variedade de outros registos ‒ de que os vocábulos e expressões coligidos (em negrito, no quadro abaixo, bem como em alguns dos precedentes) são, dada a sua heterogeneidade, de per si assaz reveladores - que vão do popular (e do seu limite, quase calão) ao cuidado, passando por expressões/máximas de uso misto:

 

377

… e o parlamento tem botado a perder o reino com as suas guerras civis (…).

103

… logo se retirou com seis prisioneiros, e sincoenta cavalgaduras.

81

É o castelo tão inexpugnável, que está seguro do maior atrevimento (…).

376

Antes que os improbos ministros desta seita bautisem as (…).

Fundaõ estes ignorantes ministros seu infando abuso em hũa heregia de Calvino, que afirmou, que os bastardos todos estavão ab eterno reprovados:

86

… que cada um do povo metesse a mão na sua consciência, e que logo seria fácil conhecer a razão porque não voltava.

374

Os realistas de cavalo vendo o negócio mal parado, e não sendo eles já mais de 300 (…).

377

De Irlanda se escreve que as coisas dos católicos irlandeses vão cada vez de bem em melhor (…).

 

Com efeito, do plebeísmo inicial (“cavalgadura”) - hoje démodé (quase anacrónico), disfórico e ofensivo, dada a carga pejorativa que lhe está associada, e que, pour cause, só como impropério ocorreria a alguém usar (mas, na época, designação vulgar de animais de carga e/ou transporte) - ao recorte das terceira e quarta transcrições, passando pelo emprego de expressões de uso corrente nas mais variadas circunstâncias do quotidiano, há toda uma vasta panóplia de recursos lexicais, explorados com mestria.

Daí que, sem hesitar, possamos asseverar ser a léxico-semântica a mais fascinante das vertentes de abordagem, e, em simultâneo, a de maior proficuidade, conquanto talvez a mais problemática. Asserção que esteamos no facto de ser justamente quando equacionado o texto sob o ângulo da variedade semântica que surge - e se nos impõe em toda a plenitude ‒ a força expressiva de vocábulos que modas espúrias insistem em votar ao ostracismo (ou, no mínimo, relegar para um lugar subsecivo), mas que, pela sua força intrínseca, emergem com toda a pujança e o mesmo significado decorridos séculos, como este quadro confirma, cabal demonstração de não estar a língua ancilosada:

 

64

… desde a Sé até a Igreja de Santo António, donde se disse uma missa votiva

133

… que não esperava mais que a ocasião (como muitas vezes entre os seus se havia jactado) de empreender descobertamente alguma acção contra Sua Santidade.

163

… a nossa ponte está de contínuo embaraçada com as carretas que por ela vão e vêm com grande fula fula.

297

Suas Majestades Britânicas estão aqui com perfeita saúde e se diz, que a rainha de Inglaterra está pejada.

 

Na verdade, ter o ensejo de ler (e fruir) os textos da Gazeta decorridos mais de três séculos e meio sobre a data da sua redacção é a constatação de uma realidade pouco abonatória para a prática dos usuários hodiernos (e dos últimos séculos): a de que só a eles, devido à falta do uso a que votam (e votaram) certos vocábulos, é imputável o depauperamento do idioma. Única explicação plausível para o desaparecimento da infinitude de palavras que, tendo feito parte do léxico quotidiano, se perderam entretanto. Causa, afinal, da surpresa – mas gratificante, convém sublinhar – sentida ao depararmos, logo nas páginas iniciais, com adjectivo “votiva” adequadamente utilizado com o significado que ainda hoje conserva (o de algo oferecido em satisfação de um voto); ao encontrarmos, mais adiante, o verbo reflexo “jactar-se” a exprimir esse vício tão português de “bazofiar”, “gabar-se”; o substantivo “fula-fula” a traduzir, nessa época como hoje, a ideia de confusão, pressa, afobação; ou, ainda, o adjectivo “pejada” a aludir à gravidez, vocábulos que um pretenso elitismo foi postergando, relegando para um uso recôndito (do domínio do popular e de certas franjas mais ou menos marginais), do que resultou ter-se perdido aqueloutro, que em tempos recuados constituiu utilização do nível corrente.

Outro tanto se passa quer com o advérbio “entrementes” (hoje ecumenicamente substituído pelo advérbio entretanto) quer com o substantivo “viandas”. Com uma particularidade no caso do segundo: apesar da acepção aqui usada (qualquer género de alimento, mormente iguarias) ser a contemplada nos dicionários, a verdade, contudo, é que, estes - embora com a salvaguarda “(reg.)” - lhe atribuem outra (restos de comida para porcos; lavaduras) o que, quem sabe se para obstar a quiproquós, foi determinante para tornar residual a sua utilização.

 

158

O Cardeal António estará entrementes em Aquapendente com uma parte do exército do Papa (…).

321

… e furriéis oferecer as viandas, as quais cinco dias jantar, e ceia lhe serviram a ele, e a toda a sua família, com banquetes explendidamente.

352

… e estando as viandas de dentro, um porteiro que nele assistia, para este efeito, fechava o torno (…).

 

E é justamente a subsistência desta zona comum de significação, que, tendo resistido ao desgaste dos tempos, acaba por se revelar determinante (ou crucial) para tornar perfeitamente entendíveis, na hodiernidade, vocábulos há séculos usados nas gazetas e que, conquanto postergados pela prática quotidiana da generalidade dos falantes, a língua não erradicou, apenas manteve em ‘hibernação’. É o caso (nas expressões em negrito, no próximo quadro), dos verbos meter (no sentido de levar, prestar, primeiro, e de tomar, no segundo) e jogar (na acepção de atirar), do nome multidão (no sentido de grande número) e do adjectivo-particípio armada (com o significado de adornada) que, não obstante em contextos de utilização pouco comuns, têm suporte dicionarizado a legitimá-los. Tal como o substantivo valhacouto (na acepção de abrigo, esconderijo ou “(fig.) protecção”) ou, noutros contextos, do adjectivo vadeável (susceptível de se vadear, passar a vau):

 

109

… saiu ao encontro a armada real de Castela, que ia meter socorro nas praças, que estão de cerco em Catalunha.

388

… fosse ele a se meter de posse do reino, e que eles destruiriam a armada: (…).

361-362

… a da plataforma de S. João esteve prestes para jogar pelas seis, sete horas da tarde: (…).

… puseraõ as duas mechas à mina, a qual jogando fez uma grande abertura ao baluarte […] e cessando a poeira, começou contra aquela parte a jogar a artelharia, que a fez maravilhosamente bem.

120

Tinha sobre a cabeça uma coroa aberta de grandíssimo preço, pela multidão de seus diamantes, (…).

120

(…) todo o ajuntamento passou à igreja de S. João que estava ricamente armada, em a qual se cantou o Te Deum laudamus.

156

… aceitando a cidade e castelo de Sedam, que por muitas vezes havia servido aos mal afectos a esta coroa, e por este infame tratado havia de servir de asilo, e valhacouto contra seu estado.

272

… passar o dito rio Cinca, que não é muito vadeável, para ir pelejar com os inimigos (…).

 

Falta de uso que, em situações pontuais, pode decorrer da circunstância de o ambiente em que vivemos não o justificar. É o caso de “manga” (hoste de tropas), de utilização muito rara (porque circunscrita ao meio militar) e, por isso, para nós de difícil compreensão no contexto em que ocorre o seu emprego (adequado):

 

90

Entretanto o General mandou que investissem as trincheiras os capitães […] cada um com sua manga (…).

 

Pragmatismo de uso que torna imediatamente perceptível - por analogia com o significado literal hodierno do seu vocábulo nuclear, “torneira” (“peça adaptada a um tubo, cano, recipiente, etc., e que é usada para reter ou deixar passar o líquido ou o gás neles contido”[3]) - a expressão “por torneiras que se fizeram nas paredes”, aqui utilizada:

 

99

E de umas casas do senhor daquele lugar, por torneiras que se fizeram nas paredes, nos mataram seis homens;

 

À semelhança, aliás, do que acontece com “descomponha” e “descompostura” (no sentido de “pôr fora do seu lugar, desarranjar” ou “falta de ordem; desalinho, respectivamente), como nos exemplos a seguir transcritos:

 

101

… naquele sitio estão os nossos (que são poucos mais de duzentos) unidos com o gentio da terra e que não há por aquelas partes poder, que os descomponha.

102

Retirou-se o castelhano com grande descompostura, e os nossos foram atraz de algumas tropas até o lugar de Gallegos (…).

 

Menos imediatamente descortinável, à luz dos conceitos actuais ‒ porque produto de um estranho processo de derivação por prefixação, com o afixo a remeter para negação da acção – será, quer o emprego de “desprivado”, quer o de “despossuídas” quer, ainda, o de “desenserrar” (cuja grafia é hoje diferente), daí o uso residual destes vocábulos (porém, ainda assim legitimado pelo dicionário):

 

115

Que a nobreza, que tem tirado, e desprivado de sua autoridade, e preminência, e dignidade, será outra vez admitida, (…).

286

A qual mortandade acrescentará muito o tesouro do grão senhor, por causa do direito, que tem das terras despossuídas, e falta de herdeiros em os bens deixados, os quais tornam para sua Alteza.

66

… quinta-feira de Endoenças ao desenserrar o Senhor assistiu com manto de cavaleiro: (…)

 

               

72

… os alojarão em presídios fechados e se colhem algum fugitivo o fazem quartos: e já nenhum se atreve a fugir.

78

Os castelhanos fronteiros da província de Alentejo, não saem a campanha por falta de gente, e por estarem os mais dos cavalos no verde.

 

Numa espécie de limbo semântico, isto é, numa zona de indefinição, ficam palavras como esta (“influência”), cuja insólita utilização, na frase transcrita, não descortinamos se se trata de uma gralha ou de algo intencional: se, à primeira vista, e atendendo ao contexto, tudo indica ser “afluência” (“acto ou efeito de afluir (= correr para; aglomerar-se); enchente, abundância) o vocábulo adequado, a verdade, contudo, é que o grafado, conquanto inusual, também tem suporte dicionarizado (preponderância, entusiasmo), que, tornando perceptível a frase, de certo modo a legitima.

 

158

Foi feita esta cerimónia pelo senhor Tuder deão de Notre Damme […], em meio de uma influência incrível de povo, que os levou no ar até sua casa.

 

Situação análoga é a materializada pelo próximo vocábulo em negrito: se propendemos a pensar tratar-se de mera gralha ‒ “aversão” seria, sem dubiedades, o termo lógico e correcto -, acontece que o termo utilizado também apresenta uma zona de significação enquadrável neste uso (“grande estrago, ruína; desmoronamento; assolação; etim. lat. ‘tombo, o acto de virar; devastação; destruição”[4]), que o torna não totalmente descabido.

 

282

… as quais [tropas] marcharam com extraordinária galhardia, animadas com a presença de seu general, não obstante a dificuldade dos caminhos, a incomodidade do tempo, e a eversão, que muitos haviam tido até ao presente, pela viagem de Alemanha.

 

Liminarmente ininteligível, por se tratar de uma iniludível incongruência, é o próximo exemplo:

 

114

… e depois de seus argumentos, os Protestantes tiveram cinco votos mais que os Puritanos com que a diferença ficou empatada, e causa grande confusão entre eles.

 

E, a encerrar esta rubrica, que melhor prova da maleabilidade da linguagem poderíamos aduzir que a sua capacidade de legitimação de usos tão obnóxios e anómalos quanto os plasmados nos próximos exemplos (não obstante o do verbo obrar (e do seu particípio passado), porque na acepção de “realizar, fazer, produzir” (e realizado, feito, produzido, respectivamente), esteja correcto, mas que - dadas as conotações pejorativas associadas ao outro significado, que, embora com a nota “(pop.)”, também lhe é atribuído (defecar, defecado) - é hoje muito esporádico, quase residual)?

 

384

… por lhe haver pronosticado, que tanto aparato de gente, e de armada não havia de obrar cousa algũa, antes teria desgraçado fim.

91

… afirma-se que se o mestre de campo Ares de Saldanha levasse mais gente, sem dúvida nenhuma poderia haver obrado muito naquela cidade.

119

A câmara do aparato estava toda entapiçada de panos de ouro e seda (…).

320

… e foi para esta recamara às casas, que a Rainha Regente tinha mandado entapiçar, para o Marquês;

 

 

4. Estilística

Sendo uma característica do texto literário a maior ou menor frequência de desvios da linguagem corrente, desvios tradicionalmente designados por figuras de retórica, a circunstância de os textos em análise não caberem, em rigor, em tal qualificação aliada à impregnação dos mesmos de multitude destes recursos, suscita a questão de saber se terá (ou não) havido intencionalidade do seu uso. E conquanto admitamos que não estivesse no espírito dos redactores das gazetas a utilização de tais recursos retórico-estilísticos ‒ não só por nada o justificar como porque a contrario sensu do género (que, convém não o elidir, é o (pretensamente) jornalístico) ‒ a verdade, porém, é serem os textos em causa ubertosos nesse âmbito, evidenciarem inquestionável prodigalidade ao nível da estilística, sendo muitos (e de assinalável rigor e simbolismo) os recursos estilísticos, pródiga e proficuamente utilizados. Não obstante alguns – mormente a anáfora e a redundância (por afectarem a concisão) – colidirem com os requisitos inalienáveis do discurso informativo.

Independentemente deste condicionalismo, o que acontece é ser inusitada a sua recorrência, que vai da aliteração à sinédoque, passando pelo eufemismo, pelo disfemismo, pela metáfora, pela perífrase, pelo polissíndeto e, conquanto não o sejam na plena acepção do conceito, pela redundância e pelo oximoro. Impõe-se, a propósito, esclarecer a razão desta salvaguarda: embora algumas das acepções do substantivo ‘traição’ sejam “perfídia”, “infidelidade conjugal”, inegável é que o sentido que atavicamente se liga ao vocábulo é o de atraiçoar, que, uma vez adjectivado como surge (insigne = distinto, ilustre), tem cariz marcadamente oximórico visto tratar-se de vocábulos que, pela sua idiossincrasia, mais do que antitéticos são antagónicos, o que torna a sua junção, mais do que incongruente, oximórica. Outro tanto se passa em relação à redundância: não o sendo na acepção mais técnica do termo, os exemplos aduzidos são-no endogenamente pela ideia que lhes subjaz.

Passando agora aos quadros anexos, expliquemos o critério que presidiu à sua composição. Dividindo-se as genericamente designadas figuras de estilo em figuras de sintaxe (as que correspondem a modificações na estrutura sintáctica da frase, através da repetição, da supressão ou da inversão dos respectivos elementos), figuras de pensamento (as que introduzem modificações no conteúdo expresso da frase) e tropos (que, alterando o sentido directo das palavras, fazem ressaltar o seu significado simbólico) que, por seu turno, comportam uma ampla variedade de categorias, a opção foi no sentido de, ignorando as de aparecimento esporádico, registar apenas as mais frequentes e fazê-lo de modo a reflectir a sua maior ou menor utilização. Razão por que certas figuras de uso muito residual não são referidas e outras surgem uma única vez.

No que respeita à ordem de registo, afigurou-se-nos que a mais indicada seria a alfabética, interrompida apenas, entre as de sintaxe, pela aliteração, por (visto consistir na repetição insistente de um som) se situar mais no nível fónico.

 

1. Figuras de Sintaxe:

 

381

Anáfora

… fica com igual espaço entre Anveres, que lhe cae ao Nordeste, Madines, que lhe cae a Oeste, Bruxelas que lhe cae a Sueste, e Mildel, burg de Zelanda, que lhe cae ao Noroeste.

 

275

Pleonasmo

… que se levantaram à pressa, tanto que passaram por Witehal, gritaram todos em alta voz, Viva el-rei Carlos (…).

307

 

… para sua retirada, teve ordem, que partisse logo, sem mais tardança alguma.

310

 

… obrigou aos principais de Hangria a acudir com toda a pressa a esta cidade;

336

 

… os quais fugiram com tanta pressa, que se embarcaram sem o provimento necessário para a viagem.

81

Redundância

… chegando-se às trincheiras pela banda da porta meteu dentro um soldado (…)

82

 

… que o não pode alcançar e tornou outra vez para o lugar (…)

84

 

O General Picolomi […] tornou outra vez em busca do inimigo (…)

111

 

… e que acudissem logo sem perder tempo.

114

 

… que saísse logo fora do Reino.

 

 

Tornou o Parlamento outra vez a mandar deputados a (…).

115

 

Primeiramente que lhe hão-de tornar a restituir (…).

 

 

Que lhe ande [sic] tornar a restituir todos os bens […] lhes serão outra vez restituídas.

116

 

… será obrigado a tornar a restituir aos filhos da nobreza (…).

119

 

entrou dentro das grades fazendo muitas cortesias: (…).

121

 

… se haviam de sair fora de Roma num instante (…).

124

 

… que tornaram outra vez para os presídios (…).

127

 

… que tornaram outra vez a passar-se ao Parlamento.

 

91

Polissíndeto

e logo investiu o lugar […] e dispararão três vezes uma peça com que nos mataram um capitão, e feriram quatro holandeses […] e saquearão muitas casas: porem como aquela praça era de pouca importância, e a gente dela estava já recolhida no castelo, não quis o general deter-se mais, e com os despojos do saco (…).

115

 

Que todas as terras, domínios, e rendas eclesiásticas, que foram tomadas, e confiscadas pela Rainha Isabel, e El-rei Iacobo, lhes serão outra vez restituídas.

Que a nobreza, que tem tirado, e desprivado de sua autoridade, e preminência, e dignidade, será outra vez admitida, e confirmada em os cargos, e governos, como no tempo passado.

 

278

Aliteração (p)

… de se acudir ao provimento de pão para esta cidade (…).

307

                  (p)

… que lhe permitissem esperar pela primavera para sair ao lugar, que lhe foi consignado (…).

280

                  (d)

dentro de dois dias parte o senhor da capela (…).

285

 

… algum contraste com os moradores não deixava de dar cuidado.

316

                   (t)

… mas os dias atrás se tratou de tomar contas a todos os rendeiros (…)

 

 

2. Figuras de Pensamento:

 

366

Antítese

… que as dificuldades servem mais de levantar o ânimo do dito conde do Plessis-Prassim que de o abaixar.

383

 

… se bem levou muita gente, mas toda mal ordenada e coberta de luto (..).

390

 

… todos seus triunfos se hão-de converter em tumbas […], e todo seu rijo em amargoso pranto: (…).

 

77

Eufemismo

… os seguiram até que dentro na ponte lhes tiraram a ambos a vida, e lhes tomaram as armas, os vestidos e os cavalos.

90

 

… ao entrar num reduto deram com uma bala pela testa ao capitão Alonso de Tovar e lhe tiraram a vida (…).

97

 

... um protestante, que ia com passaporte, e lhe tiraram a vida (…).

97

 

… e que os queria mandar a todos para o céu.

169

 

… que jamais se viu pessoa alguma aver rendido a alma com mais resolução e quietação de espírito (…).

285

 

O capitão Baxà, a cuja cota estava tirar a este rebelde a vida, por qualquer via que fosse (…)

132

Disfemismo

… e trouxe por novas que aos 24 havia parido a Duquesa de Toscana um filho:

325

 

A Rainha da Polónia irmã do Imperador morreu a 24 de Março depois de parir uma filha morta.

348

 

… queimar alguma armação e a almofada da cama, deixando tal fedor, que quase todos os criados caíram de pasmo.

 

358

Paradoxo / Oximoro

 

… se fazia memória alguma dos moradores da praça, que pela insigne traição, que cometerão, se fizeram digníssimos de um grande castigo, pelo mau exemplo (…).

 

348

Perífrase

… de Urbano VIII, que teve a cadeira de S. Pedro vinte anos (…)

381

 

… quererá Deus livrá-lo, ou pelo menos sua alma do ruim lugar, que na outra vida o espera, (…).

 

 

3. Tropos:

 

158

Metáfora

… houve um grandíssimo furacão e choveram pedras de 6 e 10 arráteis cada uma:

309

 

Os castelhanos que estão em Tarragona semearam quantidade de bilhetes impressos contra as cartas (…)

315

 

O marechal de Turena se prepara também para ir roer as unhas da águia na Alemanha com um poderoso socorro.

316

 

O Príncipe de Condé na volta que fez de Borgonha deu à luz um excelentíssimo livro (…).

383

 

… catorze azémolas cobertas cada uma de um reposteiro de veludo azul semeado de flores de lis (…).

 

106

Sinédoque[5]

… andam com 33 velas do estado de Holanda cruzando o canal (…).

315

 

O duque de Enguien governará as armas de Xampanha.

346

 

El-rei da Dinamarca mandou contra ele 1500 cavalos escolhidos, com IU. dragões para lhe dar na retaguarda (…)

 

322

Sinestesia

… entretendo-a com conversação e novas histórias gostosas, a que o Marquês assiste (…).

 

 

5. Comentário global

A profusão de dados relevantes recolhidos durante a compulsação das gazetas (atrás registados e concatenados) permite-nos, por nos propiciar uma visão de conjunto documentada q.b., considerar reunidas as condições para um comentário global assaz fundamentado, comentário que nos propomos efectuar de dois ângulos: o formal e o conteudístico.

Assim, no que à forma respeita (objecto de ecfrástica dissecção ao longo das páginas precedentes), inconcutível é ser a propensão para o desmesurado ‒ proclividade dificilmente compaginável com o rigor e a sobriedade exigidos pelo discurso jornalístico ‒ uma das marcas indeléveis dos textos disquisicionados, quer os equacionemos pelo prisma da adjectivação (autêntica torrente secundada pela adverbialização, que os verbos (superlativantes) vêm completar), quer de outros ângulos. Aliás, com esta referência fica explicada a razão por que, com o objectivo de conseguir dar uma ideia o mais fiel e próximo da realidade que se pretendia reflectir, optámos por coligir e aduzir tão substancial número de exemplos para cada uma das categorias gramaticais referidas.

De sublinhar, ainda neste âmbito, porém equacionado de outra perspectiva, a beleza de certos relatos, de que o próximo é paradigmático pelo partido que consegue tirar da polissemia do vocábulo “rosa”, quando, acerca da tomada, pelos franceses, de uma praça de nome Rosas, joga desta forma com os conceitos flor e espinhos:

 

359

… a qual se rendeu a 28 de Maio, própria razão de colher Rosas: mas ainda, que estas não foram sem espinhos, consolação grande he para os nossos amigos haverem-nas colhido, deixando aos castelhanos os espinhos e folhas.

 

Outrossim de realçar, mas ao nível da metodologia seguida, são as diversas tentativas para ensaiar um cariz mais informal, quer através das notas de tom coloquial, propiciadoras de uma certa familiaridade com o leitor,

 

271

Depois que o marechal da Motha fez abortar, como sabeis, o desígnio de D. João de Garay sobre a cidade de Flix (…).

359

Não sofre brevidade de uma Gazeta fazer-se menção de todas [as “façanhas memoráveis”], porem não podemos deixar de particularizar algumas pelo afecto, que devemos aos amigos (…).

 

 quer através das permanentes remissões para outras gazetas, quebrando a estanqueidade de cada texto, antes remetendo para um continuum indiciador de uma relação duradoura,

 

378

El-Rei Filipe he chegado […], como se disse na Gazeta passada.

379

… tem dado ao castelhano três batalhas campais, como temos referido em as Gazetas passadas: (…).

380

… desta fiz menção em as Gazetas passadas, e daquela he de saber (…).

 

 quer, ainda, a assunção explícita de uma função didáctica:

 

380

… he de saber (quero satisfazer aos que não são tão versados em a lição dos livros) que he uma cidade magnífica (…).

 

Do ponto de vista conteudístico, importa distinguir entre, por um lado, o inconcusso interesse da globalidade dos textos, cuja veridicidade como documento da vivência de uma época (particularmente sensível no domínio da política) merece ser enaltecido, e, por outro lado, certos exageros que, por porem em causa a autenticidade dos factos relatados, não deixarão de afectar a credibilidade do global do relato. Com efeito, mesmo abstraída a pletora de fait-divers perfeitamente dispensáveis - e que, dada a sua irrelevância, muito ganharia o conjunto em tê-los suprimido, até porque, de tão mirabolantes, se tornam dificilmente críveis ‒, são, ainda assim, demasiados os relatos cuja plausibilidade é questionável, o que mais contribui para a descredibilização do todo em que se inserem.

Mormente por estes excessos - que, por norma, ocorrem quando são narrados recontros protagonizados pelos nossos, como se a grandeza endógena dos factos empecesse o discernimento do redactor ‒ evidenciarem (e, pior, tornarem irrefragável) uma deplorável tendenciosidade insusceptível de se compaginar com a equidade e, ademais, a isenção que deve ser indissociável de um texto jornalístico (e apanágio de um documento com veleidade de histórico). Pelo menos é esta a inferência mais imediata a retirar da análise casuística da pormenorizada descrição de campanhas militares em que as nossas tropas participam, relatos que, se vistos de forma neutra e desapaixonada como se impõe, remetem para um ridículo de inconcutível contraproducência, visto esmaecerem feitos de per si credores dos maiores encómios. Como estes exemplos demonstram à saciedade:

 

102

… e não achou mais que vinte cavaleiros, diante dos quais veio com a espada na mão, e pondo as pernas ao cavalo rompeu um troço do inimigo de 400 homens sem outro séquito mais que os vinte. Retirou-se o castelhano com grande descompostura, e os nossos foram atrás de algumas tropas até ao lugar de Gallegos, mas o general […] mandou tocar a recolher e retirou-se deixado dos inimigos 35 mortos e trazendo 5 prisioneiros, com alguns cavalos, e outros despojos. Três dos nossos vieram feridos.

104

O comissário da cavalaria […] deu num lugar de Castela, que se chama Figueiró de Bargas: matou mais de sessenta homens e tomou quantidade de gado, com o qual se retirava, quando os inimigos lhe saíram ao encontro, e o acometeram por tantas partes, que não teve outro remédio, mais que pôr fogo aos trigos. […] Neste encontro morreu muita gente ao inimigo: dos nossos 3 ou 4 homens.

 

Excessos de que, no entanto, os redactores têm plena percepção - tal como das respectivas repercussões - , mas apenas quando são cometidos por outrem:

 

389-390

Não é para deixar de advertir pelo que o vulgo a destro, e asinestro publica, e diz, encaixando-se-lhe logo na cabeça qualquer nova, que ouve, sem probabilidade alguma: como em a saída presente, que dizem fez o inimigo de Badajoz (…).

 

 e que, por isso, exprobram, aproveitando, concomitantemente, quer para lamentar serem os portugueses pouco propensos a registar e divulgar os seus feitos quer para exalçar essas proezas dos nossos, que, sem necessidade de recorrer à mistificação (porque reais), lhes ganham:

 

390

e destes, e de outros muitos semelhantes encontros pudéramos cada dia (a Deus graças) fazer muitas, e mui notáveis relações, se os portugueses se preparão tanto dos rasgos da pena, como dos da espada: e assim por mais que nossos contrários finjam, e escrevam, manifesta a verdade, todos seus triunfos se hão-de converter em tumbas, todos seus troféus em fúnebres aparatos, e todo seu rijo em amargoso pranto: mas aquele que quiser reduzir seus pensamentos à gloriosa metas das victórias, e dos triunfos, tenha a mira no céu, que de lá de cima vem guiadas todas nossas acções, com segurança tal que não podem deixar de ter felicíssimo fim.

 

Adversários que tratam de forma assaz deselegante, acintosa:

 

390

O certo é que os inimigos, à maneira de comediantes num tablado não fizeram mais que uma mostra, saindo por uma porta e entrando por outra.

 

O que consubstancia (e corrobora) outra das inferências imediatas do presente estudo: ser irrebatível o estuante unilateralismo dos redactores das gazetas, não conseguirem estes dissimular o seu pendor sectário nas referências aos prosélitos de outras religiões que não a católica, alusões sempre de gritante incivilidade, como aqui se pode confirmar:

 

376

… pois o intento do maldito herege seu autor é querer persuadir que (…); e não adverte este desaventurado que os mistérios de nossa S. Fé, e religião católica são sobrenaturais (…).

Nem tão pouco consideram que Cristo Senhor Nosso declarou serem estes mandamentos necessários para a salvação das almas; […] Notável cegueira!

384

… que cada dia morrem muitos, sem que lhes possa valer o seu falso, e infame Profeta Mafoma.

 

 

Sintetizando tudo o atrás explanado, cremos poder asseverar que, sendo o seu ADN constituído por dois elementos fundamentais (a propensão para o desmesurado e a tendenciosidade), as gazetas não legam à posteridade uma pregnante foto de família. Aliás, visto ser tão despudorado o sectarismo e recorrentes as anomalias, não pode constituir surpresa que, ao proceder à disquisição dos antepassados do jornalismo coevo, Rocha Martins (1941: 17-18), situando-se num período posterior à ocupação e domínio filipinos (1641-1662) e referindo o aparecimento de “um periódico, que devia ser, ao mesmo tempo, de incitamento aos combatentes e noticioso” - “Publicou-se então a «Gazeta» em que se relatavam as novas todas que ouve nesta corte, e que vieram de várias partes no mês de Novembro de 1641, que era “um folheto que devia sair periodicamente”, “aparecia atulhada de notícias preciosas para a história do seu tempo” e na qual “As notícias da guerra nas raias ocupavam grande espaço”, mas onde também as “diplomáticas não eram menos claras e elucidativas” - conclua, esclarecendo que, apesar de a sua publicação ter prosseguido até Julho de 1642, no mês seguinte foi proibida “em virtude de faltar à verdade e ser mau o seu estilo” (negrito nosso). Admitindo, contudo, “mas o autêntico motivo deve ser diferente.” Designadamente, aventa, o receio de que, indo a guerra activar-se (1941: 21-22), “o inimigo beberia indiscretas informações no periódico, pois era tão grande a febre de minudências”, que reiteradamente deixava escapar inconveniências perigosas; mas também para obstar a que, à medida que “aumentava a maior cópia do noticiário”, aumentassem as “indiscrições, se reteria a publicação da Gazeta”. Reapareceu (id.: 22) em Outubro de 1642, “sendo um pouco mais comedida no noticiário”, e com “novas suspensões, paragens, adiamentos” - inferência resultante das “grandes lacunas [que] se encontraram em várias colecções do periódico” -, “Chegou até Setembro de 1647.”

Esquissada, em breve sinopse, a análise casuística que, sem veleidade de exaurir a variedade de ângulos de abordagem possíveis, efectuámos dos tópicos de maior pertinência e relevância das gazetas, cujas principais virtudes (muitas) e vícios (poucos) identificámos, sem cometer erros de paralaxe consideráveis, cremos poder afirmar terem sido cumpridos os objectivos que presidiram a este estudo (e lhe subjazem) e, de início, expusemos.

 

 

Conclusão

Aqui chegados, e uma vez completada a exegese das Gazetas “da Restauração”, afigura-se-nos plenamente judicioso reconhecer que os textos que as constituem não só encarnam o espírito da época em que se inserem como também podem dele ser reputados paradigma.

Desde o início fica patente que, ao procederem ao relato dos factos e ao explanarem as suas ideias, os autores se desvelaram na consecução de uma criteriosa triagem dos vocábulos a utilizar (de onde o estocástico está ausente) e no rigor da construção frásica, o que os torna credores dos maiores encómios. Que mais justificados seriam ainda se, em termos conteudísticos, não se houvessem manifestado tão “pródigos”, quer na enfatização dos deméritos dos adversários quer na sobrevalorização dos méritos dos nossos, aspecto em que são gratuitamente proclives à tendenciosidade laudatória que os aproxima perigosamente do tom panegírico, propensão que, no entanto, tem de ser equacionada à luz dos conceitos vigentes à época e não com a dilação de quase quatro séculos.

Porque, a persistirmos na obnubilação deste hiato e a insistirmos em ser o actual o paradigma comparativo a usar – ou seja, se o termo de comparação fosse o discurso jornalístico hodierno –, imperioso se tornaria reconhecer serem as gazetas seu lídimo precursor, já que nelas são outrossim detectáveis quer a anemia semântica de que as palavras são hoje vítimas quer a tetraplagia sintáctica de que pletora dos textos coevos está eivada e de que a maioria enferma.

É óbvio – e em nome da cientificidade requerida por uma análise deste cariz não seria justo escamoteá-lo – existirem aspectos menos conseguidos (mormente o registo de quantidade não negligenciável de fait divers que desvalorizam o todo, e, inclusive algumas (escassas) discrepâncias e incongruências), que, no entanto, devem ser enquadrados no contexto epocal, um tempo em que as noções de correcto e de incorrecto não eram as hodiernas nem tão inflexíveis quanto as que nos regem.

Observados estes pressupostos e tidas em consideração estas premissas forçoso se torna inferir (e admitir) – outra ilação não é compaginável com o antes disseccionado – constituírem as Gazetas da Restauração um marco imprescindível, porque de incontornável pertinência, quando se almeja proceder ao estabelecimento da árvore genealógica do jornalismo português, identificar os seus avoengos precursores, com vista ao seu estudo e sistematização.

 

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VAN DIJK, Teun A. (1990). La noticia como discurso. Comprensión, estructura y producción de la información. Barcelona, Ediciones Paidós.

 


[1] Questão nada consensual, a dos nomes dos autores, como é consabido, e a que, por não ser do âmbito desta rubrica, fazemos apenas esta alusão.

[2] Ambos na mesma linha: “val tudo mui barato, e alguns soldados estão muito ricos.”

[3] Cf. Houaiss, VI, p. 3545.

[4] Cf. Houaiss, III, p. 1656.

[5] Referência especial para este tropo, que pode considerar-se um caso particular de metonímia. A atribuição do nome de uma realidade a outra fundamenta-se aqui numa relação essencial e não acidental (designa uma parte para significar o todo).


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Jornais UFP,
23 de jun de 2010 11:46