08. Gazeta: Discurso

Gazeta “da Restauração”: Análise do discurso

Jorge Pedro Sousa, Nair Silva, Patrícia Teixeira, Carlos Duarte e Eduardo Zilles Borba

O estudo desenvolvido neste capítulo tem por objectivo expor a substância do discurso da Gazeta “da Restauração”, primeiro periódico português. Para esse efeito, no que à metodologia diz respeito, recorreu-se à análise do discurso, quantitativa e qualitativa. A pesquisa em causa justifica-se e ganha relevância pelo facto dos estudos já realizados sobre a Gazeta, conforme se observou no terceiro capítulo, terem objectivos diferentes da presente investigação, limitarem-se a referências mais ou menos superficiais à Gazeta ou ainda apresentarem desenhos de investigação pontualmente questionáveis.

Procurou-se, na presente pesquisa, que a análise do discurso da Gazeta fosse feita respeitando duas dimensões: 

1) As estratégias cognitivas de processamento da informação e as suas consequências textuais, realçadas, entre outros autores, por Van Dijk (1990), para quem o enunciado jornalístico decorre da selecção e do resumo de informações e da reprodução de discursos de terceiros segundo critérios de relevância, bem como da reformulação estilística e retórica dos enunciados de maneira a que apresentem coerência e unidade, apesar da diversidade de elementos que concorrem para a sua elaboração;

2) A interpretação histórico-culturológica dos resultados, seguindo o mesmo percurso de investigações anteriores sobre as Relações de Manuel Severim de Faria (Sousa et al., 2006) e outras publicações pré-jornalísticas (Sousa, 2006 b; Sousa, 2006 c).

A ênfase que colocámos numa interpretação culturológica do discurso da Gazeta não pretende reduzi-lo a uma simples repetição de mitos, estereótipos, lendas e géneros eternos (Lule, 2001). Além disso, a interpretação cultural que nos propomos fazer dos resultados da análise qualitativa e quantitativa do discurso da Gazeta também implica reconhecer que esse discurso não pode ser equacionado unicamente em termos da dialéctica poder/resistência (Fairclough, 1995 a; 1995 b), nem da dialéctica inclusão/exclusão (Foucault, 1970/1997; 1975/1999), nem das relações de força dentro do campo jornalístico e dos campos que o cercam (Bourdieu, 1984), embora admitamos que algumas dessas ideias podem contribuir para uma clarificação dos resultados e para o apuramento das causas dos fenómenos discursivos materializados na Gazeta.

Ao adoptarmos uma perspectiva histórico-cultural na interpretação dos dados, pretendemos, predominantemente, determinar até que ponto o conhecimento categorizado que a Gazeta dá do mundo reflecte, simultaneamente, as circunstâncias da época e as preocupações e desejos dos enunciadores e dos actores e instituições sociais que com eles interagiam. Essas preocupações e desejos estão, em última instância, relacionados com a sobrevivência – inquietação eterna da humanidade – mas também, eventualmente, com o entretenimento e a formação. É exclusivamente nessas acepções que nos socorremos de autores como Schudson (1988; 1996; 2000) e Carey (1975; 2000), para os quais, num determinado momento histórico, uma determinada sociedade, com determinada cultura, somente percepciona como “notícia” os fenómenos que encaixam na categoria “notícia”, construída em função dos padrões culturais com que essa mesma sociedade olha para o mundo.

De facto, sustentámos e tentámos provar em várias ocasiões que os discursos jornalísticos são o resultado visível da actividade de enunciadores posicionados num determinado contexto histórico e sócio-cultural, embora reflectindo, normalmente, desejos, necessidades e preocupações intemporais (Sousa, 2005b; Sousa, 2006; Sousa, 2006b; Sousa, 2006c; Sousa et al., 2006). Assim, cada discurso jornalístico é elaborado porque produz sentido nesse contexto e de forma a produzir sentido dentro desse mesmo contexto, independentemente da descrição mais ou menos objectiva e, portanto, mais ou menos verídica que faça de determinados aspectos da realidade. Em síntese, as notícias só são notícias porque, num determinado momento, fazem sentido enquanto notícias; posteriormente, poderão ter valor como documentos, mas não como novidades, ou notícias, no sentido absoluto do termo.

Em consequência, a Gazeta tem, para as mulheres e homens do século XXI, valor como documento histórico e jornalístico. Por outras palavras, falar da Gazeta significa falar do primeiro periódico jornalístico e noticioso português, que noticiava sobre o que, no contexto da época era visto como relevante – não apenas relevante porque à luz da cultura era visto como relevante, como notícia, uma perspectiva que poderia ser considerada redutora, mas relevante também porque os acontecimentos noticiados poderiam ameaçar a sobrevivência individual e da comunidade ou até, pelo contrário, promover o sucesso individual e da comunidade ou simplesmente o entretenimento. Por isso se pode dizer que o jornalismo, o do século XVII e o actual, é uma resposta organizada às necessidades de informação, formação e entretenimento das pessoas.

Para terem e produzirem sentido num determinado contexto, os discursos jornalísticos propõem determinadas formas de olhar para o mundo, ou seja de enquadrar o mundo. Aliás, desde logo é a imposição de determinados enquadramentos aos acontecimentos e problemáticas que os leva a tornarem-se notícias, a serem percepcionados como notícias.

Os enquadramentos revelam-se, em primeiro lugar, no que é dito, no que não é dito (e que se pode ou não intuir) e no que está implícito (Sousa, 2005b), na organização do discurso (Goffman, 1975), nas sugestões implícitas ou explícitas sobre o que está em causa (Gamson, 1989), nos padrões de apresentação, selecção, ênfase, exclusão e interpretação (Gitlin, 1980), nas metáforas, frases feitas e exemplos e no encaixe das novidades em velhas molduras interpretativas (Traquina, 2002).

Os enquadramentos podem ter duas dimensões. A primeira dimensão diz respeito ao sentido imediato do discurso dentro de um determinado contexto cultural. Uma morte é uma morte; uma batalha é uma batalha; o défice é o défice; uma decisão política é uma decisão política. A segunda dimensão diz respeito às interpretações que na própria peça jornalística possam ser discursivamente sugeridas pelo enunciador para os acontecimentos e problemáticas, com clareza ou opacidade. Esses enquadramentos para os discursos jornalísticos serão negociados, a jusante, por cada receptor, que normalmente retém dos discursos “o que quer e como quer”, pois a recepção é moldada pelas expectativas, valores e crenças do receptor (ver, por exemplo: Bryant e Zillmann, 1996; Sousa, 2006). Vários desses enquadramentos são explícitos, revelando-se, por exemplo, em explicações, análises e opiniões sobre os factos e problemáticas traduzidos discursivamente; outros são implícitos, não ditos (ver, por exemplo: Fowler, 1994), incluindo aqui, desde logo, o acordo tácito entre emissor e receptor sobre o que é visto como notícia num determinado veículo jornalístico e no seio de uma determinada cultura. Isto é, o enunciador jornalístico não explica porque é que algo é notícia; o enunciador parte do princípio de que no contrato de leitura (Véron, 1999; Charaudeau, 2006) que o liga ao receptor está subjacente a sua capacidade de seleccionar o que tem valor como notícia, o que constitui, desde logo, uma proposta de enquadramento do mundo – tal facto tem valor noticioso; aqueloutro não, ou tem menos, pelo que pode ser descartado da lista de notícias a publicar.

Para enunciadores e receptores, faz sentido falar dos acontecimentos e problemáticas que se afirmam como referentes dos discursos jornalístico, ou seja, que são notícia, porque afectam o contexto. O homem sempre necessitou de estar atento ao contexto para garantir a sua sobrevivência e sucesso desde os tempos imemoriais em que precisava de vigiar o meio para fugir aos predadores e garantir alimentação e abrigo e em que carecia de ter as decisões dos chefes sob escrutínio porque também elas eram determinantes para acautelar essa mesma sobrevivência e sucesso.

O facto de determinadas inquietações humanas serem estáveis ao longo da história é provavelmente a razão para a constância histórica dos temas das notícias. Essas inquietações, bem como os modos de falar delas e de lhes dar resposta, foram sendo transpostas para a herança cultural transmitida de pais para filhos. Assim, grosso modo, os protagonistas podem mudar e as circunstâncias concretas de cada acontecimento também, mas, conforme diagnosticou Stephens (1988), o que era notícia ontem ainda hoje é notícia. É possível prever muitas das coisas que, em abstracto, serão notícia, porque serão o que é ou foi notícia. E isso sucede porque foram historicamente consolidados na nossa cultura os factores que dão valor noticioso a determinados factos e os destacam dos restantes.

Os jornalistas olham para o mundo seguindo os padrões culturais dos seus concidadãos, já que partilham a mesma herança cultural e, no fundo, as mesmas inquietações. Por isso, normalmente, há sintonia entre o que a comunicação social considera notícia e aquilo que os receptores consideram notícia – aliás, é por esta razão que as notícias interessam e os órgãos jornalísticos têm audiência. Os valores-notícia, isto é, as qualidades que determinam a percepção de um acontecimento ou uma problemática como matéria noticiável, são, assim, em grande medida, expressões intemporais da cultura, levando, pela sua estabilidade ao longo da história, a que também as notícias sejam estáveis e previsíveis.

Os valores-notícia resultam das experiências do mundo que os nossos ancestrais vivenciaram e que os obrigaram a trocar informações, de forma a garantirem a satisfação das necessidades, a segurança, a coesão da comunidade, o estabelecimento de um quadro explicativo do mundo e a transmissão da herança cultural (incluindo aqui a herança técnica), que asseguraria uma vantagem competitiva à sua descendência. Por isso eram e são notícia os conflitos e as guerras; as acções dos governantes e poderosos; a produção, o comércio e as trocas de mercadorias; as invenções; as catástrofes, acidentes e tragédias; o desviante, o interdito e o ilegal; o insólito e o estranho, que muitas vezes apelam a interpretações que permitem normalizar o diferente e enquadrá-lo nas explicações existentes para o mundo.

Já em 1690, Tobias Peucer destacou que as notícias são o resultado de uma selecção de acordo com a actualidade, importância, utilidade e interesse dos acontecimentos, o insólito, a referência a pessoas de elite, o interesse cívico, a negatividade e a variedade temática do noticiário, o que remete para os conceitos bem contemporâneos de gatekeeping (selecção de notícias por “porteiros”) e de critérios de noticiabilidade. Também Beltrão (1960/1992: 69-109), ao falar dos “caracteres do jornalismo”, refere-se à actualidade, actualização e permanência; à variedade do noticiário e do próprio jornalismo; à necessidade de selecção e interpretação, extensiva e intensiva; à periodicidade e à popularidade, no sentido de que o jornalismo se destina a todos os públicos, pois sua finalidade seria idealmente a promoção do bem comum.

Galtung e Ruge (1965) sistematizaram os critérios de noticiabilidade que, no mundo ocidental, sobrepondo-se à subjectividade dos jornalistas, ditam o que é e o que não é notícia. Para eles, um acontecimento transformar-se-ia em notícia por ser forte num ou em vários valores-notícia, como sejam: (a) a duração de um acontecimento e a possibilidade de este encaixar no ritmo de trabalho dos jornalistas (um acidente encaixa facilmente, mas não um processo lento e de longa duração, como a totalidade de uma investigação científica); (b) a clareza sobre o que está em causa num acontecimento; a significância, correlacionada com a relevância de um acontecimento para os potenciais receptores e com a proximidade física e cultural em relação ao acontecimento; (c) a consonância de um acontecimento com aquilo que é esperado acontecer, que leva, por vezes, a aplicarem-se velhos enquadramentos a novas situações; (d) o inesperado e o raro, desde que significativo; (e) a continuidade, no sentido de que os desenvolvimentos de algo que já foi noticiado tendem a ser notícia; (f) o equilíbrio temático do noticiário; (g)a personalização, revelada na capacidade de centrar um acontecimento em pessoas e nas suas acções; (h) a referência a pessoas de elite ou países preponderantes no contexto internacional; (i) a negatividade dos acontecimentos, correlacionada com a tendência para o consenso na definição de acontecimentos como negativos e com o facto de grande parte dos acontecimentos negativos serem também inesperados mas, algo paradoxalmente, consonantes com o esperado.

Ericson, Baranek e Chan (1987) destacam outros critérios e, na senda de Galtung e Ruge, mostram que muitas vezes eles operam entrecruzadamente. Por exemplo, o potencial de simplificação da narrativa de um evento correlaciona-se com a clareza do significado deste último e com a sua significância, dependente da proximidade cultural; a dramatização remete para a potencialidade de um acontecimento ser visto como um drama, mas a percepção do limiar de dramaticidade e, consequentemente, de noticiabilidade, subjuga-se, igualmente, à proximidade cultural e ainda à possibilidade de personalização da narrativa; a cobertura em continuação dos desenvolvimentos de acontecimentos anteriores subordina-se à inserção destes em enquadramentos já existentes e familiares (que Galtung e Ruge abordam ao falar da consonância), o que implica a ideia da “novidade sem mudança” (Phillips, 1976), da “eterna repetição” (Rock, 1973), no sentido de que o que tem valor-notícia é o que é novo na aparência sem o ser na essência, que resulta, quanto a nós, do que afirmámos acima − a matriz cultural dos valores-notícia. Ericson, Baranek e Chan (1987) falam ainda do inesperado como valor-notícia, principalmente quando essa qualidade está associada à negatividade, bem como do critério da infracção ao que é visto como legal e correcto, que, ademais, segundo os autores, confere ao jornalismo um papel de policiamento da sociedade e, normalmente, a tomada de partido dos jornalistas pelos cidadãos enredados nas malhas da burocracia.

Muitos dos autores que se debruçam sobre a teoria do jornalismo e da notícia desembocam, inevitavelmente, na discussão da noticiabilidade (por exemplo: Alsina, 1993; Traquina, 2002; Ponte, 2002; Wolf, 1987; Gans, 1979; Fishman, 1980; Sousa, 2006; Beltrão, 1960/1992; Coman, 2003; Spitulnik, 1993; Coman e Rothenbuhler, 2005; Tuchman, 1978...). A investigação sobre valores-notícia e noticiabilidade permitiu perceber, por um lado, que nem todos os critérios de noticiabilidade estão apenas ligados aos acontecimentos, mas também a outros factores do processo jornalístico de produção de informação; por outro lado, que a ênfase em determinados critérios e, por vezes, os próprios critérios, podem variar de empresa para empresa, época para época, etc. (Traquina, 2002: 203), não obrigando a escolhas únicas (Ericson, Baranek e Chan, 1987). Wolf (1987: 173-192) distingue, assim, os critérios (a) substantivos, ligados ao acontecimento, dos critérios (b) relativos ao produto, (c) relativos ao meio, (d) relativos ao público e (e) relativos à concorrência. Traquina (2002: 186-204), por seu turno, segmenta os valores-notícia nos seguintes grupos: (1) os de selecção, intrínsecos ao acontecimento[1] (morte; notoriedade; proximidade; relevância ou importância; novidade; factor tempo - actualidade, cabide noticioso[2]; notabilidade[3]; surpresa; conflito ou controvérsia; e infracção e escândalo); (2) os de selecção contextual, que actuam no processo de produção das notícias (disponibilidade; equilíbrio do noticiário; potencial de cobertura em imagem; concorrência; dia noticioso[4]); e finalmente (3) os valores-notícia de construção, que actuam sobre a selecção dos elementos do acontecimento que figurarão na notícia (amplificação - hiperbolização do acontecimento e das suas consequências; relevância - capacidade de mostrar como o acontecimento é importante; potencial de personalização; potencial de dramatização; consonância - ou potencialidade de enquadrar um acontecimento em enquadramentos anteriores).

Assume-se, em consequência, nesta análise, seguindo pesquisas anteriores (Sousa et al., 2006; Sousa, 2006 b; Sousa, 2006 c), que os discursos jornalísticos, incluindo nestes os discursos da Gazeta, dependem do enunciador e do contexto de enunciação, sendo mais ou menos verídicos em função da vinculação específica que estabelecem com os fenómenos reais que lhes servem de referente. Assim, os discursos jornalísticos dependem do contexto porque deste último fazem parte os acontecimentos e problemáticas que servem de referentes aos primeiros. Mas os discursos jornalísticos também dependem do contexto porque a enunciação depende:

a) Da interacção particular estabelecida entre o jornalista enunciador, os fenómenos que enuncia e eventuais mediadores (fontes de informação) entre ele e os fenómenos enunciados;

b) Das interacções estabelecidas entre o enunciador e outros actores sociais (cada um representando papéis), as instituições e o mundo, incluindo-se aqui a interacção estabelecida entre o enunciador e o receptor presumido pelo primeiro (ou seja, a interacção entre o enunciador e a imagem que este faz do receptor);

c) Do significado e do valor jornalístico que os referentes discursivos adquirem num determinado ambiente sócio-histórico-cultural – significado e valor esses que lhes possibilitam, precisamente, tornarem-se referentes dos discursos jornalísticos.

 

Repare-se que a assumpção de que os discursos jornalísticos dependem do enunciador e, como refere Fairclough (1995 a; 1995 b), do contexto de enunciação (de que faz parte a realidade que cerca o enunciador), não significa que não se possam traduzir linguisticamente, com fidelidade e rigor, os fenómenos reais. Se assim não fosse, todos os discursos que tentam traduzir aspectos da realidade, incluindo os discursos jornalísticos e os científicos, seriam arbitrários e aleatórios. Conforme recorda Tambosi (2007), podem-se estabelecer correspondências entre a realidade e os discursos que a procuram traduzir, pois os factos reais, embora extralinguísticos, podem ser alvo de tradução linguística, por muito que a forma como cada enunciador olhe para o mundo possa depender do caldo cultural em que esteja embebido. Por isso, o jornalismo – e aqui a Gazeta não é excepção – gera um determinado tipo de conhecimento sobre o mundo, que se repercute na memória colectiva, sendo esse conhecimento tanto mais apurado quanto melhor os discursos traduzirem o real com fidelidade. Na verdade, como diz Meditsch (1992), na linha de Park (1940), o jornalismo é capaz de construir um campo de conhecimento, menos rigoroso do que o da ciência formal mas menos esotérico do que o da filosofia. Um campo de conhecimento vinculado aos fenómenos da realidade traduzidos linguisticamente nos discursos jornalísticos. Um campo de conhecimento limitado, como todo o conhecimento humano. Um campo de conhecimento que, passe a metáfora, ilumina menos do que deixa obscuro, apesar de o pouco que ilumina ser importante para a humanidade.

Berger e Luckmann (1966/1991) relembram que o recurso à linguagem gera a classificação das experiências da realidade em diferentes campos semânticos, que formam um acervo social de conhecimentos. O jornalismo participa da edificação quotidiana desse acervo social de conhecimentos.

Como todo o conhecimento dos fenómenos reais, também o conhecimento que o jornalismo oferece sobre o mundo é categorizado. Mas o conhecimento jornalístico é também sistemático e formalmente válido, mais próximo da realidade do que o conhecimento anedótico e assistemático do senso comum. A Gazeta “da Restauração”, por exemplo, ao propor um mundo em que os acontecimentos se destrinçam entre os que se passavam no Reino e os do exterior contribuiu para gerar a categoria “nós” em oposição à categoria “outros”. Ao propor a categoria “nós”, portugueses, a Gazeta, conforme, provavelmente, diria Maingueneau (1990), concorreu para a renovação identitária da comunidade portuguesa, dando pública voz aos interesses da causa da Restauração da Independência.

Embora se possa assentar na ideia de que se deve atender ao contexto da enunciação para se entender o enunciado, também é preciso, conforme já tentámos provar em pesquisa anterior (Sousa et al., 2006), entender o enunciador e as suas idiossincrasias. Giddens (1991) e Giddens et al. (1995), por exemplo, também procuraram demonstrar que os enunciadores não são o mero produto de uma estrutura. Pelo contrário, para esses autores os enunciadores são autónomos e têm capacidade de escolha e reflexão. Esta perspectiva foi devidamente levada em conta na análise da Gazeta, inclusivamente através das referências aos presumíveis redactores deste periódico e às suas vidas.

 

Análise qualitativa do discurso

Neste segmento da análise da Gazeta, tomou-se em consideração que, conforme se observou acima, o jornalismo é um espaço onde circulam e onde, por vezes, se confrontam propostas de atribuição de significado ao mundo. Resulta da acção e da fala de determinados indivíduos enquadrados historicamente, que olham para o mundo, para si mesmos e para os outros de determinada maneira, fruto das suas inquietações e desejos no momento, embora muitos desses desejos e inquietações momentâneas sejam reflexo de desejos e inquietações intemporais. A noticiabilidade é, em grande medida, a expressão cultural dos desejos e inquietações da humanidade, num momento ou ao longo de toda a história.

Como todos os restantes discursos, ao nomear, o jornalismo também oculta o que não nomeia. Como todos os outros discursos, o discurso jornalístico não pode abarcar toda a realidade, embora possa traduzir linguisticamente fenómenos particulares dessa mesma realidade, vinculando-se a esses mesmos fenómenos. A essa vinculação subjaz a ideia de verdade. No entanto, o discurso jornalístico tem efeitos maiores do que os outros discursos porque é um discurso público, tendo, portanto, maior capacidade do que outros discursos, como os interpessoais, para legitimar pessoas, instituições e determinados tipos de relações, como as relações de autoridade e poder. Mas nos outros discursos também ocorrem esses fenómenos. Aliás, da comunicação interpessoal podem surgir para os fenómenos reais interpretações alternativas às dos meios jornalísticos (ver: Sousa, 2006).

O discurso jornalístico, tal como se configura desde o século XVII (Sousa et al., 2006), também é um discurso comprometido com a verdade, no sentido de que é sua ambição reflectir discursivamente fenómenos reais. Nesse sentido, não é um discurso arbitrário, nem aleatório e muito menos inútil. Não é uma mera construção social, pessoal e cultural. É um discurso, em tese, vinculado a fenómenos reais, nisto assentando o compromisso jornalístico com a verdade. Aliás, é o compromisso com a verdade, ou seja, o compromisso de que o jornalista narra o que aconteceu vinculando-se à realidade, conforme a presenciou ou conforme lha relataram, que assegura legitimidade, autoridade e credibilidade ao jornalista (Sousa, 2005b; Sousa, 2006). A objectividade não é um mero ritual estratégico (Tuchman, 1978), embora também o seja. Tem a ver com a supremacia do objecto de enunciação sobre o sujeito enunciador, com a vinculação do discurso ao facto, com a relação de verdade entre fenómeno e respectiva tradução linguística. É sobre o compromisso com a verdade que assenta o contrato de leitura entre jornalista e leitor (Véron, 1999).

O compromisso com a verdade implica um compromisso tácito entre este e o leitor. O jornalista procura descrever ao leitor (imaginado pelo jornalista em função da sua própria experiência do mundo, do outro e do campo jornalístico) o que aconteceu de importante, o que importa saber sobre o mundo, eventualmente ouvindo pessoas que, devido ao seu papel social e ao seu posicionamento na sociedade (por serem testemunhas, líderes, representantes de grupos sociais, especialistas, etc.), possam testemunhar, explicar ou interpretar os acontecimentos. Muitas das notícias, aliás, são sobre essas mesmas pessoas, porque pode ser relevante para a sobrevivência e para o sucesso individual e da descendência (muitas das preocupações e tendências comportamentais humanas têm origem genética) acompanhar e vigiar a acção dos líderes e antever a forma como a sociedade evoluirá.

É da ideia de fidelidade ao fenómeno na respectiva tradução linguística que brotarão algumas das regras de enunciação patentes no jornalismo; outras serão geradas por fenómenos diferentes, como, por exemplo, a resposta a necessidades, como a necessidade de se disporem e disponibilizarem várias informações num espaço ou tempo restritos; outras ainda decorrerão da forma como diferentes oradores foram aprendendo a contar histórias, prendendo a atenção do público. Assim, antes de serem um recurso estratégico de defesa do jornalista perante críticas ou ameaças (Tuchman, 1978), as regras de enunciação jornalística são respostas cognitivas, culturalmente fixadas, às necessidades de traduzir linguisticamente fenómenos reais, de dar informação sobre eles, num espaço ou tempo fixados e prendendo a atenção dos receptores.

Foi nossa preocupação aplicar à análise do discurso da Gazeta a moldura explicativa dos discursos jornalísticos atrás exposta. Em particular, tivemos como principal objectivo determinar quais são os enquadramentos sugeridos discursivamente para os acontecimentos e problemáticas noticiados na Gazeta e entender as respectivas causas. Tentámos, igualmente, apurar quais as estratégias que presidiram à elaboração formal do texto. Assim sendo, definimos as seguintes hipóteses e perguntas de investigação para essa componente da análise:

 

Quadro 1: Hipóteses e perguntas de investigação balizadoras da análise qualitativa do discurso

Hipótese 1: Tendo em conta que o jornalismo emergente dos séculos XVI e XVII era essencialmente noticioso, também a intenção da Gazeta foi fazer circular notícias.

Pergunta de pesquisa 1: Quais os objectivos da Gazeta que podem, directa ou indirectamente, ser determinados por uma análise qualitativa do discurso?

Hipótese 2: Gazeta reflecte discursivamente as circunstâncias e acontecimentos da época.

Pergunta de pesquisa 2: Quais os ecos do mundo repercutidos na Gazeta?

Pergunta de pesquisa 3: Que tratamento discursivo é reservado às elites, nomeadamente ao Rei, e de que forma são representados discursivamente os vários estratos da população?

Pergunta de pesquisa 4: Como são representados discursivamente os portugueses e os não-portugueses na Gazeta, nomeadamente os espanhóis e seus aliados e D. Filipe III, o Rei deposto?

Pergunta de pesquisa 5: Quais os enquadramentos subjacentes aos textos? Por exemplo, quais as relações discursivas estabelecidas entre a religião e a construção de sentido para o mundo?

Hipótese 3: Na Gazeta recorre-se às formas retóricas clássicas de enunciação de novidades (referir o sujeito, o objecto, o lugar, o tempo, a causa e o modo − cf. Peucer, 1690) e de formas anteriores de organizar o texto, mormente à narração cronológica, comum nas crónicas historiográficas medievais (cf. Lanciani, 1979).

Pergunta de pesquisa 6: Quais são as estruturas formais e os principais dispositivos retóricos de índole jornalística − ou pré-jornalística − que podem identificar-se nos textos da Gazeta?

Hipótese 4:

Pergunta de pesquisa 7: Há referência a fontes?

É de advertir que alguns dos excertos usados para prova e exemplificação da análise do discurso da Gazeta foram pontualmente vertidos para o português contemporâneo, modificando-se, inclusivamente, alguns termos, de maneira a facilitar a leitura, embora se procurasse, sempre que possível, manter o recorte estilístico do redactor, ou redactores, da Gazeta.

  

A intenção primeira da Gazeta

Embora pudesse fazer propaganda quer da Restauração quer do Catolicismo, de forma clara ou dissimulada, embora pudesse fantasiar em certas notícias ou mesmo falar de acontecimentos inventados e falsos (talvez mais por causa da credulidade dos redactores do que por mentira intencional), a primeira intenção da Gazeta foi a de dar informação, alguma de produção externa, designadamente da tradução de notícias de jornais estrangeiros, mas muita dela de produção própria, produzida a partir da observação directa do que se passava, de cartas, de relatos orais dos viajantes e de outras fontes.

Na verdade, o propósito principal de um jornal informativo é noticiar, responder à pergunta “o que há de novo?”, de maneira a que os leitores se sintonizem com o mundo e obtenham informações que podem vir a ser relevantes para a sua vida, para a sua acção e e sobrevivência, bem como para a vida, acção e sobrevivência da sua descendência. Dentro das limitações enfrentadas por um jornal seiscentista e tendo em consideração a conjuntura da época, a Gazeta “da Restauração” não se afasta desse propósito predominante, nele se concretizando o seu contrato de leitura com o leitor, conforme se pode observar na generalidade das notícias, entre as quais as seguintes:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Foi Sua Majestade visitar os armazéns e a Armada Real.

D. Fernando Teles de Faro foi nomeado capitão-mor da vila de Campo Maior.

Morreu o conde de Odemira.

Da cidade de Elvas fugiu um soldado estrangeiro cavaleiro. Foram no seu alcance e colheram-no escondido num mato, perto do caminho de Badajoz. Trouxeram-no outra vez para o corpo de guarda e (...) o enforcaram.

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

O conde da Vidigueira que vai por embaixador a França está para sair com o primeiro tempo.

O monteiro-mor do Reino foi para as fronteiras do Alentejo como general de cavalaria.

Rui de Moura Teles vai por governador de Mazagão.

 

Gazeta é, assim, um registo sumariado e selectivo (por vezes excessivamente selectivos – devido à censura, por exemplo, os leitores da Gazeta nada souberam sobre a batalha do Montijo) de vários acontecimentos ocorridos em Portugal (em especial no primeiro período de publicação), na Europa e, por vezes, noutros pontos do mundo. Esses acontecimentos são noticiados em sucessão, sem grandes preocupações de ordem ou hierarquização. Entre muitos outros exemplos que poderiam ser dados, observem-se os seguintes:

 

Gazeta do Mês de Maio de 1642

Vieram algumas naus de França, as quais trouxeram muitos soldados portugueses que militavam por El-Rei Dom Filipe nas praças da Catalunha.

O General Martim Afonso de Melo mandou algumas tropas de gente sobre a Codiceira vila de Castela, na qual entraram. E depois de fazerem recolher o inimigo com grandíssimo dano, foram saqueando o lugar e se pôs fogo à maior parte dele.

Estão declarados os capitães da armada Real que se vai aprestando para sair este Verão, que consta de famosos galeões do Estado.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

No princípio deste mês escreveu-se da Província do Alentejo que no dia de São João vieram os inimigos a Olivença e que os nossos os fizeram retirar com a morte de muita gente.

António Teles da Silva foi governar o estado do Brasil.

Veio El-Rei nosso Senhor da sua quinta de Alcântara com toda a Casa Real.

 

Algumas “notícias” da Gazeta são descaradamente fantasiosas, mas é possível que esta situação se deva mais a uma hipotética credulidade dos redactores seiscentistas naquilo que ouviam e liam do que a uma intencional difusão de mentiras. Na realidade, emana da generalidade das notícias da Gazeta uma intenção de verdade, alicerçada num ânimo de factualidade, que já Azevedo (1644), ainda durante o período de publicação da Gazeta, exigia aos periódicos de novidades e que se transformou num valor jornalístico. Por exemplo, logo na primeira notícia do primeiro número relata-se um combate naval entre castelhanos e holandeses, mas não se escamoteia que os holandeses, aliados dos portugueses, tiveram “algum dano”, o que fez os seus navios “recolherem-se” ao porto. Entre muitos outros exemplos que poderiam ser dados, na quarta notícia do primeiro número são relatados actos de indisciplina entre os marinheiros do galeão Santa Margarida, opção jornalística que não dava boa imagem da governação real e do estado da frota portuguesa. Até certo ponto, a Gazeta mostrava-se, assim, algo incómoda para o poder, devido, precisamente, à sua intenção de verdade e à sua ambição de noticiar (“todos”) os acontecimentos com valor jornalístico, o que motivaria, inclusivamente, a suspensão da sua publicação, em 1642, e a sua reaparição como periódico dedicado unicamente às notícias “de fora do Reino”.

Entre centenas de factos que poderia ter referenciado, a Gazeta noticia apenas alguns, seleccionados pelos seus redactores, principais gatekeepers do processo de produção de informação neste periódico, entre os que obedeciam aos critérios de noticiabilidade que, de certa forma, são intemporais, já que se relacionam, nomeadamente, com a sobrevivência. A posse de informação, ontem como hoje, é, na verdade, uma garantia de sobrevivência, pois gente informada detecta perigos, conhece oportunidades e pode conectar-se com mais pessoas. Entende-se aqui que o conceito de sobrevivência não se reporta exclusivamente à reacção ao perigo e à preservação da vida. É um conceito mais amplo que diz respeito à ambição genética de uma pessoa obter vantagens para si e para os que lhe são próximos, assegurando, nomeadamente, a sobrevivência da descendência em boas condições, num mundo competitivo. É um conceito que abarca, portanto, por exemplo, a obtenção e criação de riqueza e fama, a defesa da propriedade, a segurança e a ascensão social.

Gazeta funciona, ainda, como uma espécie de registo historiográfico do quotidiano, um registo selectivo, é certo, distinto da construção da História pelos historiadores mas, paradoxalmente, fonte para essa mesma História (ver: Beltrão, 1992: 71). A Gazeta é, portanto, acima de tudo, um periódico de novidades. Não é, nem os seus redactores certamente pretenderam que o fosse, um mero instrumento de propaganda ao serviço da causa brigantina, embora se detectem intenções propagandísticas da Restauração quer nas omissões de factos historicamente relevantes passados na época (especialmente no segundo período de publicação do periódico), quer em certas matérias, por vezes apenas pontualmente, em determinadas passagens, como no caso da segunda notícia do primeiro número (Novembro de 1641), em que o Rei é apresentado como possuindo “natural benignidade”.

Mesmo as notícias sobre os actos da administração real, que podem parecer propagandísticas, tal como é sugerido pela generalidade dos autores que se debruçaram sobre a Gazeta, podem ser encaradas como as notícias contemporâneas sobre os actos de governo:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

Despachou El-Rei Nosso Senhor ao Conde da Vidigueira por embaixador em França, para assistir na Corte de Paris.

Dom Antão de Almada (que foi por embaixador extraordinário a Inglaterra, fica assistente para tratar dos negócios do Reino.

(…)

Fez El-Rei Nosso Senhor mercê do Priorado do Crato ao Ilustríssimo Senhor Dom Rodrigo a Cunha, arcebispo metropolitano.

Estão nomeados mestres de campo Cristóvão de Mello, filho do monteiro-mor do Reino, e Dom Sancho Manuel.

Publicou-se o subsídio eclesiástico.

 

Efectivamente, ao contrário de leituras mais apressadas, as notícias sobre a governação de D. João IV, em que o Soberano e outros governantes surgem exercendo o poder, o que reforçava e contribuía para legitimar a sua posição, não devem ser vistas como mera propaganda, mas sim como matérias de interesse público, pois permitiam conectar os cidadãos com a realidade política do país. Ao dar conta dos actos dos governantes que poderiam ter repercussão directa na vida do país e dos seus habitantes, a Gazeta não fazia, em consequência, mais do que a sua “obrigação” jornalística, tal e qual como faz qualquer periódico generalista contemporâneo.

 

Os temas das notícias

Como qualquer jornal generalista, a Gazeta aborda um numeroso conjunto de assuntos, procurando, organizada e selectivamente, dar resposta às necessidades sociais de informação, sendo, portanto, útil à comunidade, propósito central do jornalismo de ontem e de hoje.

 

A guerra

Em primeiro lugar, num mundo dilacerado pela Guerra dos Trinta Anos, no qual a Restauração da Independência de Portugal e a guerra luso-castelhana que se lhe seguiu é um dos principais episódios peninsulares (o outro é a revolta catalã), a Gazeta não podia deixar de se centrar nos conflitos bélicos. A guerra é constante e, quiçá, ameaçadora para o leitor do periódico, que ao lê-lo pode aperceber-se melhor do perigo. São muitas, na realidade, as notícias sobre a Guerra da Restauração, no primeiro período de publicação do jornal, e sobre a Guerra dos Trinta Anos, em ambos os períodos da Gazeta. Por exemplo, na notícia seguinte, logo do primeiro número da Gazeta, relata-se uma incursão militar portuguesa além-fronteiras:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

O general Martim Afonso de Albuquerque (sabendo que o inimigo estava em Valverde prevenindo-se para dar em Olivença) juntou do terço de Dom João da Costa, de Aires de Saldanha e de todas as fronteiras do Alentejo três mil e tantos homens e a 27 de Outubro saiu da cidade de Elvas, no dia seguinte pela manhã chegou a Valverde com a infantaria repartida por três esquadrões e quinze mangas volantes e a cavalaria em sete tropas. Foi visto pelos inimigos, acudiram todos à defesa, prevenindo-se os nossos para o assalto. Investiram e ganharam logo a primeira e a segunda trincheira e arrimando escadas entraram na vila, na qual não havia rua que não defendesse a entrada com uma peça de artilharia. Porém, os nossos romperam e destruíram tudo e os inimigos se retiraram para uma Igreja ao pé da qual havia um reduto, de onde se defenderam valorosamente, e estando já os nossos ao pé da terceira trincheira e o lugar quase rendido, houve da nossa parte quem gritou que se retirassem, e cuidando todos que era ordem do general, obedeceram, e cessou a destruição, que foi tão grande que não ficou no local casa alguma que os soldados não saqueassem e o que não podiam trazer ou o despedaçavam ou lhe punham fogo. Tornaram por fim para Elvas alegres com a vitória e deixaram na vila mortos mais de 400 castelhanos (…). Trouxeram 55 prisioneiros, tomaram três bandeiras (…). Da nossa parte morreram pouco mais de trinta homens.

 

A notícia anterior, escrita com base num modelo narrativo cronológico, ou diacrónico, aproxima-se da reportagem. O leitor consegue visualizar a batalha de Valverde. A referência à tenacidade com que os espanhóis se defenderam releva simbolicamente o valor dos portugueses, reforçado propagandisticamente pela referência possivelmente exagerada ao número de mortos e prisioneiros castelhanos quando comparado com o número de mortos portugueses. De facto, pese embora a sua primeira finalidade informativa, a Gazeta não deixava de ter outros objectivos, como o de mobilizar os portugueses para o combate pela independência e o de propagandear a causa, vista como patriótica, da Restauração e a legitimidade da dinastia brigantina. Por isso, certas notícias da Gazeta enquadram os assuntos de maneira a apresentar dos acontecimentos uma versão desfasada da realidade, mesmo fantasiosa, o que é visível, conforme se disse, por exemplo, no repetitivo exagero sobre as baixas castelhanas quando comparadas com as portuguesas, ou ainda no apregoar histriónico da coragem e bravura dos portugueses, confrontados com um inimigo apresentado como sendo quase sempre mais numeroso do que as tropas nacionais. Mesmo quando se falava da valentia dos soldados espanhóis, isso servia para destacar ainda mais a audácia e arrojo das tropas nacionais.

O redactor também relata, cruamente, o comportamento saqueador e selvagem dos portugueses, mas num tom que revela o sentido de normalidade que a situação aparentemente tinha. De facto, a guerra do século XVII não se compadecia com os vencidos, o saque era a recompensa dos soldados vencedores – muitos dos quais mercenários estrangeiros atraídos pela possibilidade de enriquecimento – e a destruição representava a punição dos derrotados. O retrato que a Gazeta transmite da guerra da Restauração é, aliás, o de um conflito de fronteira, com incursões de parte a parte, cativeiro de prisioneiros, destruições de lugares, roubo de gado e outros saques e até troca de injúrias e desafios. A promessa de rápido enriquecimento através do saque, inclusivamente, atraía candidatos a soldados e levava-os a alistarem-se nos exércitos confrontantes.

Na maioria das notícias sobre a guerra da Restauração na Gazeta, algumas das quais personalizadas (a centralização das notícias na figura de alguns “heróis” empresta interesse às histórias), os portugueses são descritos, como se disse, como sendo superiores aos espanhóis, em coragem e argúcia. No entanto, noutras peças a intenção de verdade e balanceamento é notória, o seu tom é equilibrado, dando elas conta de que os castelhanos também tinham iniciativas militares e de saque e também provocavam sofrimentos aos portugueses.

Um outro aspecto a salientar é a riqueza de pormenores com que as notícias são relatadas e as explicações acessórias que são dadas. Alguns relatos são extremamente visuais. A estrutura diacrónica, numa cronologia sem hiatos, ajuda o leitor a apropriar-se da mensagem, acompanhando a narrativa e “(re)vendo” na sua mente o desenvolvimento dos acontecimentos narrados. Uma vez que só observadores in loco poderiam ter feito tais relatos, é possível que estes tenham sido produzidos por soldados-correspondentes na frente de batalha (aliás, o engrandecimento e nomeação dos feitos pessoais de alguns “heróis” concorre para essa hipótese), que por escrito, ou oralmente, os levaram ao conhecimento do editor da Gazeta. Outra possibilidade é a de que este tivesse acesso aos relatórios que circulariam na Corte ou que tivesse ele mesmo inquirido os intervenientes nos combates após ser recebida na corte notícia dos mesmos.

Entre centenas de notícias que poderiam dar-se como exemplo das teses atrás propostas, escolheram-se as seguintes (repare-se, ademais, que mesmo no segundo período de publicação da Gazeta se publicam notícias sobre a guerra da Restauração, embora sobre incursões em território castelhano e não sobre acontecimentos ocorridos em território nacional):

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Sabendo os galegos da Vila da Barca que o G. D. Gastão Coutinho, com alguns capitães, se havia ido para a cidade de Braga, passaram o Minho em três barcaças e chegaram à vista de Vila Nova, onde queimaram um pedaço de trincheira e parte de um reduto que estava longe da vila. E mal os nossos se aprontaram para sair ao seu encontro, retiraram-se e foi tanta a pressa que alguns se afogaram.

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

Quarta-feira de Cinzas, à tarde, saiu da cidade de Elvas Gaspar Pinto Pestana, comissário da cavalaria, com 700 cavaleiros, e foi alojar-se a Campo Maior. Logo foram duas companhias reconhecer o campo e encontraram num posto a que chamam o Cabeço da Cerva (…) um clérigo castelhano (…) com 25 cavalgaduras e alguns soldados da escolta, mudando umas colmeias. Deram neles e mataram-lhes seis homens, renderam os restantes, tomaram as cavalgaduras, deram uma ao clérigo para que se fosse. No dia seguinte, saiu de Campo Maior o comissário com a cavalaria e 500 mosqueteiros (…) e deixando os mosqueteiros de emboscada (…) escalou os campos de Vilar del Rey. Deu volta ao lugar e seus contornos e chegou-se tanto que de dentro das trincheiras lhe mataram dois cavaleiros, mas os nossos tiraram a vida a trinta castelhanos e renderam 24. E não houve em todo aquele circuito herdade, moinho, quinta, seara, defesa ou olival a que não alcançasse o destroço deste assalto. Depois de não ter o que destruir, retirou-se o comissário com grande número de vacas, porcos, ovelhas, cabras, cavalgaduras e muitas cargas de roupa branca.

 

Gazeta do Mês de Junho de 1642

Da vila de Penamacor, foi-se o general Fernão Teles de Meneses para Almeida, por ter aviso de que o inimigo pretendia fazer algumas entradas por aquelas partes. A 28 de Maio saíram da Aldeia do Bispo (uma vila de Castela, que dista de Almeida meia légua) algumas tropas de infantaria e de cavalaria e foram correr o campo junto a um lugar nosso, que se chama Vale de la Mula, onde fizeram presa do gado que andava pastando muito longe dos muros. Tocou-se logo a rebate e o tenente-general da cavalaria João de Saldanha de Sousa saiu com algumas tropas e foi-se a Vale de la Mula, a tempo que os castelhanos estavam já da banda de além de um rio que haviam passado e no alto de um monte que está muito perto da Aldeia do Bispo. Passou também ele o rio e passaram em seu socorro com 60 cavaleiros os capitães Rui Tavares de brito, Cristóvão de Sá de Mendonça e Cristóvão da Fonseca Cardoso. Chegou ao posto, de onde se viu a cavalaria do inimigo, que andava escaramuçando junto às suas trincheiras, favorecida pela sua infantaria. Haviam-se adiantado alguns dos nossos, os quais investiram contra os castelhanos, e começou uma travada escaramuça. Durou largo espaço de tempo, pelejaram valorosamente monsieur de Mongrol, alferes do coronel Sebastião de Mahè, António da Fonseca, ajudante de cavalaria, Francisco Valente da Costa, capitão de infantaria, e Nicolau de Paiva de Albuquerque, alferes do tenente-general, a quem naquele dia feriram o cavalo. Mandou o tenente-general pedir licença ao general Fernão Teles de Menezes para investir a vila de Aldeia do Bispo, mas não lhe foi concedida, pois havia grande risco na empresa, em razão da pouca gente com que se achava o tenente-general, e também porque queria ir ele mesmo. E a 29 de Maio saiu de Almeida  à uma hora depois da meia-noite. Levava a vanguarda da cavalaria o tenente-general. Ia com ele o capitão da guarda Dom Lourenço de Sousa, que assim nesta como em todas as demais ocasiões o acompanhou sempre, dando mostras de grande valor e de zelo no serviço de Sua Majestade. Também foram em sua companhia os capitães Rui Taveira de Brito, António de Carvalho de Vasconcelos e Diogo Ribeiro Homem, sujeitos dignos de grande estima pelo seu valor. Seguiam-se logo o capitão Puplinier, a quem o tenente-general entregou uma tropa de cavaleiros, onde havia sete ou oito franceses, todos oficiais. Ia na retaguarda da cavalaria o capitão Cristóvão da Fonseca Cardoso com a sua companhia. O mestre de campo D. Sancho Manuel levava a vanguarda da infantaria, ao qual acompanhavam por ordem com os seus troços os capitães Nuno da Cunha de Ataíde, Duarte de Miranda Henriques, Alonso de Tovar, António de Andrade Gamboa, Francisco Valente da Costa, Manuel Teixeira Homem. Marchava logo o general Fernão Teles de Menezes, a quem dava guarda o capitão Cristóvão de Sá de Mendonça com a sua companhia de cavalaria. Ia na retaguarda o sargento-mor Lourenço da Costa Mimoso. Desta maneira , chegaram à vista de Aldeia do Bispo pela madrugada e já o tenente-general havia ocupado os postos altos do contorno da vila. E num pedrasto que ficava sobre ela fez alto o capitão Vitorio Zagallo com cinquenta mosqueteiros. E porque o inimigo estava fortificado junto à igreja, foi o tenente-general ocupar um outeiro que ficava defronte. Entretanto, s capitães Puplinier e Cristóvão da Fonseca tinham cercado a vila pela outra parte e tomado um alto ao longo de uma ribeira, de modo que ninguém dela podia sair que não lhe desse nas mãos. Repartiu bem o mestre de campo a infantaria pelos postos convenientes. Começou-se a peleja dando-se grandes cargas de mosquetaria de uma e outra parte até que os nossos dispararam duas peças de artilharia, que conduziram àquele posto, e com elas fizeram tanto dano aos inimigos que lhes quebraram o ânimo. Veio de socorro à vila (duas horas depois de chegarem os nossos) uma companhia de cavalaria. Porém, saíram duas tropas da nossa cavalaria e puseram-nos em fuga e os foram seguindo até Vilar de Cervo, que está meia légua daquela vila, e aqui se travou a escaramuça, e nela morreram alguns castelhanos e veio um prisioneiro. Entretanto, o general mandou que investissem sobre as trincheiras os capitães Nuno da Cunha de Ataíde (a quem encarregou da vanguarda pelo muito que fiava de seu valor), Duarte de Miranda Henriques, Alonso de Tovar, Francisco Valente da Costa, Manuel Teixeira Homem, António de Andrade de Gamboa, cada um com sua manga, e ao mesmo tempo entraram todos com igual deliberação no reduto. deram com uma bala na testa ao capitão Alonso de Tovar e lhe tiraram a vida, sendo geralmente sentido, por ser de muito valor e esperanças. Foram os nossos, ganharam e saquearam o lugar e pegaram fogo à maior parte dele. Logo foi o tenente-general daí a meia légua a um lugar que chamam Castelejo, com uma companhia de cavalaria e outra de mosqueteiros, e lhe pôs também o fogo, com o que se retiraram os nossos vitoriosos, deixando mortos um grande número de castelhanos e trazendo 90 prisioneiros.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Vieram seiscentos castelhanos a Vilar Formoso para impedir aos nossos de ceifar o trigo. Deu sobre eles o mestre de campo Dom Sancho Manuel e os fez retirar, matando-lhes mais de vinte homens e trazendo dez prisioneiros com alguns despojos.

Andavam vinte cavaleiros nossos de ronda nos campos de Olivença. Colheu-os numa emboscada a cavalaria de Badajoz e de todos eles só um escapou de ser feito prisioneiro. Este veio dar aviso ao general da cavalaria, o qual montou com grande pressa e seguido de trezentos cavaleiros foi fazer uma emboscada entre Badajoz e Valverde (que era a paragem por onde os que levavam os nossos prisioneiros haviam de passar). Vieram-se-lhe meter nas mãos os inimigos com a presa. Deu neles e depois de livrar os prisioneiros, matou a maior parte dos inimigos (que eram duas grandes tropas) e lhes tomou a as armas e os cavalos e depois disto foi até Badajoz, chegou à vista das muralhas e os nossos deixaram estupendas injúrias aos castelhanos rogando-lhes que viessem escaramuçar e vendo que ninguém lhes saía se recolheram, tomando o gado todo que acharam pelos caminhos.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1645

D. Rodrigo de Castro, tenente-general da cavalaria, entrou agora doze léguas por Castela dentro, até ao lugar de Burguilhos, ao qual saqueou muito ouro e prata e roupas que nele estavam recolhidas por ser lugar afastado, de que os soldados ficaram ricos e se recolhera com 1577 cabeças de gado maior, deixando o menor, por não querer caminhar, em razão das muitas calmas, mas também trouxeram muitas éguas e cavalos e alguns prisioneiros.

 

Gazeta do Mês de Agosto de 1645

Na nossa fronteira do Alentejo, entrou Fernão Martins de Ayala, tenente do capitão Manuel Gama, filho de Fernão Gomes da Gama, quinze ou dezasseis léguas por Castela dentro, só com nove homens, e entre Trujilho e Méridaencontrou o conde de Zinguen, natural de Bruxelas, cavaleiro do Tosão, mancebo de alguns 24 para 25 anos, o qual vinha à ligeira com três criados, em mulas de aluguer, a caminho de Badajoz, a servir o general de cavalaria, porquanto ao barão de Molinguen havia El-Rei Católico feito mestre de campo general, e fez ao dito conde prisioneiro e trouxe-o a Elvas, de onde passou para o castelo de Belém.

 

A notícia seguinte é reveladora dos laços fronteiriços que uniam portugueses e galegos, apesar da guerra os colocar em campos opostos:

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

Avisou-se de Entre-Douro-e-Minho, no primeiro sábado deste mês, que dos cómodos de Ponte da Barca saíram algumas tropas da nossa infantaria e foram marchando pelo Reino da Galiza até chegarem à vila de Jerez, onde entraram sem haver quem lhes opusesse resistência. Antes fugiu toda a gente do lugar, de modo que ficou despovoado, e os nossos, porque não tiveram onde empregar o seu valor, foram fazer oração a uma igreja de Nossa Senhora dos Remédios. E porque a gente de Entre-Douro-e-Minho costumava ir todos os anos em romaria a esta santa casa, tiraram do altar, com muita reverência, a imagem da Senhora e com ela se recolheram, sem trazer nenhuma presa nem fazer dano ao lugar. Foi este acontecimento muito festejado naquelas partes, porque estavam todos desconsolados de não poderem agora fazer esta romaria. E com isto se alegrarão mais do que se os nossos tivessem ganhado uma praça ou alcançado alguma grande vitória.

 

Na guerra, a informação vale ouro e por isso a espionagem também era uma realidade. Os portugueses precaviam-se:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

Prenderam um frade Beguino estrangeiro e dizem que veio a esta cidade para espiar.

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

No Crato prenderão um espião que veio de Castela e o mandaram para a cidade de Elvas.

 

Uma guerra exige especiais preparativos defensivos, especialmente na retaguarda. A governação régia portuguesa sabia-o e a Gazeta noticiava-o:

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

A vila de Cascais vai-se fortificando e Dom António Luís de Menezes, que governa as armas nesta praça, assiste com grandíssimo cuidado a toda a fábrica.

Da nobreza e dos privilegiados se fazem quatro terços, dos quais é coronel o Sereníssimo Príncipe Dom Teodósio e tenentes o marquês de Montalvão, o conde da Torre, o conde da Calheta e o conde de Unham.

Está-se fabricando, por traça de António Pessoa Campo, uma carreta para o tiro de Dio, que por ser grandíssimo e de muito peso esteve até agora descavalgado e todos os engenheiros que o viram averiguaram (depois de muitas experiências) que não era possível haver carreta que o pudesse sustentar.

(…)

Na ribeira das Naus fabricam-se duas fragatas à maneira das de Dunquerque para andarem na armada.

 

As notícias anteriores são curiosas porque dão informações militares relevantes, que qualquer espião castelhano poderia aproveitar. A publicação vista como inoportuna dessas e de várias outras notícias, quiçá demasiado verdadeiras, valiosas para os castelhanos, terá sido, provavelmente, uma das razões que veio a gerar a suspensão da publicação da Gazeta, em 1642, e a sua reaparição circunscrita à publicação das notícias de fora do Reino (embora este princípio tivesse sido várias vezes violado). De facto, a espionagem castelhana poderia retirar do primeiro periódico português valiosas informações militares e diplomáticas, entre outras:

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

A 18 saiu o general António de Saldanha com a esquadra que vai de socorro à ilha Terceira.

(…)

O conde da Vidigueira, que vai por embaixador a França, está para sair com o primeiro tempo.

O monteiro-mor do Reino foi para as fronteiras do Alentejo como general da cavalaria.

Rui de Moura Teles vai por governador de Mazagão.

 

O conflito da Restauração estendia-se ao mar. Portugal reapetrechava a sua Armada, como muito bem se documenta com a notícia seguinte (também ela possível de dar informações preciosas ao inimigo), estilisticamente adornada na parte final:

 

Gazeta do Mês de Maio de 1642

A catorze deste mês, lançou-se ao mar a fragata São João Baptista, obra já do marquês de Montalvão. Houve grande concurso de gente na ribeira das naus. Veio El-Rei nosso Senhor da sua quinta de Alcântara na gôndola real, com o sereníssimo príncipe Dom Teodósio, e assistiram ambos até que a fragata adornada de ramos, flores, bandeiras e galhardetes acabou a carreira, rompendo as águas com airoso ímpeto e grandíssima alegria de todos.

 

No mar, as frotas francesa e holandesa ajudavam os portugueses porque combatiam Espanha (a Guerra da Restauração, como já se disse, pode enquadrar-se no contexto maior da Guerra dos Trinta Anos) e onde abundavam as operações de corso, que se misturavam com as acções de prevenção da pirataria, nomeadamente da pirataria berbere e otomana. A Gazeta, desde a sua primeira notícia, faz eco desta conjuntura, não omitindo quanto a guerra marítima custava aos portugueses e seus aliados ou a quem estava ao seu serviço:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

Pelejou a armada da Holanda com uma esquadra da Armada Real de Castela, em que vinham muitas fragatas de Dunquerque. Durou a pendência mais de vinte e quatro horas. Foi-se a pique um galeão dos castelhanos e ficaram alguns destroçados e todos com muita gente morta. O holandês, com algum dano, se retirou a este porto [Lisboa], onde está aguardando que El-Rei Nosso Senhor lhe dê socorro para sair outra vez a atemorizar os portos da Andaluzia.

(…)

Chegou a este porto uma caravela que vinha das Índias com aviso e os nossos a tomaram nas ilhas. Traz vinte mil cruzados em patacas.

(…)

Chegou um navio que faltava na esquadra de Rui de Brito, o qual havia ido no alcance de uma nau de turcos e se presumia que estava perdido.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Uma nau de Génova que saiu de La Rochelle com 62 soldados portugueses da Flandres, da Catalunha e de outras praças de Espanha, dos quais era cabo o capitão Manuel Homem. Veio aportar a Lagos, botou gente em terra e fez-se na volta de Lisboa e à vista do cabo de São Vicente encontrou cinco fragatas de Dunquerque, as quais lhe deram tal caça que não teve outro remédio mais do que valer-se da fortaleza de Sagres e desta maneira escapou, se bem que com grandíssimo dano. Os soldados vieram todos por terra e entraram nesta cidade a 8 do mês.

 

Com os holandeses, os portugueses faziam alianças pontuais, apesar de Portugal e Holanda rivalizarem na colonização do Extremo-Oriente, de África e do Brasil. Os holandeses tinham mesmo tomado parte do Nordeste a Portugal, ainda nos tempos da Monarquia Dual. A notícia seguinte indicia essa situação, sendo também curiosa por relatar o sinuoso percurso de uma informação até à sua publicação pela Gazeta e a rede de correspondentes que providenciava muitas das informações inseridas no periódico. Essa instituição dessa rede, diga-se, foi uma forma encontrada pelos órgãos jornalísticos para fazerem face à erupção aleatória de acontecimentos no espaço, pois garante um fluxo regular de informações noticiosas susceptíveis de permitir que as publicações sejam periodicamente publicadas sem grandes sobressaltos nem complicações.

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

Por via da Holanda foi para França uma carta de um português que assiste nas Índias de Castela e de França e veio a esta cidade, na qual se diz que é partida a frota com algumas naus de guerra, mas estavam os castelhanos temerosos de que lhe saíssem ao encontro os inimigos de Espanha, porquanto havia nova de que Pé-de-Pau, general da armada da Holanda, saíra de Pernambuco em companhia de uma esquadra de portugueses que andava nos mares do Brasil e se fora na volta da Bermuda.

 

A guerra, porém, tinha os seus custos também para os portugueses, que morriam como os castelhanos, como mostram as notícias seguintes, nas quais a personalização do relato sobre as vítimas contribui para o despertar de sentimentos de empatia com elas:

 

Gazeta dos Meses de Setembro e Outubro de 1646

De Lisboa, aos 5 de Outubro

(…)

Em Elvas, aos nove deste mês, dia de São Dionísio, morreu monsieur Gabriel du Laurans, fidalgo francês da Província de Anjou, capitão de cavalaria, das estocadas que recebeu na batalha de Telena, pelejando com o seu valor ordinário. Foi enterrado na Igreja de São Domingos de Elvas, com todas as cerimónias.

Morreu também na mesma semana, poucos dias depois, o senhor Jorge de Melo, também capitão de cavalaria, da mosquetada que na mesma batalha lhe passou ambas as pernas, fazendo como costumava com grandíssimo ânimo e prudência o ofício de capitão e de soldado.

Estas duas mortes sentiram muito os generais e demais oficiais da guerra, assim portugueses como franceses, por serem estes dois fidalgos tão mancebos e tão valorosos.

 

Apesar de tudo, a guerra também tinha episódios que poderíamos reputar de “engraçados” e que por vezes coloram a Gazeta de um tom de ingenuidade que denuncia a personalidade dos redactores:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Por via de um navio do Norte, o qual tomou o porto do Faial e veio a Viana, se sabe que os nossos da Ilha Terceira estão com grandíssimos desejos de entrar na fortaleza (…), mas por ser a fortaleza muito alta, e as escadas curtas, não estavam senhores delas.

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

Em várias partes das fronteiras fizeram os castelhanos fumo para que o vento o deitasse para a banda de Portugal e fizesse fugir o gado para as suas defesas. Porém, mudou-se o vento de improviso e padeceram eles o dano que nos queriam fazer a nós, porque o seu gado, logo que lhe deu o fumo, fugiu para as nossas terras e dizem que foi em grande quantidade.

 

Outras notícias relacionadas com o conflito da Restauração mostravam o apoio dos inimigos do Império Espanhol de Dom Filipe III (Dom Filipe IV de Espanha) ao Portugal Restaurado e à Casa de Bragança, o que contribuía não apenas para legitimar nacional e internacionalmente o novo Rei mas também para mobilizar a opinião pública, sacrificada pelo esforço de guerra. Nesses casos, a guerra cruzava-se com a diplomacia, pois já se tinha a noção de que um combate, no mundo moderno, não se ganha unicamente no campo de batalha:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

Veio Francisco de Sousa Coutinho, que havia ido por embaixador de El-Rei Nosso Senhor ao Reino da Suécia. Foi lá recebido com grandíssimo aplauso. Deixou as pazes confirmadas e trouxe três naus de guerra de mais de trinta peças de bronze cada uma, e um fidalgo, o qual vem a este Reino da parte da Rainha da Suécia para assistir nesta corte e já falou a El-Rei Nosso Senhor. Trouxe muita artilharia de bronze, grandíssimo número de corpos de armas, mosquetes, e cravinas trinta. Mastros grandes, uma embarcação carregada de pólvora e alguns cavalos. Deu-lhe a Rainha uma cadeia de ouro que pesa 330 000, uma jóia de diamantes com o seu retrato e a todos os que foram em sua companhia mandou dar uma cadeia de ouro, e escreveu a El-Rei Nosso Senhor dando-lhe os parabéns pela Restauração do Seu Reino, e assegurando-lhe que com tudo o que pode e com a própria vida se empregará sempre em seu serviço e ultimamente lhe dá a sua palavra de que não fará nunca as pazes com o Imperador e que sendo caso que as faça será primeira condição de que ele dará liberdade ao Senhor Dom Duarte.

 

A notícia anterior é ainda relevante por indiciar a importância que para a opinião pública tinha o caso do Infante Dom Duarte, irmão de Dom João IV, que se encontrava detido pelo sacro-imperador a pedido de Dom Filipe III. O tema, inclusivamente, é alvo de várias matérias, como a seguinte:

 

Gazeta do Mês de Agosto de 1645

Sobre a liberdade do Senhor Infante se faz muito, principalmente por parte da Rainha da Suécia, a qual tem mandado a seus embaixadores que não venham em algum concerto de paz sem primeiro o porem em liberdade. E assim enviou pela posta dois correios ao dito general Torstenson que não admitisse algum resgate pelos seis generais que na última batalha cativou ao Imperador (…) e a dita Rainha tem dito que sem a liberdade do Senhor Dom Duarte não há-de falar na deles. Está-se esperando a resposta do Imperador sobre a proposta que por parte da Suécia e da França lhe fizeram neste particular, tocante ao qual o doutor Luís Pereira de Castro imprimiu agora um papel, que fez em latim [língua franca da época] para se dar a todos os príncipes e embaixadores.

 

Forças francesas e holandesas, provavelmente constituídas por aventureiros que procuravam, antes de tudo, enriquecer à custa dos saques, lutavam pelos portugueses leais à Casa de Bragança contra os castelhanos e os aliados de D. Filipe III. A Gazeta, em diversas notícias, revela essa situação, sendo que na peça seguinte se revela, ainda, outra função do jornalismo – a explicativa, por vezes com base no recurso a formas figurativas e adjectivas de linguagem:

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

De Entre-Douro e Minho, no primeiro sábado deste mês, veio uma carta em que se avisa que um capitão de infantaria francês, tenente-coronel, enfadado da suspensão das armas e do grande ódio em que os soldados estavam na cidade de Braga, por causa do Inverno, deliberou sair em campanha e entrar por terras dos inimigos, ele só com a sua companhia, para o que foi com muito segredo, persuadindo aos seus soldados (os quais eram todos portugueses que vieram da Flandres e da Catalunha; gastou oito ou nove dias em lhes dispor os ânimos e em prevenir pólvora, balas, corda e tudo o mais que era necessário para reduzir a acto esta generosa deliberação. E um dia antes do amanhecer deu traça com ele, e os seus soldados saíram à desfilada e caminharam para Melgaço e daí foram marchando pela ponte das Varjas até que entraram na Galiza, destruindo e subvertendo e assolando tudo aquilo que com os olhos descobriam. Não ficou gado que não fizessem presa nem encontraram pelo caminho homem nenhum que não rendessem. Com esta bissaria foram avançando e metendo-se pela terra dentro. Porém, acudiram os inimigos de várias partes e saíram-lhes ao encontro divididos em dois troços, uns pela vanguarda e outros pela retaguarda. Estes segundos se meteram pelos matos e, sem serem vistos, nem sentidos, lhes armaram uma cilada com que lhes cortaram o caminho por onde precisamente haviam de passar quando tornassem. De modo que se marchavam para diante iam dar nas mãos dos que investiam pela vanguarda; se se retiravam, era infalível a ruína, pois metiam-se entre os que cortando-lhes o caminho os esperavam na emboscada; e se faziam alto sem dúvida ambos os esquadrões os acometiam e seria irremediável a perdição. Vendo-se o francês neste tão horrível aperto, fez uma prática aos soldados, representando-lhes o perigo em que a fortuna os havia posto e exortando-os a que deliberassem a perder antes a vida do que a honra. Não lhe deixaram os soldados acabar o discurso, porque todos unânimes e conformes se resolveram a romper aquele esquadrão, que emboscado pretendia tolher-lhes o passo antes que o outro (que já lhe tocava arma pela vanguarda) lho estorvasse. Passou o capitão para a retaguarda e logo viraram com muita destreza os soldados os rostos e foram marchando com tão boa ordem que quando chegaram â emboscada lhe descompuseram a frente e com a primeira carga, a puras feridas e mortes, abriram caminho muito antes que chegasse o esquadrão que marchava em seu alcance. Pisando morto e pondo por terra a todos os que lhe serviam de embaraço, romperam, penetraram e saíram da filada até que se puseram a salvo com tanta galhardia e admiração dos inimigos que nem o outro esquadrão, que já estava perto, se atreveu a segui-los. E o maior assombro que houve nesta heróica ousadia foi da nossa parte não ter morrido ninguém e somente um soldado saiu ferido com uma bala no braço esquerdo, o qual se veio curar à cidade de Braga, onde naquele tempo estava o general Dom Gastão Coutinho. E com este exemplo deliberaram todos sair em campanha e logo o coronel francês foi para as fronteiras do Minho.

 

Portugal, porém, também era mostrado como sendo capaz de projectar destemidamente as suas forças, aliando-se aos seus amigos franceses para lançar incursões de saque e destruição nos territórios de Dom Filipe IV (III de Portugal) em Itália:

 

Gazeta dos Meses de Setembro e Outubro de 1646

De Marselha, aos 3 de Setembro

Não se pode com palavras explicar o grande prazer e alegria que tivemos em toda esta província ao sabermos da chegada da esquadra portuguesa a Toulon, pela qual havia alguns dias que se esperava, conforme os correios e cartas que havia da Rainha, e com a sua chegada esperamos grandes sucessos das nossas armas, pela fortaleza dos seus navios e belicosa soldadesca que neles vieram, os quais, junto com o valor francês, nos prometem avantajadas vitórias, nem se pode esperar menos da união dos lírios de França com as quinas portuguesas. Foi o general da armada portuguesa, D. João de Menezes, com toda a sua gente, festejado com todo o aplauso que se pode imaginar, e em particular lhes mostraram especial benevolência o senhor arcebispo de Aix, irmão do cardeal Mazarino, e o marechal de Lamilherè, general da nossa armada, conforme as ordens que tinha recebido da Rainha. E o dito general da esquadra português, com os principais oficiais da guerra, foram chamados aos conselhos da mesma guerra e neles foram tratados com a devida honra a tão valentes e afamados soldados.

Todos juntos, com número de 48 navios nossos de alto bordo, dezoito galés e os sete da esquadra portuguesa, determinam partir aos 7 deste mês de Setembro e vão com tanto segredo que não se pode alcançar o termo, fim e rota que levam.

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1646

Dos sucessos vitoriosos dos franceses e portugueses em Itália

Não podendo a Armada francesa e a esquadra portuguesa ficar ociosas em porto nenhum, ao mesmo tempo que costumam recolher-se as outras, saíram estas dó porto de Tolon, na Provença, com propósito de alguma boa empresa, aos 17 de Setembro. Levava a armada francesa dez mil de pé e três mil cavaleiros; levva a esquadra portuguesa 1600 para desembarcar, ficando os galeões providos de todos os soldados do exército castelhano de Argão (…). Daí a poucos dias foram ancorar (…) defronte da Ilha de Elba (…). Divide-se esta ilha em duas partes, uma das quais fica para a banda do Norte, esta sujeita a El-Rei de Castela. (…) Desembarcaram (…) os marechais e com eles o general Dom João de Meneses (…), caminharam por penedos e montes sem parar até às duas depois da meia-noite. Reconheceram a cidade e fortaleza de porto Longone, deixaram a gente e as ordens necessárias para a sitiar e se foram outra vez para os seus navios até chegarem as nossas quinze galés (…). Partiram (…) com estas quinze galés e dez navios para darem sobre Piombino na noite de 4 para 5 de Outubro. (…) Resolveu-se o governador (…) a capitular (…). Acharam nesta praça três mil sacos de trigo (…).

O termo deste principado de Piombino tem vinte léguas, quatro vilas muradas e bem povoadas, muita fruta, muito gado, muito pasto, muito vinho, do qual se aproveitaram os da Armada francesa e esquadra portuguesa, e pertence este principado ao príncipe Ludovisio, sobrinho do defunto papa Gregório XV e agora casado com uma sobrinha do Papa Inocêncio X. Porém as fortalezas e presídios eram de El-Rei de Castela.

O porto de Piombino é tão importante por ser necessário passarem os navios por este estreito de mar de três léguas que está entre a ilha de Elba e o dito porto. Quem é senhor de Piombino fica senhor do mar e dos navios que vão de Génova para Nápoles ou vêm de Nápoles para Génova, porque além de dilatarem-se na navegação, arriscar-se-ão muito os navios que forem forçados a deixar a ilha de Elba (…) e ir buscar a costa de África além da ilha da Sardenha (…).

 

Diga-se que a notícia anterior deve ser observada, igualmente, pelo ponto de vista da estrutura, já que alia a descrição de pormenores à análise jornalística, justificativa da conquista.

Interessante também é observar a situação dos castelhanos em Portugal. As naturalizações de castelhanos em Portugal há “muito tempo” foram permitidas, mas os restantes foram condenados a sair:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Publicou-se um édito que todos os castelhanos se saíssem deste Reino e que os que estão nele moradores há muito tempo, querendo ficar, se naturalizem.

 

Nos territórios portugueses ameaçados, nomeadamente no Brasil, os portugueses precaviam-se contra qualquer eventualidade, por vezes aliando-se aos nativos:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Chegou a este porto um pataxo do Grão-Pará (que é uma terra do Maranhão onde não houve até agora assalto nenhum). trouxe alguns portugueses, os quais vêm pedir armas e pólvora e dizem que naquele sítio estão os nossos (que são pouco mais de duzentos) unidos com o gentio da terra e que não há por aquelas partes poder que os descomponha.

 

A guerra, no entanto, assolava toda a Europa e a Gazeta fazia eco da situação em notícias como a seguinte, igualmente desenvolvida segundo um modelo de narração cronológica:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1643

De Landrecies, ao primeiro de Junho de 1643

Resoluto, o duque de Enguien, comandante das armas de El-Rei Cristianíssimo, a seguir à sua vitória, perseguir o inimigo e sustentar o seu exército à custa deles, recebendo ordens da Corte, partiu para Guisa aos 28 deste mês, e no mesmo dia chegou a Hanapes e no outro dia a esta cidade, onde se deteve só um dia. E partindo aos 27, com toda a sua infantaria, deixou a ribeira de Sambra à direita e chegou ao redor de Barlemont, castelo mais importante pela incomodidade que podia causar ao comboio do nosso exército do que pela sua força ao qual mandou logo dizer que se entregasse. Porém, havendo o governador castelhano recusado abrir as portas, o Príncipe tratou logo de o obrigar pela força, e assim o senhor de Gassion, marechal de campo que estava na outra parte do rio, com uma parte das tropas, havendo reconhecido a praça, deu sua informação ao dito duque de Enguien, pelo que seguindo suas ordens, fez pôr duas peças em bateria, das quais os inimigos foram saudados sobre o campo. Mas sobrevindo a noite, se deferiu para o dia seguinte, dia 28, e mal o dia despontou começou a atirar. Porém, o governador não quis falar senão depois de 50 balas, e havendo pedido que o deixassem sair com armas e bagagens, não se lhe concedeu mais do que a vida, e foi conduzido a Avenas, com trinta mosqueteiros da sua guarnição. Na praça entrou uma companhia da Picardia.

 

É de acrescentar que a Gazeta denota uma clara francofilia, em sintonia com as intenções diplomáticas portuguesas de fazer da França, principal potência adversária de Espanha, o grande aliado de Portugal. Porém, a actuação das armas francesas era significativamente coberta não apenas porque Portugal buscava fazer da poderosa França sua aliada mas também porque as notícias do exterior eram colhidas, essencialmente, das gazetas francesas, que, conforme autorização régia, se podiam traduzir. A notícia anterior é, aliás, exemplificativa dessa situação, já que foi traduzida ipsis verbis de uma gazeta francesa, pelo que, por exemplo, o exército francês é apelidado de “nosso exército”. A tradução ipsis verbis que seria feita de notícias de gazetas francesas contribui, portanto, para a intensificação do sentimento francófilo. Realce ainda para o facto de o modelo narrativo estruturante dessa notícia ser diacrónico, idêntico, portanto, ao de outras notícias já assinaladas – a narrativa cronológica era e é, afinal, universal.

Gazeta foi, na verdade, um espectador atento dos acontecimentos europeus que se desenrolaram entre 1641 e 1647, nos quais Portugal estava amplamente interessado. Os insucessos dos Habsburgos do Sacro-Império, aliados de Espanha, por exemplo, são bastante noticiados.

 

Gazeta do Mês de Setembro de 1647

De Frankfurt sobre o Main, 12 de Julho de 1647

As tropas do marechal de Turena estão ao presente alojadas no vale de Kantzinguen, onde esperam novas ordens. Aos 7 deste mês começam os Hessianos, comandados pelo general Mortanha, as suas aproximações à cidade de Rhinfeld, que se diz tem de presídio três mil homens, os quais mostram quererem se defender, e havendo algumas tropas do mesmo general encontrado trezentos soldados imperiais, os desbarataram de todo, havendo morto muitos sobre a praça e feito duzentos prisioneiros, entre eles o filho do general Melander, comendador de Héberg, e o lugar-tenente Goltz.

 

A guerra nos territórios alemães e do centro da Europa foi, de facto, amplamente noticiada:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

O general Stal-hans (que é dos príncipes que militam pela rainha da Suécia) passou o rio Oder com um exército de oito esquadrões de cavalaria e dois mil mosqueteiros e foi sobre a cidade de Fristerel e depois que se lhe entregou (…) a guarnição, tornou outra vez a passar o mesmo rio sem fazer dano à cidade de Bunzel ou à de Lemberg que estavam no caminho, nem a nenhuma outra praça daquele distrito.

Na cidade de Bressau, cabeça da província da Silésia, está alojado um exército imperial que consta de dez mil cavaleiros e quatro mil infantes. Espera por uns regimentos novos que hão-de vir da província de Misnia. Todo este poder se junta para impedir os progressos que da outra parte do rio Oder faz o exército da rainha da Suécia, o qual está sobre a cidade de Gura e sobre a de Henestad.

(…)

O general Stal-hans tomou a cidade de Gubra.

Gazeta do Mês de Dezembro de 1643

De Estrasburgo, aos 3 de Outubro de 1643

O Exército do marechal de Guebriant está no seu antigo posto, onde espera infantaria, de que tem necessidade. Os bávaros, que também estão em Weisenbourg, fizeram levar sua ponte de batéis e toda a sua artilharia a Philipbourg. As tropas do duque Carlos estão ao redor de Spira. O cerco de Franconia resolveu-a a levantar 4500 homens para sua defesa e a cidade de Nuremberga porá em pé 1500 Os bispos de Wurtzbourg e de Bamberg outros tantos. As cidades de Kelembach, Aspack, Rosembourg, Weinhain e Dunkelspiel os mesmos.

 

A tensa situação em Itália, onde várias potências tinham possessões (incluindo os Estados Pontifícios e os territórios de D. Filipe IV, III de Portugal) e onde havia territórios independentes, também foi muitas vezes objecto de notícia. O Vaticano, nesse contexto, tendia a ser representado como qualquer outra potência beligerante:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Avisam de várias partes de Itália que Sua Santidade vai continuando com as levas de gente para a guerra e os demais potentados e repúblicas dizem que o príncipe de Parma é capitão-general.

 

Gazeta do Mês de Setembro de 1647

De Gaeta, 28 de Julho de 1647

Aos 8 do corrente houve uma grande altercação popular na cidade de Consenza, na Calábria, na qual mataram um homem muito principal, cujo corpo foi arrastado pelas ruas da cidade, e prenderam alguns quarenta mais que favoreciam a parte dos espanhóis, os quais levaram ao vice-rei de Nápoles. Nas cidades de Salerno e de Bari não têm sido menores os tumultos, seguindo o exemplo das demais. E na primeira se têm queimado mais de 25 casas. Na segunda, elegeram os moradores uma cabeça que se faz grandemente temer pelas muitas execuções que faz. O povo de Mileto tem também queimado as casas do conservador Masciarello, e a maior parte dos vassalos de diversos lugares deste Reino tem posto em cerco a seus senhores, por quererem suportar o governo dos espanhóis. De Messina, na Sicília, nos escrevem que metendo-se o duque de Palermo no castelo de Catania e querendo dali bater a cidade levantada, o não pode fazer por estar toda a artilharia encravada pelo povo, que todavia está em má inteligência com o vice-rei.

 

Tal como as revoltas italianas contra D. Filipe IV (III de Portugal), de que a notícia anterior é reflexo, também a revolta catalã contra o soberano, com apoio francês, que acabou por permitir que a independência de Portugal se firmasse, era amplamente noticiada na Gazeta, por vezes realçando que também a luta dos catalães era uma luta pela liberdade do jugo castelhano:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Intentaram os castelhanos meter segunda vez socorro em Terragona, mas impediu-lhes o passo o príncipe de Condè.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

A nova vitória de monsieur de Terrel e de monsieur de Meronuille, franceses, contra os castelhanos é ainda maior do que se dizia, o que tem notavelmente animado os catalães, mais do que nunca resolutos a defender a sua liberdade à custa das suas vidas.

 

Ainda sobre a Catalunha, a notícia abaixo tem interesse particular porque, colocando em evidência o valor jornalístico da verdade, a Gazeta critica alegadas mentiras propagadas pela imprensa espanhola:

 

Gazeta do Mês de Setembro de 1647

Do Exército da Catalunha, a 1 de Julho de 1647

O príncipe de Condé, que diziam se havia retirado com o seu exército para Cerveras, está ainda aquém do rio Segre, uma lagoa de Lérida, e assim (…) é falso o que os seus inimigos publicaram e fizeram imprimir, mas antes cada dia lhe vai chegando grande número de soldados, e se entende que não desalojará o seu campo sem haver posto em lugar seguro as munições de guerra e boca que foram retiradas do cerco. É o que se trabalha com grandíssimo cuidado, e fadiga, por as dificuldades que as carretas e a condução de artilharia têm neste país. Entretanto, os inimigos, que estão dentro da cidade, nem as tropas que lhe sobreviveram, não têm empreendido coisa alguma, nem mesmo ousado aparecer em campanha diante dos nossos.

 

Uma outra notícia sobre guerra na Catalunha evidencia as consequências sócio-económicas do conflito e, ao mesmo tempo, dá uma má imagem dos castelhanos:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Na Andaluzia, obriga El-Rei Filipe a cada ofício que sustente uns quantos homens à sua custa para a guerra da Catalunha e sobre isto há grandes controvérsias e se teme que haja alguma perturbação.

 

A guerra civil britânica também foi múltiplas vezes noticiada, através de matérias certamente traduzidas de jornais britânicos (ou mesmo, por via indirecta, de jornais de outros países), conforme se observa, mais uma vez, pelo recurso a expressões como “nossos soldados”, que não se referiam, obviamente, a soldados portugueses. Tratava-se, ademais, de uma guerra que via o seu valor enquanto notícia intensificado pela novidade e estranheza que causava o conflito entre o Parlamento e o Rei num continente ao qual a monarquia absoluta francesa servia de modelo e pelo conflito religioso entre católicos e protestantes:

 

Gazeta do Mês de Maio de 1642

O Parlamento mandou embaixadores a El-Rei, os quais de sua parte lhe disseram que aquele povo estava triste porque Sua Majestade não voltava a Londres, e El-Rei lhes deu por resposta que cada um do povo metesse a mão na sua consciência e que logo lhes seria fácil conhecer a razão porque não voltava.

 

Gazeta Segunda do Mês de Outubro [1642]

De Londres, a 10 de Setembro de 1642

Avisam que é coisa lastimosa de ver que as coisas daquele Reino estão postas em estado que não há alguma aparência de melhoria, senão de uma sangrenta guerra de fogo e sangue, com perdição e destruição total daquele Reino e povos. El-Rei está muito severo e muito animoso e com resoluta determinação de sustentar sua autoridade Real até à morte, no que está muito seguro e por mais que lhe digam não quer dar ouvidos a nada nem por nenhuma maneira ceder, nem desistir da sua opinião. Por todos estes Reinos se fazem levas de gente de guerra de pé e de cavalaria e todos estão com as armas nas mãos e cada dia seencontram os reais e os do Parlamento com vantagem e perdição de uma e de outra parte, de maneira que se vão picando guerras sangrentas.

(...)

Estavam uma noite destas quarenta cavaleiros e outras pessoas de qualidade recolhidos numa casa de campo onde se davam por muito seguros. Entraram 300 ou 400 moços levantados e armados e mataram a maior parte deles e puseram fogo à casa, com a qual ardeu tudo.

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1643

De Londres, aos 2 de Outubro de 1643

O cavaleiro Waller está ainda ocupado com as levas de gente para enviar em socorro da cidade de Southampton, que o príncipe Maurício tem cercado, ao qual se juntou o conde de Crowford. E temendo os da praça que os nossos não cheguem a tempo, têm começado a capitular. A de Hull, todavia, está bloqueada por algumas tropas do conde de Newcastle, que com o grosso do seu exército está muito bem acompanhado para se opor aos escoceses, no caso destes quererem empreender alguma coisa.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

No Reino de Inglaterra estão os realistas senhores da campanha e prenderam agora ao major-general Browne, um dos melhores que a parte dos parlamentares tem.

Na cidade de Windsor houve uma grande sedição entre os soldados do presídio, que é pelo Parlamento, no qual feriram gravemente ao coronel Veen, governador da praça, o que junto com a afeição que os moradores têm ao serviço de El-Rei da Grã-Bretanha impediu que os parlamentares pudessem dispor daquela praça

 

A guerra é cara e D. Carlos de Inglaterra rapidamente se deu conta disso:

 

Gazeta Segunda do Mês de Outubro [1642]

Mandou El-Rei [de Inglaterra] pedir emprestado os homens de negócio de Londres uma grande soma de dinheiro, à razão de oito por cento. Responderam que estavam todos desejosos de servir Sua Majestade com a fazenda e com a vida, mas havia de ser com licença e ordem do Parlamento, com cuja resposta se enfadou muito El-Rei.

 

Gazeta, cuja posição pró-realista é intuível, não desdenhava de publicar as notícias que podiam “vender” uma imagem negativa do Parlamento inglês, opção que interessava à Casa de Bragança e à elite dirigente do Reino, pois alimentava e reforçava o absolutismo monárquico

 

Gazeta do Mês de Março de 1643

Dizem que os soldados do Parlamento estão quase amotinados por falta de pagamento, principalmente por terem toda a sua esperança fundada na cidade de Londres, da qual estão muito receosos, consideradas e vistas as parcialidades e as oposições que o Parlamento nela acha para os seus desígnios. Além disso, é também do conhecimento comum que o barão de Fairfax escreveu, há pouco tempo, ao dito Parlamento, uma carta, que publicamente foi lida numa junta, na qual se dizia que o conde de Newcastle, do partido real, estava senhor da campanha (...).

 

Os combates na Irlanda e na Escócia eram, igualmente, acompanhados de perto, pois os redactores da Gazeta, provavelmente como a maioria dos portugueses de então, identificavam-se com os irlandeses católicos, que lutavam contra os ingleses, nomeadamente contra os fiéis do Parlamento, pela autonomia, ou mesmo pela independência. No entanto, a posição do Rei britânico face ao conflito irlandês também era clara, conforme se pode ver na primeira das notícias seguintes:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Na Irlanda vai a guerra por diante e os católicos romanos têm já metido à espada mais de seis mil ingleses e a Armada que o Parlamento aprontava para ir em socorro dos protestantes já partiu, não obstante que El-Rei Carlos mandou manifestar aos irlandeses que a todos os que quisessem reduzir-se e tornar à sua obediência, perdoaria, e que em caso que não o fizessem assim, os declararia por traidores e os haveria de destruir a fogo e sangue.

 

Gazeta Segunda do Mês de Outubro de 1642

As coisas da Irlanda estão muito arriscadas. Os ingleses têm tomado todos os portos e lugares marítimos, que obrigou aos ditos irlandeses a se retirarem pela terra dentro, onde estão fortificados em lugares e praças mais eminentes, com resolução de se defenderem até à morte. Valor nem ânimo não falta, somente armas. Mas agora como vai entrando o inverno e também as guerras de Inglaterra se vão picando cada vez mais, estão os ditos irlandeses com menos cuidado e com maiores esperanças de se poderem defender.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

Os irlandeses católicos que tomaram o partido das armas contra a Escócia estão nela tão reforçados que se diz têm até ao presente quinze mil homens.

 

Algumas notícias sobre a situação irlandesa eram, porém, equilibradas, até porque Portugal não queria, de forma alguma, hostilizar os ingleses. Os padecimentos britânicos em terras irlandesas também foram cruamente expostos e devidamente noticiados:

 

Gazeta do Mês de Junho de 1642

No mês de Abril passado saiu um livro impresso em Londres por mandato do Parlamento, intitulado Demonstração dos Acontecimentos Admiráveis que Sucederam na Irlanda, composto pelo doutor Henrique Joanes, no qual estão os testemunhos de uma inquirição que se fez por um decreto do Parlamento, em que os ingleses que fugiram da Irlanda declaram debaixo de juramento em quanto importam os danos que haviam padecido naquelas guerras e foi avaliado em cinco milhões (…). Há nele infinitas coisas, entre as quais as de maior nota são as seguintes:

(...)

Que Edmundo O’Reiley irlandês fidalgo matara em sua própria asa a um bispo de Quilmor protestante e a sua mulher e dois filhos e que logo mandou chamar ao bispo católico Eugénio Macsuyne e o meteu de posse do paço e de toda a fazenda do bispo morto.

(...)

Que um clérigo irlandês converteu cinquenta ingleses e que depois de eles fazerem uma profissão de fé e jurarem que reconheciam por cabeça da Igreja ao Sumo Pontífice e criam na real presença, na Eucaristia, se lhes deu passaporte para se irem livremente e que um soldado que se achou presente os seguiu e os matou a todos dizendo que era lástima deixá-los ir a parte onde os pervertessem e que os queria mandar a todos para o céu.

Que os irlandeses têm no mar cinquenta naus de guerra com muita infantaria.

(...)

 

Na notícia seguinte, também referente à situação na Irlanda, é interessante notar, no que respeita ao conteúdo histórico, a intervenção do papado neste país, e no que respeita ao jornalismo, a menção de que as notícias eram “certíssimas”, talvez porque outras não o fossem e os redactores tivessem consciência disto. No exemplo recolhido, a identificação da Gazeta com os católicos irlandeses e com os esforços para manter a influência do Catolicismo na Irlanda é óbvia, ecoando com vigor na prosa os desejos, algo fantasiosos, dos redactores da Gazeta. Para animar os portugueses, o redactor não hesita mesmo em fazer um prognóstico, “sem dúvida nenhuma”, embora o mesmo, como se sabe hoje, fosse erróneo:

 

Gazeta do Mês de Julho e Agosto de 1646

De Londres, aos 29 de Julho

(…)

Temos novas certíssimas da Irlanda de como o general maior (…) governador das armas do Parlamento na Irlanda, com nove terços de infantaria e onze companhias de cavalaria pelejou com oito terços de irlandeses católicos e doze companhias de cavalaria, os quais, com muito valor e prudência, lhe fizeram uma emboscada, de tal modo que os desbarataram totalmente, tomando-lhes nove peças de artilharia, todas as suas munições, bagagem e mantimentos. Ficaram quase todos os oficiais parlamentares mortos, os soldados também mortos, no furor da batalha presos e afogados, de modo que sem dúvida nenhuma ficam perdidos os parlamentares na Irlanda, se os irlandeses católicos prosseguirem a vitória (…) que o Céu lhes deu. Mandou o Papa ao seu Núncio Apostólico que está na Irlanda que declarasse (…) em favor dos irlandeses católicos que sustentará à sua custa na Irlanda seis mil homens.

 

Numa peça curiosa, a Gazeta, cada vez mais cônscia do poder e papel da imprensa noticiosa emergente, faz quase uma espécie de metadiscurso, pois refere-se à publicação e leitura perante o Parlamento inglês de uma relação de notícias sobre o conflito anglo-irlandês:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Na cidade de Dublin, cabeça do Reino da Irlanda, imprimiu-se uma relação desta guerra dos católicos e protestantes e se mandou a Londres e foi lida publicamente no Parlamento a 11 de Novembro de 1641.

 

Em certos casos, as notícias do estrangeiro relatadas na Gazeta são de produção própria, pois a Lisboa também chegavam novidades do exterior por diversas vias, conforme se pode observar na seguinte notícia, de carácter bélico, sobre os acontecimentos na raia fronteiriça franco-espanhola e na Catalunha (as vitórias de franceses e catalães sobre as tropas de Dom Filipe IV – III de Portugal – correspondiam aos interesses das elites liderantes do Portugal Restaurado):

 

Gazeta do Mês de Julho e Agosto de 1646

De Lisboa, aos 17

Soube-se cá, por via de Cádis, Sevilha e Segóvia como os franceses tinham tomado Lérida depois de desbaratarem o socorro que lhes vinha de Castela e matar o marquês de Laganes, quatro mil infantes e dois mil cavaleiros, e cativar o duque do Infantado, general da cavalaria, com outros senhores. Por via de S. Lucar se soube como Orbitello se tinha também entregado aos franceses.

 

Os holandeses, inimigos de Espanha, estabeleceram uma aliança dúbia com Portugal, já que se no país apoiavam o Exército português, ao mesmo tempo procuravam estabelecer-se no Brasil, em Angola e nos territórios portugueses do Oriente, como bem dá conta a seguinte notícia, que mostra, de alguma forma, a ingenuidade do redactor do periódico, que acreditava na bondade das intenções holandesas para com as possessões portuguesas d’Além Mar:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Da Bahia veio nova de que os holandeses, com uma esquadra, haviam ido a Angola. Porém, o general da Armada Holanda que assiste nesta cidade afirma que os Estados [Holanda] lhes não deviam dar tal ordem e que quando lhes chegar a sua notícia lhes mandarão que despejem a praça.

 

Outras notícias da Gazeta abordavam a situação dos territórios coloniais portugueses:

 

Gazeta Primeira do Mês de Outubro de 1642

De Angola nos avisam como doze companhias que o Pé-de-Pau lá deixou para segurança da praça não eram vivos mais do que 250 homens e que os portugueses se haviam retirado para junto de um rio, onde estavam fortificados, e que os holandeses lhes haviam oferecido grandes partidos, para que se confederassem com eles na forma como o haviam feito os vizinhos de Pernambuco e Paraíba, a que os portugueses responderam que antes queriam todos morrer que aceitar tal partido e aliança.

Estão na campanha de Angola três exércitos de negros, um de El-Rei do Congo, outro do duque de Bamba e outro do conde Afonso, sem nenhum deles se atrever a dar ajuda nem a portugueses nem a holandeses.

De São Tomé avisam que de todos os holandeses que ali deixou o Pé-de-Pau só 15 eram vivos.

 

A situação noutros territórios europeus também é, amiúde, descrita na Gazeta, desconfiando os redactores do periódico, sobretudo, dos turcos infiéis, que ameaçavam as fronteiras da Cristandade, apesar de serem aliados dos franceses contra o Imperador Habsburgo (sendo que Portugal procurava os favores da França contra Espanha). É de assinalar que na segunda das notícias seleccionadas como exemplos, o redactor da Gazeta faz uma análise sombria de um ataque maltês a uma frota turca. Na terceira notícia, por seu turno, é de realçar não apenas o entendimento da “Cristandade” como um todo – o Cristianismo esteve na forja da identidade europeia – mas também a invocação do auxílio divino, num tom que se afasta da matiz laica que orienta a maior parte do discurso da Gazeta. No quarto exemplo, é já o conflito entre russos e polacos que merece as honras de notícia.

 

Gazeta Segunda do Mês de Outubro de 1642

El-Rei da Polónia tem até agora as suas fronteiras bem prevenidas de gente de guerra, a maior parte de cavalaria, em razão do Turco, que ainda que com ele tenha tréguas, todavia parece que o quer acometer e entrar naquele Reino, que dá cuidado, porque não é de fiar no Turco.

O moscovita tem nas suas fronteiras um grande número de gente de guerra em razão do mesmo Turco e de El-Rei da Polónia, ainda que com ele tenha suspensão das armas por 26 anos. Todavia, está cada qual desconfiado por estarem ambos com as armas nas mãos.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

Tendo notícias as seis galés de Malta que a caravana dos turcos passava de Constantinopla a Alexandria, foram esperá-la e descobrindo todas as suas velas, deixaram passar o corpo da frota e se dispuseram em quadra, com desígnio de atacar dois grandes galeões das sultanas, que são os maiores baixéis que navegam o mar Mediterrâneo, e carregaram neles com tanto vigor que, depois de muitas bombardas de uma parte e outra, os malteses meteram ao fundo um deles e investiram o outro, que renderam depois de uma sangrenta batalha entre os cristãos e os infiéis, na qual cativaram 344 turcos, 60 mulheres e alguns meninos da mesma nação, entre os quais escravos de muito bom resgate, além de 400 turcos que foram mortos a mosquetaços e feitos em pedaços. No que foi ao fundo afogaram-se umas 800 pessoas, porque toda a carga destes baixéis era de gente.

Perderam as seis galés 109 homens além de 200 feridos, entre os quais 11 cavaleiros mortos. O preço desta acção é muito considerável, porque pela presa de um só galeão das sultanas, que os mesmos cavaleiros noutra ocasião tomaram, fez o grão-turco, persuadido pelas damas do seu serralho, o ceco de Rodes.

 

Gazeta do Mês de Maio de 1643

O grão-turco arma sessenta galés, as quais se diz que estão destinadas contra a Cristandade, mas Deus assistirá por sua misericórdia com seu favor contra inimigo tão poderoso.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1645

As divergências entre El-Rei da Polónia e o moscovita toantes às suas fronteiras vão por diante e com poucas aparências de os poderem conciliar. Antes de parte a parte se vão dispondo a uma cruel guerra. Entretanto, El-Rei da Polónia tratava com a cidade de Dantzig que envie deputados à junta que no presente mês de Agosto se pretende fazer em Turenna, sobre alguns pontos da religião.

 

A pirataria dos turcos otomanos ameaçava a marinha das nações cristãs, em especial no Mediterrâneo, onde o comércio era afectado, conforme narra a notícia seguinte, que tem ainda os factores de interesse de explicitar a fonte noticiosa, de mostrar que os castelhanos também não hesitavam em atacar navios portugueses, de invocar o favor de Deus para os cativos nacionais em Argel e de distinguir, como era habitual na época, o Reino do Algarve do Reino de Portugal (afinal, D. João IV era Rei de Portugal e do Algarve, entre outros títulos):

 

Gazeta do Mês de Maio de 1643

Mais de Marselha a 17 de Maio de 1643

Chegou a esta terra um cativo de Argel que disse que saíram deste porto setenta velas, das quais se haviam já recolhido quinze com 22 presas, entre elas um navio flamengo que levava 371 mil cruzados em patacas e muito azeite, mais uma outra nau flamenga com 400 pipas de vinho, mais uma nau inglesa riquíssima, outra do Reino do Algarve com trezentas pipas de azeite, mais um pataxo de El-Rei de Portugal, o qual saindo de Mazagão a 3 de Fevereiro passado encontrou aos 7,  perto do cabo de São Vicente (onde havia já 24 horas que andava sem leme, ao pairo) um navio dos turcos e querendo salvar-se dele, tratou de buscar algum porto em que se pudesse meter, mas apertou tanto o vento com ele que lhe levou as velas, com o que determinaram arribar ao mesmo porto de onde haviam saído. Porém, o vento não lhes deu a isso lugar e assim se fizeram na volta de Gibraltar e estando de fora preparando-se para seguir viagem, veio um navio de terra, com mais de cem homens, e abalroaram-no. Nessa ocasião, os portugueses, ainda que em muito menor número que seus inimigos, lutaram com tanto valor que com a morte de mais de trinta castelhanos desatracaram. E se o pataxo português não estivesse desaparelhado de velas e de leme, sem dúvida teria rendido o seu inimigo. Quiseram depois continuar a viagem pelo estreito, quando de Tituão lhes saiu uma nau de 22 peças de artilharia e 250 turcos e como o acharam tão destroçado e sem munições para se defender, o tomaram com facilidade e o levaram a Argel, onde todos os portugueses que iam no dito pataxo ficam vivos, sem faltar pessoa alguma. Deus os livre do cativeiro e os leve em paz para a sua pátria e casas.

 

Por vezes, o cruel castigo para o fracasso militar, no mundo seiscentista, era a morte:

 

Gazeta de Setembro e Outubro de 1646

De Veneza, aos 17 de Agosto

Degolaram aqui o capitão Martino Ostrie por haver entregue aos turcos a praça de Norigada.

 

Em suma, a guerra assolava a Europa e os territórios coloniais e a Gazeta, usando informações obtidas em Lisboa e notícias traduzidas de jornais estrangeiros, tentava informar os seus leitores sobre o que se passava.

 

A diplomacia

A Europa dilacerada pela guerra procurava a paz ao mesmo tempo que D. João IV buscava o reconhecimento internacional da nova dinastia e da independência de Portugal, nomeadamente junto dos inimigos de Dom Filipe III de Portugal (IV de Espanha), mas também junto do Papado, algo essencial para um país católico, onde a Igreja detinha grande influência. Mergulhada no contexto da época, a Gazeta não podia deixar de dar conta desses esforços, prejudicados pela contra-ofensiva diplomática castelhana, embora por vezes fantasiasse os resultados das iniciativas diplomáticas portuguesas, para insuflar o orgulho nacional e animar a luta pela restauração da independência:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

O padre João de Matos, reitor que foi da Companhia [de Jesus] em Évora, agora assistente da mesma Companhia em Roma, escreveu que o Sumo Pontífice esperava com grande alvoroço pelo bispo embaixador de Portugal, apesar das instâncias que o de Castela fazia por lhe estorvar a entrada.

(…)

De Génova e de Veneza se diz que foi lá bem recebida a deliberação da nobreza de Portugal [de aclamar D. João IV] e que se resolveu que não se dará socorro contra El-Rei Dom Filipe mas que [também] será admitido o embaixador de El-Rei Dom João o Quarto.

 

Os esforços diplomáticos portugueses, em especial junto do Vaticano, podem ser lidos, no conjunto das gazetas, como uma história por episódios ou um folhetim, em constante desenvolvimento (tal como as notícias das guerras, por exemplo), obrigando o leitor a segui-la, quase como se de uma aventura se tratasse, ao longo dos vários números do periódico:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

O bispo de Lamego, que foi por embaixador ao Sumo Pontífice, dizem que ficava junto a Marselha, para dali passar a Roma.

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

O bispo de Lamego, que foi por embaixador ao Sumo Pontífice, está já em Roma, e foi recebido com grandíssimo aplauso.

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

O bispo de Lamego está já em Roma e o que se passou na viagem foi o que se segue. Desembarcou em La Rochelle (…). Daqui passou a Paris (…). Logo partiu para Sain Germáin para ver o Cristianíssimo (…). Depois foi à Picardia onde naquele tempo estava Sua Majestade pedir-lhe licença para passar adiante. (…) Entrou em Avignon e ao cabo de três dias foi a Aix. Aqui se deteve e passou a Tolon, em cujo porto encontrou uma nau que, por ordem do Cristianíssimo, o estava esperando com muita gente de guerra. Saiu (…) e finalmente chegou a Civita Vechia (…). Neste lugar, o governador (…) lhe pediu que saísse a terra e ele não quis. João Baptista Leão (um criado de El-Rei Nosso Senhor que por seu mandado foi a Roma e havia sete anos que assistia naquelas partes) o veio ver e ele o mandou a Roma a prevenir o que era necessário para o caminho. Negociou João Baptista Leão e tornou de Roma e com ele vieram por mandado de Sua Santidade 450 cavaleiros corsos para o acompanhamento (…). Veio também o secretário da embaixada de França (…). Pôs-se o embaixador a caminho, onde achou infinitas carroças de portugueses, catalães, franceses e italianos que corriam a vê-lo. A uma légua de Roma saiu-lhe ao encontro o embaixador de França (…) e logo lhe veio (…) o cardeal Nipote Francisco Barbarino o qual lhe mandou dizer que não entrasse de dia, porque o desgosto dos espanhóis e a alegria do povo não fosse causa de alguma inquietação. Ele assim o fez e às duas horas da noite entrou pela porta da cavalaria ligeira e dali mandou que a sua gente fosse andando (…) e sem estrondo (…) mas nem por isso deixou o povo de se alvoraçar, que homens e mulheres andavam como doidos pelas ruas gritando: VIVA’L RE D. GIOVANNE’ L’quarto! Atrás de todos (…) foi o bispo, acompanhado (…) do embaixador da França, em cujo palácio fica hóspede, enquanto na praça Naona se prepara o seu palácio, que custa cada ano de aluguer 1400 escudos e nele se hospedavam sempre os embaixadores da Alemanha.

Pôs-se um retrato de El-Rei Nosso Senhor numa sala do palácio do embaixador de França, despovoando-se Roma para o ver, e todos os pintores faziam infinitas cópias, que se compravam para adornar as casas em Roma e mandar a outras partes.

Fez o bispo uma grandiosa casa e está ordenado que vá para a quinta do papa Júlio e que dali faça entrada pública, para a qual se estavam acabando (fora muitos coches e galas), três librés, uma para o campo, outra para entrar em Roma e outra para entrar no sacro palácio.

Saiu um manifesto em italiano do direito de El-Rei Nosso Senhor.

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Por carta de Londres e 28 de Março de 1642 se sabe que no último consistório o Papa Urbano VIII fez uma prédica sobre a feliz aclamação de El-Rei D. João IV e resolveu que o bispo de Lamego fosse recebido como embaixador.

 

Gazeta do Mês de Março de 1643

Aos 18 do passado, o marquês de Fontenè Marevil, embaixador da França, se partiu daqui [Roma] com o bispo de Lamego, embaixador de Portugal, acompanhados de quarenta cavaleiros. Fizeram-lhes escolta, por mandado do Papa, duas companhias de couraceiros, até às fronteiras da Toscânia, onde os estavam esperando muitos cavaleiros do grão-duque, que os recebeu com muita festa.

 

Algumas notícias ecoam as preocupações portuguesas com o reconhecimento papal da Dinastia de Bragança e da independência de Portugal:

 

Gazeta Primeira do Mês de Outubro de 1642

A 8 de Julho foi o senhor bispo de Lamego, embaixador de Portugal, com licença de Sua Santidade, dos paços do marquês (…) embaixador de França, com quem esteve depois da sua chegada a Roma, para os seus paços, que tomou na praça Navona, não obstante todas as ameaças do (…) embaixador de Castela e seus sequazes, que diziam que o haviam de levar para fora de Roma e faziam mil protestos que em caso de que fosse recebido se haviam de sair fora de Roma num instante, com os cardeais (…) da rota castelhana e que o mesmo haviam de fazer, dentro de dois meses, os vassalos e súbditos das coroas de Castela. Mas os franceses, portugueses e catalães juntaram-se um dia todos e andaram passeando por Roma, para dar uma vista ao dito embaixador de Castela, e mostrar-lhe (…) que o seu poder não era tão grande como a sua imaginação. O dito bispo embaixador de Castela tem em particular falado com (…) Sua Santidade e cedo se espera que seu recebimento seja em público, porque se juntaram os cardeais em consistório, e que se guardasse uma bula antiga de um papa, que por algumas ocasiões semelhantes de seu tempo, ordenou que a Santa Sé Apostólica admitisse e reconhecesse por Rei e Senhor aquele que estivesse de posse de seu Reino, gozando os frutos dele por um ano.

 

Gazeta Segunda do Mês de Outubro de 1642

Avisam de Roma que o Padre Santo assentou e decretou em pleno consistório que a pessoa que estiver aclamada e levantada do povo por Rei do Reino e estiver um ano de posse, dando obediência a Sua Santidade o Papa de Roma, será recebida e admitida e confirmada por Rei e filho da Santa e Católica Igreja Romana sem nenhuma contradição.

 

Noutras notícias, tenta-se fazer análise da conjuntura diplomática:

 

Gazeta do Mês de Agosto de 1645

De Paris se escreve que o papa, daqui em diante, favorecerá sem dúvida as coisas de França e seus aliados, mais do que as de Castela, movido, em parte, pelos maus termos dos castelhanos, nos dois atrocíssimos casos que contra o decoro de Sua Santidade e direito comum ousaram cometer contra os embaixadores de Portugal, em parte pela paciência e modéstia que até agora tiveram os franceses e os portugueses, injustamente ofendidos e em parte porque Sua Santidade fez agora como ministro principal ao eminentíssimo senhor cardeal Bicchi, que sempre foi da facção de França, da qual são já também hoje os eminentíssimos senhores cardeais Francisco e António Barbarinos, ambos irmãos e sobrinhos ou nepotes do papa Urbano VIII, que Deus tem.

 

Os esforços diplomáticos portugueses junto do papado eram, no entanto, minados pelos castelhanos, de quem a Igreja também não se queria nem podia afastar, e os quais a Gazeta denigre constantemente. Diga-se, inclusivamente, conforme aludem a notícia anterior e as seguintes, que os castelhanos não hesitaram em tecer meças, com armas, com os homens dos representantes de Portugal na Santa Sé, primeiro o bispo de Lamego e depois o prior de Cedofeita:

 

Gazeta do Mês de Junho de 1645

De Roma não há más esperanças e se têm feito diversas congregações de cardeais sobre as igrejas de Portugal.

Sua Santidade não tem até agora dado audiência ao embaixador de Castela (…) por mais que este tenha pedido, depois do caso do doutor Nicolau Monteiro, prior de Cedofeita, que os castelhanos, que se prezam de honrados, se dão por mais afrontados que do [caso] do bispo de Lamego, que Deus tem, e se fazem grandíssimas diligências pelos culpados.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1645

A 15 de Maio se fez em Roma um grande consistório no qual não quiseram participar todos os cardeais da facção castelhana (…), por serem avisados de que o papa queria propor nele algumas igrejas vagantes no Reino de Portugal, cujo agente, o prior de Cedofeita, depois do acontecimento passado, não quis mais sair de casa por intimar a Sua Santidade o justo sentimento que tem do desaforo e dissimulação dos castelhanos, se bem que esteja com maiores esperanças do que nunca, depois do edital que o governador daquela corte publicou contra o sargento Gravina (…) e catorze castelhanos (…) cúmplices na maldade sacrílega de que a gazeta do mês passado fez menção acerca do dito prior, varão de grande exemplo, e depois do qual se fez ali uma proibição rigorosa de se trazer, guardar ou forjar armas de fogo. E achando-se que um criado do embaixador de Castela as vendia e trazia, não obstante toda a proibição, foi preso por ordem do papa, sem que o dito embaixador, que se indignou grandemente disso, o pudesse livrar das mãos da justiça, antes se diz que foi condenado à morte.

 

A actividade diplomática portuguesa estendia-se a toda a Europa inimiga de Castela, com quem Portugal queria estabelecer relações cordiais. Por isso, por vezes, são feitas na Gazeta referências à alegada deferência com que os embaixadores portugueses de D. João IV eram recebidos, o que engrandecia simbólica e propagandisticamente o novo regime. Ocasionalmente, também é invocado o favor de Deus para com Portugal, são dadas referências sobre as negociações para a paz geral e são feitos arremedos de análise avaliativa (como no final do excerto do terceiro exemplo). Casualmente, conforme também se poderá observar a seguir, as notícias diplomáticas são misturadas com outros temas (essa mistura de assuntos nas notícias é, aliás, um dos arcaísmos da Gazeta).

 

 

Gazeta do Mês de Junho de 1642

No dia de Santo António, publicaram-se as pazes entre Sua Majestade e o Sereníssimo Carlos I, Rei de Inglaterra e Irlanda.


Gazeta Primeira do Mês de Outubro de 1642

A 15 de Agosto, dia de Nossa Senhora, fez sua entrada em Paris o senhor embaixador de Portugal, o conde da Vidigueira, com grande acompanhamento. Foi buscá-lo, por ordem de El-Rei, o marechal de S. Luc, cavaleiro da Ordem do Santo Espírito, grande senhor em França. E no outro dia o veio visitar Monsieur de Pouvere, primeiro gentil homem a Câmara de El-Rei e marquês cavaleiro da dita ordem, por mandado de Sua Majestade, dando-lhe os parabéns pela sua boa chegada, e que estava com grande impaciência, esperando vê-lo no domingo, assim para saber novas de seu irmão El-Rei D. João, como para o ver. E assim, no domingo, viram os coches de El-Rei e da rainha e neles o duque de Xeurosa, príncipe da Casa de Lorena, e grande xambalano de França, que é dos supremos cargos da Casa de El-Rei e cavaleiro da dita ordem, com todos os coches dos mais principais e senhores como no ano passado. E o senhor embaixador voi ver Sua Majestade, que o recebeu com tantas demonstrações de alegria, que admirou a quantos estavam presentes. Estava El-Rei vestido de comprido e de roxo, que é (…) do ordinário, e o que tomou pela rainha sua mãe, que já se avisou como faleceu em Colónia a uma quinta-feira, 3 de Junho, depois de haver feito uma confissão geral ao padre guardião dos Capuchinhos da dita cidade e haver recebido os sacramentos do Viático e extrema-unção pela mão do núncio de Sua Santidade, em presença do ordinário. (…)

Também a  rainha fez muita festa ao senhor Embaixador e lhe falou logo em castelhano. Monsieur delfim lhe perguntou pelo príncipe nosso senhor.

Todos os portugueses que vieram com o senhor embaixador beijaram a mão a El-Rei e ele, que Deus guarde, recebeu a todos com grande benevolência e perguntava ao intérprete quem era cada um. Deu sua Majestade este dia de juntar ao embaixador o que assistiu o duque de Xeurosa (…). O cardeal duque está de todo bom e se espera por horas nesta corte, e é muito desejada a sua vinda, dos embaixadores e mais requerentes, porque sem ele não se defere a coisas de importância e com sua chegada se dará resolução a muitas.

 

Gazeta dos Meses de Março e Abril de 1644

De La Rochelle, aos 8 de Março de 1644

O marquês de Cascais, embaixador extraordinário de El-Rei de Portugal a esta Coroa fez hoje a sua entrada nesta cidade, onde foi recebido com todas as demonstrações de honra e de amizade que requer a estreita aliança destas duas coroas. Mandou-se-lhe um grande número de carroças, todos os corpos desta cidade, eclesiásticos e seculares, lhe foram dar as boas-vindas (…). E entre outras coisas lhe fizeram dar as boas-vindas por um grande número de estudantes (…), falando-lhe em todas as línguas (…), o que sua excelência mostrava agradecer muito (…). Entende-se que partirá dentro de oito dias para Paris, ainda que esta cidade lhe tem insistentemente pedido para fazer alguma demora nela, para descansar da (…) sua larga e perigosa navegação (…), pois andou no mar 24 para 25 dias, combatendo ventos contrários, de maneira que foi levado à altura da ilha Terceira, se bem que seja de crer que foi tudo por providência divina e particularmente favor de Deus, que não deixa de velar paternalmente pelos negócios de Portugal, porque mal o senhor embaixador chegou aqui teve aviso certo de que as fragatas dunquerquesas o esperavam no cabo de Finisterra e seis na ilha de Bellilha.

De Paris, aos 16 de Março de 1644

Havemos recebido novas da gloriosa chegada do marquês de Cascais a La Rochelle, aos 8 do corrente, e se prepara aqui para o receber como pede a estreita amizade entre França e Portugal, que melhora de dia para dia, de sorte que se tem aqui por certíssimo que não se concluirá nada na dieta de Münster sem que seus interesses não fiquem muito avantajados . Os príncipes e ministros jamais estiveram nesta corte em melhor inteligência nesta corte nem os aparelhos e prevenções de guerra foram tão grandes (…) [a notícia segue com o relato de actividades diplomáticas, militares e cortesãs francesas].

 

Em certas ocasiões, as notícias sobre os esforços diplomáticos portugueses ilustram, igualmente, uma certa ostentação dos diplomatas e também a importância da hierarquia social e dos laços que se estabeleciam:

 

Gazeta dos Meses de Maio e Junho de 1644

De Paris, aos 26 de Abril de 1644

Na terça-feira, 18 de Abril, entrou a bagagem do embaixador extraordinário de Portugal, o marquês de Cascais, que constava de 119 criados, começando por duas trombetas, doze azemelas com reposteiros de veludo carmesim bordados de ouro arrochos e armas de prata, com dois lacaios cada azemela, com libré negra e plumas negras. Seguiam-se doze moços da câmara a cavalo, vestidos à francesa, com coxins e maletois de veludo bordados a ouro, com pistolas e cravinas, bolsas, frascos, chapeleiras e espadas, após os quais ia um cavalo espanhol aparelhado, para o marquês, com adereços bordados de ouro, estribos e bocais cobertos de prata, com um telis de veludo negro bordado de prata. Acompanhavam a este cavalo 24 lacaios e um estribeiro do marquês a cavalo. Seguiu-se a carroça do marquês, de veludo negro, com seis cavalos espanhóis, após ela doze pajens a cavalo, com pistolas, vestidos à francesa, e outra trombeta mais. Após ela, seis carroças de seis cavalos cada uma (...). Ao outro dia, 24 de Abril, veio numa carroça de El-Rei (...) ao Paço o duque Delbeuf, primeiro príncipe de sangue da Casa de Lorena, que está casado com uma irmã do Rei defunto, cunhado da Rainha. meteu-se o marquês com ele na mesma carroça à sua mão direita (...) e assim chegaram ao Paço (...), com os Reis sentados em cadeiras. Levantaram-se, El-Rei descobriu-se, deu o marquês suas embaixadas (...). Durou a entrada perto de uma hora (...).

 

O reconhecimento internacional do novo poder é realçado na Gazeta pelo esforço que mesmo os mouros fizeram para estabelecer relações diplomáticas com Portugal:

 

Gazeta do Mês de Junho de 1642

Veio por via do Algarve um moiro comissário de El-Rei de Marrocos, enviado a fim de que se lhe permita mandar seus embaixadores a El-Rei nosso Senhor. E a 22 entrou nesta corte.

 

Os insucessos de Castela na frente diplomática também foram, ocasionalmente, noticiados na Gazeta:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1645

Entrando o embaixador de Florença a visitar o de El-Rei Católico em Roma, sobre as cortesias tiveram algumas palavras pesadas e finalmente chegou o negócio à espada, e de parte a parte morreram quatro ou cinco homens e ficaram muitos feridos.

 

Apesar de tudo, a acção diplomática portuguesa não era isenta de dificuldades, quer por causa do cativeiro do irmão do Rei, Dom Duarte, quer devido aos obstáculos colocados pelos castelhanos, que recusavam a ideia de um Portugal independente e desunido da Coroa espanhola. Repare-se, ainda, na segunda notícia colhida como exemplo de sustentação da afirmação anterior, a importância do latim como língua franca entre as elites intelectuais da época:

 

Gazeta dos Meses de Maio e Junho de 1644

Da Suécia, aos 23 de Junho de 1644

Disse que sentido o nosso embaixador dificuldades em ser admitido na dieta, foi dar parte à Rainha da Suécia e que ela o enviou com o título de embaixador seu, protestando ao Imperador e a El-Rei de Castela que não entraria na liga se primeiro não fosse admitido embaixador de Portugal e se tratasse da justiça do infante Dom Duarte e pondo-o primeiro em país livre.

 

Gazeta do Mês de Agosto de 1645

Sobre a liberdade do senhor infante se faz muito, principalmente por parte da Rainha da Suécia, a qual tem mandado a seus embaixadores que não venham em algum concerto de paz sem primeiro o porem em liberdade, e assim enviou pela posta dois correios ao dito general Torstenson, que não admitisse algum resgate pelos seis generais que na última batalha cativou ao imperador, que foi em Janeiro passado, pelos quais o imperador dava em seu resgate centro e trinta mil cruzados. E a dita Rainha tem dito que sem a liberdade do senhor D. Duarte não há-de falar na deles. Está-se esperando a resposta do imperador sobre a proposta que a Suécia e a França lhe fizeram neste particular, tocante ao qual o doutor Luís Pereira de Castro imprimiu agora um papel que fez em latim para se dar a todos os príncipes e embaixadores.

 

A acção diplomática que acabaria por conduzir à celebração de uma paz geral e ao fortalecimento da ideia do estado-nação também foi objecto de notícia na Gazeta, que não perde mais esta ocasião para denegrir Espanha, através, por exemplo, do relato do dúbio comportamento do embaixador espanhol, patente no último dos exemplos colectados (Novembro de 1646), mas que também revela as dificuldades sentidas pela diplomacia portuguesa, que, para ser aceite, tinha de se confrontar com as objecções imperiais e de Castela. Por vezes, ao gosto do século XVII, a diplomacia também vivia da ostentação e de cómicas rivalidades, conforme se nota no exemplo colectado na Gazeta de Maio e Junho de 1644.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1643

De Paris, aos 10 de Junho de 1643

(…)

Também vieram os passaportes para a Paz Geral (…).

 

Gazeta do Mês de Setembro de 1643

De Paris, aos ditos 25 de Julho de 1643

(…)

Os embaixadores plenipotenciários nomeados por Suas Majestades para a junta geral, que brevemente se há-de fazer em Westphalia, se apressam a sair desta cidade, recebidos os passaportes do Imperador, o qual dá hoje mostras e desejos de fazer um bom acordo com a França e todos os seus aliados, e El-Rei lhe dá já o título de Imperador, assim que em meus escritos não o nomearei mais por Rei da Hungria.

 

Gazeta dos Meses de Maio e Junho de 1644

Dos tratados de paz em Münster

Em Münster estão entrados os embaixadores de Castela, da Dinamarca, de Veneza, o legado de Sua Santidade, um embaixador de França e Luís Pereira de Castro, de Portugal. Os da Suécia se esperavam cedo (…) e com eles Rodrigo Botelho. Os da Holanda faltam ainda. O de Sabóia ainda está em Paris e faltam alguns príncipes do Império e os que dizem que hão-de ser cabeças das delegações dos seus reinos. O de França é o duque de Longavilla, de Castela, o duque de Medina de las Torres. O de França que está em Münster e o que vai se tratam com grande ostentação, cada um com mais de 120 pessoas.

Querendo entrar o núncio de Sua Santidade em Münster, mandou avisar os embaixadores para lhe mandarem fazer um cortejo com as suas carroças e gentis-homens, como de costume, e assim se resolveu Monsieur de Avoax, plenipotenciário de França, a mandar a sua [o seu coche] com doze gentis-homens nos seus cavalos e os outros na carroça. Levaram ordem para tomar a dianteira à [ao coche] de Castela se lá fosse e quisesse resistir e os embaixadores por estarem nas terras do Império consideraram suas coisas e estado e não quiseram mandar suas carroças, fingindo que não sabiam a hora da entrada. Os franceses estiveram todos em armas até saberem a fraqueza dos seus contrários.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

De Münster

Apertam tanto os franceses na Alemanha e na Flandres que se vão fazendo árbitros da Dieta e obrigam pelas suas vitórias aos deputados da Áustria a receberem o embaixador de Portugal e os demais deputados dos confederados de França, de maneira que já os austríacos desta cidade falam de os receberem, mas querem que seja sem constar aquilo por papel, que entrem na dieta mas sem cerimónia alguma, ao que não quer vir o Cristianíssimo, querendo absolutamente que entrem com as formas escritas e papéis ordinários. Rodrigo Botelho, embaixador de Portugal na Coroa da Suécia, está morto.

 

Gazeta dos Meses de Julho e Agosto de 1646

De Münster, aos 6 de Julho

Os negócios da Dieta vão muito devagar, não querendo os franceses e suecos que se trate de pazes sem primeiramente restituírem os castelhanos o infante D. Duarte no mesmo lugar da Alemanha onde o tomaram e sem entrar nos concertos o Reino de Portugal e a Catalunha.

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1646

Estado da dieta de Münster e Osnabrut, onde se trata das pazes gerais, tão desejadas.

Assim como são cruéis as guerras que hoje há entre os príncipes cristãos da Europa, assim também é difícil fazer estas tão desejadas pazes tão esperadas e a Deus tantas vezes pedidas.

Há já mais de três anos que pelo suave e paternal cuidado do Papa Urbano VIII, de feliz memória, começaram a juntar-se os deputados embaixadores plenipotenciários de vários Reinos, Estados e Repúblicas da Cristandade na Alemanha, na cidade de Münster, que é livre e cabeça da província de Westphalia. Porém, tão pouco foi o proveito que até ao mês de Setembro deste ano de 1646 (…) que aos 3 do dito mês se resolveu o conde de Trautmansdorf, plenipotenciário do imperador, voltar a Viena de Áustria, corte de Sua Majestade Imperial, por não ver jeito, nem esperança nenhuma, de se poderem estes negócios concertar. Pediu por este efeito, e recebeu os passaportes dos embaixadores plenipotenciários da França e da Suécia, os quais todavia lhe mostraram como era necessário que considerasse mais devagar as ruins consequências desta sua ida e que melhor fora esperar e fazer ainda mais esforços para enfim alcançar o bem e gosto de toda a cristandade. Assim o fez, e com bom sucesso, no que toca aos negócios do Imperador seu Senhor para com a França, porque dali a pouco acabaram os franceses seus concertos com o Imperador. Concederam a França tudo quanto pedia, mas sempre com o protesto de que a França não concluiria nada sem a Suécia e aliados nem o Império sem Castela.

(…)

Foram os mediadores ver o conde de Peñaranda, plenipotenciário d e Castela, e lhe disseram que convinha que Sua Excelência respondesse às propostas que França tinha dado. Respondeu o embaixador que estava muito sentido, porque uns livros que tinha mandado vir de Itália não tinham chegado. Replicou-lhe o mediador de Veneza dizendo: “Senhor, esses livros que Vossa Excelência espera têm alguma conveniência para a paz?” Respondeu o conde que a paz tinha muito que cuidar e que ele cuidaria disso mais devagar. Com esta resposta, despediram-se os mediadores e cuidam os bem entendidos que morrem agora os castelhanos para se fazerem pazes e que disso grande argumento foi haver-se de tal modo o embaixador católico fingindo por soberba natural de sua nação não querer o que desejam notavelmente.

Pedem a liberdade do Senhor Infante Dom Duarte todos os príncipes do Império por concerto de paz, mas a maldade dos seus inimigos é muita.

Os senhores embaixadores de Portugal Francisco de Andrade Leitão e Luís Pereira de Castro fazem neste particular maravilhas.

 

Saliente-se que as notícias anteriores colocam em relevo a questão do cativeiro de D. Duarte, irmão de D. João IV, um tema relevante para a diplomacia portuguesa independentista e brigantina. No reinado de D. Filipe III, D. Duarte foi combater nos exércitos do sacro-imperador. Após a Restauração, foi aprisionado pelo imperador, a pedido do Rei de Castela. Portanto, a diplomacia portuguesa procurava libertar D. Duarte, fazendo os possíveis para que a paz geral não fosse firmada na Europa sem essa questão estar resolvida.[5]

Sublinhe-se, ainda, que a notícia anterior merece referência não apenas pelo tema, mas também pela estrutura, já que para além do título, possui um intróito, em jeito de entrada, ou “nariz-de-cera”, conforme as regras da retórica clássica mandavam, mas que veio a cair em desuso no jornalismo noticioso.

Também interessante é o feedback contextual que permite ao leitor recordar o essencial da marcha dos acontecimentos que conduziram às negociações de paz – um esforço informativo relevante que vai ao encontro do espírito de muitos dos manuais de jornalismo contemporâneos quando prescrevem tácticas para a realização de reportagens.

 

O estrangeiro

Gazeta, em especial no seu segundo período de publicação, inseria bastantes notícias sobre o estrangeiro, em particular sobre a Europa, graças às cartas que seus redactores recebiam, às novas que escutavam e aos jornais estrangeiros que chegavam a Portugal e eram traduzidos. Ao dar destaque ao que se passava na Europa no seu todo, o jornalismo europeu seiscentista, do qual a Gazeta foi uma das expressões, também contribuía, certamente, para criar um sentimento de pertença dos europeus a um espaço comum, independentemente de estes muitas vezes se guerrearem entre si.

A maioria das notícias do estrangeiro inseridas na Gazeta, como se viu, diz respeito às guerras e revoltas nacionalistas (o estado-nação despontava) que dilaceravam o Velho Continente. Mas os acontecimentos marcantes da vida social e cor-de-rosa (já então se seguia com atenção a vida dos famosos estrangeiros), as intempéries, a diplomacia e os acordos diplomáticos, a necrologia, os assuntos religiosos, a política e administração dos reinos, a economia e comércio, os impostos, o insólito, etc. também marcavam presença, pelo que se pode dizer que, no que respeita aos temas, a informação sobre Portugal era semelhante à informação sobre a Europa.

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

Casou o Duque de Longa Vila príncipe de la Sangre (que era viúvo de uma irmã do príncipe conde de Soíson) com madame de Bourbon, prima do Cristianíssimo, filha do príncipe de Condè.

 

Gazeta do Mês de Maio de 1642

El-Rei de Castela foi para o Reino de Aragão por causa da guerra que lhe faz o Cristianíssimo.

 

Gazeta do Mês de Junho de 1642

No mês de Abril passado saiu um livro impresso em Londres por mandato do Parlamento, intitulado Demonstração dos Acontecimentos Admiráveis que Sucederam na Irlanda, composto pelo doutor Henrique Joanes, no qual estão os testemunhos de uma inquirição que se fez por um decreto do Parlamento, em que os ingleses que fugiram da Irlanda declaram debaixo de juramento em quanto importam os danos que haviam padecido naquelas guerras. E foi avaliado em cinco milhões (…).

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

O duque de Medina Sidónia está na Andaluzia e foi a sua vinda muito festejada por todos aqueles povos.

O general da armada da Irlanda, Dom Malaquias Odiscoil, anda com cinquenta naus no mar da Província de Mononia, que é a que está mais fronteira da Inglaterra.

(…)

O Grão-Turco tem no porto de Argel mais de setenta velas entre naus e galés.

(…)

Morreu madame condessa de São Pol e deixou para obras pias cinquenta mil escudos.

Ouve uma conspiração contra o eminentíssimo senhor cardeal Richelieu. Porém, o marechal de Xomberg a descobriu e muitos dos conjurados estão já presos.

Querendo sua eminência [o cardeal Richelieu] curar suas enfermidades, lhe mandou o Cristianíssimo esta carta: “Primo, ide-vos a qualquer lugar que os médicos vos ordenarem para vossa saúde e em tudo tende cuidado do meu estado e também dos meus filhos e de toda a minha casa. Eu vos amo mais que a qualquer outra pessoa no mundo”.

(…)

O duque Francisco de Saxónia saiu de Viena com 300 mil cruzados para levantar gente na Província da Silésia contra Torteson, general sueco.

O eleitor de Brandemburg celebrou neutralidade por dois anos com a Rainha da Suécia.

(…)

Os suecos mataram a Sehurten, capitão de cavalaria do exército imperial.

 

Gazeta Primeira do Mês de Outubro de 1642

O príncipe Thomas e seu irmão o cardeal estão reconciliados com El-Rei Cristianíssimo. O Cardeal casa-se com sua sobrinha e o filho do Príncipe Thomas com a filha do duque de Longavilla, ambos próximos parentes, filhos de duas irmãs, e porque a mãe de mademoiselle era mais velha que a princesa de Carinhan, sesas este casamento e se lhe dá em dote a herança do conde de Suason. E para todos estarem de acordo, se casou mademoiselle de Bourbon, filha do príncipe de Condé, com o duque de Longavilla, que estava viúvo da irmã do conde de Suason.

As cerimónias dos desposórios do Príncipe Maurício com a Princesa de Saboia, conforme o extraordinário de 27 de Agosto de 1642.

Os artigos acordados entre El-Rei e os príncipes Maurício Cardeal e Thomas de Sabóia foram notificados por El-Rei no primeiro de Julho passado e logo pelos ditos príncipes.

(…)

A 14 de Agosto, havendo sido eleita para estas cerimónias madame a duquesa de Sabóia, vestida de grande luto pela morte da Rainha-Mãe, e levando-lhe a marquesa Villa o rabo, entrou nos paços do duque de Sabóia, os quais todos estavam cheios de senhores e damas de Turim. A câmara do aparato estava toda entapeçada de panos de ouro e seda, onde haviam levantado um trono sobre quatro degraus (…).

O marquês Cirie, que tinha a cargo do príncipe cardeal de Sabóia, que estava numa câmara vizinha, tendo aviso pelos capitães dos guardas, entrou dentro das grades, fazendo muitas cortesias. Subiu dois degraus do trono e sobre o terceiro se pôs de joelhos para saudar a madame e levantando-se lhe pediu a princesa sua filha em nome do príncipe Maurício de Sabóia, sobre o que madame lhe pediu a procuração que para isso tinha, e ele lha apresentou com os joelhos no chão, e tomando-a madame a mandou ler em voz alta ao conde de Santo Thomas, secretário de Estado, e depois disse (…) que ela dava o seu consentimento e só faltava saber o da princesa, a quem o duque de Longavilla foi logo buscar a um grande gabinete dourado junto da câmara onde estas cerimónias se faziam e trazendo-a ao trono ela se mostrou com tanta graça e formosura que se duvidou se era natural (…). Estava vestida com uma tela de prata (…) e todo o corpo e mangas com grande quantidade de pedraria. Tinha sobre a cabeça uma coroa aberta de grandíssimo preço (…). A graça do seu meneio (…) foi grandemente acrescentada pela do seu discurso, no qual manifestou tanto respeito às perguntas de madame sua mãe que não houve quem não admirasse na idade de 15 anos sua grande modéstia e (…) a felicidade do príncipe Maurício. E (…) bem se julga (…) que havia dado o sim, porque (…) em consequência todo o ajuntamento passou à Igreja de São João, que estava ricamente armada, na qual se cantou o Te Deum Laudamus.

 

Gazeta do Mês de Março de 1643

De Paris, aos  6 de Fevereiro de 1643

A morte do cardeal duque [Richelieu] não fez inovar coisa alguma no Governo, que hoje tem o cardeal Mazarino, Xaveni e Noier, os quais guardam em tudo as ordens que o dito cardeal deixou. Sua Majestade soltou alguns presos da Bastilha e perdoou alguns desterrados.

Para as coisas de Portugal, está Sua Majestade Cristianíssima e ministros com a mesma vontade.

 

Gazeta do Mês de Junho de 1643

De Monçon, aos 29 de Maio de 1643

Monsenhor o duque de Orleans, tendo aos 16 deste mês acompanhado a El-Rei e Rainha de São Germão a esta cidade, e aos 18 assistido a Suas Majestades no Parlamento, no qual El-Rei declarou a Rainha regente em França, para ter o cuidado de sua educação e administração absolutamente livre e inteira de seu Reino, pendente sua menoridade, estabeleceu a monsieur o duque de Orleans, seu tio, lugar de tenente-general em todas as províncias do dito Reino, debaixo da autoridade da Rainha, e debaixo da mesma autoridade, chefe e cabeça dos seus conselhos, e na sua ausência, a seu primo, o príncipe de Condè, conde primeiro do sangue, ficando em poder da Rainha o fazer eleição das pessoas de méritos e experiência, tantas quantas lhe parecerem ser necessárias, para deliberar nos ditos conselhos e dar-lhe seus votos e pareceres acerca dos negócios que se propuserem, sem que ela seja obrigada a seguir a maioria, se não lhe parecer bem (…).

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1646

Por carta de Münster se soube como na Suécia se tem feito uma companhia de mercadores, de que é presidente o chanceler do Reino, para fazerem duas frotas todos os anos para Portugal, uma em Junho e outra em Setembro.

 

Muitas vezes, por causa da propaganda da Restauração, os castelhanos não ficavam bem vistos nas notícias do estrangeiro publicadas na Gazeta (são derrotados, ou revelam-se perversos, ou em ruína financeira…):

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

O marquês de Bresé, com ambas as armadas, a do Levante e a do Poente, que constavam de 66 navios e 24 galés, saiu ao encontro da Armada Real de Castela, que ia meter socorro nas praças cercadas da Catalunha. Pelejaram duas vezes em dois dias. Retirou-se a armada de Castela para as ilhas de Maiorca e afirma-se que com perda de cinco baixéis (um dos quais era o galeão São Domingos e três naus de fogo com três mil infantes mortos. As armadas de França perderam uma nau, de que era capitão o comendador de Congè.

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Pessoa digna de crédito que veio de Madrid afirma que El-Rei Dom Filipe havia gasto dentro de dez meses nas guerras de Portugal e suas dependências três milhões e trezentos mil cruzados.

 

Alguns acontecimentos são notícia porque dão conta da identificação dos portugueses católicos com o sofrimento que padeciam outros católicos às mãos dos protestantes. Os católicos são, normalmente, apresentados como corajosos e impassíveis defensores da sua fé até ao final, pois na realidade seiscentista (como na actual) havia vários nós e vários eles (o nós católicoseles protestantes; o nós cristãoseles infiéis; o nós portugueseseles castelhanos, etc.), devido à sobreposição e indefinição de identidades num mundo diferenciado e em constante devir:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Em Londres padeceram cinco católicos romanos, quatro deles sacerdotes, a saber dois clérigos e dois frades beneditinos.

  

Gazeta do Mês de Maio de 1643

(...)

Relação da ditosa morte do padre Thomas Hollanda, sacerdote da Companhia de Jesus, inglês de nação e natural da província de Lancaster no Reino de Inglaterra. Escreveu-a um inglês católico que se achou presente.

Foi preso o padre Thomas Hollanda na cidade de Londres (…). Esteve preso seis semanas. Chegou o tempo de uma das quatro audiências gerais do ano. Foi levado a juízo entre ladrões e malfeitores (…). Com valor gozoso apareceu diante dos juízes. Fizeram-lhe várias perguntas, entre elas se era sacerdote. Respondeu que quem de tal o acusara que o provasse (…). Porém, os acusadores (…) juraram somente que o haviam visto estudar em Castela para sacerdote, mas que não sabiam se o era (…). Contudo, os juízes por estas suspeitas somente fulminaram sentença de morte contra o valoroso soldado de Cristo (…). A forma da sentença foi a seguinte:

(…)Mandamos que morrais por traidor (…). Tornareis (…) à cadeia de Newgate e dela saireis a arrastar por traidor, ao rabo de cavalos, pelas ruas (…) até ao lugar de Tiborne e aí sereis enforcado e meio vivo vos lançarão abaixo e logo vos abrirão as entranhas e arrancarão o coração e o mostrarão ao povo. E as entranhas com ele serão lançadas ao fogo e o corpo esquartejado e os quartos pendurados pelas portas de Londres.

Pronunciada a sentença levantou o servo de Deus os olhos e as mãos ao céu e deu graças à divina Mejestade pela mercê que lhe fazia de dar a vida pela confissão da sua fé romana e apostólica. E logo com semblante de vencedor disse para os juízes (…) “vos perdoo de tão injusta sentença (…) e também perdoo às testemunhas” (…). Na segunda-feira 12 (…) chegou a Justiça (…) e o deitaram num carrinho baixo da altura de um palmo do chão, sobre alguma palha, e depois de o amarrarem bem o foram arrastando (…) pelas ruas (…) até ao lugar onde padecem os malfeitores (…). Logo pediu licença (…) para mostrar em público a sem razão com que o matavam (…) e para se despedir daquele povo.  (…) Comecemos (disse ele) pelo sinal da cruz, que os calvinistas estranhamente aborrecem (…). Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, três pessoas e um só Deus verdadeiro. Há neste auditório alguém que se escandalize com este sinal? Aqui parou um pouco e quando viu que ninguém lhe respondia, prosseguiu (…) e provou com textos e pontos de direito, concludentemente, como fora condenado sem (…) prova (…). Pois agora quero eu declarar quem sou (…). Eu sou sacerdote, posto que indigno, da Companhia de Jesus, (…) que é a coluna da fé romana e apostólica, em que somente há salvação (…). Aqui desfez alguns dos fundamentos da falsa seita de Calvino (…). Logo o defensor da fé romana se pôs de joelhos e em alta voz fez a Deus a última recomendação da sua alma e pediu-lhe perdão para os seus inimigos (…). Logo os algozes deram um açoite aos cavalos, que partindo, ficou o servo de Deus pendurado no ar, com as mãos postas no Céu, sem fazer no rosto esgar algum, antes vestiu um semblante ainda mais sereno e alegre.

Meio vivo o deitaram abaixo e o despiram nú e o abriram pelos peitos e lhe arrancaram o coração, que vinha palpitando e como triunfando. O algoz o mostrou ao povo (…) dizendo vedes aqui o coração de um traidor (…) e o deitaram no meio de uma fogueira (…) com as entranhas (…) e depois fizeram o corpo em quartos, que dependuraram pelas portas principais da cidade (…).

 

A notícia seguinte ainda guarda resquícios da confecção epistolar das cartas de novas gerais, constituindo mais um exemplo, tal como a anterior, de como a Gazeta procurava apresentar aos católicos modelos de vida:

 

Gazeta do Mês de Março de 1643

Mais de Londres a 12 de Janeiro de 1643

Pediste-me por várias vezes a relação do martírio do padre Hugo Greenm por outro nome Fernando Brooke, ou Deerman, o qual sendo da idade de 57 anos, deu a vida pela fé na cidade de Dorcester, numa sexta-feira, a 19 de Agosto de 1642 (…).

A 17 de Agosto de 1642, que foi uma quarta-feira, se lhe deu a sentença de morte e ouvindo-a o padre com muita paciência e consolação disse Sit Nomen Iesu Benedictum in Secula. E antes de se deitar no caniço de palha em que neste Reino é costume levar os padecentes, pôs-se de joelhos e beijou-o. Chegando ao lugar da execução, fazendo-o parar num monte, que distava algum tanto da forca, enquanto enforcavam três mulheres que no mesmo dia foram a padecer, duas das quais na noite precedente lhe tinham mandado dizer que queriam morrer na sua fé. O servo de Deus fez quanto pode para as poder ver e com elas falar, mas não pôde alcançar para isso licença e assim elas lhe mandaram pedir que quando houvessem confessado sua má vida ao pé da forca e fizessem sinal ele as absolvesse, o qual com grande alegria da sua parte, e muito maior benefício delas (…) porque ambas virando-se para o sacerdote, e estendendo seus braços, disseram em voz alta “Senhor, ficai com Deus” e assim morreram com esperança grande na Sua Salvação. (…) Deus, na sua misericórdia, houve por bem dar-lhe semelhante consolação por um padre da Companhia de Jesus, do qual, com grande reverência (…), com os olhos voltados para o céu recebeu a absolvição. Depois disto, o dito padre foi levado pelo xerife (…). Virando depois para o povo, e benzendo-se, fez uma longa prática, sendo por várias vezes interrompido, e nela declarou que a Igreja Católica Romana era a verdadeira e que fora dela ninguém se salvava. E que na Igreja verdadeira hão-de haver sacerdotes para sacrificar, e que ele mesmo era um deles (…). Então rogou por Sua Majestade e que seu Reino fosse estabelecido em paz, o que dizia não havia de ser enquanto entre eles não houvesse alguma união na fé. Depois disto, baixando a carapua sobre o rosto, com as mãos juntas diante do peito em quieta oração esperou (…) pelo seu ditoso trânsito (…). O que feito, foi notado por muitos benzer-se três vezes com a mão direita, estando já dependurado, mas logo mandaram ao algoz que o tirasse da forca (…) e este se deteve tanto antes de esquartejá-lo que o padre tornou a si com perfeito sentido e sentando-se (…) tomou ao algoz pela mão para mostrar (…) que lhe perdoava. Mas o povo puxou por um pedaço de baraço que lhe ficou ao pescoço e o deitou ao chão. O carniceiro então lhe abriu a barriga pelo meio e a parte que ficava de cima a lançou sobre o peito, que sentindo ainda o padecente pôs a sua mão esquerda sobre as tripas e com a direita fez o sinal da cruz dizendo três vezes Jesus, Jesus, Jesus, misericórdia (…). E (…) o carniceiro lhe tirou um pedaço de bofe em lugar do coração, revolvendo-lhe as entranhas de uma parte e outra para ver se achava o coração entre elas (…). Nunca o ditoso padre deixou de chamar por Jesus (…) e movia a compaixão vê-lo levantar os olhos para o céu ainda vivo. Então o xerife (…) mandou que se lhe cortasse a cabeça (…) e assim deu a alma ao Seu Criador. Então lhe acharam o coração e o puseram na ponta de uma lança e o mostrarão ao povo (…). O povo (…) ficou ali jogando com a cabeça (…) metendo-lhe paus pelos olhos, orelhas, nariz e boca e depois a enterraram (…), que se não atreveram pô-la nas portas da cidade, porque depois da derradeira cabeça de católico, que pela fé padeceu, (…) e que nelas a haviam posta logo se seguiu nesta terra muito grande peste, de maneira que ainda temem, mas não se emendam.

 

Algumas notícias sobre o padecimento de católicos às mãos de protestantes são mais secas:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Em Londres padeceram cinco católicos romanos quatro deles sacerdotes, a saber dois clérigos e dois frades bentos.

 

Eco da perplexidade com que em Portugal se contemplava a revolta do Parlamento contra o Rei absoluto inglês, a Gazeta não perdia oportunidade para denegrir a acção governativa dos parlamentares ingleses:

 

Gazeta o Mês de Agosto de 1645

De Londres se escreve uma coisa monstruosa, que não pôde entrar na gazeta passada, e é que o Parlamento, com o pretexto de aliviar aquela cidade de pobres e acudir às queixas de muitas mulheres, cujos maridos morreram na guerra, ficando-lhes muitos meninos, ordenou secretamente, ou ao menos permitiu aos mercadores que comerciam nas terras que os ingleses têm na América, tomassem pela força quantos meninos achassem pelas ruas, de três anos e dali para cima, para irem povoar as ditas terras. E o que é pior é que os tais mercadores costumam vender lá por escravos por alguns anos os que destas partes levam. Nesta conformidade, por força e por afagos foram tomados muitos meninos por homens e mulheres que nesta caça andavam por prémio de dois tostões, que os mercadores lhes davam por cada um. E sem embargo dos clamores das mães e parentes de alguns deles, os meteram nos navios, onde se diz que morreram num só dia mais de cinquenta, por se verem fora do elemento em que nasceram, ou por outro qualquer incómodo. Durou esta perseguição uma semana, ao fim da qual (estando os navios já de verga ao alto) acudiu a justiça com muito estrondo e ministros para proibir a tomada de meninos, mas os navios, sem embargo de tudo isto, deram à vela. E ficando os meninos por restituir, ficaram também os delinquentes por castigar, mas tudo muito quieto.

 

O espanto pela transformação acelerada que o mundo enfrentava no século XVII estendia-se aos assuntos religiosos:

 

Gazeta do Mês de Julho e Agosto de 1646

De Londres, aos 29 de Junho

(…)

Os independentes, que são uma nova casta de hereges nesta cidade e Reino, os quais querem que na Inglaterra toda não seja religião permitida, fazem o que podem para impedir as pazes [entre o Parlamento e o Rei].

 

 

Não passou despercebida à Gazeta, que traduzia avidamente os jornais franceses, uma conspiração contra Richelieu:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Houve uma conjura contra o eminentíssimo senhor cardeal Richelieu. Porém, o marechal de Xomberg descobriu-a e muitos dos conjurados estão já presos.

 

As notícias vinham tão longe quanto Jerusalém, onde se fazia sentir a influência do Rei de França em favor dos peregrinos cristãos, graça à aliança franco-turca anti-imperial:

 

Gazeta do Mês de Março de 1643

De Jerusalém, a 7 de Janeiro de 1643

O padre de Arco, franciscano, natural da Itália, guardião do convento de São Salvador, que os desta ordem têm nesta cidade, veio de Constantinopla, para onde partiu há ano e meio a dar conta das grandes afrontas e perseguições que o baxá desta dita cidade lhes fazia e para serem restituídos à posse do presépio de Nosso Senhor, do sepúlcro da Virgem de Nazaré e dos demais lugares santos, de que os haviam lançado fora sem lhes ficar mais do que o Santo Sepulcro. O grão-vizir lhe deu inteira satisfação a tudo, por meio e intercessão do nome de Sua Majestade Cristianíssima (sob cuja protecção estão os ditos lugares), pelas demonstrações e diligências que neste negócio fez o senhor de Hayas, seu embaixador, o que para todos eles foi de muita grande alegria, principalmente porque à sua chegada a essa cidade, que foi a 8 de Setembro, morreu nela o dito baxá, seu perseguidor. E assim se animaram a começar a renovar a igreja e o convento, que no dito lugar de Nazaré tinham, com esperança de que nesta ocasião os cristãos lhes não faltarão com a sua ajuda e favor, conforme o aviso que enviaram ao padre Magnà, do grande convento de São Francisco de Paris, comissário-geral em França para os negócios da Terra Santa.

 

Mesmo as peças sobre o estrangeiro ocasionalmente envolvem Portugal e os portugueses. A notícia seguinte (passe a deselegante e arcaica mistura de assuntos), relacionada com a actividade diplomática portuguesa, relembra as expectativas e esperanças portuguesas no que tocava à restituição dos territórios e praças perdidos para a Holanda durante o período filipino:

 

Gazeta do Mês de Junho de 1645

Na Holanda se trata com a companhia do Brasil, que está muito acabada, acerca da restituição de Angola e demais lugares e praças de Portugal, cujos plenipotenciários em Münster, doutores Francisco de Andrade Leitão e Luís Pereira de Castro, estão recebidos para a dieta. Queira Deus efectuar uma paz e concórdia universal entre os príncipes cristãos para unidos se oporem contra o inimigo comum [turcos].

 

Tendo em conta o que foi dito, ao observarem-se as notícias anteriores pode entender-se que, na Gazeta, a noticiabilidade de um acontecimento dependia menos do país onde este ocorria e mais dos critérios, de alguma forma intemporais e transnacionais, que notabilizam os acontecimentos e problemáticas e lhes dão valor noticioso, ou seja, os critérios de noticiabilidade.

 


A administração do Reino e a política

As notícias sobre a reorganização da administração do Reino provocada pela Restauração e sobre as missões reais são comuns no primeiro período, em que a Gazeta cumpre também a função de uma espécie de jornal oficial, como o veio a ser a Gazeta de Lisboa:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

Despachou El-Rei Nosso Senhor ao conde da Vidigueira por embaixador de França, para assistir na corte de Paris.

Dom Antão de Almada (que foi por embaixador extraordinário a Inglaterra) fica por assistente para tratar dos negócios do Reino.

Veio Frei Diniz de Lencastre, a quem El-Rei havia mandado às partes do Norte.

(…)

Estão nomeados mestres de campo Cristóvão de Melo, filho do monteiro-mor do Reino, e Dom Sancho Manuel.

Publicou-se o subsídio eclesiástico.

(…)

Está eleito capitão de cavalaria Dom Nuno de Mascaranhas, filho de Dom António Mascaranhas.

(…)

Elegeu El-Rei Nosso Senhor a Tristão de Mendonça por general e não se sabe ainda para onde vai. É seu almirante o capitão Francisco Duarte.

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

D. Fernando Teles de Faro está despachado por capitão-mor da vila de Campo Maior.

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

António de Saldanha vai por general da esquadra que está para dar à vela com o primeiro tempo.

(…)

Manuel de Sousa Pacheco está despachado por governador da ilha Terceira.

(…)

Despachou El-Rei Nosso Senhor ao marquês de Montalvão por vedor da Fazenda, com superintendência nas armadas, e tomou posse a 13 do mês.

(…)

Manuel da Silva Mascarenhas está despachado por capitão-mor da vila de Mourão.

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Vai António Teles da Silva despachado por Vice-Rei do Brasil.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

António Teles da Silva foi a governar o estado do Brasil.

 

As visitas reais, no contexto da reorganização do país, também podiam ser matéria noticiável:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Foi Sua Majestade visitar os armazéns e a Armada Real.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Foi El-Rei a Barcarena a ver a fábrica de armas.

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

Foi El-Rei Nosso Senhor à banda d’além ver os galeões.

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

A 13 foi El-Rei Nosso Senhor ver a torre de São Giam.

 

Por vezes, as nomeações de cariz administrativo também tinham o seu quê de recompensa:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

El-Rei Nosso Senhor fez mercê ao marquês de Ferreira do cargo de mordomo-mor da Rainha Nossa Senhora, que vagou por morte do conde de Odemira.

 

Mesmo no segundo período de publicação, a Gazeta inseria várias notícias de nomeações administrativas e recompensas sociais, num tempo em que o Rei se imiscuía directamente na governação eclesiástica, nomeando bispos:

 

Gazeta dos Meses de Setembro e Outubro de 1646

De Lisboa, aos 5 de Outubro

No mês passado fez Sua Majestade mercê ao conde da Vidigueira do título de marquês de Noiza e havendo respeito a ele se haver portado com tão bom sucesso na embaixada de França, o tornou Sua Majestade a nomear com embaixada extraordinária às majestades Cristianíssimas com negócios de suma importância, conforme se entende.

Também Sua Majestade confirmou a Dom Diogo de Lima o título de Visconde de Vilanova de Cerveira por renúncia ao mesmo do visconde seu pai.

Nomeou assim mais Sua Majestade por arcebispo de Lisboa a Dom Manuel da Cunha, bispo de Elvas, e seu capelão-mor, que estava nomeado arcebispo de Évora.

 

As questões económicas, nomeadamente quando punham em relevo a boa administração do Reino por Dom João IV, também podiam ser objecto de notícia:

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

Mandou El-Rei Nosso Senhor que se devolvesse (…) o terceiro quartel dos juros, tenças e ordenados que se pediu por empréstimo no ano de 1641, porque se tem achado que o dinheiro da décima e da vintena basta para a guerra.

(…)

No último dia do mês publicou-se a provisão do dinheiro receptado e em cada comarca do Reino faz-se uma casa da moeda.

 

Certos crimes que afectavam a economia do Reino também foram noticiados:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Entre as pedreiras de Alcântara se acharam dois homens falsificando o cunho da moeda (...).

 

A dimensão religiosa da vida seiscentista

A vida social surge recortada na Gazeta em várias das suas dimensões. Há, nesse periódico, notícias sobre festividades, maioritariamente religiosas, sobre a vida na Corte, crimes e castigos, questões económicas, etc.

Na vida social portuguesa seiscentista assumia especial destaque a dimensão religiosa, através da qual por vezes se aproveita para fazer, mais uma vez, a apologia da Casa de Bragança e da Restauração. Na notícia recolhida para exemplo, o pregador diz que D. João IV é reconhecido como Rei nos mais distantes lugares:

 

Gazeta do Mês de Março de 1645

No primeiro domingo da Quaresma, na Igreja de Santo Antão o Novo, disse o padre pregador aos ouvintes que dessem graças a Deus pelas boas novas que tivemos da Índia Oriental, por um correio que veio a Itália por via da Pérsia, o qual não somente dizia que El-Rei Nosso Senhor estava já naquelas partes aclamado por Rei, com grande aplauso até dos príncipes mouros, mas também que andavam muito prósperas as armas portuguesas.

 

Noutras notícias, é essencialmente a participação nas festividades religiosas, enquanto experiência vulgar do quotidiano português seiscentista, que é referenciada:

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

Pelo Jubileu do Entrudo foi El-Rei Nosso Senhor, com toda a Casa Real, à igreja de São Roque. Assistiu à festa, de que era mordomo o marquês de Montalvão. Acompanhou o Santíssimo Sacramento. Levou uma vara do palio e as outras levaram o marquês de Gouveia, o visconde de Vila Nova de Cerveira, o conde do Redondo, o conde de Óbidos e o conde da Vidigueira.

(…)

Foi El-Rei Nosso Senhor e a Rainha Nossa Senhora, com o Sereníssimo Príncipe Dom Teodósio e todo o acompanhamento real, ver a procissão dos Passos de uma janela do tribunal do Santo Ofício.

(…)

Dia de São José fez anos El-Rei Nosso Senhor. Houve muita gala e grande festa na Capela Real pela manhã e à tarde recebeu o sacramento do Crisma o Sereníssimo Príncipe Dom Teodósio. Veio abaixo ao lado de El-Rei Nosso Senhor, acompanhado com toda a régia casa e depois de fazerem ambos oração se sentarão no sitial (…). Assistiu a tudo (…), com as damas luzidiamente vestidas, a Rainha Nossa Senhora e foi este um dos alegres dias que houve na Capela Real.

 

O apelo à religiosidade, que se inscrevia, fortemente, na cultura dos portugueses de seiscentos, embora pontual, insinua-se na generalidade dos números da Gazeta. A experiência religiosa, e a credulidade que a acompanhava, faziam, de facto, parte integrante da vida quotidiana de muitos dos portugueses do século XVII. Para eles, o mundo só faria sentido se interpretado à luz da religião, algo que por vezes os redactores da Gazeta usam para propagandear a Restauração e a nova Casa reinante – a de Bragança. É eloquente a notícia desenvolvida, ou mini-reportagem, da celebração do primeiro aniversário da Restauração, na qual o Reinado de D. João IV é apresentado não apenas como Rei legítimo aos olhos de Deus e do povo mas também como Rei necessário devido à crise que o país atravessava sob a governação de Dom Filipe III:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Domingo, o primeiro dia do venturoso mês em que Deus Nosso Senhor pôs seus olhos de misericórdia no miserável estado de Portugal e foi servido de o restituir a seu legítimo sucessor, o Sereníssimo Rei Dom João o IV (depois de uma agradável pompa de luminárias com que esta mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa celebrou, no sábado à noite, a véspera da feliz Restauração deste Reino), saiu da Igreja da Sé, às três horas da tarde, uma procissão de graças. Foi nela o Ilustríssimo Senhor Dom Rodrigo da Cunha, arcebispo metropolitano, com uma relíquia do Santo Lenho, e diante aquele sagrado crucifixo que (para dar ânimo aos zelosos da Pátria) despregou um braço à porta do glorioso padre S. António, com todo o clero, as religiões, confrarias e bandeiras que costumam ir na procissão do Corpo de Deus da cidade. El-Rei Nosso Senhor saiu do paço a cavalo, com a nobreza do Reino e todo o acompanhamento real. Ocupava já a procissão algumas ruas e era tão grande o concurso de gente que se não sabe até hoje igual neta cidade, e haver em toda ela uma pequena inquietação, e não obstante que todos os soldados da guarda e as justiças iam diante, desembaraçando o caminho, não foi possível a El-Rei Nosso Senhor apear-se à porta principal, onde lhe haviam posto a tarima, e atalhando por uma travessa, deixou a maior parte do vistoso acompanhamento e pela rua que se vê de São João da Praça para a Sé foi apear-se aos degraus da parte esquerda do adro. Entrou na Igreja, fez oração e veio pela porta principal, detrás da procissão, que havia muito tempo que estava ordenada, esperando por sua Real pessoa. Não viu o sol nos quantos milhares de anos que rodeia a máquina do mundo mais gala, aparato igual, maior grandeza, nem tantas demonstrações de alegria em todos os triunfos que a fama soleniza. Moveu-se aquela galharda tropa. Começaram a cantar os músicos da Capela Real e sem dúvida que não haveria coração que não suspendessem com a melodia do seu quanto se os vivas que o povo dava a El-Rei Nosso Senhor não embaraçassem os ouvidos, reduzindo tudo a uma suavíssima confusão. Houve muitos homens velhos que admirados do íntimo afecto com que o povo aclamava Sua Majestade, consideraram que na entrada de El-Rei Filipe, o Segundo, e de seu filho, El-Rei Filipe, o Terceiro (posto que neste Reino lhes fizeram grandes festas), não houvera nunca em nenhum acto público pessoa alguma que lhes desse um Viva, circunstância digna de grande reparo. El-Rei Nosso Senhor, em agradecimento deste peregrino aplauso (para que o povo o visse devagar), parou no meio das escadas e deteve-se um largo tempo falando com o conde de Cantanhede. Veio finalmente a procissão andando por onde vai a do Corpo de Deus (…) e recolheu-se ao (…) Carmo, onde El-Rei Nosso Senhor fez oração (…) e depois de registar (…) o grande número de gente (…) saiu e posto a cavalo veio outra vez ao paço. Neste dia estiveram as ruas adornadas (…). No Chiado havia um paço de figuras de vera (…) o qual representava a paz que o Cristianíssimo Rei de França fez com o Sereníssimo Rei Dom João IV Nosso Senhor, cujas armas o Céu faça prosperar em cujo favor se arme o braço divino para que alcance tantas vitórias que igualem as do grande defensor da Pátria, o Santo Conde Dom Nuno Álvares Pereira (…).

 

A notícia anterior também é interessante pelos pormenores que descreve, pelo recurso abundante à adjectivação e pela linguagem figurativa, marcas de alguns enunciados jornalísticos seiscentistas.

Mas a vida religiosa, um dos centros da vida social da época, não se restringia à propaganda da Restauração:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

O padre Inácio Mascaranhas, por faltar o pregador na festa de São Francisco Xavier, pregou de repente e fez um sermão que agradou com notável encarecimento, e pelos ouvintes de maior voto foi celebrado, e atribuído a favor do Santo.

 

Por vezes, a vida interna da Igreja também era relatada:

 

Gazeta do Mês de Março e Abril de 1644

Mais de Roma, aos 22 de Fevereiro de 1644

Aos 14 de Dezembro passado nomeou o Papa cardeal do Consistório ao padre João Delugo da Companhia de Jesus, o qual na dita cidade ensinou Teologia vinte anos. O cardeal francês Barberin avisou seu general por um escrito que um seu gentilhomem trouxe (…) o que foi com tanto segredo que nenhum dos padres o imaginou. O padre estava à mesa no Colégio Romano quando o (…) coche do cardeal Bauberin o foi buscar em hábito da Companhia e o trouxe ao Colégio de Ypre. Foi aqui censurado e pronunciados por anátemas os que o defenderem. A Rainha de França foi aqui admirada por haver mandado à Sorbonne registar esta censura, mostrando por este acto a grande devoção que tem à Santa Sé Apostólica.

 

A morte do Papa Urbano VIII e a ascensão de Inocêncio X ao Papado foi minuciosa e amplamente coberta, em jeito de reportagem, devido ao interesse que despertava num país católico como era Portugal. É possível imaginar a cerimónia através das descrições do redactor:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

Descrição das cerimónias que se fizeram dentro e fora do Conclave antes e depois da eleição do nosso Santo Padre o Papa Inocêncio X,

Havendo os senhores cardeais acabado a novena das pompas fúnebres de Urbano VIII, que teve a cadeira de São Pedro vinte anos, onze meses e vinte e três dias, o cardeal Lanty, deão do Sagrado Colégio, cantou a missa do Espírito Santo, na Igreja de São Pedro, e no coro dos senhores cónegos, o senhor Jacques Accarisio fez uma elegante oração De Eligendo Pontifice, depois da qual tomando o senhor Dominico Belly, mestre de cerimónias, a Cruz Papal, os músicos da capela, indo adiante, cantaram o hino Veni Creator Spiritus, seguindo os senhores cardeais a procissão, na ordem seguinte, a saber: [segue-se uma lista de cardeais].

(…)

Cerimónias feitas dentro do Conclave

Entrando os senhores cardeais no Conclave, foram direitos à capela de Xisto IV, onde o eminentíssimo cardeal deão disse algumas orações, depois das quais cada um se sentou em seu lugar, e havendo-os licenciado o mestre-de-cerimónias à saída, e cerrado a porta, e não deixando dentro além dos ditos cardeais (…) foram lidas em alta voz as bulas tocantes à eleição do novo Pontífice e as do Conclave, e os senhores cardeais, cada um por si, juraram observá-las e guardá-las, após o que cada qual se retirou para a sua cela.

(…)

Descrição de fora do Conclave

Primeiramente, nos lugares em torno (…) havia muito bons guardas postos pelo (…) guardião do Conclave (…), os quais assistiram ali de dia e de noite até à eleição do novo Papa. (…) O Conclave estava murado de ladrilho e todas as portas e janelas tapadas até ao meio (…). Em diversas partes, havia sete tornos, ou rodas, para passar a comida (…). E estando as viandas dentro, um porteiro (…), vestido de azul, fechava o torno, e o prelado assistente tornava a ver se ficava bem fechada, e a fechadura se selava com papel pela banda de fora e pela de dentro fazia o mesmo o mestre-de-cerimónias.

Cerimónias que se fizeram estando fechado o Conclave

Pela manhã, celebrou a missa rezada do Espírito Santo o eminentíssimo cardeal deão, e deu o Santíssimo Sacramento a todos os senhores cardeais, e se fez uma breve exortação a todo o Sagrado Colégio, para a eleição do novo Papa. (…) Finalmente, depois de haver estado vaga a cadeira de São Pedro um mês e dezassete dias, à quinta-feira 15 de Setembro de 1644 (…), o eminentíssimo senhor cardeal Pamphilio, depois de haver dito missa na capela Paulina como de costume tinha todas as manhãs, entrando na capela de Xisto IV com os outros cardeais, e estando todos sentados nos seus lugares, começou-se a missa Pro Electione Romani Pontificis (…), depois da qual começou o escrutínio pelo eminentíssimo cardeal Pamphilio, onde teve quinze votos, e chegaram a trinta e três no espaço de seis horas, e havendo-se aberto a dita capela, entrou dentro o senhor sacristão e os cinco mestres-de-cerimónias, com o secretário, queimando os votos, como se fazia todas as manhãs, os eminentíssimos cardeais Deão e Caponi (…), em nome do Sagrado Colégio, fizeram instância ao eminentíssimo cardeal Pamphilio de que quisesse aceitar o Pontificado (…) e Sua Eminência o aceitou e se nomeou Inocêncio Décimo, de que fez acto o mestre de cerimónias. E Sua Santidade posto no meio dos cardeais (…), eles o levaram ao altar da dita capela (…) onde lhe despiram os hábitos de cardeal e vestiram o hábito papal e o sentaram na cadeira pontifical (…), onde o eminentíssimo cardeal Deão começou a adorar, pondo-se de joelhos, beijando-lhe o pé e a mão direita. Sua Santidade o mandou levantar e lhe deu o Osculum Pacis em ambas as faces, estando em seu hábito com sotaina, roxa, roxete e cruz, e consecutivamente todos os outros cardeais o adorarão, reconhecendo-o por Papa. E logo o eminentíssimo cardeal Barberino e o senhor Dominico Belly, mestres-de-cerimónia, tomaram a cruz, cantando entretanto os músicos da capela Ecce Sacerdos Magnus. E indo Sua Eminência diante, foram à lage da bênção (…), anunciando ao povo (…) que pela graça de Deus a eleição do novo Pontífice Romano estava feita. Em alta voz, Sua Eminência o anunciou ao povo nas seguintes palavras: Annuncio vobis gaudium magnum: habemus Papa, Eminentissimum Dominum Ioannen Baptistam Pamphilium, qui sibi nomen imposuit Innocencium X.

 

O papado, porém, tendia a ser noticiado como qualquer outro estado, sendo algumas das informações possivelmente obtidas por carta, como o comprova a despropositada expressão “esqueci-me de vos dizer”, inserida no texto noticioso:

 

Gazeta do Mês de Março e Abril de 1644

De Roma, aos 6 de Fevereiro de 1644

Ainda que por aqui se tem por coisa certa que o tratado entre o Papa e os príncipes ligados é de todo concluído e que não falta mais do que confirmar-se, nem por isso se deixam de exercitar de uma parte e outra as mesmas hostilidades que até agora.

(…)

Mais de Roma, aos 22 de Fevereiro de 1644

(…)

Esqueci-me de vos dizer que o bailio de Valence Frances, cavaleiro e governador de Malta, irmão do arcebispo de Rennes e general das armas do Papa recebeu também agora o chapéu de cardeal, depois de haver fiel e generosamente servido a Sua Santidade nestas últimas guerras contra a liga de Itália.

 

A intervenção (pelo menos espiritual) da Santa Sé nos assuntos europeus era, aliás, constante. O apoio papal à causa autonomista e religiosa irlandesa, por exemplo, foi várias vezes notícia:

 

Gazeta do Mês de Maio de 1642

Sua Santidade escreveu aos príncipes católicos exortando-os a que socorressem as províncias da Irlanda e mandou ao Senhor Felix O’Neil (que foi o general no levantamento) um estandarte, no qual há uma divisa que declara que a guerra dos irlandeses é em defesa da fé católica romana e da cátedra de São Pedro e lhe mandou mais um presente de muito preço com indulgência plenária para todos os que ajudassem e favorecessem este Reino, assegurando que nunca lhe faltaria o favor da Igreja.

 

É interessante notar na notícia anterior, como noutras publicadas na Gazeta, a importância do valor (preço) dos presentes no contexto das relações pessoais, sociais e diplomáticas seiscentistas.

Num outro registo, por vezes as manifestações religiosas, em vez de fomentarem a concórdia, promoviam a discórdia, algo que tinha mais sabor noticioso – inclusivamente temperado por um certo olhar irónico sobre a comédia da vida – quando se tratava de evidenciar a desunião reinante nas terras governadas pelo Rei castelhano:

 

Gazeta dos Meses de Maio e Junho de 1644

De Nápoles, aos 2 de Junho de 1644

Houve uma grande desavença entre o cardeal Filomarini, nosso arcebispo, e o duque de Medina de las Torres, vice-rei, sobre uma procissão que o dito vice-rei mandou fazer sem convidar o arcebispo. Era a procissão em honra da Virgem Nossa Senhora, a qual El-Rei de Castela tomou por protectora dos seus estados, imitando o Rei de França. No tempo em que a procissão se fazia, mandou pôr o arcebispo interdito na igreja da Anunciação onde se havia de recolher a procissão, mandando, com efeito, fechar as portas, de sorte que chegando o vice-rei com a solenidade não pôde entrar na igreja e assim se desfez a procissão. Agravado disto, o vice-rei mandou logo sair do Reino ao arcebispo dentro de três dias. Porém, os principais oficiais de Cápua fizeram por os reconciliar, mas mesmo depois da concórdia feita mandou o vice-rei desterrar o sacristão e prender muitos titulares da Casa Filomarini, porque disseram que não se podia fazer a dita procissão sem o beneplácito do arcebispo.

 

Gazeta não deixava de noticiar os ecos das dissensões religiosas que afectavam o Velho Continente, que em Portugal seriam encaradas com espanto e prontamente denegridas:

 

Gazeta do Mês de Maio de 1642

[De Londres]

Por se tomar assento nas dissensões que há entre os puritanos e protestantes se ordenou que, por votos, se averiguasse qual das seitas se havia de seguir. A dos protestantes teve 126 votos e a dos puritanos menos cinco e o conselho se confundiu de tal maneira que não se resolveu.

Publicou-se um édito que nenhum bispo, ainda que fosse protestante, tivesse voto no Parlamento, e agora ficavam presos e vieram já juízo parte deles e ainda não se sabe a sentença.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1645

A variedade na religião é também grande nos tempos presentes naquele Reino [Reino Unido], onde, principalmente em Londres, tem aumentado uma seita que chamam dos independentes, porque não querem ter dependência de ninguém em matéria de fé ou religião, senão crer, ou não crer, o que a cada qual melhor lhe parecer. E os desta nova opinião têm tirado todos os artigos da fé católica incluídos no credo, por este (…) ter sido composto pelos santíssimos apóstolos, que foram homens, e ser coisa de tradições, nem humanas nem divinas, querem eles crer, sendo contra a doutrina de São Paulo que diz para guardarmos e mantermos as tradições (…). Também tiraram os dez mandamentos da Lei de Deus, dando por razão, ou para melhor dizer por sem razão, que os mais dos ditos preceitos estavam já postos em leis reais ou parlamentares públicas e políticas no Reino de Inglaterra, onde castigam os matadores, adúlteros e ladrões, etc. E assim parece escusada a lei divina, onde a humana a acode. Sem considerarem estes miseráveis que os tais preceitos são mais dignos de ser guardados por serem divinos que por serem humanos e que uma coisa pode ser mandada por várias leis, civil, canónica, natural, divina e por lei universal e particular, ou municipal. Nem tão pouco consideram que Cristo Senhor Nosso declarou serem estes mandamentos necessários para a salvação das almas. Se vis a vitam ingredi serva mundata. Notável cegueira!

Os de outra seita tiraram, dos sete sacramentos, cinco, e assim querem que não haja mais que dois, que são baptismo e matrimónio. Porém, na forma do baptismo acrescentam algumas palavras ridículas e supersticiosas, porque depois de dizerem a verdadeira forma, que é Eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, acrescentam em nome do sangue, do fogo e do nosso conselho. Antes que os improbos ministros desta seita baptizem as miseráveis crianças, tomam juramento aos pais como aquela é seu filho ou filha de legítimo matrimónio e de ambos e não basta que os pais jurem que assim o cuidam senão que hão-de jurar como coisa totalmente certa e se não o fazem assim ficam as crianças por baptizar. Fundam estes ignorantes ministros seu infando abuso numa heresia de Calvino, que afirmou que os bastardos todos estavam reprovados eternamente, sendo certíssimo, na verdade, que muitos santos e santas que hoje estão na glória não nasceram de legítimo matrimónio.

 

A religiosidade passa intersticialmente pela Gazeta, apesar desta ter um discurso visivelmente mais laico do que religioso. Em várias matérias são invocados os nomes de Deus, da Virgem e dos santos:

 

Gazeta do Mês de Junho de 1645

Na Holanda se trata com a companhia do Brasil, que está muito acabada, acerca da restituição de Angola e demais lugares e praças de Portugal, cujos plenipotenciários em Münster, doutores Francisco de Andrade Leitão e Luís Pereira de Castro, estão recebidos para a dieta. Queira Deus efectuar uma paz e concórdia universal entre os príncipes cristãos para unidos se oporem contra o inimigo comum [turcos].

 

As questões da religiosidade não se resumiam ao qu se passava em Portugal. A missionação, por exemplo, era vista como uma empresa de toda a Cristandade católica e como tal era noticiada na Gazeta, que relevava os sacrifícios (masoquistas) dos missionários e, ao mesmo tempo, contribuía para formar a imagem que se tinha dos nativos das terras ocupadas, e que eram vistos como “bárbaros” e hereges:

 

Gazeta do Mês de Março e Abril de 1644

De Rennes, em França, aos 25 de Fevereiro de 1644

Tivemos novas do Canadá, ou Nova França, na América Setentrional, por cartas de 2 de Dezembro passado, que aqueles bárbaros Hiroquois não haviam ainda comido mais que o dedo polegar da mão esquerda do padre Iogues da Companhia de Jesus, que têm preso pela fé de um ano a esta parte, mas que lhe tinham tirado todas as unhas das mãos, e se decidiam de o comer num banquete público, onde se havia de juntar, convidada para isso, toda a parentela. Porém, foi liberado por um irlandês, tendo a mesma heresia piedade do que faziam padecer a este padre, o qual foi trazido a esta província da Bretanha, de onde brevemente se vai a La Rochelle para novamente passar dali ao Canadá, onde espera achar da segunda vez o perfeito martírio que não achou da primeira.

 

Importantes também eram as conversões religiosas que se obtinham para o Cristianismo, valor que desde a conquista de Ceuta estava entrincheirado no sentir lusitano:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Dois fidalgos mouros, dos mais valorosos e dos que mais renome alcançaram pelas armas nos campos de África, vieram uma noite bater às portas de Mazagão, ao mesmo tempo em que àquelas partes chegou a nova da feliz aclamação de El-Rei Nosso Senhor, e depois que tiveram salvo-conduto entraram e pediram água do baptismo e perguntando-lhe o sacerdote como se queriam chamar, um respondeu que João e outro que Pedro.

 

Numa Europa em que o protestantismo se expandia, para uma Gazeta de um país católico era importante noticiar as conversões e reconversões de protestantes ao catolicismo:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1643

De Ruão, aos 2 de Junho de 1643

Os dias passados, o padre Carlos David, guardião do convento dos Franciscanos observantes desta cidade, tornou publicamente a dar o hábito a Jacques Malortin, de 91 anos, 52 anos depois de lho ter tirado por se ter ido fazer, em Sedan, ministro da religião pretendente reformada, havendo mostrado desde o dia da sua abjuração tanto arrependimento que nenhum dos circunstantes pode refrear as lágrimas.

 

 

A vida nas cortes

Um outro centro da vida social da época era a Corte. As notícias sobre a Corte funcionam, em alguns casos, como uma espécie de crónica social:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Véspera de Reis, presenteou António Pessoa Campo ao Príncipe (…) um cavalo feito por ele com tal artifício que não somente no aspecto engana a quem o vê, mas também nas acções: rincha, endireita as orelhas, obedece ao freio (…) e faz tudo quanto a natureza ensinou a um ginete (…).

(…)

Dia de Reis, às 4 horas da tarde, saíram os Reis de armas com suas cotas bordadas, e os maceiros com trombetas, atabales e muitas outras festas, e foram discorrendo por todas as praças e pelas ruas mais frequentadas da cidade, publicando as pazes que El-Rei Nosso Senhor fez com a Rainha da Suécia.

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

Foi a Rainha Nossa Senhora, com todo o acompanhamento real, ao mosteiro da Madre de Deus.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Veio El-rei nosso Senhor da sua quinta de Alcântara com toda a Casa Real.

 

A presença de Suas Majestades nos actos sociais era importante para que a vida na Corte tivesse significado:

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

A oito fez anos o Sereníssimo Príncipe Dom Teodósio. Vestiram-se os fidalgos todos de gala e estavam previstas festas de cavalaria, mas El-Rei Nosso Senhor não pode assistir a elas e assim não tiveram efeito.

 

Os Autos de Fé também faziam parte da vida no Portugal seiscentista, incluindo da Corte, e assim foram noticiados na Gazeta:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Ao domingo de Lázaro se celebrou nesta corte um auto de fé. (…) Saíram a padecer três mulheres e três homens, um dos quais ia morrer vivo por pertinaz, e às 10 horas da noite se reduziu, cansando os religiosos que lhe assistiam e a muitas pessoas. Grande parte deste dia estiveram El-Rei Nosso Senhor e a Rainha Nossa Senhora numa das janelas do Paço, que ficava sobre o teatro.

 

Algumas das notícias sobre a vida da Corte estão directamente relacionadas com episódios da Restauração, como a notícia da tomada da fortaleza da ilha Terceira pelos apoiantes de Dom João IV, que também merece atenção por referir a fonte da notícia e ao mesmo tempo por promover uma reportagem sobre o acontecimento a ser publicada autonomamente:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

A nova da ilha Terceira (…) veio aos 8 do mês de Abril no navio Sol Dourado. Foi de grande alegria para todo este povo. Repicaram-se os sinos. Cantou-se na Capela Real Te Deum Laudamus. Assistiram nas suas tribunas El-Rei Nosso Senhor e a Rainha Nossa Senhora. Veio em procissão o Senhor Arcebispo de Lisboa desde a Sé até à Igreja de Santo António, onde se disse uma missa votiva. Comeu El-Rei Nosso Senhor em público e fez mercê de mandar dar um prato ao capitão-mor Francisco de Ornelas da Câmara e outro ao capitão Jorge de Mesquita (que trouxeram as novas), dizendo-lhes a ambos palavras muito honrosas. À noite houve luminárias. E daí a dois dias saiu da Igreja da Sé uma procissão geral com o pendão da cidade e o Senado da Câmara e foi ao convento de São Domingos dar graças por tão feliz acontecimento. E de tudo o que se passou desde o dia em que saiu deste porto o capitão-mor Francisco Ornelas da Câmara até ao que se entregou a fortaleza se faz uma relação verdadeira, a qual se imprime na oficina de Domingos Lopes Rosa.

 

Uma das formas de legitimar e afirmar a nova Casa Real consistia em mostrar a devoção e o afecto dos súbditos. Na Gazeta são feitas, por exemplo, várias menções a presentes oferecidos a Sua Alteza Real o Príncipe Dom Teodósio:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

O general Dom Gastão Coutinho mandou de presente ao Príncipe, que Deus guarde, quatro cavalos, uma águia-real e uma folha de espada antiga e de muito preço.

 

A apologia do novo Rei também se observa nas notícias sobre a generosidade real:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Fez El-Rei Nosso Senhor mercê de mandar ao general da armada da Holanda uma cadeia de ouro e dez anéis de diamantes. Ao almirante, outra cadeia e outro anel de igual valor e do mesmo feitio. E a cada um dos capitães, que eram dezoito, sua cadeia de ouro.

 

A vida na Corte, porém, não se limitava à vida de Suas Majestades:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Entrou nesta corte a duquesa de Aveiro e está hospedada numa quinta além de Xabregas.

 

Também o que acontecia nas cortes estrangeiras, mormente na francesa, era, por vezes, noticiado, em jeito de crónica social, embora as questões políticas também pudessem ser destacadas.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Querendo Sua Eminência [o cardeal Richelieu] curar-se de suas enfermidades, lhe mandou o Cristianíssimo esta carta:

Primo, ide-vos a qualquer lugar que os médicos vos ordenarem para vossa saúde. E em tudo tende cuidado de meu estado e também dos meus filhos e de toda a minha casa. Eu vos amo mais do que a qualquer outra pessoa no mundo.

 

Gazeta do Mês de Junho de 1643

De Perona aos 19 de Maio de 1643

Aos 17 deste mês chegou a esta cidade madame duquesa de Orleans, onde teve a honra de receber a duquesa de Chaulnes, tendo ido esperá-la ao meio do caminho de Cambray, acompanhada de muitas senhoras de condição e de muita cavalaria. Daqui partiu no dia seguinte para Chaulnes, onde a dita duquesa a recebeu também e tratou com toda a magnificência que lhe foi possível e depois a acompanhou mais até fora do governo da Picardia.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1643

De Paris, aos 20 de Junho de 1643

Aos 29 do passado, chegou (…) a esta cidade Madame, onde foi recebida com todas as honras devidas ao seu nascimento, ao seu mérito e à sua qualidade de esposa de monsenhor, o duque de Orleães, lugar-tenente general de El-Rei, debaixo da regência da Rainha, em todas as províncias deste Reino, e cabeça dos seus conselhos. Acompanharam-na mademoiselle sua filha, a duquesa de Lorena, e a duquesa de Guiza, e foi-se apear ao Louvre, onde Suas Majestades a receberam com grandes carícias e mostras de afeição, e dali se foi alojar à casa Real de Luxemburgo, que no presente é tão frequentada por príncipes, princesas e outros grandes senhores e senhoras desta Corte que vão ver, cumprindo sua obrigação, como tem estado deserta há doze anos.

(…)

Chegou a esta corte, depois dos 14 deste mês, a duquesa de Xeuroza, depois de dez anos de ausência dela.

 

Certas notícias da vida social nas cortes – inclusive na corte papal – documentam quanto o casamento era um meio de promoção social

 

Gazeta do Mês de Junho de 1645

A sobrinha do papa casou com o príncipe Ludovico Nepote, que foi do papa Gregório XV, a quem Sua Santidade fez capitão general da Igreja.

 

Surgiam na Gazeta notícias até da vida na corte otomana, certamente traduzidas das gazetas francesas, já que a França e o Império Otomano tinham estabelecido uma aliança estratégica com vista a condicionar o Sacro-Império e o Papado:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1643

Na Turquia, começam a ficar sem o temor que tinham de que vindo a faltar a raça otomana lhes fosse ocasião de algumas alterações, porque além do primeiro filho do grão-senhor de que haveis ouvido falar, lhe nasceu o segundo, a 25 de Fevereiro passado. Pelo seu nascimento, fizeram-se grandes alegrias e festas em todos os lugares daquele vasto império. Aos 5 do mesmo mês, o senhor Soranzo, baille de Veneza, tinha feito a sua entrada pública em Constantinopla, ao qual o embaixador de França tinha mandado receber e conduzir até à casa do dito baille pelo senhor de Lempercur, seu secretário, acompanhado de trinta cavaleiros. Aos 19, teve audiência com o grão senhor, ao quel presenteou com alguns vestidos de brocatel, entre os quais havia um de tela de ouro de grande preço. Sua Alteza o presenteou com um vestido de brocatel e ouro. No mesmo dia, o emehor, ou grande escudeiro, foi feito paxá de Alepo e o de Alepo foi feito paxá de Damas. O embaixador da Pérsia fez também aos 10 a sua audiência de despedida e foi presenteado com trinta vestidos. Antes de o deixar partir, o vizir fez-lhe um grande festim, tendo-lhe no final feito presente, da parte do grão senhor, de trinta bolsas, cada uma com quinhentas patacas, para ajuda dos gastos da sua viagem, as quais foram acompanhadas de alguns vestidos e outras galanterias do país (…).

 

Havia notícias sociais que obrigavam a detalhadas explicações sobre assuntos de família, muito importantes, na época, para os nobres:

 

Gazeta Primeira do Mês de Outubro de 1642

O Príncipe Thomas e seu irmão, o cardeal, estão reconciliados com El-Rei Cristianíssimo. O cardeal se casa com sua sobrinha e o filho do príncipe Thomas com a filha do duque de Longavilla. Ambos próximos parentes, filhos de duas irmãs, e porque a mãe de mademoiselle era mais velha do que a princesa de Carinhan, se realizou este casamento e se lhe dá em dote a herança do conde de Suason, e para todos estarem de acordo, se casou mademoiselle de Bourbón, filha do príncipe de Condè, com o duque de Longavilla, que estava viúvo da irmã do conde de Suason.

 

Algumas notícias sociais da Gazeta foram elaboradas por testemunhas presenciais dos eventos, que actuavam como repórteres-cidadãos e que abasteciam de notícias, por correspondência, os jornais, num esquema que se manteve até ao século XIX (inclusivamente na cobertura de guerra) e que, na actualidade, graças às novas tecnologias da informação, está a ser retomado e promovido:

 

Gazeta Primeira do Mês de Outubro de 1642

As Cerimónias dos Desposórios do Príncipe Maurício com a Princesa de Sabóia, conforme o extraordinário de 27 de Agosto de 1642

Os artigos acordados entre El-Rei e os príncipes Maurício, cardeal, e Thomas de Sabóia, foram notificados por El-Rei no primeiro dia de Julho e logo pelos ditos príncipes (…) do qual, tratado o estado dos negócios presentes, não permite que eu ainda vos dê em público contas, mas vereis dois efeitos seus, que ambos chegaram no mesmo dia, a saber os desposórios do dito príncipe (…) e a tomada de Crescentim.

A 14 de Agosto, havendo sido eleita para estas cerimónias a (…) duquesa de Sabóia, vestida de grande luto, pela morte da rainha mãe, e levando-lhe a marquesa Villa o rabo, entrou nos paços do duque de Sabóia, os quais estavam todos cheios de senhores e damas de Turim. A câmara do aparato estava toda entapeçada de panos de ouro e seda, onde se havia levantado um trono sobre quatro degraus, cercado de balaústres dourados (…). Madame de Sabóia estava posta sobre o trono, a dois passos de Sua Alteza (…). O marquês Cirie, que tinha cargo do príncipe cardeal de Sabóia (…), entrou dentro das grades, fazendo muitas cortesias, subiu dois degraus do trono e sobre o terceiro se pôs de joelhos para saudar a madame e levantando-se lhe pediu a princesa sua filha, em nome do príncipe Maurício de Sabóia. Sobre o que madame lhe pediu a procuração que para isso tinha e ele lha apresentou, com os joelhos no chão, e tomando-a madame, a mandou ler em voz alta ao (…) secretário de Estado e depois disse que ela dava seu consentimento e só faltava saber o da princesa, a quem o duque de Longavilla foi logo buscar (…) e trazendo-a ao trono, ela se mostrou comt anta graça e formosura que se duvidou se era natural pela grande pompa e aparato de suas galas. Estava vestida com uma tela de prata (…) e todo o corpo e mangas cobertas com grande quantidade de pedrarias. Tinha sobre a cabeça uma coroa aberta de grandíssimo preço (…). A graça do seu meneio e de seu gesto foi grandemente acrescentada pela do seu discurso, no qual manifestou tanto respeito às perguntas da sua mãe que não houve quem não admirasse na idade de 15 anos sua grande modéstia e nesta eleição a prudência e a felicidade do príncipe Maurício. E ainda que não pude alcançar sua verdadeira resolução nesta matéria, bem se julga pelo que se seguiu que havia dado o sim, porque os juramentos se fizeram de parte a parte, em consequência dos quais todo o ajuntamento passou à Igreja de São João, que estava ricamente armada, na qual se cantou o Te Deum Laudamus.

 

A notícia anterior é relevante não só pela minúcia visual das descrições, ornamentação estilística própria da época e configuradora do Barroco literário, mas também pelas marcas pessoais do observador correspondente que produziu o relato e o encaminhou ou directamente para os editores da Gazeta portuguesa ou para um jornal francês do qual teria sido traduzida directamente, sem qualquer tipo de tratamento.

Algumas das notícias sociais incluem elogios aos visados, mas em certas ocasiões a lisonja é exuberante e talvez mesmo de mau-gosto, de tão descarada que é:

 

Gazeta dos Meses de Março e Abril de 1644

O príncipe de Condè, na volta que fez de Borgoha, deu à luz um excelentíssimo livro, que compôs em honra do Santíssimo Sacramento, contra algumas proposições de um doutor que reprovava a devoção a tão nobre e tão augusto mistério. E não há muito que o dique de Enguien, seu filho, deu à luz outro excelentíssimo da eloquência, de sorte que com muita razão podemos hoje dizer que a virtude e a doutrina e o valor têm posto seu trono na família de Borbon. O príncipe de Conty, seu segundo filho, fez também prodígios em filosofia com os padres da Companhia do Colégio de Clermon, como até aqui triunfou nos outros exercícios e humanidades e da eloquência.

 

De qualquer modo, com lisonja ou sem ela, sendo muitas as notícias que surgiam na Gazeta que eram traduzidas directamente dos jornais franceses, a corte de Paris era amplamente coberta, tendo por resultado não apenas um aumento da influência francesa em Portugal mas também a propaganda da Monarquia luisina. Na notícia seguinte, para além dessa evidência, deve ser notado o carácter insinuantemente elogioso do comportamento devoto e recatado das mulheres, ainda que Rainhas capazes de gerir os negócios de um reino tão importante quanto o de França:

 

Gazeta dos Meses de Maio e Junho de 1644

Aos 14 de Maio se fez nesta cidade o aniversário de El-Rei Cristianíssimo Luís XIII, de feliz memória, com grande solenidade. As ocupações da Rainha Cristianíssima são (depois de assistir aos negócios do Reino e expedição das coisas) visitar igrejas e gastar o resto do tempo no mosteiro das freiras do Vale da Graça, que são religiosas de instituto [regra] apertadíssimo, com as quais janta muitas vezes, assiste com elas no coro e mais exercícios da religião e na verdade a obras tão pias se atribui comummente a grande união e concórdia que há em toda a França.

 

Registe-se, finalmente, que nem todas as notícias “do social” eram alegres. Os nobres também fugiam da guerra e refugiavam-se noutros países:

 

Gazeta dos Meses de Julho e Agosto de 1644

Mais de Paris aos 8 de Agosto

A esta Corte vieram novas de como a Bresè, porto da província da Bretanha, havia chegado a Rainha de Inglaterra com 150 damas, as quais, fugindo do furor dos parlamentares, vieram tão maltratadas da viagem e tão faltas do necessário que a Rainha Cristianíssima lhe mandou logo os seus médicos, com muitos senhores e fidalgos, para a receber e prover de tudo o necessário, espectáculo que moveu a compaixão de toda a França e moverá a de todo o mundo.

 

 

Crimes e castigos

Os órgãos de comunicação contribuem para delimitar a noção social de transgressão social ao determinarem simbolicamente o que é norma e o que é desvio. Essa delimitação simbólica, contudo, deve ser feita à luz dos valores culturais de cada época. Esses valores emergirão, estamos convencidos, da reacção natural e salutar de uma comunidade contra aquilo e aqueles que a agridem e, em última instância, ameaçam a sua sobrevivência. Crimes e respectivos castigos encontram, assim, eco na Gazeta, sendo que em várias ocasiões se aproveita para fazer, propagandisticamente, a apologia da justiça real, ao mesmo tempo que, mostrando o Rei ou os seus representantes a administrar justiça, se legitima simbolicamente a sua acção e o seu poder:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

O conde de Castanheira que estava preso numa torre de Setúbal pediu a El-Rei Nosso Senhor que lhe mudasse a prisão por quanto estava indisposto, e El-Rei Nosso Senhor, usando de sua natural benignidade, o mandou trazer para o castelo de Lisboa.

(…)

Estando o galeão Santa Margarida para dar à vela disse o piloto que não se atrevia a sair sem lhe darem mais gente do mar. Inquietaram-se os soldados e foi necessário acudir o general António Teles de Meneses e alguns senhores que o acompanharam na jornada de Cádis e depois de tudo quieto, prenderam três soldados, que foram os cabeças, e a todos três os enforcaram.

Luís de Abreu, que estava preso por cúmplice na conjura que se fez contra a Pessoa Real, provou sua inocência e saiu livre.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Na segunda sexta-feira foi El-Rei Nosso Senhor à Relação. Propuseram-lhe o caso do meirinho da Armada e do escrivão que furtaram uma quantidade de barris de pólvora. Saiu o Meirinho condenado à morte e o escrivão, por constar que não teve culpa, saiu solto e livre.

A 13 enforcaram o meirinho e puseram-lhe a cabeça no terreiro de São Paulo.

 

Gazeta do Mês de Maio de 1642

A 23, que foi sexta-feira, veio El-Rei nosso Senhor de Alcântara e assistiu no tribunal da Relação, onde condenaram à morte três homens por falsos testemunhos no crime de lesa-majestade.

 

No Portugal Restaurado, a vida dos membros da Casa Reinante de Bragança estaria em risco permanente. A tortura era uma prática comum para obter confissões (verdadeiras?). A Gazeta noticia-o e, ao fazê-lo, alerta a população para a protecção aos governantes, ao mesmo tempo que contribui para a tranquilidade social ao evidenciar, no caso que serve de exemplo, que o Príncipe Real está bem protegido:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1645

Foi preso um homem em traje de peregrino, por parecer pessoa suspeita, o qual, depois de revistado, lhe acharam vestido um colete de anta, duas pistolas, um punhal e um grande cutelo, pelo que foi posto em tormento e confessou que a causa que ali o trouxera era matar o Príncipe e que o mesmo intentavam fazer quatro companheiros seus, dos quais não sabia paradeiro.

 

A justiça portuguesa seiscentista era significativamente mais expedita do que agora:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Entre as pedreiras de Alcântara se acharam dois homens falsificando o cunho da moeda (...). Ambos foram condenados na pena da lei. Um deles padeceu no mesmo dia em que El-Rei nosso Senhor veio de Alcântara. O outro, para ver se podia embaraçar a execução, ou pelo menos adiá-la, confessou que havia cometido o crime de heresia. Foi remetido ao Tribunal do Santo Ofício e daí a doze dias tornou à cadeia pública, de onde saiu a padecer a mesma morte que o primeiro.

 

Por vezes, as notícias sobre crimes impressionam:

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

Junto à praça dos Canos, no entreforro de umas casas, que estavam vazias, achou-se um saco, dentro do qual estava uma mulher feita em quartos. Tirou-se devassa, mas não há notícia até agora do delinquente. Presume-se que seu marido a matou.

 

Também os duelos não deixaram de ser reportados pela Gazeta:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

O conde de Bocoi mandou prender um soldado francês da companhia de monsieur Baron. Tiveram ambos um encontro sobre a presão, de que o monsieur Baron saiu com alguma desconfiança e no dia seguinte ela manhã foi a casa do conde de Bocoi e depois de almoçar com ele lhe disse que se pusesse a cavalo que haviam ambos de ir a desafio. Aceitou o conde e logo se foram ambos, cada um com o seu padrinho, a Campolide e tanto que chegaram se desceram todos quatro dos cavalos e tiraram as capas, roupas e gibões e assim os desafiados, como os padrinhos, se investiram com igual valor e no primeiro encontro se feriram todos e o monsieur Baron caiu logo morto, com o que acabou a pendência. O conde de Bocoi veio ferido gravemente e teme-se que morra.

 

As notícias sobre crimes, de resto, não se limitavam ao que sucedia em Portugal. Crimes particularmente impressionantes cometidos no estrangeiro, como o de mães que matam os filhos, também foram objecto pontual de notícia:

 

Gazeta do Mês de Junho de 1643

De La Rochelle aos ditos 29 de Maio de 1643

A 16 do corrente matou nesta cidade de La Rochelle uma mãe a quatro filhos, entre os quais uma filha já mulher de 14 anos, e os degolou a todos na cama. A mulher foi levada presa para Paris.

(…)

Logo os 17 do mesmo mês, duas léguas fora de La Rochelle, outra mulher matou a três filhos e se enforcou (…), o que dizem que fez com necessidade, atentada pelo demónio, porque está hoje a França com tanta falta de pão, por causa das guerras, que se padecem muitas necessidades.

 

Crimes capazes de denegrir a imagem de Castela também foram pontualmente noticiados:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1643

Escrevem-nos de Madrid (…). O marquês de Leganes está ainda preso, acusado de ter tomado o dinheiro destinado ao exército que estava no ano passado em Aragão, onde houve grandes motins (…).

 

 

Os retornados de 1640

Após 60 anos de Monarquia Dual, com o consequente estabelecimento de laços e cumplicidades entre os povos ibéricos, a Restauração foi um acontecimento dramático para a vida de muita gente. Muitos portugueses e espanhóis foram apanhados do lado “errado” da fronteira pelo surpreendente acontecimento. Os espanhóis em Portugal, por exemplo, segundo noticia a Gazeta, foram obrigados a regressar a Castela ou a naturalizarem-se, no caso de já viverem há muito tempo em Portugal:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Publicou-se um édito que todos os castelhanos saíssem deste Reino e os que estão nele moradores há muito tempo, querendo ficar, se naturalizem.

 

Contrastando com a magnanimidade de D. João IV, que permitiu aos espanhóis residentes em Portugal há muito tempo permanecer no país, na condição de se naturalizarem, e que obrigava também aos espanhóis a saírem do Reino mas sem penalizações, a Gazeta insere várias notícias que atestariam alegados maus-tratos infligidos pelos espanhóis aos portugueses que estavam em Castela por alturas da Restauração e que desejavam regressar ao seu país:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

O marquês de Ayamonte (a quem el-Rei Filipe mandou prender na mesma torre em que esteve Dom Rodrigo Caldeirón), está com muitos guardas em grandíssimo aperto. Alguns homens que vieram de Madrid duvidam disto, mas todos os que vêm de Castro Marim e de Mértola asseguram que lá é coisa pública e que se sabe por via de Ayamonte.

 

Gazeta do Mês de Junho de 1642

Três fidalgos portugueses, a saber D. Francisco Mascarenhas, D. João de Meneses e Álvaro de Carvalho estão presos em Madrid, por quererem vir para Portugal.

 

Gazeta do Mês de Setembro de 1643

Dão por novas (…):

Que desde que vieram de Aragão e três meses antes que fossem, o que vem a ser alguns dez meses, não pagam [em Castela] a nenhum português, e agora (..) se fez uma junta (…) só a fim de tirarem o socorro aos portugueses e se assentou nela (…) que aos condes os deixassem com 24 reais cada dia e a todos os demais lhe tirassem a uns a terça parte e a outros a metade e que os mancebos e soldados fossem servir que lhes dariam soldo. A Diogo Soares tiraram todo o socorro.

Que um junta eclesiástica fez consulta a El-Rei em que pedia que mandasse para Portugal todos os [portugueses] que tinham residências nas suas igrejas (…). O que resultou dela não se sabe.

(…)

Os fidalgos portugueses que estão mortos naquela corte [de Madrid] depois da aclamação de El-Rei D. João IV de Portugal são os seguintes: os condes de Miranda, Basto, São João, Tarouca e sua mulher; D. Álvaro de Ataíde; o senhor de Ragalados, um filho seu, Martim Afonso de Ataíde. Estavam já sentenciados para soltarem Álvaro de Carvalho, D. Francisco Mascarenhas e D. João Telo.

 

O regresso nem sempre fácil dos portugueses espalhados pelo império de Dom Filipe III e pelas possessões espanholas e portuguesas do exterior, por vezes recorrendo a ardis e com sacrifício, também era positivamente noticiado, o que ademais insuflava ânimo nas hostes portuguesas e enquadrava os regressados como patriotas e súbditos do legítimo Rei de Portugal, D. João IV:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Veio uma nau de Inglaterra com cento e tantos soldados portugueses, uns que de Ceilão foram prisioneiros à Holanda e outros que saíram dos presídios da Flandres. Vêm mais alguns monsieurs servir a El-Rei Nosso Senhor nestas guerras, cujos nomes são estes: [segue-se relação de nomes].

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Vieram algumas pessoas de Madrid e de Sevilha.

(…)

Uma nau de Génova que saiu de La Rochelle com 62 soldados portugueses da Flandres, da Catalunha e de outras praças de Espanha, dos quais era cabo o capitão Manuel Homem, veio aportar a Lagos, botou a gente em terra, e fez-se na volta de Lisboa, e à vista do cabo de São Vicente, encontrou cinco fragatas de Dunquerque, as quais lhe deram tal caça que não teve outro remédio mais que valer-se da fortaleza de Sagres e desta maneira escapou, se bem que com grandíssimo dano. Os soldados vieram todos por terra e entraram na cidade a 8 do mês.

(…)

Foram de Madrid alguns portugueses a Sevilha e compraram partidas de fazenda para darem a entender que iam ali em negócio e de noite meteram-se numa nau inglesa e se foram a Inglaterra para de lá virem a esta cidade. E em todas as terras da Andaluzia estão os portugueses tão vexados e perseguidos do pouco, que a uns matam e a outros mandam desterrados para Larache e para a Mamora.

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

A 22 veio notícia de que estavam em Tavira alguns portugueses, que vieram da Andaluzia por Ayamonte, e um deles é Dom João de Sousa.

(…)

Chegou à vista das penhas da Arrábida uma fragata de Dunquerque, onde andavam prisioneiros alguns portugueses, e um deles lançou-se ao mar, e sem que o alcançasse nenhuma bala de muitas que lhe atiraram, foi nadando até que o recolheu uma tartaranha, que o botou em terra.

 (…)

Veio da Catalunha, por via de Madrid, um capitão português, que se achava no cerco de Terragona, e tardou no caminho perto de três meses devido às grandes dificuldades que há na passagem.

 

Gazeta do Mês de Junho de 1642

Entrou uma nau de Inglaterra em que vieram uns fidalgos portugueses que estavam em Madrid antes da aclamação de El-Rei nosso Senhor, os quais são D. Manuel de Castro, Álvaro de Sousa, D. Francisco de Azevedo de Ataíde e Jerónimo da Silva, cavaleiro do hábito de Santiago. Foram à Flandres despachados por El-Rei de Castela com grandes mercês. E como bons vassalos de El-Rei nosso Senhor, deixaram tudo e se vieram a seu serviço, trazendo também em sua companhia ao alferes D. Pedro de Garcia de Avis, Fulgêncio de Matos Galvão e Manuel Martins Roxo, com alguns soldados, que todos se haviam retirado de Flandres, deixando seus postos, e se passaram a Inglaterra, e desde ali a este Reino, onde foram recebidos por Sua Majestade com muitas honras e se espera que lhes faça grandes mercês.

 

Gazeta do Mês de Setembro de 1643

De Paris, aos ditos 25 de Julho de 1643

(…)

Chegaram a esta corte o conde de Miranda, Estêvão de Brito Freire e o capitão Manuel Ribeiro, escrivão dos armazéns dos mantimentos no Reino de Portugal, com outro capitão e quarenta ou cinquenta portugueses, os quais saíram de Madrid a 22 de Junho.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

Fugiu de Madrid, com sua mulher, Dom João de Meneses, e já está no Reino de França, de onde passará a Portugal muito brevemente.

 

As fugas de territórios sob a alçada castelhana eram severamente reprimidas. Os portugueses que se batiam nos exércitos de D, Filipe III eram suspeitos e vigiados cautelosamente:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Nas províncias da Flandres apertam os castelhanos de tal modo com os soldados portugueses que depois de os tripularem a todos, os alojam em presídios fechados e se colhem algum fugitivo o desfazem em quartos. E já nenhum se atreve a fugir.

 

Por vezes, mesmo os portugueses casados com espanholas fugiam, não se sabe se da mulher se do inimigo:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Seis portugueses que estavam prisioneiros em Badajoz vieram fugidos à vila de Campo Maior. Veio também um natural de Estremoz que havia muitos anos que lá estava casado.

 

Ocasionalmente, o regresso ao país dava direito a recompensas em reconhecimento dos esforços despendidos. A notícia que serve de exemplo é ainda relevante por começar com o regresso de um capitão português (lead) e só depois registar, em flashback, a narração da fuga do mesmo:

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

Na segunda-feira da Quaresma, pela manhã, veio de La Rochelle o capitão Salvador de Melo da Silva, cavaleiro da Ordem de Cristo, natural da ilha dos Açores, o qual da Vila da Fraga, onde era capitão por El-Rei Filipe, uma noite em que entrou de guarda, fugiu para o castelo de Aitona com a sua companhia formada, oficiais, armas, tambores e bandeiras, apesar de a cavalaria castelhana ir em sua perseguição. E sempre marchando em boa ordem, passou a Catalunha e França até chegar a La Rochelle, onde agregou à sua companhia muitos outros portugueses (…) e com eles em cinco naus veio para este Reino. Desembarcou e foi ao paço, de onde saiu com muitas honras e uma comenda, que lhe deu El-Rei Nosso Senhor, de Santa Maria de Frechas, na comarca de Viseu.

 

Diga-se, no entanto, que se muitos portugueses procuravam escapar de Espanha, alguns soldados estrangeiros que lutavam em Portugal não desejavam permanecer no país. Um grupo encetou mesmo a fuga para Espanha, por causas não reveladas. Mas aí não encontraram abrigo, o que lhes veio a causar graves consequências.  Neste particular, como noutros, a Gazeta é verdadeira e a notícia funciona como uma espécie de advertência para o que poderia suceder a quem pensasse na deserção:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Por carta escrita de Elvas, a 13, se sabe que fugiram para Castela dezassete soldados estrangeiros, oito de infantaria e nove de cavalaria. E porque de lá fugiram outra vez e no campo fizeram alguns insultos, veio uma tropa de cavalaria castelhana em sua perseguição e depois de os renderem os levaram prisioneiros a Badajoz, onde enforcaram os oito soldados de infantaria e mandaram os de cavalaria para as galés.

 

Estranhamente, pelo menos um presumível espanhol procurou passar para Portugal, embora a Gazeta não esclareça as razões da fuga nem se o visado era efectivamente espanhol:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

À cidade de Elvas veio fugido o tambor-mor de Badajoz.

 

Era a Igreja que muitas vezes fazia a ponte entre Castela e Portugal, o que permitia a troca de prisioneiros:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Vieram dois clérigos de Badajoz com alguns portugueses prisioneiros a trocá-los por outros tantos castelhanos.

 

 

Necrologia e doenças

A necrologia do país e do estrangeiro, ontem como hoje, também era importante nas páginas da Gazeta:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Morreu o conde de Odemira.

(…)

Morreu o padre Diogo de Arede, aquele raro pregador da Companhia. Causou geral sentimento a sua morte pelo muito que perderam os púlpitos de Portugal.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Morreu no convento de São Francisco de Xabregas o padre frei Lourenço de Portel, sujeito raro em virtude e letras como publica a sua fama e os muitos livros com que autorizou no mundo o nome português.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Morreu madame condessa de São Pol e deixou para obras pias 50 mil escudos.

 

Por vezes, em certas notícias referem-se doenças que provocaram mortes de personalidades famosas ou povo comum:

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

Neste mesmo dia, entre as 7 e as 8 horas da manhã, morreu o capela-mor de febres malignas e não durou mais do que sete dias.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

Na Hungria há uma grande peste, principalmente nas cidades de Presburg e Edemburg, onde todos os dias morrem mais de sessenta pessoas.

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1646

Em Nápoles morreu aos 5 de Agosto, com 77 anos, o marquês de Torrecuso, general da armada castelhana. Aos 6 do mesmo mês morreu também Dom Luís Rodrigo, general da cavalaria castelhana, ambos pelo muito que padeceram no sítio de Orbitello, onde foram as doenças tão malignas que morreram muitos oficiais e soldados nos hospitais de Génova, de Roma e de Nápoles.

 

Gazeta dos Meses de Maio e Junho de 1644

Da Polónia, aos 30 de Maio de 1644

A Rainha da Polónia, irmã do imperador, morreu a 24 de Março, depois de parir uma filha morta.

 

Determinadas personalidades marcantes mereceram não apenas notícia da respectiva morte mas também elogios fúnebres (obviamente opinativos), como ocorre ao falecer o cardeal Richelieu, cujo elogio (provavelmente transcrito ipsis verbis de uma gazeta francesa), mesclado de notícia sobre o comportamento do Rei de França, é compartilhado, diga-se, com a Pessoa Real, apresentada como alguém que todos os súbditos devem servir, para bem da comunidade, com diligência, satisfação e alegria – sendo, portanto, exemplo para os portugueses:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1642

De Paris, a 6 de Dezembro de 1642

Foi Deus servido de levar para si, a 4 deste mês, ao cardeal duque de Richelieu no seu paço cardeal. Faleceu aos 58 anos de sua idade. Primeiro-ministro que era do Estado de nosso invencível monarca, cargo que exerceu pelo espaço de vinte anos, tão dinamicamente, que falta grandeza de palavras para se poder declarar, mas com melhor evidência no-lo fazem conhecer os efeitos dos eus maravilhosos conselhos, continuamente acordados com Sua Majestade, por meio dos quais tem feito surtir generosamente todos os heróicos desenhos de um tão bom Rei, cuja fortuna e valor particular, em vigor de coração e prudência, que lhes eram comuns, triunfaram sempre dos seus inimigos e sustentaram os aliados desta Coroa com tal potência que se vê no presente por todo o mundo. Entre os trabalhos deste espírito incansável, havendo arruinado a saúde do seu corpo, debilitado por suas vigias e fadigas, deixou a todos os que amam a glória deste Estado, tanto sentimento por sua morte como satisfação por muitos acrescentamentos que a França conseguiu durante a sua administração. Sua Majestade (que na segunda-feira havia vindo de Saint Germain a esta cidade visitá-lo, como ele muitas vezes, durante a sua doença, havia feito), depois de haver manifestado tanta brandura como bondade, com tanta abundância de lágrimas pela perda de tal vassalo, animando também por este meio cada um a bem servi-lo, conservou a todos os aderentes do cardeal em seus cargos, que são os principais do Estado, mostrando por esta via e por outros testemunhos que tem dado que suas acções haviam respondido ao caso e estima que deles havia feito Sua Majestade e Sua Eminência e que ele tinha satisfação inteira de todos os seus ministros. E por quanto o cardeal Mazarino por largo tempo se havia criado na prática e conhecimento dos negócios de toda a Europa, havendo dado provas numerosas de sua rara inteligência e grande fidelidade para com Sua Majestade e esta monarquia, ele o chamou a seu conselho.

No curso de seis dias que durou sua enfermidade, a qual foi uma paralisia, mandava muitas vezes a El-Rei avisos dos negócios mais importantes ao serviço de Sua Majestade pelo cardeal Mazarino, pelo chanceler de França e pelos (...) secretários de Estado e seu espírito e perfeito juízo o acompanhou sempre de tal sorte que uma hora antes de morrer havia enviado os mesmos mensageiros a El-Rei com o mesmo vigor de espírito como o que pudera ter feito no ponto da sua mais inteira saúde. Sua afeição ao serviço e pessoa de El-Rei, além do que se havia manifestado em todas as suas acções passadas, se mostrou particularmente na presente ocasião, na qual deixou a Sua Majestade 500 mil escudos de ouro, seu grandioso pendão de cardeal e seus mais ricos móveis e peças. Pendente todo o curso desta última enfermidade, como também havia feito em todas as precedentes, deu mostras de uma grande e profunda devoção, com resignação à vontade divina. Muniu-se com os Santos Sacramentos, os quais recebeu das mãos do cura da sua freguesia, que não quis que lhos desse o bispo. E como durante toda a vida ele havia sido um perfeito exemplo de piedade para todos os seus, também na sua morte deu todas as mostras de seu fervor para com Deus, de sorte que seus discursos e suas caridades são uma suficiente prova e os negócios de estado nada incompatíveis com os da caridade. Assim Deus lhe fez este favor ao partir deste mundo, que jamais se viu pessoa alguma haver rendido a alma com mais resolução, e paz de espírito, porque a mesma gravidade e serenidade que em vida resplandecia do seu rosto, a conservou também depois da morte, a qual, sabida de El-Rei, mandou ao mesmo tempo um gentil-homem à duquesa de Aguilhon, aos marechais de Brezè, de la Melerè e de Guiché. para os assegurar da continuação do seu favor para com eles e todos os seus e que se eles haviam perdido um bom parente, nele lhe ficava um bom senhor, que nunca os desampararia.

 

Publicada, certamente, numa gazeta francesa, da qual terá sido traduzida, a notícia anterior também terá funcionado como uma peça de apaziguamento social dos franceses, em particular dos adeptos de Richelieu, à morte de uma personalidade tão importante quanto controversa. Diga-se, porém, que o Rei não durou muito mais tempo do que o seu primeiro-ministro:

 

Gazeta do Mês de Junho de 1643 de Novas Fora do Reino

Aos 18 o corpo de El-Rei foi levado de São Germão para São Diniz, sem cerimónia alguma, conforme o que tinha sido ordenado. Deixou seu coração à Igreja de São Luís, casa professa da Companhia de Jesus, que pouco há que foi edificada e onde o cardeal Richelieu, de eterna memória, disse em presença de Suas Majestades Cristianíssimas a primeira missa, a 9 de Maio, que foi dia da Ascensão de Nosso Senhor, ano de 1641, a qual fica na rua de Santo António, que tanto amou o Rei defunto a dita Companhia, que quando tomou as mãos de monsenhor o duque de Orleans e da Rainha, sobre lhes encomendar a união e concórdia, lhes disse também que estimassem muito a Companhia de Jesus, porque nenhuma coisa depois de Deus ele tanto amara, nem o estado secular de França lhe devia tanto a ele, como o da religião católica à Companhia.

 

Por vezes, surgem na Gazeta notícias das mortes em batalha. A notícia que se segue tem ainda o interesse particular de ilustrar a ascensão social da burguesia, que gozava crescentemente do estatuto de “pessoas de qualidade”, conforme a própria designação da Gazeta:

 

Gazeta do Mês de Outubro de 1643

De Paris a 29 de Agosto de 1643

Entre os acidentes do cerco de Thionville, não é para se deixar em esquecimento a morte do senhor Marigaut, um dos guardas do duque de Enguien e filho de um mercador da rua de Santo António, desta cidade, o qual morreu sem se sentir morrer, porque estando dormindo na sua barraca, lhe levou um projéctil de bombarda a cabeça, três dias antes da entrega desta praça.

  

Livros

Notícia pontual foi o aparecimento de novos livros, no país e no estrangeiro:

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Acabou-se de imprimir o livro intitulado Summa Vniversae Philosophie, composto pelo padre Baltazar Teles, da Companhia de Jesus, obra muito desejada e que inclui, com grande erudição, tudo o que há na filosofia.

 

Gazeta do Mês de Junho de 1642

No mês de Abril passado, saiu um livro impresso em Londres por mandato do Parlamento, intitulado Demonstração dos Acontecimentos Admiráveis que Sucederam na Irlanda, composto pelo doutor Henrique Jones, no qual estão os testemunhos de uma inquirição (...) em que declaram (...) os ingleses que fugiram da Irlanda o dano que haviam sofrido naquelas guerras.

 

Gazeta dos Meses de Março e Abril de 1644

O príncipe de Condè, na volta que fez de Borgoha, deu à luz um excelentíssimo livro, que compôs em honra do Santíssimo Sacramento, contra algumas proposições de um doutor que reprovava a devoção a tão nobre e tão augusto mistério. E não há muito que o dique de Enguien, seu filho, deu à luz outro excelentíssimo da eloquência (...).

 

Alguns dos novos livros são objecto de exacerbada crítica e insulto:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1645

Saiu agora no Reino de Inglaterra um livro impresso muito perverso e pernicioso, cujo título é Sana Ratio, sendo mais que insana, pois o intento do maldito herege seu autor é persuadir que em nenhuma coisa se deve crer senão na que se alcança por razão natural e não adverte este desaventurado que os mistérios da nossa fé e religião católica são sobrenaturais e que muitos deles excedem a capacidade dos melhores entendimentos criados neste mundo (se bem que nenhum deles é contra a razão natural) e por isso São Paulo diz que todo o entendimento criado se deve cativar em obséquio de Nosso Senhor: In captivitatem redigentes omnia intellectum in obsequium Xpi.

 

Outros livros contribuíam para alimentar os interesses estratégicos do Portugal Restaurado:

 

Gazeta dos Meses de Maio e Junho de 1644

Nesta Corte saiu agora um livro intitulado: França interessada com Portugal, composto pelo Secretário da Embaixada do Conde Almirante, o qual foi muito bem recebido.

 

 

Economia e finanças

Várias notícias da Gazeta dizem respeito à economia e finanças do Reino. Num país comercial e colonial que procurava reconquistar a sua posição entre as potências da época, os movimentos de navios, um dos principais meios de transporte de então e o único que permitia viagens intercontinentais, eram notícia relevante, sendo que por várias delas também se pode perceber o estado da economia portuguesa à época da Restauração:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

Abriu-se o comércio com [o Principado de] Moscovo e já veio uma nau com mercadorias e ficarão muitas para vir.

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Entraram três naus de França, que saíram do porto de Saint Malo, e trouxeram mercadorias, armas e gente de guerra que vem servir a El-Rei nosso Senhor.

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

A 18 entrou neste porto uma nau francesa que vem de Génova com mercadorias.

(…)

As naus que vieram com o embaixador da Suécia carregaram sal em Setúbal e com muitas outras mercadorias se tornam outra vez, levando à Rainha da Suécia dois presentes que lhe manda El-Rei Nosso Senhor e outro que lhe manda a Rainha Nossa Senhora e ambos grandiosíssimos.

(…)

A nau São Domingos, que se esperava de Livorno, entrou neste porto a 25, em companhia de outra de Veneza.

 

O movimento comercial suscitado pela navegação era importante para o Reino e D. João IV assim o demonstrava:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

A 9 se fez à vela o galeão São Bento, que vai para a Índia Oriental, e El-Rei Nosso Senhor o foi ver e assistiu no mar até que saiu de foz em fora.

 

Outras notícias davam conta do confisco do ouro, maneira de combater a fuga ilegítima de capitais e de relançar a economia de guerra:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Levantou-se o ouro, para que os estrangeiros não o tirassem do Reino, e publicou-se que toda a pessoa que o tivesse o levasse à Casa da Moeda para se fundir de novo, de modo que uma moeda de quatro cruzados valha três mil reis, meia moeda 1500 e um quarto 750.

 

Num contexto bélico, a contrafacção de moeda era severamente reprimida, devido às consequências económicas que poderia gerar, incluindo falta de confiança no dinheiro:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Entre as pedreiras de Alcântara se acharam dois homens falsificando o cunho da moeda (...). Ambos foram condenados na pena da lei.

 

Na Gazeta por vezes também eram publicadas notícias sobre a economia europeia, embora, ocasionalmente, com intuitos não meramente informativos, mas também propagandísticos, como acontece com a descrição das crises castelhanas:

 

Gazeta do Mês de Setembro de 1643

Fizeram [os castelhanos] a uma moeda de prata a que chamam Carinhão, de um e dois e quatro reais de quartos, mas deitaram-lhe tanta liga que se quebraram todos, pelo que as recolheram.

 

Do mesmo modo, ocasionalmente surgiam notícias sobre movimentos de navios e o comércio ultramarino no estrangeiro. A notícia seleccionada como exemplo dá conta, também, da crescente importância da Holanda no comércio marítimo intercontinental:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

De Amesterdão

(…)

Chegaram a este porto dois navios da Guiné e trazem ricas mercadorias, 1600 marcos de ouro e muitos dentes de marfim. E esperam-se muitos outros da mesma terra.

 

 

O insólito

Para os homens e mulheres do século XVII, o mundo era, além de ameaçador, bastante misterioso, cheio de prodígios. Assim, para além dos relatos fantasistas e propagandísticos do muro que, na Beira, ao cair, matou um incréu no suposto milagre do crucifixo da Sé de Lisboa, cujo Cristo teria baixado um braço para dar a sua concordância com a Restauração (Novembro de 1641), e do menino mudo que, em Miranda, teria gritado “Viva El-Rei D. João o IV!” (Fevereiro de 1642), surgem notícias de supostos milagres, que traduzem a profunda crença religiosa e supersticiosa seiscentista:

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

Neste mesmo dia foram uns homens do mar à Igreja de Nossa Senhora da Estrela dar graças dum  milagre que a Senhora fez (…). Estando a naveta Nossa Senhora da Estrela na Baía de Todos os Santos, saíram uns marinheiros no batel a fazer aguada, e no caminho os investiu um monstruoso peixe, a quem alguns chamam Espadarte, e outros peixes-espada. Deu três botes no batel e com o bico passou de parte a parte, de modo que vendo os marinheiros que a perdição era infalível, chamaram pela Virgem Nossa Senhora da Estrela. E escassamente soou nos ares o seu santíssimo nome, quando o peixe suspendeu a fúria e se deixou estar manso e sossegado, de maneira que se atreveram os marinheiros a pegar nele com as mãos, e ele se deixou atar com muitas cordas, até que com grande facilidade o trouxeram vivo a terra, onde depois de o matarem, lhe arrancaram o bico (que estava atravessado no batel de um bordo a outro e era muito comprido, à maneira de uma serra) e o trouxeram consigo para o oferecerem à Senhora em memória deste milagroso acontecimento. Hoje está dependurado na sua Igreja, dentro da capela-mor do Santíssimo Sacramento.

 

Vários são, também, os relatos de acontecimentos insólitos:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

No castelo de Vila Segura (de que é capitão e alcaide-mor Gaspar Moutinho), aos 30 de Dezembro passado, às 10 horas da noite, nas pontas dos chuços das sentinelas, apareceu um lume acesso à maneira de uma estrela, a cor baça do mesmo modo da cera bela, e algumas vezes resplandecia como fogo. Foi este prodígio admirado e visto por todos e o capitão do castelo (fora algumas outras pessoas) tomou na mão um dos chuços para apagar o lume, mas não foi possível, e houve lume que se tirou do dardo, e se pôs no chapéu, e na mão direita que estava de posta, e a outro soldado se lhe pôs no terço da espada que tinha nua na mão. Estes mesmos lumes foram vistos duas noites antes. Consta tudo isto por um instrumento de testemunhas, que veio ao Ilustríssimo senhor Dom Rodrigo da Cunha, Arcebispo Metropolitano.

 

De realçar que a notícia anterior é interessante não apenas por causa do tema em si, mas também pela narração diacrónica, ou cronológica, estrutura básica de muitos relatos da época.

Outra notícia dava conta do nascimento de um vitelo siamês:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Na província de Trás-os-Montes nasceu uma vitela de duas cabeças. Viveu pouco tempo e depois de morta lhe encheram a pele e a mandou o reitor da Universidade de Coimbra ao senhor Arcebispo de Lisboa, em cuja casa está hoje, e a vão ver muitos curiosos por maravilhas.

 

Os reflexos de um mundo visto como prodigioso e misterioso, de resto, não se resumiam a Portugal. A notícia seguinte é interessante porque descreve doze supostos prodígios:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1643

De Amesterdão, aos 9 de Março de 1643

Na cidade de Stutgart, na Alemanha, no fim do ano passado e princípio deste, foram vistos doze prodígios, a saber: o primeiro, que choveu duas vezes sangue na dita cidade; 2. Que a terra estremeceu ali extraordinariamente; 3. Que todas as portas do seu castelo se abriram por si mesmas; 4. Que o sino do castelo tocou por si mesmo; 5. Que no mesmo lugar foi ouvido um ruído e um estrondo tão espantoso que temendo o duque e sua corte que se queria de todo arruinar quiseram mudar-se para Kirkenheim; 6. Que dentro da câmara do duque foi ouvido um uivo espantoso sem se saber a causa dele; 7. Que querendo o duque fazer viagem, jamais os cavalos puderam passar avante nem tornar atrás e que apareceram no ar dois homens, um com uma foice e o outro com um alfange nas mãos, o primeiro como quem andava ceifando e o segundo jogando com o dito trançado à direita e à esquerda; 9. Que o céu se abriu e apareceu por muito tempo aceso em fogo; 10. Que um cão negro (cuja vista foi sempre funesta aos duques desta casa) apareceu e desapareceu logo; 11. Que foi ouvido um grande trovão estando o ar muito claro e sereno (…); 12. Que uma candeia se acendeu por si mesma na capela dos paços do mesmo duque. Os acontecimentos farão ver a verdade, ou para melhor dizer, vaidade destes agouros.

 

De forma similar, a Gazeta relata o que poderá ter sido o avistamento de um suposto OVNI, em Amesterdão:

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

No princípio de Novembro apareceu sobre esta cidade um arco celeste todo negro, o qual lançava de si um fedor como de fogo, que se sentia dali a três léguas.

 

Certos fenómenos insólitos eram interpretados como fruto da intervenção divina. Na notícia abaixo, uma hipotética alucinação colectiva foi interpretada como o sinal de um eventual castigo de Deus que ameaçaria os hereges”, portanto “os outros”, algo que o próprio redactor encomenda à misericórdia divina:

 

Gazeta do Mês de Junho de 1643 de Novas Fora do Reino

De La Rochelle, aos ditos 29 de Maio de 1643

(…)

No mesmo dia 16 sucedeu que estando os hereges na sua igreja, fazendo suas rezas, e pedindo a Deus que desse graça ao novo Rei de França para lhes conceder quanto seu pai lhes havia concedido no dia em que tomou esta cidade, os quais seriam mais de quatro mil almas, homens e mulheres, viram subitamente descer de uma brecha um homem com duas espadas de fogo nas mãos. Fosse o que fosse, todos fugiram do lugar, sem ficar pessoa dentro (…), e temem os hereges que os extinga Deus totalmente no Reino de França, como confiamos em sua misericórdia.

 

A notícia de um alegado milagre, em Goa, também não passou despercebida à Gazeta, que insinuantemente aconselha os crentes católicos à devoção por Nossa Senhora:

 

Gazeta do Mês de Agosto de 1645

Por carta de Goa, de 24 de Setembro de 1644, escrita pelo padre Gregório de Magalhães, da Companhia de Jesus, refere-se a um caso milagroso, e que foi, no colégio de Tannà, em Baçaim, da dita Companhia, no dito ano, mandou um religioso, mestre de latim, a um estudante seu discípulo, na sexta-feira, que ao outro dia, sábado, viesse muito cedo ajudar à missa de Nossa Senhora. Deitou-se o estudante com este cuidado e levantou-se tão cedo que era meia-noite, imaginando ele que seriam quatro da manhã. Saiu de casa e foi-se a caminho do colégio. Encontrou no caminho um mancebo desencaminhado, o qual se persuadiu que o estudante o ia espreitar, pelo que mandou a dois que o acompanhavam que o matassem. Arremeteram a ele e deram-lhe muitas cutiladas e o deixaram por morto estirado no chão. Levantou-se o devoto da Senhora e prosseguindo seu caminho para o dito colégio, esperou às portas dele a hora apontada, quando pela segunda vez o tornou a encontrar o sobredito soldado, e tendo por certa a sua falsa suspeita, arremeteu a ele com a espada na mão, deliberado a matá-lo, e assim lhe deu muitas cutiladas e estocadas até que com os golpes e pancadas lhe caiu a espada da mão e com temor da justiça se foi sem ela. O estudante de ambos os assaltos se achou sem lesão ou ferida alguma, por assim o permitir a soberana virgem, mas o vestido todo retalhado. Abriu-se a porta, referiu tudo o que se passara a seu mestre e a outros padres e dando por sinais que a espada do agressor se encontraria naquele lugar, se achou ser tudo verdade e por memória do caso e maravilha, se pendurou a espada na capela da Senhora, que quis livrar ao seu devoto de tão evidente perigo.

 

 

As intempéries e catástrofes

Embora pouco frequentes, há várias referências à meteorologia na Gazeta, em especial quando as condições do tempo provocavam vítimas, como acontece na seguinte notícia:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Quase todo este mês ventou, choveu e nevou, e fez muito dano a tempestade. Caíram no bairro de São Paulo umas casas onde morreram duas pessoas. Arruinou-se o recolhimento de São Cristóvão e as órfãs mudaram-se para uma casa junto à Igreja de São Vicente. Cresceu a água da chuva de maneira que na rua dos canos se afogou um homem, e morto veio pelo cano Real sair ao terreiro do Paço. Junto ao baluarte da carreira dos cavalos caiu um raio.

 

As notícias sobre as intempéries nem sequer se limitavam ao espaço português:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1643

De Marselha, a 9 de Março de 1643

As grandes chuvas que em Itália houve desde o princípio de Novembro até ao fim de Dezembro passado engrossaram de maneira os rios da Lombardia e particularmente o Pó, que saindo do leito inundou a maior parte das cidades, vilas e terras vizinhas. Neste dilúvio afogaram-se tantas pessoas, ruíram tantas casas e perderam-se outros bens, que se não dera crédito (…) e grande número de lugares foram arruinados e se afogaram  sete para oito mil pessoas, a maior parte das quais, querendo salvar-se com seus móveis, mulheres e filhos nos carros e nas carretas, a violência das águas os submergiu a todos e os fez perecer miseravelmente (…).

 

As intempéries podiam atingir os famosos em alturas imprevistas:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

Em Roma, caiu um raio nos paços de Mudicis e entrou na casa onde estava deitado na cama o mesmo cardeal Mudicis escrevendo, mas não fez mais dano do que queimar alguma armação e a almofada da cama, deixando tal fedor que quase todos os criados caíram de pasmo.

 

Os incêndios e outras catástrofes também eram noticiados:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

Chegou à mesma corte um correio de Castela e deu por novas (…) que o fogo se pegou nos paços do duque do Infantado, nos quais, além da maior parte do edifício, consumiu mais de sessenta mil cruzados de móveis.

Também se diz que ardera uma grande parte do Retiro, na mesma altura em que o marquês de Terrecusso foi cercar a cidade de Elvas.

 

Os naufrágios também eram noticiados (especialmente se afectavam inimigos):

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

Padeceram uma horrível tempestade vinte galés do Rei de Castela, que foram a Colibre levar socorro de Perpinhão. Três deram à costa nas Tinhas, na Provença. Uma entrou no Mónaco e foi rendida pelos franceses. Outra deu em Liorne e cinco em Saiona. As demais receiam-se perdidas. E não falta quem afirme que o príncipe de Oria (que era o general) fora prisioneiro a Paris e que assiste hoje na Bastilha, que é a prisão dos príncipes em França.

 

 

Outras questões sobre os conteúdos da Gazeta

Pontualmente, o redactor da Gazeta servia-se da mesma para contrariar os boatos e as versões dos acontecimentos pouco condizentes com os interesses restauracionistas, o que é particularmente visível numa peça publicada no número de Janeiro de 1645, onde se responde a um boato hipoteticamente espalhado pelos fiéis a D. Filipe III ou mesmo pela propaganda espanhola e onde se acaba por amaldiçoar o inimigo, num tom pouco sintonizado com aquele que predomina na Gazeta:

 

Gazeta do Mês de Agosto de 1645

Não é para deixar de advertir sobre o que o vulgo (…) diz, encaixando-se-lhe logo na cabeça qualquer nova que ouve sem probabilidade alguma, como a saída que dizem fez o inimigo de Badajoz, porque já afirmavam que tinham cercado Ouguela e Campo Maior como se ele não soubesse o presídio em que estas como as demais praças fronteiras estão. O certo é que os inimigos, à maneira de comediantes (...), não fizeram mais que uma mostra, saindo por uma porta e entrando por outra. Pelo contrário, ao mesmo tempo, mandando o senhor de Castelo Melhor buscar uma língua a Castela, entraram por ela dentro oito soldados de cavalaria e encontrando trinta castelhanos que vinham com seu comissário tomar armas a Badajoz, os renderam com muita facilidade, e os trouxeram com toda a bagagem a mãos lavadas. E destes e de outros (…) semelhantes encontros pudéramos cada dia (a Deus graças) fazer muitas e muito notáveis relações, pois os portugueses prezam-se tanto dos rasgos da pena como dos da espada. E assim por mais que os nossos contrários finjam e escrevam, manifesta a verdade, todos os seus triunfos se hão-de converter em tumbas, todos seus troféus em fúnebres aparatos e todo o seu riso em amargo pranto. Aquele que quiser reduzir seus pensamentos à gloriosa meta das vitórias e dos triunfos, tenha o olhar no céu, que de lá de cima vêm guiadas todas as nossas acções, com segurança tal que não podem deixar de ter felicíssimo fim.

 

Um aspecto importante na Gazeta está relacionado com o que é omitido. Ignoram-se, nomeadamente, as grandes batalhas da guerra da Restauração e as convulsões internas provocadas pela Restauração e em particular os portugueses fiéis ao Soberano a quem tinham empenhado a sua lealdade – Dom Filipe III, excepto pontualmente:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Mandou El-Rei de Castela a Sevilha um fidalgo português levantar um terço de portugueses para Nápoles.

 

Gazeta do Mês de Setembro de 1643

Dão por novas [de Madrid] (…) que ao filho do conde de Tarouca deram o título de marquês de Penalva; a D. Francisco de Melo de duque de Estremoz; ao conde de Castro d’Aire o de marquês de Colares. O conde de Linhares largou sua casa nas mãos de El-Rei, o qual o fez conde de Gijon e general das galés (…) e seu filho conde de Linhares e gentil-homem da câmara. Ao conde de Torres Vedras fizeram mordomo da Rainha e do Conselho de Guerra, e a D. Lopo da Cunha [fizeram membro] do Conselho de Guerra e da Fazenda e o faziam do Conselho da Cantábria, que se desfez. Luís da Silva ia servir na Flandres e outros fidalgos iam para Nápoles e para a Armada Real. D. Pedro da Cunha serve como capitão de cavalaria na Catalunha.

 

Saliente-se que, segundo a Gazeta, os nobres portugueses que tinham mantido a sua lealdade para com Dom Filipe III eram penalizados pela sua alegada traição, num claro aviso sobre as intenções da Coroa:

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

Mandou El-Rei Nosso Senhor confiscar os bens do marquês de Castelo Rodrigo por lhe constar que assistia na Alemanha em desserviço desta Coroa. E os do conde de Linhares se confiscaram também por um decreto do Conselho da Fazenda.

 

Outro aspecto relevante tem a ver com a incerteza que os redactores demonstravam acerca das informações que, por vezes, davam. Isso é transparente em múltiplas notícias. Naquela que a seguir se insere, quem a redigiu cai no elogio fácil, mas, ingenuamente, também proclama a sua ignorância:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

Veio Frei Dinis de Lencastre, a quem El-Rei Nosso Senhor havia mandado às partes do Norte. Não se sabe a que foi, mas presume-se que efectuou tudo com a felicidade que se esperava de um sujeito em que concorrem tão soberana qualidade e partes tão superiores.

 

Finalmente, emerge da leitura da Gazeta a noção que os redactores da mesma já intuíam a importância da promoção publicitária das publicações, como acontece em Novembro de 1642, número em que, no final, se comenta a edição autónoma de relações sobre determinados acontecimentos: “O sucesso do nosso Embaixador em Roma. A grande batalha de Lérida. A vitória que o príncipe Thomas teve dos castelhanos e Itália (...) e outros sucessos saem nas suas relações particulares” (Novembro de 1642). Estas relações eram uma espécie de grandes reportagens vendidas separadamente, à semelhança das edições especiais e de certos suplementos dos jornais contemporâneos.

 

 

O enquadramento do mundo

A Gazeta afirma-se, conforme fomos vendo anteriormente, como um jornal, providenciando, assim, uma narrativa pública, periódica, “contínua”, sobre a marcha do mundo. Ao fazê-lo, ao seleccionar o que é digno de figurar nas suas páginas, ao expressar determinadas posições e sentimentos, ao usar determinados vocábulos, expressões e figuras de estilo, ao alimentar mitos e estereótipos, a Gazeta mostra o mundo de uma maneira e não de outra. Em suma, a Gazeta emoldura o mundo segundo um determinado enquadramento. Para alguns leitores, esse enquadramento reforçou (e reforça) as suas convicções. Esses seriam, certamente, aqueles que adoptariam a Gazeta como “seu” jornal. Outros leitores certamente rejeitaram (e rejeitam)  a mundividência sugerida por esse periódico, cuja vocação eminentemente jornalística não deixa, apesar de tudo, apagar o seu comprometimento com as posições das elites dirigentes do país.

Tendo os temas das notícias em consideração, que imagem do mundo deu a Gazeta aos seus leitores e que imagem nos dá, a nós, do mundo seiscentista visto a partir de Portugal?

Em algumas coisas, a Gazeta dá uma imagem do mundo certamente semelhante àquela que encontramos em jornais contemporâneos. Havia guerra no mundo, ontem como hoje; ontem como hoje, havia estratos socialmente mais “relevantes” do que outros e as vidas de algumas “pessoas de condição”, nomeadamente das famílias reais, eram acompanhadas a par e passo pelos jornais, sendo de destacar os eventos sociais, muitos deles religiosos, que preenchiam parte da vida dessas pessoas (e por vezes também do povo comum), e que eram, igualmente, cobertos; havia crimes e castigos; nascimentos, celebrações, mas também doenças e morte; política e diplomacia; tempestades; catástrofes; acontecimentos insólitos; publicação de livros…  Em suma, o mundo seiscentista não espanta demasiado os homens de agora, como certamente não espantaria muito alguém de tempos mais recuados…  Há uma certa constância nas sociedades humanas…

No entanto, comparando as narrativas da Gazeta com as do jornalismo contemporâneo sente-se, apesar de tudo, um certo tom arcaico nas primeiras, pois a forma como os portugueses de seiscentos vivenciavam e compreendiam o mundo era distinta da forma como os portugueses contemporâneos vivenciam e olham para esse mesmo mundo, continuamente transformado por acção do homem e da natureza. A religiosidade, a separação de águas entre protestantes e católicos, ainda que todos europeus, o valor da fidelidade ao Rei, a estratificação social extremamente marcada e aparentemente aceite como “natural”, os acontecimentos hoje desaparecidos do horizonte, como os autos de fé, entre outros, são alguns dos sinais que, presentes no discurso da Gazeta, a afastam das tonalidades discursivas de um jornal contemporâneo, pois o discurso de um jornal é, também ele, fruto do contexto e da conjuntura.

A sensação de arcaísmo resulta agudiza-se pela forma como era manejada a língua portuguesa (atenuada nesta análise para facilitar a leitura dos exemplos) e também, por exemplo, do relato de pormenores e das justificações que são dadas para os factos. Por exemplo, sobre as celebrações do Domingo de Lázaro, o redactor explica que as festas terminaram às dez horas da noite porque os religiosos e demais pessoas estavam cansados.

Outra tonalidade arcaica do discurso transparece da mistura de assuntos nas notícias que se sucedem umas às outras, incomum nas notícias contemporâneas. A notícia das celebrações do Domingo de Lázaro, por exemplo, é seguida pela notícia da chegada de boas-novas dos Açores. Essas boas-novas, no entanto, não são explicadas, remetendo-se o assunto para a Gazeta de Março (outro arcaísmo).

Na tabela seguinte, recolhem-se alguns dos exemplos que poderiam ser dados sobre a forma como a Gazeta enquadrava o mundo, embora necessariamente devam ser complementados com os exemplos referidos ao longo de todo o presente capítulo.

 


O estado do mundo

Excerto textual ilustrativo

Um mundo em guerra

O general Martim Afonso de Melo (...) juntou (...) 3000 e tantos homens e a 27 de Outubro saiu da cidade de Elvas. no dia seguinte, pela manhã, chegou a Valverde. (...) Acudiram todos à defesa. Preveniram-se os nossos para o assalto, investiram e ganharam logo a primeira e segunda trincheiras, e arrimando escadas entraram na vila, na qual não havia rua que não tivesse a entrada defendida por uma peça de artilharia. Porém, os nossos romperam [as defesas inimigas] e destruíram tudo. Os inimigos retiraram-se para uma Igreja, ao pé da qual havia um reduto onde se defenderam valorosamente. E estando já os nossos ao pé da terceira trincheira, e o lugar quase rendido, houve da nossa parte quem gritou que retirassem, e cuidando todos que era ordem do general obedeceram, e cessou a destruição, que foi tão grande que não ficou em qualquer lugar casa alguma que os soldados não saqueassem e o que não puderam trazer ou o despedaçaram ou lhe puseram fogo. Tornaram enfim para Elvas alegres com a vitória e deixaram na vila mortos mais de 400 castelhanos, entre os quais morreu o comissário da cavalaria. Trouxeram 55 prisioneiros, tomaram três bandeiras e muitos despojos. Da nossa parte morreram pouco mais de trinta homens. (Novembro de 1641)

Um mundo de eventos sociais

Ao Domingo de Lázaro se celebrou nesta Corte o Auto de Fé. Junto ao quarto em que assiste a Rainha nossa Senhora se fabricou o teatro. Saíram a padecer três mulheres e três homens, um dos quais ia a morrer vivo por pertinaz. E às 10 horas da noite se acabou, depois de ter cansado os religiosos que lhe assistiam e a muitas pessoas. Grande parte deste dia estiveram El-Rei nosso Senhor e a Rainha nossa Senhora numa das janelas do Paço, que ficava sobre o teatro. A nova da Ilha Terceira, de que se fala (...) na gazeta do mês de Março, veio aos oito do mês de Abril no navio Sol Dourado. Foi de grande alegria para todo este povo. Repicaram-se os sinos. Cantou-se na capela real Te Deum Laudamus. Assistiram nas suas tribunas El-Rei nosso Senhor e a Rainha nossa Senhora. Veio em procissão o Senhor Arcebispo de Lisboa desde a Sé até à Igreja de Santo António, onde se disse uma missa votiva. Comeu El-Rei nosso Senhor em público, e fez mercê de mandar um prato ao capitão-mor Francisco de Ornelas da Câmara, e outro ao capitão Jorge de Mesquita (que trouxeram a nova) dizendo-lhes a ambos palavras muito honrosas. À noite houve luminárias. E daí a dois dias saiu da Igreja da Sé uma procissão geral com o pendão da   cidade e o Senado da Câmara e foi ao convento de São Domingos a dar graças por tão feliz acontecimento. (Abril de 1642)

Um mundo de despreocupações

Véspera de Reis presenteou António Pessoa Campo ao Príncipe, que Deus guarde, um cavalo feito por ele com tal artifício que não somente no aspecto engana a quem o vê mas também nas acções: rincha, endireita as orelhas, obedece ao freio, escarua, dá com as mãos nas cilhas, põe a anca no chã, dá coices, dá corcouos, faz chaças e curuetas, salta, golpeia, toma a andadura, trota, corre, passeia, volta a uma e a outra mão e faz tudo quanto a natureza ensinou a um ginete. A cor é endrina, a sela estardiota de veludo verde bordada de oiro com pedras preciosas. (Janeiro de 1642)

Um mundo de prodígios e milagres (muitos deles conotados com a propaganda da Restauração)

Num lugar da Beira se afirma que um homem, ouvindo dizer numa conversa de amigos que na feliz aclamação de El-Rei nosso Senhor fizera o crucifixo da Sé o milagre, que a todos é notório, disse se podia acaso a imagem do Senhor despregar o braço, e assim que acabou de dizer estas palavras caiu uma parede junto da qual estavam todos os da conversa e só a ele matou. (Novembro de 1641)

Um mundo de prodígios e milagres (muitos deles conotados com a propaganda da Restauração)

Na comarca de Miranda falou um menino mudo e disse: “Viva El-Rei Dom João IV”. Isto se sabe de certo e agora se está fazendo um instrumento de testemunhas por ordem da Sé de Miranda. (Fevereiro de 1642)

 

 

 

 

 

 

Um mundo de prodígios e milagres, mas também um mundo de descobertas

Neste mesmo dia foram uns homens do mar à Igreja de Nossa Senhora da Estrela a dar graças de um milagre que a Senhora fez, o qual foi o seguinte: Estando a naveta Nossa Senhora da Estrela na Baía de Todos os Santos, saíram uns marinheiros no batel afazer aguada, e no caminho investiu um monstruoso peixe, a quem alguns chamam espadarte e outros peixe-espada. Deu três botes no batel e com o bico passou de parte a parte, de modo que vendo os marinheiros que a perdição era infalível chamaram pela Virgem Nossa Senhora da Estrela e mal soou nos ares o seu Santíssimo nome o peixe suspendeu a fúria e se deixou estar manso e sossegado, de maneira a que se atreveram os marinheiros a pegar nele com as mãos, e ele se deixou atar com muitas cordas, até que com grande facilidade o trouxeram vivo a terra, onde depois de o matarem lhe arrancaram o bico (o qual estava atravessado no batel de um bordo ao outro e era muito comprido e à maneira de serra) e o trouxeram consigo para oferecerem à Senhora em memória deste milagroso acontecimento. Hoje está dependurado na Sua Igreja, na capela-mor do Santíssimo Sacramento. (Fevereiro de 1642)

 

Um mundo de belas letras e novos conhecimentos

Acabou-se de imprimir o livro intitulado Summa Universae Philosophie, composto pelo padre Baltazar Teles, da Companhia de Jesus. Obra muito desejada e que inclui com grande erudição tudo o que há na Filosofia. (Dezembro de 1641)

 

 

Um mundo de intempéries, catástrofes e acidentes

Quase todo este mês ventou, choveu e nevou, e fez muito dano a tempestade. Caíram no bairro de São Paulo umas casas, onde morreram duas pessoas. Arruinou-se o recolhimento de São Cristóvão e as órfãs se mudaram para uma casa junto à Igreja de São Vicente. Cresceu a água da chuva, de maneira que na Rua dos Canos se afogou um homem e morto veio pelo cano Real sair ao Terreiro do Paço. Junto ao baluarte da carreira dos cavalos caiu um   raio. (Janeiro de 1642)

Um mundo de crimes

Junto à Praça dos Canos, no entreforro de umas casas que estavam vazias, achou-se um saco, dentro do qual estava uma mulher feita em quartos. Tirou-se devassa, mas não há notícia até agora do delinquente. Presume-se que seu marido a matou. (Fevereiro de 1642)

Um mundo de normalidades

Morreu o padre Diogo de Hereda, aquele raro pregador da Companhia. Causou geral sentimento a sua morte pelo muito que perderam os púlpitos de Portugal. (Dezembro de 1641)

 

Registe-se que para um discurso poder ser entendido como verdadeiro, tem de haver correspondência entre o facto e a representação discursiva desse facto. Ora, o mundo que, no global, transparece do discurso da Gazeta é bastante indiciador da situação real, podendo, assim, ser considerado um discurso verdadeiro, no sentido que evidencia e indicia os contrastes do mundo seiscentista. A guerra, por exemplo, contrasta com as festas sociais, com os eventos religiosos (dos mais importantes eventos sociais na sociedade seiscentista) e até com episódios peculiares ilustrativos do bem-estar algo despreocupado da nova Família Real portuguesa, como aconteceu com a oferta de um cavalo mecânico ao Príncipe das Beiras, D. Teodósio.

Com as notícias sobre a administração do Reino e sobre os esforços diplomáticos e militares portugueses, a Gazeta pretendeu, certamente, dar uma boa imagem da organização civil, militar e diplomática que a Casa de Bragança, enquanto casa reinante, deu ao país. Em particular, visou, certamente, acentuar as vantagens da independência de Portugal face a Espanha, quando comparadas com a Monarquia Dual.

O principal acontecimento em desenvolvimento para os portugueses da época, a Guerra da Restauração, emerge do discurso da Gazeta, em particular no primeiro período – e mais interessante – do jornal, como a guerra que, de facto, foi: uma guerra de pequenas escaramuças na raia fronteiriça, roubos e destruição de povoações, bastante longe da imagem de guerra heróica que um relato epopeico certamente daria. De facto, a Gazeta noticia episódios da actuação das tropas beligerantes, incluindo os actos cruéis por elas perpetrados (de ambos os lados). Aliás, num tom de verdade, a Gazeta evidencia a insuficiente vigilância das fronteiras nacionais, pois se, no primeiro período do jornal, há notícia de incursões de portugueses em Castela, também as há de castelhanos em Portugal.

Pela leitura da Gazeta observa-se uma guerra da Restauração em que se vão juntando conjunturalmente homens para combater o inimigo e não uma guerra de exércitos profissionais. A estratégia militar não é alvo de grandes considerações e muito menos de análises, sendo, em alguns casos, referidas tácticas usadas em combates específicos, nomeadamente emboscadas e operações de reconhecimento. Também é referida a táctica da devastação, própria de uma época em que não existiam grandes preocupações pelos civis, em especial quando os redactores da Gazeta falam da destruição e saque de povoações. Uma ou outra vez surgem algumas descrições de batalhas de média dimensão, mas como durante as guerras da Restauração houve poucas, esse facto não surpreende. Pelo contrário, até é bastante indiciático da situação real. As descrições de batalhas na Gazeta, aliás, pouco têm de epopeia e também não realçam a táctica ou a estratégia militar, antes procuram salientar o valor e a argúcia dos portugueses. De qualquer modo, deve dizer-se que os relatos da guerra da Restauração são, geralmente, muito vivos, de uma forma que não desdenharia aos jornalistas contemporâneos e mesmo aos escritores de ficção histórica.

Do discurso sobre a guerra, que tende a acentuar a distinção e separação entre o “nós” e o “eles”, emerge, por outro lado, a noção de vinculação territorial à “nação”, marca identitária dos que têm nascimento comum e ideia telúrica.

Diga-se, em acréscimo, que os relatos do conflito bélico e, por vezes, mesmo os relatos sociais, surpreendem o leitor do século XXI pelo retrato de uma sociedade cruel em que a vida humana tinha pouco valor. Nas celebrações do Domingo de Lázaro, por exemplo, um prisioneiro foi sentenciado à morte.

Também importante no discurso sobre a guerra é a atribuição simbólica de funções à nobreza, já que normalmente são os nobres comandantes – muitos deles oriundos da pequena nobreza – que são referidos nominalmente, embora haja várias excepções. A protecção do Reino emana, assim, do discurso da Gazeta como uma condição para a legitimidade da nobreza como grupo detentor de direitos especiais num contexto social de forte compartimentação. Inclusivamente, a Gazeta refere os nobres portugueses como capazes de feitos militares inigualáveis sobre os estrangeiros. Aliás, a legitimidade da nobreza é reforçada pelas referências a “pessoas de condição” pontualmente espalhadas pela Gazeta, o que promove a separação simbólica entre quem tem “condição”, ou seja, um estatuto social elevado, e quem não a tem.

Outro factor a ter em conta no enquadramento do mundo promovido pelo discurso da Gazeta é a inclusão de notícias domésticas, do ultramar e do estrangeiro. Essa “mistura” reformularia continuamente, para o leitor de seiscentos, os quadros de referência do mundo e o próprio sentido de pertença a comunidades. O estrangeiro, em particular os espaços onde se jogava a diplomacia portuguesa e o destino de Portugal independente, passa, com a Gazeta, a fazer parte da topografia referencial e contínua dos portugueses.

Transparece ainda do discurso da Gazeta uma espécie de nacionalismo ao mesmo tempo próprio e cosmopolita, continental e ultramarino, fechado em si mesmo e de vocação atlantista e mesmo mundialista, glocal, numa síntese que perduraria até à transferência da soberania de Macau, último resquício do Império Português, para a China, no final do século XX. De facto, a Gazeta terá contribuído, à sua maneira, para a propagação de uma ideologia não apenas justificativa da Restauração, mas também nacionalista, de um novo nacionalismo, diga-se, já que era um nacionalismo cosmopolita, específico e ultramarino, conforme, aliás, já era sugerido nas próprias Relações de Manuel Severim de Faria, que traziam abundantes notícias sobre o ultramar português.

 

 

A propaganda da Restauração da Independência e da Casa de Bragança

Conforme se relevou anteriormente, vários autores clamam que a Gazeta se constituiu como uma espécie de órgão oficioso do novo regime e da Casa de Bragança, em busca da legitimação que lhe faltava para justificar a aclamação de D. João IV como Rei de Portugal. Em boa verdade, reduzir a Gazeta a esse papel é quase pejorativo, tanta e tão variada é a informação oferecida aos leitores pelo periódico, mas também é inegável que em várias notícias se faz a propaganda da Restauração, directa (por exemplo, pelos elogios a D. João IV) ou indirectamente (por exemplo, através do rebaixamento de Castela, do seu Rei e dos seus aliados e pela colocação em evidência da sua alegada perfídia), conforme se pode vislumbrar pela análise do quadro 2, que evidencia, ademais, que os governantes seiscentistas de Portugal já tinham uma percepção clara do poder da informação.

 

Quadro 2: Propaganda da Restauração nas matérias da Gazeta

Táctica propagandística

Excerto textual ilustrativo

Mostrar claramente que há dois lados, o nosso e o deles (inimigos)

Dos nossos ninguém perigou. (Novembro de 1641, itálico nosso)

Mostrar claramente que há dois lados, o nosso e o deles (inimigos)

os inimigos, à maneira de comediantes num palco, não fizeram mais do que uma mostra (Agosto de 1645)

Mostrar claramente que há dois lados, o nosso e o deles (inimigos)

por mais que nossos contrários finjam e escrevam (Agosto de 1645)

 

Ridicularizar o inimigo

O certo é que os inimigos, à maneira de comediantes num palco, não fizeram mais que uma mostra, saindo por uma porta e entrando por outra. Que destes e de outros semelhantes combates pudéssemos cada dia (...) fazer muitas (...) relações [de notícias]! (Agosto de 1645)

 

Denegrir os castelhanos pelo seu comportamento

 

Tendo Sua Santidade notícia que andaram em Roma tantos vagabundo que por certo respeitos causavam grande cuidado, sendo a maior parte (...) alguns castelhanos, mandou publicar que todos os que fossem destas nações saíssem no tempo de três meses de Roma e da sua jurisdição. (Outubro de 1642)

 

Denegrir os castelhanos pelo seu comportamento, impróprio de cavalheiros (até tratam mal as damas…)

No dia seguinte veio de Frascati o príncipe Casimiro para visitar a marechala de Guebriant, francesa, a qual, na volta da Polónia, onde foi de Paris acompanhar a Rainha da Polónia, quis por devoção vir a esta cidade [de Roma]. Os castelhanos lhe negaram o passaporte que pedia. Pouca cortesia foi tratar-se de tal modo uma senhora tão autorizada e virtuosa, mormente não se negando passaporte nenhum em França aos castelhanos que querem ir para a sua terra. (Setembro e Outubro de 1646)

Denegrir o comportamento dos castelhanos, cujos nobres são capazes de crimes que denotam falta de lealdade e quebra de confiança, com consequências terríveis para Castela

O marquês de Leganes está ainda preso, acusado de ter tomado o dinheiro destinado ao exército que estava no ano passado em Aragão, onde houve grandes motins (…). (Julho de 1643)

Realçar o valor dos portugueses, reconhecido até pelos inimigos, e revelar a alegada situação calamitosa em Espanha (embora com uma referência à inflação em Portugal – uma crítica sub-reptícia por quem sentia a escalada de preços ou um simples “excesso de verdade” na Gazeta?)

No assalto de Alconchel, achou-se na algibeira de um castelhano uma carta que de Segóvia escreveu um amigo a outro, que vive em Albuquerque, e diz nela que se admira da ousadia com que os portugueses entram pelas fronteiras de Castela fazendo presas de grande estimação e fortificando-se cada vez mais (...), que por lá se diz que em Portugal valem todas as coisas excessivo preço e que o mesmo acontece em Castela, principalmente a prata, que corre a cem por cento (...) e discorre largamente sobre o aperto de   Castela, realçando que tudo são lástimas, prantos, queixas, desgraças, roubos de fazenda [dinheiro], que ninguém tem a sua segura, e que agora se manda que todos os homens ricos comprem em prata dobre censos sobre as rendas reais. (Junho de 1642)

Evidenciar a perfídia do inimigo para com os portugueses que, apanhados desprevenidos pela Restauração, tinham ficado em Espanha

 

As vexações que em Castela fazem aos portugueses vão em aumento, principalmente na Andaluzia, onde prenderam muitos, entre os quais o capitão Jordão de Barros de Sousa padece calamidades. (Fevereiro 1642)

Evidenciar a perfídia do inimigo para com os portugueses que, apanhados desprevenidos pela Restauração, tinham ficado em Espanha

 

Em Madrid apertam com os portugueses e estão presos alguns por se quererem vir para Portugal. (Novembro 1641)

 

 

 

 

 

Evidenciar a perfídia do inimigo

(nem os sacerdotes castelhanos são bons...)

Entre os galegos que vieram da Beira prisioneiros, veio um soldado castelhano, o qual diz que trouxera da sua terra umas poucas de patacas que seu pai lhe havia dado para o caminho, e que quando chegara à fronteira, estando já para sair em campanha, fora ter com o cura do lugar e lhe deu as patacas, dizendo-lhe que as guardasse e que se ele morresse na guerra, ficariam para ele, com a condição que dissesse vinte missas pela sua alma, e que se escapasse, lhas tornaria outra vez a dar. Veio ao campo, travou-se a batalha, venceram os nossos e trouxeram tantos castelhanos prisioneiros que foi necessário ao soldado untar a cara com sangue e meter-se entre os mortos, para não vir cativo como os demais. Desta maneira ficou no campo, até que o mesmo cura, a quem ele tinha feito depositário do dinheiro, veio a retirar os mortos, e logo que o soldado o viu, pegou-lhe na capa e muito mansamente lhe disse que estava vivo e que se fizera de morto para não o aprisionarem. Neste ponto olhou o cura para os nossos, que estavam perto, e defronte dele, e começou a dizer em altos gritos: “Senhores portugueses, aqui está um castelhano vivo entre estes mortos, acudam vossas mercês e levem-no, que eu não trago comissão para retirar vivos e não quero enganar a ninguém, que sou cristão e temo a Deus”. Vieram os nossos e trouxeram-no preso, e o cura se foi para o lugar com os mortos e com as patacas. (Janeiro de 1642)

 

 

 

Mostrar a dissimulação dos castelhanos, mesmo nas negociações de paz e ainda que à custa de vidas humanas

Foram os mediadores ver o conde de Peñaranda, plenipotenciáriod e Castela, e lhe disseram que convinha que Sua Excelência respondesse às propostas que França tinha dado. Respondeu o embaixador que estava muito sentido, porque uns livros que tinha mandado vir de Itália não tinham chegado. Replicou-lhe o mediador de Veneza dizendo: “Senhor, esses livros que Vossa Excelência espera têm alguma conveniência para a paz?” Respondeu o conde que a paz tinha muito que cuidar e que ele cuidaria disso mais devagar. Com esta resposta, despediram-se os mediadores e cuidam os bem entendidos que morrem agora os castelhanos para se fazerem pazes e que disso grande argumento foi haver-se de tal modo o embaixador católico fingindo por soberba natural de sua nação não querer o que desejam notavelmente (Novembro de 1646).

Mostrar a crise castelhana

 

Num mês baixaram e subiram três vezes a moeda, com cuja baixa (…) perdera Castela 32 milhões e o estado em que hoje ficava era na prata a doze reais (…) cada pataca, os dobrões a 42 reais de prata (…).

Fizeram umas moedas de prata a que chamam carinhão de um, dois e quatro reais de quartos e deitaram-lhe tanta liga que se quebraram todas, pelo que se recolheram.

Para o exército da Flandres se fez assento, no princípio da campanha, de cinco milhões e trezentos mil cruzados, mas recambiaram as letras, por não quererem aceitá-las. (Setembro de 1643).

Evidenciar as desgraças castelhanas

Que dos navios da armada de Castela que se queimaram em Cádis, o de Santo Domingo, e no molhe, o de São Francisco Capuchinho, e a capitânea Lansgrave, que eram navios cada um de mais de mil toneladas. (Setembro de 1643)

Realçar as derrotas de Castela

Tomaram os holandeses a capitania de Dunquerque e os franceses dois navios que o castelhano mandava com dinheiro para socorro de algumas praças. (Junho de 1645)

Mostrar a crise castelhana e personalizá-la na figura do Rei de Castela

Pessoa digna de crédito que veio de Madrid afirma que El-Rei Dom Filipe havia gasto dentro de dez meses nas guerras de Portugal e suas dependências três milhões e trezentos mil cruzados. (Dezembro de 1641)

Mostrar a crise castelhana através das notícias de revoltas de outras nações contra D. Filipe IV

a maior parte das Índias [castelhanas] tinham negado a obediência ao Castelhano e (...) só um vice-rei havia por ele, havendo (...) grandes revoluções. (Março e Abril de 1644)

Mostrar a crise castelhana através das notícias de revoltas de outras nações contra D. Filipe IV, paralelamente ao que sucedia em Portugal

Aos 11 do corrente houve uma grande altercação popular na cidade de Cosenza na Calábria, na qual mataram um homem muito principal, cujo corpo foi arrastado pelas ruas (…), e prenderam alguns 40 mais, que favoreciam os espanhóis (…). O povo de Mileto tem também queimado (…) casas e a maior parte dos vassalos deste Reino tem posto cerco a seus senhores por quererem suportar o governo dos espanhóis. (Setembro de 1647)

 

Mostrar a crise castelhana, evidenciando a deterioração do clima interno do país

(…) as novas sabidas em Saragoça causaram tanta perturbação e dissensão entre os moradores que obrigou El-Rei de Castela a mandar lá a D. Pedro de Vila Nova, novamente provido no cargo de secretário de Aragão, a fim de apaziguar o povo com as esperanças da chegada de Sua Majestade Católica e obrigá-los a fazerem novas levas para engrossar o exército e opor-se ao nosso. (Setembro de 1643)

Mostrar a crise castelhana

É tal a falta de dinheiro em Castela, e a miséria tanta, que houve dia em que não se deu estado às damas. (Setembro de 1643)

Mostrar que o Rei de Castela apenas dá a guerra aos seus súbditos

As cidades de Aira e São Omer não quiseram este ano semear as suas terras, dizendo que (…) o Rei de França lhes daria pão, pois o de Castela não dava mais que guerra (Janeiro de 1645).

Mostrar que os castelhanos nem os aliados respeitam

Duas galés do Grão-Duque da Toscânia (…) tornaram aqui esta semana, porém muito descontentes dos ministros de Espanha, que os trataram em sua passagem pelos portos da Sardenha como se eles fossem seus inimigos. (Setembro de 1647)

Rebaixar a administração castelhana, em especial quando estão em causa soldados e nobres portugueses que combatiam nas fileiras de D. Filipe III contra franceses e holandeses (e que manifestam o desejo de regressar por falta de soldo)

 

Que desde que vieram de Aragão, e três meses antes que fossem, o que vem a ser (...) dez meses, não pagam a nenhum português, e agora antes da vinda do dito conde de Miranda e de Estêvão de Brito Freire se fez uma junta, na qual entraram o duque de Villa Hermosa (...) só a fim de tirarem o socorro aos portugueses e se assentou nela (quando estes dois fidalgos queriam partir) que aos condes dessem a uns a terça parte, a outros a metade, e que os mancebos e soldados fossem servir que lhes dariam soldo. A Diogo Soares tiraram todo o socorro.

 

Mostrar a prosperidade portuguesa, cujos embaixadores se podem comparar no fausto aos do Sacro-Império (aliados de Castela) e que podem contar com a amizade francesa

(…) foi o bispo, acompanhado (…) do embaixador da França, em cujo palácio fica hóspede, enquanto na praça Naona se prepara o seu palácio, que custa cada ano de aluguer 1400 escudos e nele se hospedavam sempre os embaixadores da Alemanha.

Fez o bispo uma grandiosa casa e está ordenado que vá para a quinta do papa Júlio e que dali faça entrada pública, para a qual se estavam acabando (fora muitos coches e galas), três librés, uma para o campo, outra para entrar em Roma e outra para entrar no sacro palácio.

Mostrar que a popularidade de D. João IV se estende ao estrangeiro

Pôs-se um retrato de El-Rei Nosso Senhor numa sala do palácio do embaixador de França, despovoando-se Roma para o ver, e todos os pintores faziam infinitas cópias, que se compravam para adornar as casas em Roma e mandar a outras partes. (Novembro de 1646)

Mostrar que a popularidade de D. João IV se estende ao estrangeiro

Mas nem por isso deixou o povo [de Roma] de se alvoraçar. Homens e mulhares andavam como doidos pelas ruas gritando VIVA’L RE D. GIOVANNE L’Quarto. (Fevereiro de 1642)

 

 

 

Mostrar que a popularidade de D. João IV se estende ao estrangeiro e é suficiente até para deter actos de pirataria

No segundo dia do mês entrou neste porto uma nau francesa, a qual (…) encontrou (…) uma nau de mouros que andava a corso e o pirata, depois de render o capitão, perguntou-lhe para onde fazia viagem, ao que ele respondeu que (…) era para a corte de El-Rei Dom João o Quarto de Portugal. Em consequência, mandou que nenhum soldado lhe fizesse agravo, logo lhe deu liberdade e sem lhe tomar de todas as mercadorias (…) mais do que um cunhete de passas e outro de figos, lhe disse que seguisse viagem, advertindo-lhe que em troca daquela fineza que usava com ele, não queria outro agradecimento senão que quando chegasse a Lisboa dissesse a El-Rei de Portugal que um capitão africano (…) o largara (…) somente porque lhe dissera que navegava para a corte do Sereníssimo Rei Dom João o Quarto de Portugal. (Abril de 1642)

Exagerar os feitos militares portugueses, rebaixando os do inimigo, contrapor o grande número de inimigos ao pequeno número de portugueses valentes e exagerar os danos infligidos, omitindo ou diminuindo os próprios.

Onze homens de Castro Laboreiro que estavam na trincheira viram no campo doze cavaleiros castelhanos que vinham em missão de reconhecimento e deram-lhes uma carga com que mataram sete, aprisionando os restantes, tomando-lhes as armas e os cavalos, e mandaram-nos presos a Valença. Vinham atrás destes cavaleiros trezentos infantes e sem saberem do que tinha sucedido aos batedores atacaram a trincheira, mas os onze mosqueteiros lhes deram cargas com que mataram alguns, e os demais fugiram, (...) [deixando] mortos e (...) cativos (...) 31. Dos nossos ninguém perigou. (Novembro de 1641)

 

 

Exagerar os feitos militares portugueses, rebaixando os do inimigo, contrapondo o grande número de inimigos ao pequeno número de portugueses valentes.

Envergonhados os castelhanos da ousadia com que os nossos entraram pelas suas terras quando foram à vila de Talavera, saíram ao campo e vieram marchando para Portugal até que chegaram à vista de Campo Maior. Rodearam a vila como se quisessem entrar, ou pelo menos fazer alguma presa. Porém, saíram-lhe quarenta cavaleiros, da gente do lugar, e pelejaram valorosamente com eles, mas como o partido era desigual mataram dos quarenta dezassete, e os 23 que ficaram foram continuando a batalha com bizarro coração até que os socorreu o terço dos holandeses, que a não ser isto sem dúvida perderiam ali todos a vida, porque os inimigos eram muitos mais, mas logo se retiraram, deixando no campo alguns mortos e feridos. (Dezembro de 1641)

 

Diminuir o inimigo

(...) os portugueses se socorrem tanto (...) da pena como (...) da espada, e assim por mais que nossos contrários [inimigos] finjam e escrevam, manifesta a verdade todos os seus triunfos se hão-de converter em tumbas, todos seus troféus em fúnebres aparatos e todo o seu riso em amargo pranto. (Janeiro 1645)

 

Mostrar o favor de Deus e insuflar ânimo para o futuro

mas aquele que quiser reduzir os seus pensamentos à gloriosa meta das vitórias e dos triunfos, tenha a mira no céu, que de lá de cima são guiadas todas as nossas acções, com segurança tal que não podem deixar de ter felicíssimo fim. (Janeiro 1645)

Mostrar o favor de Deus para insuflar ânimo para o futuro

É coisa notável e muito para considerar que depois do encontro que os embaixadores de Portugal e Castela tiveram, das muitas balas que de parte a parte foram atiradas, naquele lugar, onde foi a pendência, se vêem hoje clarissimamente, numa esquina, assinaladas cinco, em modo que representam as cinco chagas, armas do Reino de Portugal, que parece as estampou ali o Céu, por algum mistério oculto ao juízo dos homens. (Dezembro de 1642)

Realçar os êxitos imaginados ou reais da diplomacia portuguesa Restauracionista

Por carta de Londres de 28 de Maio de 1642 se sabe que no último   consistório o Papa Urbano VIII fez uma prática sobre a feliz aclamação de El-Rei D. João IV e resolveu que o bispo de Lamego fosse recebido como embaixador. (Abril de 1642)

 

 

 

 

 

 

Realçar os êxitos imaginados ou reais da diplomacia portuguesa restauracionista

Regressou Francisco de Sousa Coutinho, que tinha ido por embaixador de El-Rei nosso Senhor ao Reino da Suécia. Foi recebido com grandíssimo aplauso e deixou as pazes confirmadas. E trouxe três naus de guerra de mais de trinta peças de bronze, cada uma com um fidalgo, que vêm a este Reino da parte da Rainha da Suécia para assistir nesta corte. E já falou a El-Rei nosso Senhor. Trouxe muita artilharia de bronze, grandíssimo número de corpos de armas, mosquetes e 30 cravina, uma embarcação carregada de pólvora e alguns cavalos. Deu-lhe a Rainha uma cadeia de ouro que pesa 330000, uma jóia de diamantes com o seu retrato e a todos os que foram na sua companhia mandou dar uma cadeia de ouro, e escreveu a El-Rei nosso Senhor dando-lhe os parabéns pela Restauração do seu Reino e assegurando-lhe que com tudo o que pode, e com a própria vida, se empregará sempre em seu serviço [itálico nosso], e ultimamente lhe dá a sua palavra de que não fará nunca pazes com o Imperador, e que sendo caso que as faça será primeira condição que ele dará liberdade ao Senhor Dom Duarte (Novembro de 1641).

Realçar os êxitos imaginados ou reais da diplomacia portuguesa restauracionista

Logo alcançada a licença, com alvoroço e festa universal, entraram   [os diplomatas portugueses] na Corte de Londres, acompanhados de quarenta e tantos coches, em que vinham todos os cavaleiros da Jarreteira e todos os senhores titulares. (Dezembro de 1641).

Realçar os êxitos imaginados ou reais da diplomacia portuguesa restauracionista

De Génova e de Veneza se diz que foi lá bem recebida a deliberação da nobreza de Portugal e que se resolve que não se dará socorro contra El-Rei Dom Filipe mas que será admitido o embaixador de El-Rei Dom João o Quarto. (Novembro de 1641)

 

 

 

Realçar os êxitos imaginados ou reais da diplomacia portuguesa restauracionista

(...) porque se juntaram os cardeais em consistório, e que se guardasse uma bula antiga de um papa, que por algumas ocasiões semelhantes de seu tempo, ordenou que a Santa Sé Apostólica admitisse e reconhecesse por Rei e Senhor aquele que estivesse de   posse de seu Reino, gozando os frutos dele por um ano. (Outubro de 1642)

 

Avisam de Roma que o Padre Santo assentou e decretou em pleno consistório que a pessoa que estiver aclamada e levantada do povo por Rei do Reino e estiver um ano de posse, dando obediência a Sua Santidade o Papa de Roma, será recebida e admitida e confirmada por Rei e filho da Santa e Católica Igreja Romana sem nenhuma contradição. (Outubro de 1642)

Conotar preparativos de defesa da Santa Sé com a atitude do embaixador castelhano junto do Papado e com o ataque preparado por este, em Agosto de 1642, aos representantes de Portugal

Depois do acontecimento que aos 23 do dito mês de Agosto houve aqui [em Roma] entre o embaixador de Portugal e o de Castela, foram postos guardas em muitos lugares e se dobraram os que estavam nas portas dela com grandes penas de não deixar entrar pessoa alguma suspeita em favorecer a parte de Castela.

(...)

Sua Santidade mandou (...) ver os muros, com ordem de os fazer reparar com toda a diligência, e mandou derrubar todas as casas que estivessem pegadas a eles, assim de fora como de dentro. Fez justamente meter no castelo de Sant’Angelo dois mil barris de pólvora e grande número de outras munições de guerra (...). Porque o pouco respeito que o embaixador de Castela mostrou no cometimento do de Portugal deu a entender que não esperava mais do que a ocasião (como muitas vezes entre os seus se havia planeado) de empreender a descoberto alguma acção contra Sua Santidade. (Outubro de 1642)

Conotar positivamente a aclamação de D. João IV

feliz aclamação (Abril de 1642)

Mostrar como D. João IV é reconhecido como Senhor dos seus súbditos portugueses (forma de tratamento usual da época)

 

El-Rei nosso Senhor (a expressão é repetida em quase todas as circunstâncias em que se faz referência a D. João IV)

Mostrar como o Reino é legitimamente de D. João IV, reconhecido como soberano por outros soberanos

 

[A Rainha da Suécia] escreveu a El-Rei nosso Senhor dando-lhe os   parabéns pela Restauração do seu Reino.

 

Mostrar como o soberano legítimo D. João IV é reconhecido e aclamado até nos pontos mais distantes

No primeiro domingo da Quaresma, na Igreja de Santo Antão o Novo, disse o padre pregador aos ouvintes que dessem graças a Deus pelas boas novas que tivemos da Índia oriental, por um correio que veio a Itália por via da Pérsia, o qual não somente dizia que El-Rei nosso Senhor estava já naquelas partes aclamado Rei, com grande aplauso até dos príncipes mouros, mas também que andavam prósperas as armas portuguesas. (Março de 1642)

Mostrar como o soberano legítimo D. João IV é reconhecido e aclamado até nos pontos mais distantes

Veio de Goa à ilha Terceira uma naveta e outra de Onor à ilha de São Miguel. Dão algumas novas da Índia, entre as quais dizem que já em todas aquelas praças ficava aclamado El-Rei nosso Senhor. (Junho de 1642)

 

Mostrar D. João IV como bom administrador

Mandou El-Rei nosso Senhor que se devolvesse (...) o terceiro quarto dos juros, tenças e ordenados, que se pediu por empréstimo no ano de 1641, porque se tem achado que o dinheiro da décima e da vintena basta para a guerra. (Fevereiro de 1642)

 

Mostrar D. João IV como justo e capaz de administrar justiça

 

Segunda-feira foi El-Rei nosso Senhor à Relação. Propuseram-lhe o   caso do meirinho da Armada e do escrivão, que furtaram uma [grande] quantidade de barris de pólvora. Saiu o meirinho condenado à morte e o escrivão, por se constar que não teve culpa, saiu solto e livre. (Janeiro de 1642)

 

 

 

Mostrar D. João IV como piedoso

O conde de Castanheira, que estava preso numa torre de Setúbal, pediu a El-Rei nosso Senhor que lhe mudasse a prisão porque estava indisposto e El-Rei nosso Senhor usando de sua natural benignidade o mandou trazer para o castelo de Lisboa. (Novembro de 1641, itálico nosso)

 

[E mais tarde:]

 

O conde de Castanheira, o conde de Vale de Rei e Gonçalo Pires de   Carvalho estão já em suas casas. (Dezembro de 1641)

Mostrar D. João IV como generoso

Fez El_Rei Nosso Senhor mercê a um bisneto do Bandarra de uma capela[6] com que se pode sustentar suficientemente. (Dezembro de 1641)

Mostrar D. João IV como generoso para com os amigos de Portugal

Fez El-Rei Nosso Senhor mercê de mandar ao general da Armada da   Holanda uma cadeia de ouro e um anel de diamantes. Ao almirante, outra cadeia e outro anel de igual valor e do mesmo feitio. E a cada um dos capitães (que eram dezoito) sua cadeia de ouro. (Dezembro de 1641)

Mostrar D. João IV repetindo, com poder para tal, actos de outros monarcas portugueses, nomeadamente do fundador da nacionalidade

 

Fez El-Rei Nosso Senhor mercê aos frades Bernardos da comenda de Alcobaça, assim como lha deu El-Rei D. Afonso Henriques. (Janeiro de 1642).

 

Num mundo de profunda credulidade e religiosidade, mostrar fantasiosamente o favor divino à causa da Restauração

 

Num lugar da Beira se afirma que um homem, ouvindo dizer numa conversa de amigos que na feliz aclamação de El-Rei nosso Senhor fizera o crucifixo da Sé o milagre, que a todos é notório, disse se podia acaso a imagem do Senhor despregar o braço, e assim que acabou de dizer estas palavras caiu uma parede junto da qual estavam todos os da conversa e só a ele matou. (Novembro de 1641)

Num mundo de profunda credulidade e religiosidade, mostrar fantasiosamente o favor divino à causa da Restauração

Na comarca de Miranda falou um menino mudo e disse: “Viva El-Rei Dom João IV” [aspas nossas]. Isto se sabe de certo e agora se está fazendo um instrumento de testemunhas por ordem da Sé de Miranda. (Fevereiro de 1642)

Conotação da Restauração com o nacionalismo, traçando paralelos entre a Restauração e a resolução da crise dinástica de 1383-1385, realçando a figura mitificada do herói nacional das guerras contra Castela, D. Nuno Álvares Pereira

 

No Chiado havia um paço de figuras de cera (...) o qual representa a paz que o Cristianíssimo Rei de França fez com o Sereníssimo Rei D. João IV, nosso Senhor, cujas armas o Céu faça prosperar e em cujo favor se arme o braço divino, para que alcance tantas vitórias que iguale as do grande defensor da pátria o Santo Conde D. Nuno Álvares Pereira. (Dezembro de 1641).

Mostrar a determinação dos portugueses na defesa do seu país (até as mulheres combatiam)

Na Aldeia da Ponte, junto à vila de Alfaiates, perto da cidade da Guarda, deram os castelhanos de Ciudad Rodrigo, mas a gente do lugar tomou as armas. Acudiram à defesa até as mulheres. Pelejou-se com tanto valor que rechaçaram o inimigo, com alguns mortos e muitos prisioneiros. (Março de 1642)

 

Gazeta “da Restauração” mostra, efectivamente, que as elites portuguesas do século XVII tinham uma percepção bastante apurada das técnicas da persuasão propagandísticas, tal como o materializaram os redactores deste periódico, que procuraram por vários meios legitimar o novo regime, congregar a nação em torno do novo Rei e animá-la a resistir, ao mesmo tempo que procuravam denegrir e rebaixar Castela, enquadrando-a como nação inimiga, apesar da união que durante 80 anos tinha irmanado os povos ibéricos. Outra táctica, aliás, não seria de esperar numa época em que os retóricos da Antiguidade Clássica eram ensinados e estudados. Assim, na Gazeta usam-se recursos propagandísticos como:

 

1) A distinção entre o nós e o elesnós e o inimigo;

2) O apregoar do isolamento do inimigo (eles contra o mundo);

3)  O engrandecimento dos próprios feitos e a diminuiçãosupressão ou mesmo deturpação dos feitos “deles” (as meias-verdades), provocando uma perspectiva forçadamente dissonante da realidade;

4) A imposição de enquadramentos ideológicos, defensores da causa independentista e da legitimidade do novo Rei, às mensagens noticiosas, associando repetidamente ideias negativas aos castelhanos e aos respectivos aliados imperiais e ideias positivas aos independentistas rebeldes portugueses, aos independentistas rebeldes catalães (cuja luta era enquadrada como sendo similar à portuguesa – uma luta pela liberdade de uma nação), à Holanda e ao país que Portugal mais queria ver como aliado: a França.

5) A repetição dos enquadramentos nas mensagens ao longo do tempo (eles são “maus” e “opressores”, comparados connosco, “oprimidos que se libertaram”);

6) A personalização do inimigo, em particular na figura de El-Rei D. Filipe IV e do conde-duque de Olivares, ou ainda na figura do Imperador, para que os ódios pudessem ser direccionados; e também a personalização de Portugal na figura de D. João IV, para que os amores pudessem ser direccionados;

7) O enquadramento histórico, visível, por exemplo, na evocação das vitórias de D. Nuno Álvares Pereira face a Castela durante a crise de 1383/1385, que permite sustentar na história o discurso independentista e a legitimação e validação, interna e externa, da dupla ruptura de Portugal face a Espanha e da Casa de Bragança face a D. Filipe III. Nessa “legitimidade histórica” se sustentaria também, em parte, a aclamação de um novo Rei, um Rei “natural”, D. João IV.

 

Propagandisticamente, os êxitos militares portugueses são sempre relevados e os insucessos omitidos. Acontece o mesmo no domínio da diplomacia. O regresso dos portugueses em Espanha ao seu país, muitos deles fugidos dos castelhanos, também incentivava os ânimos nacionais e servia de exemplo. As notícias sobre os insucessos das Armas Castelhanas e dos seus aliados no estrangeiro fortaleciam os ânimos dos independentistas nacionais e desalentavam os partidários portugueses de D. Filipe IV (que também os havia, mesmo que encapotados).

Shoemaker e Reese (1996: 114) dizem que as histórias jornalísticas, para serem atraentes, tendem a integrar os mitos mais proeminentes numa determinada cultura. As histórias narradas nas gazetas aqui estudadas são, também, narrativas míticas sobre Portugal, pois insinua-se nelas o mito da Independência de Portugal, ou seja, a pretensão de que o país deveria ser independente de Espanha e ter um “Rei natural”. Nesse sentido, a evocação de personagens e acontecimentos da história de Portugal, como o herói de Aljubarrota e dos Atoleiros D. Nuno Álvares Pereira, ajuda a enquadrar o discurso. Explorando alegadas similitudes entre a situação vivida por Portugal no final do século XIV e a Restauração da Independência em 1640, usa-se a história para evidenciar a legitimidade deste último acontecimento. Observa-se, por outro lado, uma intervenção afirmativa da voz dos redactores na enunciação, sempre em torno dos objectivos propagandísticos já equacionados: “No Chiado havia um paço de figuras de cera (...) o qual representa a paz que o Cristianíssimo Rei de França fez com o Sereníssimo Rei D. João IV, nosso Senhor, cujas armas o Céu faça prosperar e em cujo favor se arme o braço divino, para que alcance tantas vitórias que iguale as do grande defensor da pátria o Santo Conde D. Nuno Álvares Pereira” (Gazeta do Mês de Dezembro de 1641). É óbvia, nessa passagem, a equiparação de índole nacionalista entre a ameaça à independência do final do século XIV e a situação vivida por Portugal na década de quarenta do século XVII.

Por outro lado, as referências às cerimónias com que obsequiavam os diplomatas portugueses além fronteiras sugeriam a importância do Portugal Restaurado no contexto internacional e reforçavam a legitimidade do novo poder: “Logo alcançada a licença, com alvoroço e festa universal, entraram na Corte de Londres, acompanhados de quarenta e tantos coches, em que vinham todos os cavaleiros da Jarreteira e todos os senhores titulares.” (Gazeta do Mês de Dezembro de 1641).

Numa época de profunda religiosidade cristã, era igualmente inevitável que a propaganda da Monarquia Restaurada associasse os actos dos conspiradores e a ascensão ao trono do novo Rei a sinais de Deus. O mundo, quiçá para a maioria dos portugueses de Seiscentos, só fazia sentido como um espaço de intervenção constante de Deus e Deus teria agido no primeiro de Dezembro de 1640 em favor de Portugal. Consequentemente, para se construir a ideia de que a dinastia brigantina era legítima e que D. João IV era o “rei natural” dos portugueses, substituindo o Rei tirano (D. Filipe III), que teria quebrado o contrato “constitucional” com os seus súbditos, a Gazeta associa a acção dos conspiradores e do novo Rei a sinais de que Deus os favorecia, inclusivamente castigando os incréus. Logo no primeiro número, por exemplo, a Gazeta relata o episódio de desprendimento de um braço de uma figura de Cristo num crucifixo da Sé, como se fosse um sinal de que Deus estava com os conspiradores. Segundo o primeiro periódico luso, um descrente nesse suposto milagre foi castigado por Deus ao exprimir a sua dúvida durante uma conversa: caiu uma parede que só a ele matou. Dentro da mesma táctica, surge a utilização, intencional ou crédula não se sabe, da seguinte notícia fantasiosa: “Na Comarca de Miranda falou um menino mudo e disse: Viva El-rei D. João IV” (Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642). É de dizer, no entanto, que a utilização de notícias de acontecimentos insólitos para, explorando a credulidade e religiosidade populares, reforçar a legitimidade de D. João IV, podendo ter sido, ou não, intencional, pode não ter dado resultado, já que contradizia a experiência do mundo dos próprios receptores.

Os actos em que D. João IV surge a decidir, ou a oferecer clemência, também servem a causa legitimista do novo Soberano, em especial quando são associados aos actos de outros Monarcas portugueses, nomeadamente do fundador da nacionalidade, como acontece na seguinte notícia: “Fez El-Rei Nosso Senhor mercê aos frades Bernardos da comenda de Alcobaça, assim como lha deu El-Rei D. Afonso Henriques.” (Gazeta do Mês de Janeiro de 1642).

Gazeta também cobria acontecimentos particulares, como, no caso seguinte, o sermão de um padre que anima o povo e lhe incute respeito pela legitimidade de D. João IV com boas novas de terras distantes: “No primeiro domingo da Quaresma, na Igreja de Santo Antão o Novo, disse o padre pregador aos ouvintes que dessem graças a Deus pelas boas novas que tivemos da Índia oriental, por um correio que veio a Itália por via da Pérsia, o qual não somente dizia que El-Rei nosso Senhor estava já naquelas partes aclamado Rei, com grande aplauso até dos príncipes mouros, mas também que andavam prósperas as armas portuguesas.” (Março de 1642) A notícia anterior, ademais, demonstra a importância que o púlpito teve para a propaganda da causa da Restauração.

Ainda são relevantes para a propaganda a exaltação regular do novo Rei e da nova Casa Real, conforme se observa na tabela atrás inserida, em especial no primeiro período da publicação. No entanto, essa exaltação por vezes era mais complexa, salientando-se a tripla legitimidade de Dom João IV ao Trono Português:

 

1. Legitimidade dinástica, como sucessor de Dona Catarina de Bragança e de Dom Henrique, sucessão essa que fora interrompida pela força (a intervenção de Dom Filipe I de Portugal, II de Espanha, no país, em 1580);

2. Legitimidade de ser Rei “natural”, aclamado pelos três estados da Nação Portuguesa na sua totalidade: nobreza, clero e povo;

3. Legitimidade de facto, já que era Rei de facto há dois anos, assim reconhecido por outros Reis e pelos seus súbditos e igualmente obedecido por estes.

 

Essa tríplice legitimidade é referida, por exemplo, no protesto que o bispo de Lamego, embaixador enviado por D. João IV à Santa Sé, fez ao Papa, quando saiu de Roma sem ter sido recebido pelo Santo Padre. Esse protesto foi anunciado na primeira página e publicado na íntegra (sinal de que o bispo mantinha correspondência regular com a Gazeta ou, pelo menos, com alguém da Corte, que dela dava conhecimento aos redactores do periódico):

 

Gazeta do Mês de Abril de 1643

De Leão, aos 10 de Março

Esta semana, passou por esta cidade, a caminho da Corte, o senhor de la Iarrie-Montígni, gentil-homem do embaixador da França em Roma (…). Trouxe por novas que (…) quanto ao bispo de Lamego (…) não haveria o Papa de o receber por embaixador porque os castelhanos publicavam que estava irregular, por haver tomado armas no encontro do embaixador de Castela com ele, que é coisa galantíssima, mas que sem dúvida receberia o primeiro embaixador que tornasse de Portugal (…). Quando o ilustríssimo de Lamego, embaixador de Portugal, saiu da corte de Roma, fez um protesto a Sua Santidade nestes termos

Santíssimo Padre e Bendito Senhor:

Dom Miguel de Portugal, bispo de Lamego, representa a Vossa Santidade com este memorial, por não ter licença para o fazer ajoelhado aos pés sagrados de Vossa Santidade, como logo que os três Estados do Reino de Portugal aclamaram por Rei ao Sereníssimo Rei Dom João IV, Duque de Bragança, como sucessor universal da Sereníssima Senhora Dona Catarina, Sua Avó, usando da faculdade, que de direito lhes competia, para resolver, julgar e determinar a devida sucessão por morte do Sereníssimo Rei Dom Henrique, que falecera sem descendência. Foi ele o orador designado por aquela Majestade para, em seu nome, vir render obediência a Vossa Santidade e impetrar sua bênção apostólica. E sendo entrado nesta Cúria a 20 de Novembro de 1641, e procurando dar cumprimento à sua missão, beijando os pés sagrados de Vossa Santidade, foi ordenado fizesse informar primeiro a congregação que Vossa Santidade para tal efeito deputasse. E dando execução a esta ordem, por palavra e pró escrito, não só se não tomou resolução no substancial da aceitação desta obediência mas nem ainda se lhe permitiu chegar à presença de Vossa Santidade. Do que sendo informado a Majestade do dito Rei da desautoridade e pouca segurança com que ele orador assistia nesta Corte, houve por bem resolver que se até outro tal dia 20 do presente mês de Novembro, no qual se cumpre um ano inteiro de sua entrada nesta Cúria, Vossa Santidade não fosse servido de o admitir como embaixador ou assinalar o dia para o fazer, se houvesse por respondido e saísse de Roma, por quanto da parte de Sua Majestade se tinha (…) feito notório ao mundo tudo quanto inteiramente cumpria com a obrigação de Rei Católico e obediente filho da Igreja Romana e Sé Apostólica, acudindo logo que foi restituído aos Reinos que de direito, e justiça clara, lhe pertenciam, e com violência lhe haviam sido usurpados, dos quais plenamente em todas as partes e membros daquela Coroa estava de posse há dois anos, jurado e obedecido, sem dúvida nem contradição, e dá a devida obediência a Vossa Santidade em Seu nome e de Seus Reinos, reconhecendo-o e venerando-o como pai universal do povo Cristão, cabeça da Igreja Católica e Sucessor do Apóstolo São Pedro, sem pedir a Vossa Santidade declaração ou confirmação do título de Rei, da qual não necessitava, nem ajuda para se defender e sustentar, nem outra coisa mais do que a bênção apostólica de Vossa Santidade. Sendo também notório que os gloriosos Sumos Pontífices predecessores de Vossa Santidade admitiram sempre as embaixadas e receberam sem contradição a obediência de príncipes possuidores de Reinos, e ainda dos intrusos, sem que jamais excluíssem nem os dos hereges e infiéis. E havendo um ano que só a este negócio assistia ele, orador, nesta Cúria, fazendo tantas instâncias e tão apertadas diligências para ser ouvido e admitido, provando com evidentes razões, exemplos e documentos a precisa obrigação que havia para ser recebida esta embaixada, não só se lhe não deferiu, mas nem ele, orador, foi ouvido, como pretendente ordinário, negando-se-lhe a entrada a Vossa Santidade ainda privadamente, para se lhe representar o escândalo e graves inconvenientes que podia resultar de assim ser tratado, dando-se com isto ocasião a se poder presumir que obravam mais com Vossa Santidade as contradições de El-Rei de Castela, que justiça e obrigação da Suprema Igreja, que não havia de atender a outra dependência mais do que à mesma justiça, sem se inclinar a probabilidades temporais em matéria meramente espiritual, qual é um acto de Rei cristão render obediência ao vigário de Cristo. Assim que havendo Sua Majestade cumprido tudo o que devia, ficava por conta dos que aconselham Vossa Santidade o haverem de dar diante do divino tribunal dos danos que se seguissem da resolução tão pouco esperada e que não podendo a reputação real tolerar mais tempo a falta de estima e pouco respeito com que é tratado publicamente, era forçoso reconhecer o desengano de que neste Pontificado não havia que esperar melhoria do agravo que se lhe tinha feito, preservando para outro a emenda e satisfação dele, pelo que com a devida reverência e humildade, prostrado de novo aos sagrados pés de Vossa Santidade, pede ele, orador, (…) se sirva Vossa Santidade de considerar com piedade paternal as demonstrações que por parte de Sua Majestade se têm feito, as desconsolações e desordens que presentemente se padecem naquele Reino, no espiritual, e os perigos e danos que podem resultar ao diante para que inclinado à sua natural piedade e justiça queira aceitar a obediência do dito Rei e Reino e lançar-lhes sua bênção apostólica.

 

A notícia anterior é reveladora da revolta, mas também, possivelmente, da angústia que, em Lisboa, provocavam os fracassos das iniciativas diplomáticas portuguesas junto da Santa Sé por causa da oposição espanhola. Ao chamar a atenção para o fracasso da diplomacia portuguesa, a referida notícia, verdadeira, poderá ter provocado o desânimo nas hostes portuguesas, mas também poderá tê-las incentivado a persistirem na sua acção e no apoio à causa brigantina, cujo embaixador real e, por seu intermédio, Dom João IV, tinham sido desconsiderados, afrontados e vexados pelo Papa.

Num outro registo, nas batalhas os portugueses são quase invariavelmente aclamados como valentes e astuciosos, capazes de superarem as desvantagens numéricas graças a esses atributos:

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

Aos campos de Moira vieram 300 cavaleiros e alguns mosqueteiros castelhanos e levaram quanto gado havia naquele distrito, que foram 40 mil cabeças e muitas cavalgaduras que para várias partes iam carregadas de fato. Saiu em sua perseguição o capitão Dom Henrique Henriques com a sua companhia (que era de 60 cavaleiros) e com 40 mosqueteiros. Três léguas os seguiu, embaraçando-os com uma e outra carga, até que das vilas de Santo Aleixo e de Safara vieram em seu socorro 90 mosqueteiros, os quais o sargento-mor agregou aos 40 e de todos fez um batalhão, com que foi marchando meia-légua até chegar à ladeira dos vales de Aroche. Aqui deram os castelhanos três cargas sem lhe fazerem mais dano que matarem-lhe um cavalo e logo os nossos deram neles e não somente tomaram toda a presa mas também tiraram a vida a 40 homens e renderam a 14 e se retiraram vitoriosos com muitos despojos, em que havia 15 cavalos, espingardas, pistolas, carabinas, selas e vestidos. Depois de passado o conflito, vieram quatro cavaleiros castelhanos àquele mesmo posto buscar o corpo de um tenente que morrera na batalha, mas os nossos os colheram e ,ataram três e trouxeram o outro prisioneiro, o qual afirmou que os castelhanos, que se retiraram feridos, morreram quase todos. Houve tão horrível destroço assim de gente como de cavaleiros no exército inimigo que, diz pessoa digna de crédito, com a grande quantidade de sangue correra vermelha a ribeira de Chaaça.

 

Noutras ocasiões, conforme era costume na guerra de então, os portugueses conseguem presas valiosas ou sequestros de guerra susceptíveis de vir a render um bom resgate, perdendo sempre, segundo as notícias, menos homens do que o inimigo (as Relações de Manuel Severim de Faria, por exemplo, eram mais sinceras neste balanço entre mortos e feridos portugueses e inimigos – cf. Sousa, coord., 2006). Eis dois exemplos de notícias de saque e sequestros, ambas obedientes a um modelo de narração diacrónica:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

O conde de Alba de Liste e o marquês de Alcanises, aos 10 de Outubro, entrarão pela vila de Ifanes e Malhadas com dois mil homens com ânimo de tomarem as munições e a artilharia que desta corte se mandava para a cidade de Miranda. Porém, os nossos prenderam-lhe junto à vila de Duas Igrejas (por onde o comboio havia de passar) o espião que lhes havia dado o alvitre e ensinado o caminho e com a sua prisão mudaram de intento e se foram. Logo chegou o comboio ao lugar de Duas Igrejas onde, com grande pressa, se recolheu (…). Fizeram os inimigos na retirada algum dano. Porém, Rui de Figueiredo de Alarcão, fronteiro-mor de Trás-os-Montes, e Pêro de Melo, capião-mor e superintendente das armas na cidade de Miranda, juntaram três mil soldados de infantaria e com cavaleiros e com dois mil soldados de infantaria mais que lhes mandou Francisco Sampaio, fronteiro-mor da Torre de Moncorvo, de que era cabo Domingos de Andrade Correia, foram a Brandilanes, a cinco léguas de Miranda, onde o inimigo estava feito forte, e depois de duas horas de batalha, ganharam a trincheira e mataram 70 homens. Os demais retiraram-se para uma igreja, onde resistiram até que os nossos puseram fogo a um barril de pólvora, para que eles cuidassem que os queriam matar e se entregassem, o que fizeram, mas ficaram mortos quatrocentos, entre os quais morreu Dom Inigo de Balandria, governador da cavalaria. Saquearam os nossos o lugar e vitoriosos com mais de 300 armas de fogo, muito fato, grande número de gado e outros muitos despojos. Da nossa parte morreram sete ou oito homens.

 

Gazeta do Mês de Agosto de 1645

Na nossa fronteira do Alentejo entrou Fernão Martins de Ayala, tenente do capitão Manuel da Gama, filho de Fernão Gomes da Gama, quinze ou dezasseis léguas por Castela dentro, com somente nove homens, e entre Trusilho e Mérida encontrou ao conde de inguen natural de Bruxelas, cavaleiro do Tosão, mancebo de alguns 24 para 25 anos, o qual vinha à ligeira com três criados, em mulas de aluguer, a caminho de Badajoz, a servir o cargo de general de cavalaria, porque ao barão de Molinguen havia El-Rei Católico feito mestre de campo general, e fez ao dito conde prisioneiro, trazendo-o a Elvas, de onde passou para o castelo de Belém.

 

Indirectamente, uma notícia conotou-se com a causa restauracionista. Trata-se da queda em desgraça do conde duque de Olivares, valido de El-Rei D. Filipe III (IV de Espanha), grande responsável pela estratégia de miscigenação forçada dos assuntos de Portugal e de Espanha que acabou por ter por consequência, entre outras, a conspiração que levou Portugal à independência e a Casa de Bragança ao trono. Os nobres portugueses envolvidos na conjura da Restauração não terão deixado de se regozijar com a notícia:

 

Gazeta do Mês de Março de 1643

De Narbonne aos ditos 4 de Março de 1643

A desgraça do conde duque de Olivares nos foi confirmada com estas particularidades. Mandou El-Rei de Castela aos 17 de Janeiro ao conde duque um bilhete escrito por sua mão pelo qual lhe mandava que para satisfação de sua consciência e a de seus povos, convinha deixar a gestão dos seus negócios. Desde aquele dia até aos 22 do mesmo mês se ocupou em dar expedição a muitos negócios em favor dos seus amigos e em queimar muitas outras cartas e papéis cuja memória queria sepultar com a de seu cargo. Aos 23 retirou a Lechez, que é um convento de religiosos, a cinco léguas de Madrid, novamente edificado pró sua mulher. Mas sendo entrado nele, teve ordem de El-Rei de não tornar a sair sem sua licença. Diversamente se fala das causas desta desgraça, porém entende-se que as principais foram o seu próprio governo e os desastrados acontecimentos das coisas de Espanha, desde a sua incapacidade na tomada de Perpinhão à ruína do Exército de Aragão. Também se diz que o Rei da Hungria[7], por meio do seu embaixador em Madrid, e a duquesa de Mântua, antes governadora de Portugal, foram grande ajuda para o fazer mal visto perante o seu senhor, porque tendo a dita duquesa, por meio da Rainha de Castela, ordem para desculpar-se com El-Rei seu marido dos defeitos que lhe atribuíam, aos quais imputavam o levantamento (digamos assim) do Reino de Portugal, ela os lançou todos ao conde duque, e fez ao dito Rei de Castela a tomar mais conhecimento dos seus negócios do que antes tinha e assim pôs no lugar do dito conde duque a D. Fernando de Bórgia, gentil-homem da sua câmara, se bem que não lhe tenha concedido tanta jurisdição [sobre os negócios do Reino, em comparação com a que teve o conde duque de Olivares].

 

Deve ainda sublinhar-se que a Gazeta não servia exclusivamente para a propaganda tout-court, pois também funcionava como agente de contra-informação, arrogando-se, por exemplo, o direito de desmentir alegados boatos que se teriam instalado entre o “vulgo”, enquadrado equivocadamente como uma massa amorfa e não por pessoas capazes de pensar: “(…) o vulgo (...), encaixando-se-lhe (...) na cabeça qualquer nova que ouve (...), como a da saída que, dizem, fez o inimigo de Badajoz, (...) já (...) afirmava que [o inimigo] tinha cercado Ouguela e (...) Campo Maior, como se ele não soubesse muito bem o presídio com que estas como as demais praças fronteiras estão.” (Agosto de 1645) De facto, o excerto anterior documenta que já no século XVII se tinha propagado entre as elites a ideia errónea de que as pessoas comuns são uma espécie de massa que consome a informação todas da mesma maneira e sem quaisquer mecanismos de defesa contra a persuasão.

Apesar de tudo, a situação política era complexa e nem todos os portugueses apoiaram a ascensão da Casa de Bragança à soberania sobre o País e a aclamação de D. João IV. Para uma parte dos portugueses, nomeadamente para vários aristocratas e nobres, D. Filipe III continuava a ser o legítimo Rei de Portugal e D. João IV um mero usurpador. No entanto, o redactor da Gazeta enquadra sempre a situação com falsa clareza: há nós e há eles. Nós, os portugueses, eles, os castelhanos. As dissensões só pontualmente são referidas e sem se chamar a atenção para elas.

 

 

A noticiabilidade

De que fala a Gazeta? Também aqui não se encontram muitas variações em relação ao que certamente encontraríamos em jornais contemporâneos, pois as qualidades que dão valor noticioso aos factos (os valores-notícia ou critérios de noticiabilidade), como já dissemos, são historicamente estáveis. Grosso modo, foi notícia aquilo que ainda hoje é notícia. Tal como referiu Stephens (1988), privilegia-se (e privilegiou-se) o extraordinário, o insólito, a actualidade, a referência a pessoas de elite, a transgressão, as guerras, a tragédia e a morte. Ontem, como hoje, são estes critérios que decidem o que foi e o que será notícia. Apesar de o jornalismo ter passado por várias fases históricas, os assuntos abordados, mantiveram-se estáveis, sofrendo poucas alterações. 

Vejamos:

 

 

Extraordinário e Insólito

Os homens e as mulheres do século XVII viviam num mundo que lhes era, ainda, algo desconhecido. Daí que fosse aceitável e comum a profusão de notícias fantasiosas, extraordinárias, supostos milagres, relatos imaginativos ou narrações incríveis, não com intenção de veicular mentiras, mas porque as pessoas (redactores e leitores) acreditavam naquilo que era descrito, quer devido à sua profunda religiosidade, quer por causa da sua extrema credulidade. Estas notícias procuravam, ainda, de alguma forma, creditar a aclamação do Rei e creditar o seu governo. Na Gazeta temos exemplos dessas mesmas notícias:

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

Na Comarca de Miranda falou um menino mudo: e disse: VIVA EL REI DOM JOÃO IV. Isto se sabe de certo; e agora se está fazendo um instrumento de testemunhas por ordem da Sé de Miranda.

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641 

Num lugar da Beira se afirma que houve um homem, que ouvindo dizer numa conversação de amigos que na feliz aclamação de El-Rei nosso Senhor fizera o crucifixo da Sé o milagre, que a todos é notório: disse que podia a caso a imagem do Senhor despregar o braço; e assim como acabou de dizer estas palavras caiu uma parede junto da qual estavam todos os da conversação, e só a ele matou.

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

Em a cidade de Stugard em Alemanha, no fim do ano passado, e princípio deste, foram vistos doze prodígios; a saber: o primeiro que choveu duas vezes sangue na dita cidade, e seus contornos. 2. que a terra se estremeceu ali extraordinariamente. 3. que todas as portas de seu Castelo se abriram por si mesmas. 4. que o sino do Castelo tanguem por si mesmo. 5. que no mesmo lugar foi ouvido um ruído , e um estrondo tão espantoso, que temendo o Duque e sua corte, que se queria de todo arruinar, quiseram mudar-se a Kirkenheim. o 6 que dentro da Câmara do Duque foi ouvido um uivo espantosíssimo, sem saber a causa dele.7. que querendo o Duque fazer viagem, já mais os cavalos puderam passar avante, nem tornar atrás: e que apareceram no ar dois homens, um com uma foice, e outro com um alfange nas mãos: o primeiro, como quem andava cegando, e o segundo jogando com o dito trançado, à direita, e à esquerda. 9. que o Céu se abriu, e apareceu por muito tempo aceso em fogo. 10. que um cão negro (cuja vista foi sempre funesta aos Duques desta casa) apareceu, e desapareceu logo. 11. que foi ouvido um trovão grandíssimo, estando antes o ar muito claro e sereno, de que todos ficaram com grande admiração. 12. que uma cadela se acendeu por si mesma e a capela dos paços do mesmo Duque. Os sucessos farão ver a verdade, ou para melhor dizer, vaidade destes agouros.

     

Gazeta do Mês de Junho de 1643

No mesmo dia dezasseis sucedeu, que estando os Hereges na sua Igreja, fazendo suas rezas, e pedindo a Deus desse graça ao novo Rei de França, para lhe suceder quanto seu pai lhes havia concedido no dia, que tomou esta cidade, os quais seriam passante de quatro mil almas, assim homens, como mulheres, viram subitamente descer de uma brecha um homem com duas espadas de fogo nas mãos: fosse o que fosse todos desamparam o lugar, sem ficar pessoa dentro: sobre o que há muitas coisas, e temem os Hereges os extinga Deus totalmente do Reino de França, como confiamos em sua misericórdia. 

 

 

Actualidade

Para os homens e mulheres do século XVII, a actualidade não era vivida como o é nos dias que correm. As notícias, nomeadamente as da Gazeta, eram veiculadas com uma frequência mensal, mas não era por isso que perdiam a sua actualidade. Contar no início do mês de Março, o que aconteceu durante o mês de Fevereiro era manter a actualidade necessária para se poder considerar o critério “actual” como pertinente na escolha do que seria, ou não, notícia.  

 

Gazeta do Mês de Maio de 1642

A onze do mês se benzeram as duas fragatas que se fabricaram na ribeira das naus. Disse missa o Bispo Capelão mor e deu, por nome, à maior, São João Baptista e, à mais pequena, são Teodósio, em graça do nome de Sua Majestade e do Príncipe nosso Senhor.

 

Gazeta do Mês de Junho de 1642 

Chegou a este Porto uma nau da Rochela, em que vieram alguns portugueses de Itália e da Catalunha.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Dia de Reis às quatro horas da tarde, saíram os Reis de armas com suas cotas bordadas e os maqueiros com trombetas, atabales e muitas outras festas foram discorrendo por todas as praças e pelas ruas mais frequentadas da Cidade, publicando as pazes, que El-Rei nosso Senhor fez com a Rainha da Suécia.

 

 

Referência a pessoas de elite

Quanto mais importante era uma pessoa, mais interessava escrever sobre o que lhe acontecia. Mortes, nascimentos, conquistas, derrotas, proezas ou até acontecimentos mais banais do quotidiano de determinadas personalidades, enchiam as páginas da Gazeta, não só a nível nacional, como também internacional.

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1642

O General Major Enkensert chegou a Viena. O Coronel Wank Sueco, Governador de Olmutz, tem tomado numa das suas saídas quantidade de gado, e de pão, que logo fez recolher na sua praça: tomou mais, e saqueou a Tobischaw. É certo, que o Coronel Schlarg Sueco, matou 500. Croatas ao Conde de Bruè, e fez prisioneiro ao Coronel Heister com outros muitos.

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

Chel da Rainha, que era Maese de Campo em Tatragona, está agora na Corte de Madrid esperando que o despachem. No seu ligar ficou o Conde de Aguiar Marques da Inojosa.

 

Gazeta do Mês de Setembro de 1643

Aos seis deste mês o senhor de Bonnella Ballion foi provido no cargo de secretário das ordens DelRey.

 

 

Transgressão

Notícias sobre transgressões à ordem, no século XVII, e respectivas punições eram, também, frequentes, na Gazeta. Esta referência ao que era norma e desvio servia, essencialmente, para fazer um elogio à justiça exercida pelo Rei.

 

Gazeta do Mês de Junho de 1643

Em dezasseis do corrente matou nesta cidade da Rochela uma mãe a quatro filhos, em que entrou uma filha já mulher de catorze anos, e os degolou a todos na cama: a qual mulher foi levada presa a Paris.

 

Gazeta do Mês de Outubro de 1642

Trouxeram também preso um sacerdote, que meteram na torre. Acharam em diversas partes grande quantidade de munições, e tomaram 5 carroças carregadas delas, que vinham de Cobham junto a Grauesent. Mais outras 5, também carregadas da casa do Arcebispo de Lambeth, 7 mais da casa do Senhor João Haydon, um valido de El-Rei. Além disto trazem tanta gente de diferentes partes, que senão pode dela dar razão.                                                                                

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

A uma aldeia, que está entre Alcoutim, e Castro Marinho, vieram cinco barcos longos de Castelhanos, e saquearam uma ermida de Santo António, sem deixarem os sinos, nem as portas; e depois de queimarem algumas choças, que naquele distrito havia, se recolheram levando o mesmo santo com grande festa, e algazarra, como que o levavam cativo. Chegou isto à notícia de Dom Francisco de Castelo Branco; que estava em Castro Marinho, e mandou logo meter uns mosqueteiros em barcos, os quais saíram do rio, e tomaram três barcos longos de Aiamonte, e dois de são Lucas de Guadiana, com gente que ia neles.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Entre as pedreiras de Alcântara se acharam dois homens falsificando o cunho da moeda receada: ambos foram condenados na pena da lei: um deles padeceu no mesmo dia, em que El-Rei nosso senhor veio de Alcântara: o outro, por ver se podia embaraçar a execução, ou pelo menos dilatá-la, confessou que havia cometido o crime de heresia: foi remetido ao tribunal do Santo Ofício: e daí a doze dias tornou para a cadeia pública, de onde saiu a padecer a mesma morte, que o primeiro.  

 

 

Guerras

Numa época em que a paz não era uma constante e que os conflitos bélicos aconteciam a toda a hora, a todo o momento e em todo o lugar, as notícias mais veiculadas eram, sem dúvida, as notícias sobre guerras ou conflitos. A Gazeta, usando informações obtidas não só na capital portuguesa, mas também com base em notícias obtidas em jornais estrangeiros, conseguia informar os seus leitores acerca do que se ia passando em Portugal e no resto da Europa, com especial destaque para os países mais próximos geograficamente (Espanha, França, Itália, …). Por vezes, como se vê no primeiro exemplo, as descrições do conflito são extensas e altamente pormenorizadas.

 

Gazeta do Mês de Junho de 1642

Na vila de Penamacor se foi o General Fernão Telles de Menezes para Almeida por ter aviso de que o inimigo pretendia fazer algumas entradas por aquelas partes, e a 28. de Maio saíram da Aldeia do Bispo (uma vila de Castela, que dista de Almeida meia légua) algumas tropas de infantaria, e de cavalos, e foram correr o campo junto a um lugar nosso, que se chama Vale de Mula, donde fizeram presa no gado que andava pastando muito longe dos muros. Tocou-se logo o rebate: e o Tenente General da cavalaria João de Saldanha de Sousa, saiu com algumas tropas, e se foi a Vale de Mula, a tempo que os Castelhanos estavam já da banda de além de um rio, que haviam passado, e no alto de um monte, que está perto de aldeia do Bispo. Passou ele também o rio, e passaram em seu socorro com 60 de cavalo os capitães Rui Tavares de Brito, Cristóvão de Sá de Mendonça, e Cristóvão da Fonseca Cardoso. Chegou ao posto, de donde se viu a cavalaria do inimigo, que andava escaramuçando junto às suas trincheiras, favorecida da sua infantaria. Haviam-se adiantado alguns dos nossos, aos quais investiram os Castelhanos, e se começou uma travada escaramuça; durou largo espaço de tempo: pelejaram valorosamente Monsenhor de Mongrol Alferes do Coronel Sebastião da Mahè, António da Fonseca Ajudante de cavalaria, Francisco Valente da Costa Capitão de infantaria, e Nicolau de Paiva de Albuquerque Alferes do Tenente General, a quem naquele dia feriram o cavalo. Mandou o Tenente General pedir licença ao General Fernão Teles de Menezes para investir a Vila de Aldeia do Bispo, e não lha concedeu: assim porque havia grande risco na empresa, em razão da pouca gente, com que se achava o Tenente General, como também porque queria ir ele mesmo. E a 29 de Maio saiu de Almeida à uma hora depois da meia noite: levava a vanguarda da cavalaria o Tenente General, ia com ele o Capitão de Guarda Dom Lourenço de Sousa, que assim nesta como em todas as mais ocasiões o acompanhou sempre, dando grandes mostras de valor, e de zelo do serviço de S. Majestade, também foram em sua companhia os Capitães Rui Taveira de Brito, António de Carvalho de Vasconcelos, e Diogo Ribeiro Homem, sujeitos, dignos de grande estimação por seu valor. Seguia-se logo o Capitão Puplinier, a quem o Tenente General entregou uma tropa de cavalos, donde havia sete, ou oito Franceses todos oficiais, ia na retaguarda da cavalaria o Capitão Cristóvão da Fonseca Cardoso com a sua companhia. O Mestre de Campo D. Sancho Manuel levava a vanguarda da infantaria, ao qual acompanhavam por ordem com os seus roços os Capitães Nuno da Cunha de Ataíde, Duarte de Miranda Henriques, Alonso de Touar, António de Andrade de Gamboa, Francisco Valente da Costa, Manuel Teixeira Homem. Marchava logo o General Fernão Teles de Menezes, a quem dava guarda o Capitão Cristóvão de Sá de Mendonça com a sua companhia de cavalos, ia na retaguarda o Sargento-mor Lourenço da Costa Mimoso. Desta maneira chegaram à visita de aldeia do Bispo pela madrugada, e já o Tenente General havia ocupado os postos altos do contorno da vila; e num padrasto, que ficava sobre ela fez alto o Capitão Vitorio Zagallo com 50 mosqueteiros: e porque o inimigo estava fortificado junto à Igreja, foi o Tenente General a ocupar um outeiro, que lhe ficava defronte. Iam neste tempo os Capitães Puplinier, e Cristóvão da Fonseca tinham cercado a vila pela outra parte, e tomado um alto ao longo de uma ribeira, de modo que ninguém dela podia sair, que lhe não desse nas mãos. Repartiu logo o Mestre de Campo a infantaria pelos postos convenientes: começou-se a peleja dando-se grandes cargas de mosquetaria de uma, e outra parte, até que os nossos dispararam duas peças de Artilharia, que com grande conduziram àquele posto, e com elas fizeram tanto dano aos inimigos, que lhes quebraram o ânimo. Veio de socorro à vila (duas horas depois de chegarem os nossos) um companhia de cavalo: porém saíram-lhe duas tropas da nossa cavalaria, puseram-nos em fugida, e os foram seguindo até Vilar de Servo, que está a meia légua daquela vila, e aqui se travou a escaramuça, e nela morreram alguns castelhanos, e veio um prisioneiro. Entretanto o General mandou que investissem as trincheiras os Capitães Nuno da Cunha de Ataíde (a quem encarregou a vanguarda, pelo muito que fiava de seu valor) Duarte de Miranda Henriques, Alonso de Tovar, Francisco Valente da Costa, Manuel Teixeira Homem, António de Andrade de Gâmboa, cada um com sua manga, e num mesmo tempo entraram todos com igual deliberação e ao entrar num reduto deram com uma bala pela testa ao Capitão Alonso de Tovar, e lhe tiraram a vida, sendo geralmente sentido, por ter de muito valor, e esperanças: foram os nossos [palavras rasuradas no original] ganharam, e saquearam o lugar, e pegaram fogo á maior parte dele. Logo foi o Tenente General dali a meia légua a um lugar, que chamam Castelo com uma companhia de cavalos, e outra de mosqueteiros, e lhe pôs também o fogo: com o que se retiraram os nossos vitoriosos, deixando mortos grande número de Castelhanos, e trazendo 90 prisioneiros.   

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1642

De Langres aos ditos 27 de Setembro,

Aos 22 deste mês, chegaram aqui os dois canhões, e morteiro, e mais apetrechos, que o Conde de Grancy tomou na batalha de Ray, e o dito Conde veio também a se curar da ferida que recebeu. Esta batalha foi mais sangrenta do que se imaginava, porque fora do campo de batalha se acharam depois mais de trezentos corpos mortos, e entre eles o General da Cavalaria de Franche-Contè: os dois Sargentos-mores dos regimentos de Infantaria de São Maurício, e de Govan: e outros muitos oficiais, a fora os que se não podem achar, os trombetas vem a pedir. O Barão de Cey, achando-se ferido de dois tiros de pistola, se tornou a Gray, acompanhado somente do Conde de Salnova. Os Marqueses de Trave, e de Govan Mestre de campo, foram também gravemente feridos.   

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641                   

Nas fronteiras de Trás-os-Montes entraram algumas tropas de cavalaria Castelhana, e muitas de mosqueteiros: iam marchando sem que lhes escapasse caminhante, ou pastor, que não rendesse gado, em que não fizesse presa, nem lugar, que não saqueassem. Inquietaram-se todas as terras circunvizinhas, até que chegou o clamor às nossas praças de armas, e de improviso se juntaram companhias de várias partes, e foram buscar os inimigos, e deram neles junto ao lugar da Bemposta. Houve uma pendência muito renhida de parte a parte; mas os Castelhanos, depois de lhes custar a batalha grande copia de vidas, deixaram a presa, e se retiraram com muita descomposição.  

 

 

Tragédia

Mortes, assassinatos, acidentes, tragédias e catástrofes naturais são sempre assunto de interesse. Isto porque, as más notícias “vendem” mais do que as boas notícias. Na Gazeta encontram-se alguns exemplos deste tipo de relatos, com particular destaque para as mortes e para as catástrofes naturais.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

Na Hungria há grande peste, principalmente nas cidades de Presburg, e Edimburgo, onde todos os dias morrem mais de sessenta pessoas.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Em Sevilha foi o inverno tão rigoroso; e tantas as avenidas, que se alagou a Cidade toda, e subiu a água a parte, donde já mais chegou. Afogou-se alguma gente, e morreu muita de fome. 

 

Morte

O critério da morte está directamente relacionado com o da tragédia. As mortes, fossem de pessoas de elite ou fossem consequência de guerras, batalhas ou conflitos, eram notícia de interesse e aparecem com bastante frequência na Gazeta.

 

Gazeta do Mês de Maio de 1644

A Rainha da Polónia irmã do Imperador morreu a vinte e quatro de Março, depois de parir uma filha morta.

 

Gazeta do Mês de Julho e Agosto de 1644

Faleceu o Papa a 29 de Julho, 2I de seu Pontificado. E em Roma há grande confusão sobre a eleição do novo Papa. A Rainha Cristianíssima tem mandado pela posta dois Duques e muitos Correios a várias partes. Na cidade têm entrado muitos franceses e muitos castelhanos. Ordene Deus o que melhor estiver para a sua Igreja, e para a paz da Cristandade.

 

Gazeta do mês de Dezembro de 1641

De Cádis saíram três naus com dois milhões e seiscentos mil cruzados, metade para Flandres, e outra metade para Londres, e entraram pelo canal de Inglaterra com vento próspero; mas tanto que chegaram ao cabo de Cronalhi se levantou uma tormenta, e tão rigorosa, que uma delas se foi a pique, e era a que levava a maior parte do dinheiro. Não se salvaram mais que dezassete pessoas.  

 


Proximidade

Galtung e Ruge (1965) fazem, ainda, referência a outros critérios que são determinantes na escolha daquilo que será, ou não, notícia. Para além daqueles já, aqui, referidos, os autores mencionam outros que também encontramos na Gazeta. Um deles é a proximidade. Seja qual for a natureza da proximidade (geográfica, afectiva, cultural, etc.), um acontecimento terá mais probabilidade de se tornar notícia quanto mais próximo ocorrer.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1642

Vieram algumas pessoas de Madrid, e de Sevilha.

 

Gazeta do mês de Fevereiro de 1642

Chel de la Reyna, que era Maese de Campo em Tatragona, está agora na Corte de Madrid esperando que o despachem; e no seu ligar ficou o Conde de Aguilar Marquez de la Inojosa.

 

 

Intensidade ou magnitude de um acontecimento

Galtung e Ruge (1965) referem, igualmente, que a intensidade ou magnitude de um acontecimento são determinantes para elevá-lo a notícia, sendo, que, quanto mais intenso, for esse mesmo acontecimento, quantas mais pessoas envolver ou afectar, mais probabilidade terá de ser notícia. Na época da Gazeta, notícias sobre as guerras ou notícias reais eram aquelas que se consideravam mais relevantes e eram aquelas mais “apetecíveis” para o leitor.

 

Gazeta do Mês de Maio de 1642

A catorze deste mês se botou ao mar a fragata São João Baptista, obra já do Marquês de Montalvão: houve grande concurso de gente na ribeira das naus: veio El-Rei nosso Senhor da sua quinta de Alcântara na gôndola Real com o sereníssimo Príncipe Dom Teodósio, e assistiram ambos até que a fragata adornada de ramos, flores, bandeiras, e galhardetes acabou a carreira, rompendo as águas com airoso ímpeto, e grandíssima alegria de todos.

 

Gazeta do mês de Junho de 1642

A 13. deste mês entrou o Mestre de Campo D. Sancho Manuel por Castela, deixando os Capitães Manuel Teixeira Homem, e João Fialho com as suas companhias numa emboscada para que assaltassem a cavalaria do inimigo, em caso que viesse por aquele sítio, e ao romper da Alva sucedeu que a cavalaria Castelhana, que andava correndo a raia, tomou um ajudante nosso, matou um soldado, e levou 4 prisioneiros. Porém os da emboscada ouvindo disparar dois mosquetes, saíram ao campo cortando o caminho até que chegaram à vista dos inimigos, e lhes deram uma carga, com que mataram o Alferes, que governava aquela tropa, e dois cavaleiros mais, pondo em fugida a todos os outros: entretanto entrou de noite o Mestre de Campo pela parte de Cidade Rodrigo, e prendeu doze cavaleiros Castelhanos, e dois clérigos, um beneficiado, e outro tesoureiro da Sé de Cidade Rodrigo: depois disto arrasou a Almeida, que é uma aduana pegado a Cidade Rodrigo, e tomou aí muita quantidade de gado: e se despejou um lugar, que se chama Barquilho, e dois mais, que estavam junto da nossa raia. Veio o inimigo com infantaria, e gente de cavalo para tomar a presa aos nossos, porém acudiu o General Fernão Teles de Menezes, e os Castelhanos logo se retiraram: e porque ficava no meio uma ribeira, e não havia da nossa parte cavalaria, não foi o General em seu alcance.

 

 

Referência a nações de elite

Tal como colocaram Galtung e Ruge (1965), da mesma forma que a referência a pessoas de elite pode levar a que determinado acontecimento venha a ser uma notícia, a referência a nações consideradas de elite também leva a tal. No século XVII, Espanha, França, Inglaterra, Holanda, Flandres, Itália entre outros, eram considerados países superiores e as notícias da Gazeta versavam, frequentemente, sobre eles. Ao mesmo tempo, noticiando os acontecimentos mais marcantes destas nações, criava-se um sentimento de unidade entre os que pertenciam a estes espaços.

 

Gazeta do Mês de Março de 1643

De Roma aos 9 de Janeiro de 1643

Escrevemos de Ferrara, que o Cardeal Ginetti , que ali está por Legado, tem feito reparar os muros, e mandado a todos os moradores, que estejam providos de mantimentos para seis meses por quatro teve aviso, que esta praça era muito requisitada do Duque de Modena, que continua em fazer muito grandes levas.  

 

Gazeta do Mês de Março de 1643

De Londres a 10 de Janeiro de 1643

O Marquês de Hartford, que governa por sua dita Majestade as tropas, em Principado de Gales, está em Worxester: e se não sabe ainda, que rota seguirá. O Conde de Castelo novo se tem avançado com as suas até Nottingham, não obstante o impedimento, que lhe quiseram fazer as tropas do Parlamento, com as quais muitas vezes pelejou em seu caminho.

 

Gazeta do Mês de Março de 1643

De Paris a 6 de Fevereiro de 1643

A Morte do Cardeal Duque não fez inovar coisa alguma no governo, que hoje tem o Cardeal Mazarino, Xaveni , e Noier, os quais guardam em todo as ordens, que o dito Cardeal deixou. Sua Majestade soltou alguns presos da Bastilha, e perdoou alguns desterrados.   

 

 

Desenvolvimento de assuntos anteriores

Galtung e Ruge (1965) constataram, ainda, que, se um acontecimento está, de alguma forma, relacionado com outro que já foi notícia, ou seja, se vai de encontro ao que já foi (ou ainda é) notícia, então, muito provavelmente, será, também notícia.

 

Gazeta do Mês de Fevereiro de 1642

Em Inglaterra vão por diante as alterações, e estão as coisas embaraçadas, de modo, e as novidades na Religião são tantas, que as liturgias dos protestantes estão quase acabadas de todo, e o livro comum das preces nalgumas partes anda emendado, e noutras de nenhuma maneira o aceitarão.

 

Gazeta do mês de Fevereiro de 1642

As vexações, que em Castela fazem aos Portugueses vão em aumento, principalmente em Andaluzia, donde prenderam muitos, entre os quais o Capitão Jordão de Bairros de Sousa padece grandes calamidades.  

 

 

Novidade

Um outro teórico da noticiabilidade, Nélson Traquina, (2002) definiu conjuntos de valores notícia que estão presentes nas diferentes etapas da produção jornalística. Para o autor, estes valores estão presentes, não só na selecção dos acontecimentos, mas também na elaboração de uma notícia. São os chamados valores-notícia de selecção (morte; notoriedade; proximidade; relevância ou importância; novidade; factor tempo – actualidade, cabide noticioso; notabilidade; surpresa; conflito ou controvérsia; infracção e escândalo); valores-notícia de selecção contextual (disponibilidade; equilíbrio do noticiário; potencial de cobertura em imagem; concorrência; dia noticioso); e valores-notícia de construção (amplificação - hiperbolização do acontecimento e das suas consequências; relevância - capacidade de mostrar como o acontecimento é importante; potencial de personalização; potencial de dramatização; consonância - ou potencialidade de enquadrar um acontecimento em enquadramentos anteriores). Ora, assumindo-se a Gazeta “da Restauração” como uma “produção jornalística” nela vão, também, encontrar-se alguns destes valores.

Estando a maioria dos critérios já explicados e devidamente comprovados com exemplos da obra, procurar-se-á, de seguida, apresentar exemplos que provem a presença dos valores-notícia ainda não referidos.

Em primeiro lugar, debrucemo-nos sobre a novidade. As pessoas sempre tiveram particular interesse pelo que é novo, pela novidade, e, muitas vezes, essa(s) novidade(s) é (e era) veiculada nas notícias. A Gazeta tinha, na sua época, esse papel, tão importante, de contar as “novas” de dentro e fora do Reino. Veja-se:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1642

Quando uns soldados nas trincheiras da vila de Penamacor descobriram uma mina, e sem saber de que metal era se mandou a esta Corte a amostrar: fez-se o ensaio, e achou-se que era de cobre, com muito boa conta.

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Publicou-se um édito que todos os Castelhanos se saíssem deste Reino, e que os que estão nele moradores de muito tempo, querendo ficar, se naturalizem.

 

 

Notabilidade

Segundo Traquina (2002), a notabilidade está relacionada com a visibilidade que um facto pode ter. Pode dar-se pela quantidade (quanto maior for o número de pessoas, por exemplo, que um acontecimento envolve, maior também é a hipótese de ele ser noticiado), pelo facto de ser estranho, de mostrar uma inversão da realidade dita “normal”, etc.

Gazeta apresenta vários exemplos de notícias que provam a inclusão deste critério nos que fazem parte da selecção noticiosa da publicação:

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

António de Queirós Mascarenhas Capitão mor de Valadares, aos 14. do mês saiu à campanha com 400. homens divididos em três troços; marchou por Galiza. Fez uma entrada nos lugares de Guegoas, Vilar, e Benzianes: donde matou 20. Galegos dos que  lhe fizeram resistência; saqueou estes três lugares, e retirando-se vitoriosos, com uma presa de muito porte lhe saíram do Conselho de Intrimio, e da Vila de Lobeira 300. Castelhanos, e o acometeram pela retaguarda: mas ele lhe deu uma, e outra carga, e os fez retirar com muito dano. E os despojos que trouxe foram infinitos mosquetes, pistolas, espingardas, espadas, piques, dardos, com grandíssima copia de fato, e mais de duas mil ovelhas, e com vacas. Da nossa parte nem houve mortes, nem feridas, e somente o Capitão mor saiu ferido numa mão.

 

Gazeta do Mês de Junho de 1642  

Que um clérigo Irlandês convertera 50. Ingleses, e que depois de eles fazerrem protestação da Fé, e jurarem que reconheciam por cabeça da Igreja ao Sumo Pontífice, e queriam na real presença, na Eucaristia se lhes deu passaporte para se irem livremente, e que um soldado que se achou presente os seguiu, e matou a todos dizendo, que era lástima deixá-los ir a parte, donde os pervertessem, e que os queria mandar a todos para o Céu.  

 

 

Equilíbrio do noticiário

Não se pode dizer que as notícias, na Gazeta, primassem pelo equilíbrio temático. A grande maioria dos assuntos e, atendendo à época, de uma forma compreensível, prendia-se com a guerra ou batalhas. No entanto, nos diferentes meses e anos de publicação, nenhum exemplar discorreu, exclusivamente, sobre questões bélicas. Havia sempre algo mais sobre que falar, mais novidades para contar.

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

No segundo dia do mês entrou neste porto uma nau francesa: a qual vinda de Vila Nova de Portimão carregada de figo, e passa a esta corte, com intento de fazer daqui viagem para Nantes, encontrou na altura do cabo de Espichel uma nau de Moiros, que andava a curso, e o pirata, depois de render ao capitão, lhe perguntou para donde fazia a viagem: ao que ele respondeu que a sua direita descarga era para a corte del Rei D. João o quarto de Portugal. Em continente mandou que nenhum soldado lhe fizesse agravo, logo lhe deu liberdade, e sem lhe tomar de todas as mercadorias; de que vinha carregado, mais, que um cunhete de passas, e outro de figos, lhe disse que seguisse sua viagem, advertindo-lhe que daquela fineza, de que usava com ele, não queria outro agradecimento, mais, senão que como chegasse a Lisboa dissesse a el Rei de Portugal que um capitão Africano, depois de o ter cativo, e depois de haver feito presa na sua mão, o largara sem permitir que ninguém lhe fizesse dano, somente porque lhe dissera que navegava para a corte do Sereníssimo rei D. João o quarto de Portugal.

************************************************************************************O Domingo de Lázaro se celebrou nesta corte o acto de Fé. Junto ao quarto em que assiste a Rainha nossa Senhora se fabricou o teatro. Saíram a padecer três mulheres, e três homens, um dos quais ia a morrer vivo por pertinaz, e às dez horas da noite se reduziu, depois de ter caçado aos Religiosos que lhe assistiam, e a muitas outras pessoas. Grande parte deste dia estiveram el Rei nosso Senhor, e a Rainha nossa Senhora numa das janelas do paço, que ficava sobre o teatro.  

 

Gazeta do Mês de Junho de 1642

A 13 deste mês entrou o Mestre de Campo D. Sancho Manuel por Castela, deixando os capitães Manuel Teixeira Homem, e João Fialho com as suas companhias numa emboscada para que assaltassem a cavalaria do inimigo, em caso que viesse por aquele sítio, e ao romper da Alva sucedeu que a cavalaria Castelhana, que andava correndo a raia, tomou um ajudante nosso, matou um soldado, e levou 4. prisioneiros. Porém os da emboscada ouvindo disparar dois mosquetes, saíram ao campo cortando o caminho até que chegaram à vista dos inimigos, e lhes deram uma carga, com que mataram ao Alferes, que governava aquela tropa, e dois cavaleiros mais, pondo em fugida a todos os outros: entretanto entrou de noite o Mestre de Campo pela parte de Cidade Rodrigo, e prendeu doze cavaleiros Castelhanos, e dois clérigos, um beneficiado, e outro tesoureiro da Sé de Cidade Rodrigo: depois disto arrasou a Almeida, que é uma aduana pegado a Cidade Rodrigo, e tomou aí muita quantidade de gado: e se despejou um lugar, que se chama Barquilho, e dois mais, que estavam juntos da nossa raia. Veio o inimigo com a infantaria, e gente de cavalo para tomar a presa aos nossos, porém, acudiu o General Fernão Teles de Menezes, e os Castelhanos logo se retiraram: e porque ficava no meio uma ribeira, e não havia da nossa parte cavalaria, não foi o General em seu alcance. 

************************************************************************************

Veio por via do Algarve um Moiro Comissário do Rei de Marrocos, enviado a fim de que se lhe permita o mandar seus Embaixadores a el Rei nosso Senhor, e a 22. deste mês entrou nesta corte.     

 

 

Amplificação

Os valores-notícia de construção referem-se ao contexto da produção noticiosa, a uma fase em que as notícias já estão escolhidas e já fazem parte de uma edição. Ou seja, estes valores dizem mais respeito à forma de narrar do que ao conteúdo. De entre os vários critérios de construção, destacam-se, na Gazeta, o da amplificação e o da relevância.

Em primeiro lugar, analise-se o critério da amplificação. Quanto mais impacto o jornalista conseguir criar com a notícia que procura veicular, quanto maior for a amplificação do acontecimento sobre que se vai falar, mais interesse o leitor vai ter em ler sobre tal. Esta amplitude pode conseguir-se com títulos expressivos e apelativos (algo que não existe na Gazeta, uma vez que as notícias não têm títulos) ou com uma forma de narrar pormenorizada e rica em imagens, facto que já se nota e que se pode exemplificar da seguinte forma:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Os Castelhanos que assistem da guarnição nas vilas, que estão fronteira da Província da Beira, entraram nos nossos campos, e deram no lugar de Forcalhos, de onde se retiraram com grandíssimo número de Gado, depois de haverem feito algumas hostilidades. Logo se juntaram os nossos, e foram inquietar os lugares de Castela por aquela parte, que responde a Albergaria, e trouxeram de lá muito maior quantidade de gado, que a que eles nos haviam tomado. Sentiu-se o dano de parte a parte, e assentaram que cada um restituísse tudo aquilo, em que se havia feito presa, e no mesmo ponto, em, que se tratava de enfeitar este concerto, vieram os Castelhanos da Vila de S. Martim, e entraram na aldeia de Fuinhos, donde fizeram algum dano, e levaram umas poucas de ovelhas, que andavam pastando nos montes. Escandalizado o General Fernão Teles de Menezes de ver que os inimigos (violando as leis da guerra) quando actualmente tratavam de restituição de presas, vinham aos nossos campos a roubar se deliberou a fazer uma entre presa: e juntou alguma cavalaria com quinhentos soldados pagos, e oitocentos de ordenança, e aos quatorze deste mês, por melhor dissimular o seu intento, foi marchando para a vila de Alfaiates; donde esteve um dia, e uma noite, e logo saiu à campanha, e deu no lugar de Elges, cujo castelo é capaz de alojar grande cópia de infantaria. Investiu com tanto valor, que no primeiro encontro fez retirar o inimigo, e rendeu o castelo, ainda que com grande trabalho por estar situado no alto de umas penhas, e ser a subida como todo o encarecimento dificultosa. Deste castelo pende a segurança de todos os mais, que há na serra de Gata. Depois de entrado, procurou o General guarnece-lo de infantaria, e para isto se conseguir com facilidade desceu à Vila de Veluerde, e mandou dizer aos moradores dela que lhes daria bom quartel se quisessem estar por el Rei D. João de Portugal. Eles vieram logo nisto, e reduzindo-se à obediência del Rei nosso Senhor, se netregaram com promessa de dar cada mês o trigo, o azeite, e o vinho, que fosse necessário para socorrer a nossa gente, que havia de ficar presídio naquela praça. Celebrou-se o conserto, e guarneceu-se o castelo com 300. Mosqueteiros, de que é governador o Mestre de Campo Dom Sancho Manuel. Achou-se também nesta ocasião um mestre de Campo Francês; e Afonso Furtado de Mendonça Alcaide mor, e capitão-mor da Covilhã, o qual foi na vanguarda com oito companhias, e deu grandes mostras de valor. Ficaram mortos oito Castelhanos, e alguns feridos.

 

Gazeta do Mês de Maio de 1642

A catorze deste mês se botou ao mar a fragata São João Baptista, obra já do Marquês de Montalvão: houve grande concurso de gente na ribeira das naus: veio el Rei nosso Senhor da sua quinta de Alcântara na gôndola real com o Sereníssimo Príncipe Dom Teodósio, e assistiram ambos até que a fragata adornada de ramos, flores, bandeiras, e galhardetes acabou a carreira, rompendo as águas com airoso ímpeto, e grandíssima alegria de todos. 

 

 

Relevância

Tal como o critério anterior (amplificação), a relevância depende do jornalista. É ele quem deve procurar mostrar que tal acontecimento é importante e porquê. É o jornalismo que tem de mostrar, na forma como narra, por exemplo, que determinado assunto, vai ter impacto suficiente para despertar o interesse do leitor.

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1642

Depois do sucesso, que aos 23 do dito mês de Agosto houve aqui entre o Embaixador de Portugal, e o de Castela, foram postas guardas em muitos lugares da cidade, e se dobraram as que estavam nas portas dela, com grandes penas de não deixar entrar pessoa alguma suspeita em favorecer a parte de Castela. E se prenderam esta semana 7. Borgonheses, que vinham de Nápoles, e quiseram entrar por força, fazendo resistência às guardas, que estão à porta de s. João de Latrão, e depois de se lhes fazerem algumas perguntas, os tornaram a lançar fora pela do Pópulo, desterrados para sempre de todo o estado Eclesiástico.

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1642

Mais de Roma ao primeiro de Novembro de 1642

É coisa notável, e muito para considerar, que depois do encontro, que os Embaixadores de Portugal, e Castela tiveram, das muitas balas, que de parte a parte foram tiradas, naquele lugar, onde foi a pendência, se vêm hoje claramente numa esquina assinaladas cinco, em modo que representam as cinco chagas, armas do Reino de Portugal, que parece as estampou ali o Céu, por algum mistério oculto ao juízo dos homens.

 

 

Os “outros” na Gazeta

Como são representadas as pessoas na Gazeta “da Restauração”? Certamente, de uma forma que corresponde à mundividência da época, resultante da mundivivência moldada pelo ambiente cultural do Portugal seiscentista.

 

A legitimação discursiva do domínio social

Uma leitura geral das notícias permite observar que a rígida estrutura social de Seiscentos está plasmada no periódico. Os grupos sociais dominantes, nomeadamente as casas reinantes, a grande nobreza e os clérigos, são os mais referenciados – conforme, aliás, se denota na análise quantitativa – e, quando deles se fala, muitas vezes fala-se deles exercendo o poder com legitimidade para serem obedecidos e seguidos. Inclusivamente, enquanto os grandes fidalgos e clérigos tendem a ser referidos pelos nomes, categoria e/ou cargo, as restantes figuras da sociedade seiscentista normalmente surgem colectivizados, em substantivos como “soldados”, “mulheres”, etc. A ideia que transparece das páginas da Gazeta é a de que os seus redactores olhavam, predominantemente, para a estrutura social seiscentista como um dado adquirido congelado. O jornal traduzia essa visão, simultaneamente cultural, já que é indiciática do estado de coisas seiscentista; e ideológica, já que é uma visão que serve os interesses dos grupos sociais dominantes na sua permanente negociação simbólica com o resto da sociedade pela legitimidade do poder exercido.

 

Representação de relações de poder e domínio

Excerto textual ilustrativo

(Exemplo 1)

 

A legitimidade do poder Real

 

O conde de Castanheira, que estava preso numa torre de Setúbal, pediu a El-Rei nosso Senhor que lhe mudasse a prisão por quanto estava indisposto e El-Rei nosso Senhor, usando da sua natural benignidade, o mandou trazer para o castelo de Lisboa. (Novembro de 1641)

(Exemplo 2)

 

A legitimidade do poder nobiliárquico enquanto poder militar

Estando o galeão Santa Margarida para dar à vela, disse o piloto que não se atrevia a sair sem lhe darem mais gente do mar. Inquietaram-se os soldados e foi necessário acudir o general Teles de Menezes e alguns senhores (...). E depois de tudo quieto, prenderam três soldados, que foram os cabeças, e a todos três os enforcaram. (Novembro de 1641)

(Exemplo 3)

 

A legitimidade do poder Real

 

 

Despachou El-Rei nosso Senhor ao conde da Vidigueira por embaixador de França, para assistir na corte de Paris. (Novembro de 1641)

(Exemplo 4)

 

É a nobreza que aclama o Rei

De Génova e de Veneza se diz que foi lá bem recebida a deliberação da nobreza de Portugal (...). (Novembro de 1641)

(Exemplo 5)

 

D. João IV é Rei legítimo e beneficia do favor divino

Domingo, o primeiro dia do venturoso mês em que Deus nosso Senhor pôs seus olhos de misericórdia no miserável estado de Portugal e foi servido de o restituir a seu legítimo sucessor, o sereníssimo Rei D. João o IV (depois que (...) esta mui nobre e sempre leal Cidade de Lisboa celebrou (...) a feliz restauração deste Reino) (...). (Dezembro de 1641)

(Exemplo 6)

 

Os nobres lideram os exércitos, mas também morrem como os demais soldados

 

 

Chegou Aires de Saldanha de socorro com o seu terço e deu uma carga com que fez cm que o inimigo logo se retirasse e lhe matou muitos homens, entre os quais dizem que morreu o marquês de Mala Espina, irmão de uma dama da duquesa de Mântua, que se chama Dona Catarina de Mala Espina, e um fidalgo cavaleiro da Ordem de São João. O alferes do capitão de cavalaria João de Saldanha saiu com três feridas e os inimigos o deixaram no campo como morto e o despojaram da roupa, mas acabada a batalha, da mesma maneira em que estava, se ergueu e veio para Campo Maior. (Dezembro de 1641)

(Exemplo 7)

 

O Rei é exemplo de religiosidade

Quinta-feira do Corpo de Deus veio El-Rei nosso Senhor de Alcântara e acompanhou a procissão da cidade, com toda a nobreza, como é costume. (Junho de 1642)

 

O que mostram os três primeiro exemplos? O domínio, discursivamente representado como legítimo, dos governantes sobre os governados. O Rei, complacente, no primeiro exemplo, altera, com poder para tal, o local de prisão de um nobre não conivente com a Restauração, que, por ser nobre, aparece nominalizado na notícia; no segundo exemplo, os chefes militares são representados como tendo o poder de exercer justiça sumária, incluindo a pena de morte (talvez uma das penas mais comuns na época) sobre soldados agitadores; no terceiro exemplo, El-Rei aparece na notícia a exercer o poder de nomear um vassalo nobre (simbolicamente, a diplomacia é apresentada como sendo posse da nobreza ou dos clérigos) para o cargo de embaixador de Portugal em França (os estados, manifestações das nações independentes e soberanas, desenvolviam relações diplomáticas entre si), discurso que é legitimador e naturalizador da autoridade Real, mas também indiciador da forma como se governava na época. Ou seja, podendo ter uma dimensão ideológica, o discurso da Gazeta deve, no entanto, ser entendido essencialmente como revelador da estrutura social seiscentista e da mundividência da época, culturalmente determinada e enformadora da estrutura social portuguesa ao tempo da Restauração.

A forma como os sujeitos das notícias são referidos também é relevante da estratificação social seiscentista e das relações sociais de poder e domínio. O general evocado no segundo exemplo é referido pelo nome: António Teles de Menezes. A identidade dos soldados dilui-se no substantivo comum “soldados”, enquanto o piloto do galeão Santa Margarida é simplesmente referido como piloto.

Interessantemente, embora em algumas notícias, como veremos a seguir, D. João IV seja representado como um Rei de Direito Divino, já que seria Rei pela graça de Deus, na notícia seleccionada para exemplo 4 a legitimidade do Rei é-lhe dada pela nobreza. Portanto, a aclamação de D. João IV, proposto como Rei natural dos portugueses, resultaria – mesmo no que ao simbolismo diz respeito – da deliberação dos nobres portugueses.

A necessidade de justificar a aclamação de D. João IV e de legitimar o soberano como Rei natural, salvador de Portugal num contexto em que o país, como escreve o redactor da Gazeta, estaria num “miserável estado”, terá sido, certamente, o pretexto para a Gazeta ter publicado o excerto textual colhido como exemplo 5. Nele, o Rei é legitimado discursivamente ao ser simbolicamente apresentado como legítimo e como beneficiário do favor divino, sendo que este favor é, no entanto, concedido condicionalmente, pois o discurso da gazeta enfatiza indirectamente que a missão do Rei seria a de salvar o país.

No sexto exemplo é já a legitimidade da liderança militar da nobreza – em Portugal e em Espanha – que é realçada. A nobreza, nos vários países europeus, era vista como sendo o grupo social que deveria fornecer quadros às forças armadas, mesmo que com sacrifício da própria vida. Portugal não escapa a essa regra e a Gazeta ecoa essa visão do mundo. O mito do herói – pela nomilização – também é mobilizado nesse excerto discursivo da Gazeta, situação que, aliás, se repete em vários relatos de confrontos militares, em que alguns (normalmente nobres) são destacados em desfavor da massa anónima de combatentes, assinalada apenas como “soldados”, “cavaleiros” ou designação similar.As práticas religiosas católicas eram comuns à população portuguesa. O Rei D. João IV é sucessivamente representado na Gazeta como bom católico praticante, conforme é ilustrado no exemplo 7. Reforça-se, assim, simbolicamente, o vínculo identitário entre a Nação e o Soberano.

 

 

A definição de identidades comunitárias

Num mundo violento, como era o mundo seiscentista, em que até é chocante, para um leitor contemporâneo, a forma ligeira com que a morte violenta era encarada, e num país em guerra e dividido entre apoiantes e adversários da Restauração, haveria, certamente, a procura de referentes simbólicos que reforçassem a noção de segurança e de pertença identitária a uma comunidade. Assim sendo, a comunidade nacional aparece simbólica e permanentemente oposta à comunidade castelhana e define-se, precisamente, por essa oposição. Porém, as identidades discursivamente definidas na Gazeta nem sempre são nítidas. As suas fronteiras não são sempre definidas, porque, na realidade, surgem vários “nós” e vários “eles” do discurso da Gazeta. Os “nós” tanto podem ser os “nós, portugueses” como os “nós, católicos”, como o “nós, cristãos” ou o “nós, europeus”, por exemplo; “eles” tanto podem ser os espanhóis e outros povos, como os praticantes de outras religiões, por exemplo.

 

As comunidades

Excerto textual ilustrativo

(Exemplo 1)

 

Os portugueses vitoriosos e com poucas vítimas são os nossos, os espanhóis, derrotados e com muitos mortos, são o inimigo

O conde de Alba de Liste e o marquês de Alcanises, aos 10 de Outubro, entraram [em Portugal] pela vila de Ifanes e Malhadas (...), porém ios nossos lhe prenderam junto à vila de Duas Igrejas (...) um espião (...) e fizeram os inimigos na retirada algum dano (...) mas ficaram mortos quatrocentos (...) Saquearam os nossos o lugar e vieram vitoriosos com mais de 300 armas de fogo (...) e outros (...) despojos. Da nossa parte morreram sete ou oito homens. (Novembro de 1641)

(Exemplo 2)

 

A bravura dos portugueses é, sempre que oportuno, posta em confronto com a cobardia castelhana

Nos últimos de Maio, vindo alguns barcos de trigo de Mértola para Alcoutim pelo Rio acima, saíram outros, bem armados de castelhanos. Sucedeu que na ribeira da parte de Portugal, se achavam dois homens e um moço que caçavam e vendo a contenda, socorreram aos barcos portugueses, atirando alguns tiros aos castelhanos, que temerosos daquela defesa, ainda que tão pequena, se puseram em fuga e os nossos barcos vieram em paz ao porto. (Maio de 1642)

(Exemplo 3)

 

A religiosidade popular, expressão identitária de um povo católico com quem os redactores da Gazeta se identificam por pertença

No meio da rua nova um homem particular fez uma máquina de bolantes no ar, que tomava a rua de lado a lado. Pendia dela uma Cruz muito grande branca e perfilada de ouro com muitos Serafins de cera e uma letra que dizia, In hoc signo vinces. E no meio da nuvem. Ioannes nomen Deius. Ao pé dela voavam dois Anjos de cera os quais tinham nas mãos armas de Portugal. No Chiado havia um paço de figuras de cera, fabricado por outro homem particular, o qual representava a paz (…). (Dezembro de 1641)

(Exemplo 4)

 

Os católicos do mundo constituem uma comunidade oposta à dos “malditos” hereges

Saiu agora no Reino de Inglaterra um livro impresso muito perverso e pernicioso, cujo título é Sana Ratio, sendo mais que insana; pois o intento do maldito herege seu autor é querer persuadir que nenhuma coisa deve crer senão a que se alcança por razão natural. (Julho 1645)

(Exemplo 5)

 

A comunidade católica é transnacional, mesmo quando os crentes pertencem a estados inimigos

Esta semana passou por aqui um frade leigo espanhol (…) o qual não come mais do que uma vez por dia e um pequeno pão somente, que ele recebe de esmola, com uma grande e pesada Cruz às costas, que diz leva a Roma por voto e dali se lhe for permitido, ao   Calvário, por impetrar a Deus a paz geral da Cristandade; o povo o segue em grande concurso e lhe corta de seus hábitos. (Julho 1643)

(Exemplo 6)

 

A identidade do Portugal Restaurado é discursivamente fortalecida pela referência a outros inimigos do império filipino

 

Aos dois do corrente houve uma grande alteração popular é a cidade de Cosenza é a Calábria, na qual mataram um homem muito Principal, cujo corpo foi arrastado pelas ruas da cidade e prenderam alguns quarenta mais e favoreciam a parte dos espanhóis. (Setembro de 1647)

(Exemplo 7)

 

A identidade do Portugal Restaurado é discursivamente fortalecida pela referência a outros inimigos do império filipino

 

 

Os moradores de Alexandrin e outros lugares do Milanez, seguindo o exemplo dos demais súbditos de Espanha, estão de presente levantados contra os ministros Espanhóis. (Setembro de 1647)

(Exemplo 8)

 

Portugal não está só na luta contra o domínio castelhano

Pelejou a armada da Holanda com a armada Real de Castela (...). Foi-se a pique um galeão dos castelhanos e ficaram alguns destroçados (...). (Novembro de 1641)

(Exemplo 9)

 

A perplexidade perante a tolerância religiosa de outros países

 

A variedade na Religião é também grande nos tempos presentes naquele Reino onde e principalmente em Londres se tem aumentado uma seita que chamam de independentes, porque não querem ter dependência de ninguém em matéria de fé ou religião, senão crer, ou não crer, o que cada qual melhor lhe parecer. (Julho de 1645)

(Exemplo 10)

 

Até dos galegos a Gazeta separa os portugueses, embora também os separe dos castelhanos

Veio nova de que estavam os galegos muito atemorizados depois que lhes desfizeram os redutos. Tomaram-lhes os nossos algumas armas (...) e cativaram-lhes alguma gente. (Novembro de 1641)

(Exemplo 11)

 

A difícil comunhão entre líderes católicos de países desavindos

 

O padre João de Matos, reitor que foi da Companhia [de Jesus] em   Évora, agora assistente da mesma Companhia em Roma, escreveu que o Sumo Pontífice esperava com grande alvoroço pelo bispo embaixador de Portugal, apesar das instâncias que o de Castela fazia por lhe estorvar a entrada. (Novembro de 1641)

(Exemplo 12)

 

As relações estado a estado: o Estado-Nação (relações diplomáticas)

Veio Francisco de Sousa Coutinho, que tinha ido por embaixador de   El-Rei nosso Senhor ao Reino da Suécia. (Novembro de 1641)

(Exemplo 13)

 

As relações estado a estado: o Estado-Nação (confrontos militares)

Por via da Holanda foi a França uma carta de um português que assiste nas Índias de Castela e de França veio a esta cidade [de Lisboa], a qual diz que partiu a frota com algumas naus de guerra, mas estavam os castelhanos temerosos de que lhe saíssem ao encontro os inimigos de Espanha (...). (Dezembro de 1641)

(Exemplo 14)

 

Depois de 60 anos juntos, portugueses e espanhóis separam-se

Em Madrid apertam com os portugueses e estão presos alguns por quererem vir para Portugal. (Dezembro de 1641)

(Exemplo 15)

 

A “República Cristã” sob a autoridade papal

Sua Santidade escreveu aos príncipes católicos exortando-os a que   socorressem as províncias da Irlanda  e mandou ao senhor Felix O’Neil (...) um estandarte, no qual há uma divisa que declara que a guerra dos irlandeses é em defesa da Fé Católica Romana e da Cátedra de São Pedro (...) e lhe mandou (...) indulgência plenária para todos os que ajudassem e favorecessem este reino, assegurando que nunca lhe faltaria o favor a Igreja. (Maio de 1642)

(Exemplo 16)

 

Os protestantes ingleses divididos

Para se tomar nota das dissensões que há entre os puritanos e protestantes se ordenou que por votos se averiguasse qual das seitas se havia de seguir. A dos protestantes teve 126 votos e a dos puritanos menos cinco e o conselho confundiu-se de tal maneira que não se resolveu. (Maio de 1642)

 

O primeiro exemplo escolhido mostra que a Gazeta procurava vincar a ideia da existência de uma comunidade nacional, portuguesa (os “nossos”) oposta à comunidade castelhana, sua inimiga (“o inimigo”). Essa é, aliás, uma das principais linhas discursivas do primeiro periódico português, em especial durante a primeira fase da sua publicação. Os “nossos” são propagandística e repetitivamente apresentados como vitoriosos, matando sempre mais “inimigos” do que as baixas que sofrem. Os aliados de Portugal, da mesma maneira, segundo a Gazeta, também derrotariam quase sempre os castelhanos (como no exemplo 8).

No segundo exemplo recolhido, entre muitos que poderia m ser dados, a construção identitária do Portugal Restaurado, de que o Povo é um dos constituintes fundamentais, faz-se por oposição ao inimigo castelhano, quase sempre apresentado como pérfido ou cobarde.

No exemplo 3, a expressão da religiosidade popular, que possui significado identitário, é conotada com a Restauração e com a aclamação de D. João IV. O Rei é Rei em nome de Deus e é em nome de Deus que exerce a sua autoridade Real sobre os súbditos. O Portugal Restaurado, encarnado por Sua Mejestade El-Rei D. João IV, teria, portanto, o favor de Deus contra os inimigos espanhóis. A identificação do redactor com o texto é indirecta, resultando do sentimento de pertença – e de orgulho nessa pertença – a um povo, o português. A vinculação entre redactor e texto é indiciada pela plasticidade do texto e pelo pormenor descritivo, indicadores de um cuidado redactorial motivado pelo orgulho pátrio e pelo orgulho identitário popular.

No exemplo 4, é reforçado o sentido de comunidade católica, transnacional, oposta à dos “malditos” hereges. Os portugueses, tanto quanto se denota indirectamente pelo discurso do redactor da Gazeta, que certo da identificação dos seus leitores com o texto não hesita em denominar o autor do livro de “maldito herege”, fariam parte da comunidade internacional de católicos, unidos numa Fé comum contrária à dos diversos hereges – ateus, protestantes ou praticantes de outras confissões religiosas.

De forma semelhante aos exemplos anteriores, o quinto reforça discursivamente a noção de comunidade católica internacional. O povo católico segue os católicos que lutam pela paz, independentemente de pertencerem a povos de estados inimigos.

Já as notícias recolhidas para sexto, sétimo e oitavo exemplos indicam aos portugueses que não estão sós na luta contra o império de D. Filipe IV (D. Filipe III de Portugal). O discurso reforça a convicção de que se desenha no mundo uma comunidade de aliados que lutam contra a pertença ao império espanhol. O Portugal Restaurado faria parte dessa comunidade.

O nono exemplo demonstra a perplexidade e estranheza com que o Portugal Católico olhava para a aparição de confissões religiosas protestantes noutros países. A oposição entre as comunidades portuguesa e britânica e ao mesmo tempo entre as comunidades católica e protestante é indirecta, mas pode inferir-se do excerto de texto escolhido para exemplo.

Já o exemplo 10 é similar aos dois primeiros. No entanto, tem como principal característica desvincular os galegos do Noroeste peninsular dos “galegos” do Norte de Portugal, que seriam “nossos”, portanto portugueses e não galegos, apesar de ambos, na realidade, serem representantes do mesmo povo histórico, o dos galécios. No entanto, não deixa de ser interessante que os galegos, embora fiéis súbditos de Sua Majestade El-Rei Dom Filipe IV de Espanha, III de Portugal, são discursivamente apresentados como “galegos”, e não como castelhanos.

A notícia escolhida para décimo primeiro exemplo revela que, apesar de Portugal ser um país católico, tal como Castela, os embaixadores católicos nomeados por ambos os países junto da Santa Sé tendiam a obstaculizar-se mutuamente (aliás, segundo a Gazeta, seria o de Castela a levantar problemas ao de Portugal antes mesmo deste poder credenciar-se como embaixador junto do Papado). Ou seja, embora existisse a convicção identitária da condição católica de ambos os países, isso não bastaria para os manter unidos – Portugal não era Castela, nem Castela Portugal. A ideia do Estado-Nação sobrepunha-se ao mito da República Cristã europeia. Aliás, os exemplos 12 e 13 mostram como se começava a inculcar fortemente a ideia de Estado-Nação no concerto das nações europeias soberanas e independentes. Relações diplomáticas e confrontos militares desenvolviam-se cada vez mais estado a estado, situação de que a Gazeta dava conta.

O exemplo 14 dá conta dos problemas levantados a muita gente por causa da Restauração. Portugal e Espanha, após 60 anos unidos sob uma mesma Dinastia, divorciavam-se, aclamando os portugueses uma nova Casa Real, a de Bragança. Porém, portugueses em Espanha, e espanhóis em Portugal, após 60 anos de Monarquia Dual, certamente abundariam. A Gazeta, ao realçar os problemas dos portugueses que estavam na capital espanhola, Madrid, reforça simbólica e discursivamente a ideia de um irrevogável separação entre os dois principais povos ibéricos.

No exemplo 15, é evocada a autoridade papal sobre todos os príncipes católicos e a sua obrigatoriedade de ajudarem a católica Irlanda na sua luta contra os protestantes ingleses. Mais uma vez, é a ideia medieva da República Cristã europeia, de que Portugal, país católico, faia parte, que se insinua no discurso da Gazeta.

O exemplo 16 descreve divisões entre os protestantes, devidamente exploradas pelos católicos e, possivelmente, relatadas com satisfação na Gazeta, cujos redactores eram católicos e que, certamente, se identificavam com os católicos de outros países.

 

 

Mulheres... e crianças...

Sendo a Gazeta redigida por homens, sendo o mundo social seiscentista dominado pela masculinidade, as mulheres também são várias vezes representadas, de certa forma, como “outras”. Vejam-se alguns exemplos na tabela seguinte:

 

Representação das mulheres

Excerto textual ilustrativo

(Exemplo 1)

 

As mulheres: necessidade de justificação do poder de uma rainha

E não é entre nós coisa nova terem as Rainhas de França a administração do Reino e a tutoria de seus filhos, porque as histórias antigas e modernas estão cheias de exemplos em igual caso. Assim, a Rainha Brunehaut, mãe dos reis menores Teodoberto e Thierry, foi sua tutora e regente do Reino (...) e em nossos tempos a Rainha-Mãe de El-Rei foi governadora até sua maioridade. (Junho de 1643).

(Exemplo 2)

 

As mulheres também podem deter o poder e governar, contribuindo para a união dos seus povos, embora também devessem ser – principalmente – devotas

As ocupações da Rainha Cristianíssima são (depois de assistir aos negócios do Reino e expedição das coisas) visitar igrejas e gastar o resto do tempo no mosteiro das freiras do Vale da Graça, que são religiosas de instituto [regra] apertadíssimo, com as quais janta muitas vezes, assiste com elas no coro e mais exercícios da religião e na verdade a obras tão pias se atribui comummente a grande união e concórdia que há em toda a França. (Maio e Junho de 1644)

(Exemplo 3)

 

As mulheres: as portuguesas também combatem (mas com tom de excepcionalidade)

Em Aldeia da Ponte, junto à Vila de Alfaiates, perto da cidade da Guarda, deram os castelhanos de Ciudad Rodrigo, e a gente do lugar tomou as armas. Acudiram à defesa até as mulheres. Pelejou-se com tanto valor, que recheçaram os inimigos com algumas mortes e muitos prisioneiros. (Março de 1642)

(Exemplo 4)

 

As mulheres eram mães e sofriam por causa da maternidade num tempo em que a medicina deixava a desejar

A Rainha da Polónia, irmã do imperador, morreu a 24 de Março, depois de parir uma filha morta. (Maio e Junho de 1644)

(Exemplo 5)

 

Havia feitiçaria no mundo e as mulheres eram as suas protagonistas

Dizem que uma mulher dissera a El Rei que estava enfeitiçado e que ela o queria desenfeitiçar. A tal mulher está recolhida em casa do confessor. (Maio de 1643)

(Exemplo 6)

 

As mulheres: as inglesas católicas são piedosas

Estas mulheres católicas pediram ao xerife o seu corpo [do padre Hugo Green, vítima de perseguição religiosa] (Março de 1643).

(Exemplo 7)

 

As mulheres: as inglesas são capazes de empreender acções colectivas de protesto contra o Parlamento

No dia seguinte, veio grande quantidade de mulheres, trazendo todas por divisa trançados brancos sobre seus toucados, a pedir paz ao Parlamento, e que fosse ao preço que fosse, as quais tornaram também ontem, em número de três para quatro mil, de todos os contornos desta cidade, e entrando por força, apesar dos guardas, pela primeira porta da Câmara Baixa, pediram em altas vozes a paz ao Senhor Pym e ao Visconde Say, a quem elas chamam botafogo. Mas o primeiro estava ausente e o segundo passou pelo meio delas sem ser reconhecido. E mandou o Parlamento aos seus guardas que as fizesse retirar, e algumas foram mortas. Depois mandou também chamar as companhias de cavalaria e de infantaria, as quais feriram também muitas, e finalmente as fizeram retirar de todo. Prometeram tornar mais fortes e aparelhadas, como fizeram, e dando na casa do Sr. Pym, lhe quebraram as portas, entraram dentro, mas não o achando se tornaram a retirar sem fazer mais coisa alguma. (Outubro de 1643)

(Exemplo 8)

 

O Parlamento britânico (dominado por protestantes) é capaz de “coisas monstruosas” contra mulheres e crianças

 

 

De Londres se escreve uma coisa monstruosa (...): o Parlamento, com o pretexto de aliviar aquela cidade de pobres e acudir às queixas de muitas mulheres, cujos maridos morreram na guerra ficando-lhes muitos meninos, ordenou secretamente, ou ao menos permitiu, aos mercadores que comerciam nas terras que os ingleses têm na América que tomassem pela força quantos meninos achassem pelas ruas de três anos e daí para cima, para irem povoar as ditas terras. E o pior é que os tais mercadores costumam vender por lá escravos por alguns anos, os que destas partes levam. Nesta conformidade, por força e por afagos, foram tomados muitos meninos por homens e mulheres, que nesta caça andavam por prémio de dois tostões, que os mercadores lhes davam por cada um. (Agosto de 1645)

(Exemplo 9)

 

Mas as mulheres também são capazes de coisas monstruosas

Em dezasseis do corrente matou nesta cidade da Rochella uma mãe a quatro filhos, em que entrou uma filha já mulher de catorze anos e os degolou a todos na cama: a tal mulher foi levada presa a Paris (…) No mesmo dia (…) homens e mulheres viram subitamente descer de uma brecha um homem com duas espadas de fogo nas mãos: fosse o que fosse todos deixaram o lugar sem ficar pessoa dentro. (…) Outra mulher matou três filhos e se enforcou juntamente o que dizem fez com necessidade atentada do demónio porque está hoje França tão falta de pão por causa das guerras que se padecem de muitas necessidades. (Junho 1643)

(Exemplo 10)

 

Ontem como hoje, a violência doméstica

Junto à praça dos Canos no entreforro de umas casas, que estavam vazias, se achou um saco, dentro do qual estava uma mulher feita em quartos. Tirou-se devassa, mas não há noticia até agora do delinquente. Presume-se que seu marido a matou. (Fevereiro 1642)

 

Os dois primeiros exemplos dão conta de que o início da regência da rainha Ana de Áustria em França carecia de uma espécie de legitimação, pois contrariava, de certa forma, a Lei Sálica. Por isso, quando surge uma notícia sobre esse episódio, é simultaneamente evocada uma lista das regências e reinados de várias rainhas francesas desde o tempo dos merovíngios: “E não é entre nós coisa nova terem as Rainhas de França a administração do Reino e a tutoria de seus filhos, porque as histórias antigas e modernas estão cheias de exemplos em igual caso. Assim, a Rainha Brunehaut, mãe dos reis menores Teodoberto e Thierry, foi sua tutora e regente do Reino (...) e em nossos tempos a Rainha-Mãe de El-Rei foi governadora até sua maioridade.” (Gazeta do Mês de Junho de 1643).

O terceiro exemplo inserido na tabela mostra como a participação de mulheres em batalhas era vista como uma excepcionalidade, dada a fragilidade com que seriam vistas. O papel das mulheres, no mundo seiscentista, seria, essencialmente, o de procriar (por vezes com sacrifício da própria vida, conforme o quarto exemplo), amar e cuidar da prole e da casa.

Numa época em que o conhecimento científico era residual, acreditava-se piamente na existência de feitiçaria. A atracção sexual dos homens pelas mulheres, aliás, seria vista muitas vezes como feitiçaria. As mulheres, incompreendidas pelos homens, eram as principais acusadas de bruxaria e afins, mas teriam, igualmente, poderes para quebrar feitiços. O quinto exemplo evoca, precisamente, essa visão do mundo.

No sexto exemplo, a intolerância religiosa e as perseguições dos protestantes contra os católicos são, mais uma vez, colocadas em evidência. Os redactores da Gazeta, clérigos católicos num país católico, não poderiam deixar de se identificar com a sorte dos clérigos católicos ingleses, com os quais. As mulheres católicas inglesas são apresentadas de acordo com uma visão idealizada e positiva: trata-se de gente devota e compadecida.

A guerra civil inglesa era alvo de curiosidade, pela novidade, mas também pela incompreensão, por colocar em causa princípios de estrutura social e governação decerto tidos por adquiridos pelos portugueses de seiscentos. Os redactores da Gazeta alinham sempre pelo lado do monarca inglês, absolutista católico, denegrindo o Parlamento, ademais dominado por protestantes (Portugal era um país intrinsecamente católico). Os exemplos 7 e 8 da tabela anterior ilustram, precisamente, esse estado de coisas, sendo que as mulheres e crianças são apresentadas como sendo as principais vítimas das acções do Parlamento, apesar de também serem vistas como tendo iniciativa suficiente para protagonizarem manifestações de protesto (exemplo 7). Interessantemente, no exemplo 8, o redactor enquadra logo de início a notícia: trata-se de uma “coisa monstruosa”.

É de realçar, no entanto, que a imagem idealizada da mulher sugerida predominantemente pela Gazeta é temperada pela revelação de que as mulheres também são capazes de cometerem crimes brutais (exemplo 9), tal e qual como a alegada fragilidade do sexo feminino é colocado em causa no terceiro exemplo, que relata combates em que participaram mulheres.

A violência de género também se encontra representada no discurso da Gazeta. O décimo exemplo retrata, precisamente, um homicídio supostamente cometido por um homem contra a sua esposa.

 

 

Questões jornalísticas

A primeira consideração que deve ser feita sobre o jornalismo português seiscentista é o de que ele se aproxima no estilo do jornalismo contemporâneo. Longe ficavam, nomeadamente, as Relações de Manuel Severim de Faria, que começavam e acabavam como cartas (ver Sousa e tal., 2006) – eram “cartas de novas gerais”. Na Gazeta, não só se vai directo às notícias como também estas são claras e, normalmente, concisas, embora nem sempre precisas:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

A Armada Real de Castela anda dividida em duas esquadras, uma no cabo de São Vicente e outra na barra de Cádis, esperando a frota. É general o duque de Maqueda.

 

Gazeta do Mês de Dezembro de 1641

Morreu o conde de Odemira.

Da cidade de Elvas fugiu um soldado estrangeiro de cavalaria. Foram em seu alcance e colheram-no escondido num mato, perto do caminho de Badajoz, e trouxeram-no outra vez para o corpo de guarda e em continente o enforcaram.

 

Um segundo aspecto relevante que deve ser considerado relaciona-se com as respostas que se procuravam dar ao leitor no enunciado jornalístico. Responder às perguntas tradicionais do enunciado noticioso (Quem? O quê? Quando? Onde? Como? Porquê?) não é uma invenção contemporânea, mas sim uma invenção da retórica clássica, muito bem recuperada pelo jornalismo. Por isso, cientes dos princípios estabelecidos pela retórica clássica, que Peucer, inclusivamente, referiu na sua tese doutoral de 1690 (a primeira tese mundial sobre jornalismo e comunicação), também os redactores da Gazeta procuraram, nas notícias, explicitar as circunstâncias de sujeito (quem?), objecto (o quê?), lugar (onde?), tempo (quando?) e, por vezes, também de modo (como?) e causa (porquê?):

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

Deu El-Rei Nosso Senhor uma Comenda ao Doutor Pedro de Castro de Melo pelos serviços de seu filho o capitão Jerónimo de Castro e Melo [quem e o quê?] que morreu pelejando valorosamente na entrada de Valverde [porquê?].

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

Quarta-feira de Cinzas à tarde [quando?] saiu da cidade de Elvas [onde?] Gaspar Pinto Pestana, comandante de cavalaria, com 700 cavaleiros [quem?], e foi alojar-se a Campo Maior [onde?]. Logo foram duas companhias reconhecer o campo e encontraram num posto [como?], a que chamam o Cabeço da Cerva, junto ao rio de Abrilongo [onde?], um clérigo castelhano, que chamam o licenciado Gordito, com 25 cavalgaduras e alguns soldados de escolta [quem?]. Deram neles, mataram-lhes seis homens, renderam os restantes, tomaram as cavalgaduras e deram uma ao clérigo para que se fosse [o quê e como?] (…).

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

De Entre-Douro e Minho [onde?], no primeiro sábado deste mês [quando], veio uma carta em que se avisa que um capitão de infantaria francês, tenente-coronel [quem?], enfadado da suspensão das armas e do grande ódio em que os soldados estavam na cidade de Braga, por causa do Inverno [porquê?], deliberou sair em campanha e entrar pelas terras dos inimigos (…) [o quê?].

 

As notícias seiscentistas eram, tendencialmente, factuais. Mesmo as mais longas eram construídas com base no mesmo entrelaçado de factos a que Tuchman (1978) se viria a referir como a teia de facticidade, sendo que o desenvolvimento da acção assentava num modelo diacrónico ou cronológico. Observe-se como a notícia anterior continua:

 

Gazeta do Mês de Março de 1642

Quarta-feira de Cinzas à tarde saiu da cidade de Elvas Gaspar Pinto Pestana, comandante de cavalaria, com 700 cavaleiros, e foi alojar-se a Campo Maior. [Facto 1]

Logo foram duas companhias reconhecer o campo e encontraram num posto, a que chamam o Cabeço da Cerva, junto ao rio de Abrilongo, um clérigo castelhano, que chamam o licenciado Gordito, com 25 cavalgaduras e alguns soldados de escolta. [Facto 2]

Deram neles, mataram-lhes seis homens, renderam os restantes, tomaram as cavalgaduras e deram uma ao clérigo para que se fosse. [Facto 3]

No dia seguinte, saiu de Campo Maior o comissário com a cavalaria e com 500 mosqueteiros. [Facto 4]

Correu à campanha e deixando os mosqueteiros de emboscada num posto que chamam Nossa Senhora da Botouva (que é na passagem para Badajoz) [Facto 6]

escalou os campos de Vilar del Rei, deu volta ao lugar e seus contornos [Facto 7]

E chegou-se tanto que dentro das trincheiras mataram dois cavaleiros [Facto 8]

Mas os nossos tiraram a vida a trinta castelhanos e aprisionaram 24. [Facto 9]

E não houve em todo aquele circuito herdade, moinho, quinta, seara, defesa ou olival que não alcançasse o destroço deste assalto. Depois de não te r o que destruir, retirou-se o comissário com grande número de vacas, porcos, ovelhas, cabras, cavalgaduras e muitas cargas de roupa branca. [Facto 10]

 

Um terceiro aspecto que merece ser equacionado na Gazeta, porque comunga características com algum do jornalismo político do início do século XIX (o jornalismo do jornal de um homem só), com os blogs e com os meios”jornalísticos” de autoria colectiva, potenciados pelas novas tecnologias, é a presença da figura do cidadão-repórter, do correspondente que é testemunha presencial dos acontecimentos e que, por carta, dá conta do que viu aos redactores dos jornais. A rede de correspondentes amadores, à falta de jornalistas profissionais que fizessem o trabalho, foi, de resto, um dos instrumentos jornalísticos que permitiu às organizações noticiosas cobrir vastos territórios e eventos dos mais variados tipos, desde as guerras aos acontecimentos sociais. Eis exemplos de actuação do cidadão-repórter:

 

Gazeta Primeira do Mês de Outubro de 1642

As Cerimónias dos Desposórios do Príncipe Maurício com a Princesa de Sabóia, conforme o extraordinário de 27 de Agosto de 1642

Os artigos acordados entre El-Rei e os príncipes Maurício, cardeal, e Thomas de Sabóia, foram notificados por El-Rei no primeiro dia de Julho e logo pelos ditos príncipes (…) do qual, tratado o estado dos negócios presentes, não permite que eu ainda vos dê em público contas, mas vereis dois efeitos seus, que ambos chegaram no mesmo dia, a saber os desposórios do dito príncipe (…) e a tomada de Crescentim.

A 14 de Agosto, havendo sido eleita para estas cerimónias a (…) duquesa de Sabóia, vestida de grande luto, pela morte da rainha mãe, e levando-lhe a marquesa Villa o rabo, entrou nos paços do duque de Sabóia, os quais estavam todos cheios de senhores e damas de Turim. A câmara do aparato estava toda entapeçada de panos de ouro e seda, onde se havia levantado um trono sobre quatro degraus, cercado de balaústres dourados (…). Madame de Sabóia estava posta sobre o trono, a dois passos de Sua Alteza (…). O marquês Cirie, que tinha cargo do príncipe cardeal de Sabóia (…), entrou dentro das grades, fazendo muitas cortesias, subiu dois degraus do trono e sobre o terceiro se pôs de joelhos para saudar a madame e levantando-se lhe pediu a princesa sua filha, em nome do príncipe Maurício de Sabóia. Sobre o que madame lhe pediu a procuração que para isso tinha e ele lha apresentou, com os joelhos no chão, e tomando-a madame, a mandou ler em voz alta ao (…) secretário de Estado e depois disse que ela dava seu consentimento e só faltava saber o da princesa, a quem o duque de Longavilla foi logo buscar (…) e trazendo-a ao trono, ela se mostrou comt anta graça e formosura que se duvidou se era natural pela grande pompa e aparato de suas galas. Estava vestida com uma tela de prata (…) e todo o corpo e mangas cobertas com grande quantidade de pedrarias. Tinha sobre a cabeça uma coroa aberta de grandíssimo preço (…). A graça do seu meneio e de seu gesto foi grandemente acrescentada pela do seu discurso, no qual manifestou tanto respeito às perguntas da sua mãe que não houve quem não admirasse na idade de 15 anos sua grande modéstia e nesta eleição a prudência e a felicidade do príncipe Maurício. E ainda que não pude alcançar sua verdadeira resolução nesta matéria, bem se julga pelo que se seguiu que havia dado o sim, porque os juramentos se fizeram de parte a parte, em consequência dos quais todo o ajuntamento passou à Igreja de São João, que estava ricamente armada, na qual se cantou o Te Deum Laudamus.

 

Gazeta do Mês de Setembro de 1647

De Veneza, 12 de Agosto de 1647

(…)

De Constantinopla nos escrevem que havendo sabido o grão senhor da nova da perda dos seus (…) baixéis que o nosso general (…) lhe tomou (…) fizera prender o seu grão-vizir, mas que a grande diligência da sultana, mãe de Sua Alteza, com duzentas sultanas mais, que o dito grão-vizir havia pleitado, o livrou da prisão, onde não esteve mais de sis horas, e havendo sido restabelecido no seu cargo, enviou ordens expressas ao paxá que governa a Canea que se fizesse senhor de todo aquele Reino ou lhe levasse sua cabeça com as de todos os seus oficiais. Privou também do cargo, ao mesmo tempo, a Toch Ali Baxa Aga, dos Janízaros, por não ter feito embarcar o número de soldados que ele havia ordenado, e depôs o general (…) do mar, em cuja praça meteu um mancebo de 20 anos muito animoso, o qual casou com a filha única do defunto sultão Amurares. E para continuar vivamente a guerra, fez tirar do (…) seu tesouro seis milhões para esta futura conquista, para a qual se diz que tem já cem galés (…).

 

Por vezes, as peças mais longas, como a mini-reportagem descritiva que se segue, eram antecedidas de um intróito destinado a atrair a atenção do leitor, conforme, também, as regras da retórica clássica, opção que no jornalismo português se conhece, na gíria profissional, por “nariz de cera”:

 

Gazeta do Mês de Junho de 1643

A Rainha-Mãe e regente do Reino [França], sabendo que nenhuma coisa é mais agradável aos parisienses do que a vista do seu Rei, com a qual estão em posse de esperar tudo, e de não temer nada, quis a vontade de El-Rei se concordasse neste particular com a sua, e que verdadeiramente as más constelações deste funesto ia, que já nos tem levado dois reis, de nenhuma maneira diminuíssem as doces influências e os benignos aspectos que devem favorecer a sua entrada numa cidade que ela tanto ama e onde ela tanto é amada [intróito],

e assim no dia 15 do corrente, pelas 11 horas do dia, Suas Majestades e Monsenhor, o duque de Anjù, acompanhados dos Príncipes de sangue, duques, pares, marechais de França e outros grandes do Reino partiram de St Germain por esta ordem: primeiramente marchava um batalhão do Regimento dos Guardas, o qual era seguido de outro batalhão do Regimento dos Suíços, da companhia de Mosqueteiros do Rei, dos novecentos cavaleiros ligeiros da guarda de Sua Majestade e de toda a nobreza, no meio da qual iam os marechais de França, depois os duques e pares, todos a cavalo. Logo a carroça da Rainha, onde ia El-Rei e monsenhor, o duque de Anjù, e ao redor dela os capitães dos guardas e todos os guardas do corpo de El-Rei, atrás da qual iam os duzentos homens de armas a cavalo e dois batalhões mais das guardas Francesa e Suíça. Toda esta formosa tropa, cuja frente era do mais galhardo exército que há muito tempo foi visto, chegou nesta ordem até às portas de Paris, que dista de St. Germain cinco léguas, fora das quais saíram a receber Suas Majestades os arqueiros do grão-preboste, e com os cem suíços da Guarda do Corpo, os quais tomaram sua fileira e marcharam em ordem diante da carroça de Suas Majestades. À porta de Santo Honorato, por onde El-Rei entrou, apresentou-se o duque e Mombazon, o preboste dos mercadores, e os senadores desta cidade, que receberam Suas Majestades de joelhos e lhes deram a honra e homenagem que lhes é devida e logo se puseram entre o regimento de guardas em alas de sete à dita porta até ao Louvre, onde o Parlamento, a Câmara dos Condes, a Corte das Ajudas, o Castelete e muitos outros corpos os vieram saudar e manifestar-lhes a glória que estas companhias tinham na sua vinda e quanto bem esperavam da demora de Suas Majestades nesta cidade capital dos seus estados [notícia propriamente dita].

 

Gazeta dos Meses de Julho e Agosto de 1644

De Londres, aos 26 de Julho

Perguntando-se a um sábio filósofo o que lhe parecia o mundo, respondeu este que uma boa comédia, porque na comédia, assim como no mundo, tudo é aparente e fingido, digam-no as contínuas e súbitas mudanças dele, e diga-o com exemplos mais vivos o presente Rei da Grã-Bretanha, [intróito]

o qual havendo tão pouco tempo que alcançara uma tão grande vitória contra os parlamentares, vencendo e desbaratando em batalha campal, três milhas além de Bambury e catorze da cidade de Oxford, ao cavaleiro Waller, se mudou contra ele a fortuna (digamos assm), de maneira que encontrando-se outra vez com os do mesmo partido junto à cidade de York, que cercada tinham, alcançaram dele os parlamentares uma vitória tal que se diz que fugiu Sua Majestade vencido para a Irlanda, ainda que outros afirmam que não se sabe dele, a Rainha para França, o conde de Newcastle, um dos seus generais, para Hamburgo, e não se sabe o que é feito do príncipe Roberto, sobrinho de El-Rei, e de outro general seu.

 

Outro exemplo que se pode dar de uma “mini-reportagem” com extenso intróito, neste caso antecedido de uma espécie de título-entrada é a notícia seguinte, elaborada, certamente, por alguém com conhecimentos da retórica clássica, já que o intróito está claramente dividido em exórdio propósito, seguindo-se a narração (narratio) e a conclusão (conclusio)

 

Gazeta do Mês de Setembro de 1643

Mais de Paris o primeiro de Agosto de 1643

(…)

A pesa e redução da cidade de Thionvilla à obediência de El-Rei Cristianíssimo Luís XIV pelo Duque de Enguien, filho do príncipe de Condé, primeiro do sangue no Reino de França, com os artigos das capitulações. [Exemplo de um título que funciona também como entrada, ou vice-versa.]

Aquele que sentado e amparado dos perigos se deleita em ler as difíceis expedições de batalhas e sítios de praças e não as quer somente começar mas continuar com um mesmo ânimo, sem se espantar com o fogo da mosquetaria e da artilharia que uma praça cercada vomita sem cessar, nem do aspecto os esquadrões e batalhões postos em ordem, leia o cerco que os nossos valorosos franceses puseram a Thionvilla, debaixo do governo de um príncipe cujos primeiros movimentos e progressos têm sido tão gloriosos que nos prometem um alegre fim. [Intróito: exórdio (1).]

Bem o havia profetizado El-Rei antes da sua morte e já não é sonho o que então disse ao príncipe de Condè, que o duque de Enguien, seu filho, chamaria nossos inimigos à razão. A sombra deste justo príncipe os vai perseguindo, a inocência das armas do nosso tenro monarca [Luís XIV], debaixo do governo da mais perfeita Rainha do Universo, os vai sujeitando, com o braço vitorioso de um príncipe, cujo golpe até agora seguiu sempre a ameaça, havendo triunfado deles em campanha e reduzido a capitular dentro de uma das suas mais fortes e importantes praças. Mas não se podia esperar menos de um exército também disciplinado, que nenhum regimento entrava de guarda que não fosse para receber a bênção do Santíssimo Sacramento na capela do campo e exercitar assim em particular, como em geral todos os actos de piedade, pela direcção de seis padres da Companhia de Jesus e outros religiosos distribuídos por seus quartéis. [Intróito: exórdio (2).]

Não me deterei agora em referir por extenso os progressos da guerra, para não escurecer com a brevidade de um relato a glória que mereceram as nossas armas nesta ocasião em que todos se portaram com tanto valor, que sobrando-me o afecto para o engrandecer com o coração, me faltam as palavras para o celebrar com a pena, porque é tão grande a importância desta praça que chegou a dizer um dos plenipotenciários de Castela (num tempo em que imaginava que nunca pudesse ser tomada) num livro castelhano intitulado Succesos Principales de la Monarchia de España en el Año de 1639, Escriptos por el Marqués Virgilio Malvezzi, del Consejo de Guerra de Su Majestad, impresso em Madrid, no ano de 1640, na Imprensa Real, o seguinte: “Os franceses (diz ele) são mais para temer do que os suecos (…). Não é fácil conhecer o desígnio da França, nem há príncipe nem república na Alemanha que não tomasse as armas para o impedir (…). O grande desejo de El-Rei Cristianíssimo é o de chegar ao Império e esta é a última coisa que fará. Seus predecessores começaram pela presa de Metz, Toul e Verdun. Este a prosseguiu pela ocupação da Alsácia e da Lorena. Se ele se pudesse fazer senhor de Thionvilla, esta presa lhe daria logo todo o Luxemburgo, acabaria a conquista do condado da Borgonha, desprotegeria o Palatinado (…). Os três eleitores católicos ficariam seus súbditos. El-Rei de Espanha perderia a Flandres, logo o Imperador, o Império, as cidades livres da Alemanha sua liberdade e os príncipes alemães seu Estado”. Mas era bem que uma praça a que não há ainda cinco anos que um dos nossos exércitos serviço de vítima viesse a dar inteira satisfação à coroa, que tanto havia ofendido. O modo foi este. [Intróito: propósito.]

[Início da narração: narratio.]

Estando de guarda nas trincheiras o senhor de Palvau, o marechal de campo e e o senhor de Tourvilla, primeiro gentil-homem da câmara do duque de Enguien, o primeiro escreveu ao governador de Thionvilla, que desejava muito dar-lhe uma palavra sobre certo negócio, ao que o governador respondeu que não podia sair da praça e assim enviava-lhe dois dos seus principais oficiais, pessoas de qualidade, às quais podia ele dar todo o crédito. Durante esse tempo houve naquela parte calar de armas, pelejando-se nas demais como de antes. E chegando o dito senhor de Palnau a falar com os ditos oficiais, depois de lhes haver dado conta da muita vantagem das armas de El-Rei [de França] e da glória que o duque de Enguien, governador delas, tinha alcançado naquele cerco, lhes fez ver como a presa da cidade era infalível e sua perda inevitável se esperassem ser entrados por força das armas. (…) Responderam os oficiais que queriam dar conta de tudo ao governador (…). Dali a pouco vieram os magistrados de Thionvilla (…) e trouxeram os artigos das capitulações seguintes, os quais foram todos executados.

Artigos acordados por Sua Alteza (…) e o governador, presídio e moradores de Thionvilla pela entrega da praça à obediência de El-Rei Cristianíssimo

[Seguem-se os 14 artigos do acordo de capitulação da cidade.]

[O acordo da] capitulação o senhor (…) ajudante de campo (…) trouxe à Rainha aos 12 do dito mês de Agosto. E aos 14, pelas 3 horas depois do meio-dia, o (…) gentil-homem da câmara do duque (…) lhe trouxe a nova da execução dela (…), que o duque lhe tornou a enviar com a nova desta presa, em câmbio da que ele lhe havia mandado sobre o nascimento do novo príncipe, seu filho, que foi aos 19 de Julho, pelas 7 da tarde.

Está a cidade de Thionvilla no antigo ducado do Luxemburgo. Sua forma é como um meio círculo [segue-se a descrição da cidade] (…) e está situada num vale. Entrou nossa gente nela aos 10 do dito mês de Agosto pelo meio-dia, tomando primeiro as guardas francesa e suíça, antes das 4 horas da manhã, posse das três brechas, dos dois bastiões e da cortina. A gente de guerra sairia em número de 1300 ou 1400 entre infantaria e cavalaria, a saber 300 para 400 cavaleiros e alguns mil peões, não contando muitos feridos, alguns moradores e onze capuchinhos que não quiseram ficar dentro por mais persuasões que lhes fez o Padre Musnier da Companhia de Jesus (…), que o enviou, logo que a capitulação foi assinada, a assegurar aos eclesiásticos, religiosos e moradores as boas vontades de El-Rei e do general do exército, com promessas de fazer reparar as ruínas e as perdas recebidas nos seus conventos, que estavam expostos à artilharia por causa da sua vizinhança com os baluartes.

Enquanto os inimigos saíam, os sãos a pé e os feridos em carretas que o duque (…) lhes havia dado, segundo a capitulação o nosso exército estava ao redor da praça (…) e (…) fazia muitas salvas (…).

Pelas duas horas depois do meio-dia, havendo-se os regimentos das guardas francesa e suíça apoderado das entradas, praças e postos da cidade, o duque (…) entrou nela acompanhado dos oficiais generais (…) e dos voluntários, marchando (…) sempre com o chapéu na mão até à entrada da igreja principal (…) e logo foi ali cantado o Te Deum Laudamus (…), a qual cerimónia terminou com a bênção do Santíssimo Sacramento, que estava exposto na Igreja.

O duque (…) foi logo ver o trabalho nos cercados [muralhas] (…).

[Fim da narração ou narratio.]

Tudo merece a piedade e religião, inseparável de nossa soberana princesa, cujos altos desígnios são generosamente favorecidos pelo vigor de espírito de monsenhor o duque de Orleães, tio de El-Rei. Tudo produzem os sábios conselhos do eminentíssimo cardeal Mazarino e tudo rende ânimo excelente do duque de Enguien, cujas virtudes e partes são tão louvadas e virtuosas que a sua memória servirá de farol e de método aos que viverem durante o curso da sua vida. Solo Deo Honor & Gloria. [Conclusão: conclusio.]

 

Para além das centenas de notícias que se resumem ao que hoje em dia classificaríamos como lead de impacto, noutras peças mais desenvolvidas da Gazeta também encontramos esta estrutura, que lança o resto do texto a partir da informação mais importante (e que para o caso assume a forma de sumário):

 

Gazeta do Mês de Abril de 1643

De Marselha, a 9 de Março de 1643

As grandes chuvas que em Itália houve desde o princípio de Novembro até ao fim de Dezembro passado engrossaram de maneira os rios da Lombardia e particularmente o Pó, que saindo do leito inundou a maior parte das cidades, vilas e terras vizinhas. Neste dilúvio afogaram-se tantas pessoas, ruíram tantas casas e perderam-se outros bens, que se não dera crédito e autoridade [lead].

 

A notícia anterior apresenta uma estrutura assente em blocos textuais, um princípio comum à reportagem contemporânea. Isto é, após o lead de impacto sumariante, cada um dos blocos textuais é dedicado ao que se passou em cada cidade afectada pelas cheias. Em alguns blocos, a informação é organizada segundo um eixo de diacronia, em que numa primeira parte se relata o sucedido para na segunda se descreverem as operações de socorro; outros blocos, porém, resumem-se a uma espécie de leads de impacto, sendo aqui de recordar que outro dos princípios organizadores do texto na reportagem contemporânea é, precisamente, o de começar cada bloco com informação relevante, para manter o leitor interessado no texto. De realçar, ainda, na notícia em causa, o recurso a descrições pormenorizadas (algo que hoje seria possivelmente visto como um arcaísmo na organização do texto informativo), o enquadramento religioso pontual do mundo (para o português seiscentista, Deus intervém constantemente no mundo) e as frases explicativas e figurativas.

 

Gazeta do Mês de Abril de 1643

De Marselha, a 9 de Março de 1643

As grandes chuvas que em Itália houve desde o princípio de Novembro até ao fim de Dezembro passado engrossaram de maneira os rios da Lombardia e particularmente o Pó, que saindo do leito inundou a maior parte das cidades, vilas e terras vizinhas. Neste dilúvio afogaram-se tantas pessoas, ruíram tantas casas e perderam-se outros bens, que se não dera crédito e autoridade [lead].

Começou esta inundação na cidade de Mântua, por causa do grande lago em que está situada , o qual havendo extraordinariamente crescido, derrubou rande quantidade de casas e entre outras três ricos palácios do duque de Mântua, a saber Gonzaga, São Bento e Burgo forte, com perda de mais de 1200 pessoas, que se afogaram, porque quase toda a cidade estava cheia de água por dentro e por fora, de sorte que os moradores eram constrangidos a subir aos telhados de suas casas e sobre as altas árvores, onde muitos depois foram achados mortos de fome ou de medo. E teria sido muito maior o dano se não fosse a boa ordem que então deu a duquesa de Mântua, mandando sob pena da vida aos barqueiros levarem-lhes pão e vinho, que ela dava, não faltando jamais àquela miserável gente com socorro até de todo baixarem as águas. [Parte 1 do bloco 1]

E para juntar o socorro do Céu ao da terra, o bispo de Mântua fez expor o Santíssimo Sacramento pelas 40 horas e mandou fazer procissões gerais aos moradores que haviam escapado deste perigo, com as cabeças descobertas e os pés descalços, pedindo e bradando Misericórdia para abrandar a ira de Deus. [Parte 2 do bloco 1]

A cidade de Viadana, deste mesmo país, a qual é de alguns mil fogos, rica pelas suas mercadorias que repartia por todo aquele distrito, foi de todo submergida, por ter a situação muito baixa, e se perderam nelas 1500 pessoas. [Bloco 2]

A formosa cidade de Cremona não teve perdas menores do que as outras por causa desta grande enchente, porque chegou a ela pelas três horas depois da meia-noite e tomou todos descuidados, e viram pelo espaço de quatro horas somente, que durou este dilúvio, toda a cidade alagada até à grande praça, onde a água estava pela altura de quatro pés. As casas chamadas São Cristóvõ, Prado e Gonzaga foram de todo submergidas, com muitas outras de menos nome, das quais caíram mais de cem e outras ficaram arruinadas. E subiu a água até à Igreja, que chamam do Domo, que é um dos lugares mais altos da cidade, de sorte que os moradores não se podiam visitar senão com batéis e entravam neles pelas mais altas janelas das suas casas. [Parte 1 do bloco 2]

O cardeal Campora, bispo da cidade, esteve muito embaraçado neste dilúvio e mandou fazer rogos públicos, enviando uma grande quantidade de barcas, com muita pressa, a salvar pelas casas os que pudessem. Porém, não obstante tudo isto, afogaram-se mais de trezentas pessoas e houve uma grande perda. [Parte 2 do bloco 2]

A pequena cidade de Ergdella, que não tem mais de uns trezentos fogos, no mesmo território de Cremona, viu-se num instante submergida e não se puderam salvar mais que cem pessoas. [Bloco 3]

Em Castel-Vetri foi tudo inundado, excepto o campanário da Igreja Maior, na qual se salvou o governador da praça com alguns trinta moradores. [Bloco 4]

No lugar do Monte, não ficou mais do que a Igreja e todos os edifícios caíram com a violência das águas [Bloco 5]

(…)

 

O principal género jornalístico que ocorre na Gazeta é a notícia. Há notícias breves e notícias longas, comentadas ou “secas”, sendo, porém, que várias das notícias longas se aproximam da reportagem, inclusive nos aspectos explicativos, descritivos e analíticos e nos “quadros vivos” da situação descrita:

 

Gazeta do Mês de Agosto de 1647

A tomada de Dixmuda pelo Marechal de Rantzau

Havendo-se o marechal de Rantzau separado do corpo de exército governado pelo marechal de Gassion, com o desígnio de cercar alguma praça aos inimigos e julgando que as suas tropas não eram suficientes para atacar Bassea, a cuja vista passou, e porquanto dois mil cavaleiros inimigos que lhe iam nas costas da sua marcha lhe impediam de fazer a circunvalação necessária para a presa desta forte praça, e de grande circuito, continuou o seu caminho para a cidade de Dixmunda, a qual fica no senhorio e viscondado de Bergade Sam Winot. E para a cercar de todos os lados, ordenou ao senhor de Clanca, marechal de campo, que partisse, como ele fez, com diligência de Carteau para Amieus, a receber nela as ordens da Corte, para a investidura contra aquela praça da banda de Furnas e Nieuport. Chegando para este fim a Dunquerque aos 8 do corrente, onde juntou alguns 440 batéis (…), partiu aos 9 por Furnas, onde chegando de noite com alguns 1600 homens, mandou quatrocentos que ao outro dia de manhã fossem tomar seu posto entre Dixmuda e Neiuport, ou Portonovo, que é uma cidade pequena, mas muito boa, com um castelo assaz forte e um porto acomodado e bem frequentado a três léguas de Dunquerque.  (…) Fez prontamente desembarcar os seus soldados (…) até ao reduto de KnoKe (…) o qual depois de ser defendido três horas e depois de haver sofrido somente um tiro de canhão se rendeu (…). E assim lhe enviou o senhor de Balloy, marechal de batalha (…), com a nova desta presa e receber as (…) ordens, (…) que foram marchar (…) ao longo da ribeira para estar (…) antes do amanhecer a um tiro de canhão de Dixmuda (…).Resolveu-se que invadiriam no mesmo dia os arrabaldes da praça, que consistiam numa meia-lua (…), de altura extraordinária, bem entrincheirada, e com dois fossos secos muito profundos, e três meias luas mais à esquerda entrincheiradas do mesmo modo, com seus fossos cheios de água. Mandou o marechal de Rantzau 400 homens de guarda franceses, 200 do Piemonte e 300 suíços atacar a grande meia-lua, enquanto 200 homens (…) faziam um falso ataque a outra meia-lua (…). Vindo a noite, se foi direito ao ataque (…), que foi executado com grande vigor e generosidade, porque ainda que tivesse sido necessário marchar mais de cem passos a descoberto, durante a claridade da lua (…), nem por isso os nossos, não obstante as muitas cargas de mosqueteria e pedras, com granadas, que sobre eles lançavam do alto da dita meia-lua, depois de haverem cortado e derrubado as palissadas, deixaram de subir dentro e lançar os inimigos, aos quais obrigaram a também deixar a outra meia-lua, apertando com eles tão fortemente que lançando-os além do fosso, da parte da praça alguns dos nossos passaram envoltos com eles por uma pequena ponte feita de duas pranchas (…), com grande espanto de todo o presídio (…). Animados os nossos batalhões com o exemplo (…), havendo-os seguido para tomarem a cidade por assalto, quebrou a ponte sobre eles e obrigou a nossa gente a se entrincheirar na grande meia-lua (…). E estando os senhores de Noermotier e de Clauleu ocupados (…), foram ambos feridos (…), e querendo dissimular por algum tempo as suas feridas para não desmotivar os seus soldados que ali estavam (…) expostos ao contínuo fogo que os inimigos faziam (…), fora finalmente constrangidos, pelo excesso das suas dores, a retirarem-se (…). As outras duas meias-luas, havendo sido levadas pelos escoceses e suíços, o marechal de Rantzau os fez retirar, por entender que lhe não convinha muito a guarda delas. E ele esteve sempre a cavalo, ao pé da contra-escarpa (…). Ao seguinte dia (…) os moradores obrigaram o presídio a capitular, o qual constava de 500 soldados, que se renderam (…). A praça é muito melhor do que se imaginava, porque além de sua situação tão avantajada, está fortificada com outras meias-luas bem acabadas e entrincheiradas (…) e se achou bem guarnecida de artilharia (…). Todas as nossas tropas fizeram aqui o seu dever (…).

[Exemplo de notícia longa, pequena reportagem diacrónica.]

 

Gazeta do Mês de Agosto de 1647

De Leipzig, 4 de Julho de 1647

Aos 27 do passado rendeu-se a aos suecos o castelo de Hoff, os quais permitiram que os oficiais pudessem retirar-se, mas obrigaram os soldados a ali estar em suas tropas. [Exemplo de notícia factual curta]

 

Gazeta do Mês de Agosto de 1647

Temendo as galés de Nápoles que o duque de Richelieu, general da Armada de França, as investisse, no porto colocaram muitas cadeias de ferro e madeiros. E sabendo que se havia feito à vela na volta da Provença, saíram no mesmo dia 29 do passado e tomaram a rota de Nápoles. [Exemplo de notícia curta comentada: invoca as razões para um acontecimento.]

 

Alguns textos da Gazeta não podem ser totalmente categorizados como notícias. Os textos seguintes, por exemplo, são mais auto-promocionais do que jornalísticos, apesar de confirmarem informações já dadas, avançarem com novas informações de última hora (mesmo quando inconclusivas) e de darem notícias da previsível publicação de relações particulares (espécie de grande reportagem) e de um novo número da Gazeta. Há também nos textos uma desnecessária mistura de assuntos:

 

Gazeta do Mês de Agosto de 1647

O levantamento da Sicília, que no princípio desta Gazeta demos conta, é certo, e novamente o de Nápoles, cujas circunstâncias são tantas que não podendo resumir-se neste lugar, me obrigam a relação particular, para onde as reservo. Também se diz que as cidades de Salerno e Cápua seguiram o mesmo exemplo. E de Roma avisam que em Orbitello houve um motim entre os soldados do seu presídio, que consta de napolitanos e espanhóis, no qual aqueles constrangeram estes a sair (ficando muitos deles mortos sobre a mesma praça), os quais retiraram a Roma e não sabemos o que se seguiu depois.

 

Gazeta do Mês de Setembro de 1647

Depois de feita esta gazeta, chegaram avisos das baterias que estavam dando na cidade de Nápoles e do sítio que se avia posto à de Milão, com outras novas particulares, de que se dará conta na primeira gazeta.

 

A desnecessária mistura de assuntos ocorria, de resto, nas mais variadas peças:

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

De Münster

Apertam tanto os franceses na Alemanha e na Flandres que se vão fazendo árbitros da Dieta e obrigam pelas suas vitórias aos deputados da Áustria a receberem o embaixador de Portugal e os demais deputados dos confederados de França, de maneira que já os austríacos desta cidade falam de os receberem, mas querem que seja sem constar aquilo por papel, que entrem na dieta mas sem cerimónia alguma, ao que não quer vir o Cristianíssimo, querendo absolutamente que entrem com as formas escritas e papéis ordinários. Rodrigo Botelho, embaixador de Portugal na Coroa da Suécia, está morto.

 

Ocasionalmente, alguns textos da Gazeta não podem ser categorizados como notícias nem reportagens. É o caso, por exemplo, da transcrição, por vezes a partir de gazetas estrangeiras, de petições, acordos, tratados, inventários, listas, cartas, etc., apresentados na íntegra, como informações em bruto:

 

Gazeta do Mês de Abril de 1642

Na gazeta que veio de França estão as propostas que os irlandeses agora fazem a El-Rei de Inglaterra, as quais traduzidas ao pé da letra são as seguintes:

 

ARTIGOS DO QUE OS CATÓLICOS

confederados na Irlanda pedem a El-Rei Carlos

de Inglaterra

 

1. Pedimos que haja liberdade de consciência e público exercício da nossa sagrada religião, como têm os escoceses da sua, de maneira que a inovação e reforma que se fez na Escócia não venha ao nosso Reino. E assim nenhuma será estabelecida, nem confirmada, senão a religião Católica e eclesiástica hierarquia, e admitimos outra vez os religiosos, sem admitir heresia, nem feita nenhuma senão os moderados protestantes que até agora estavam em Inglaterra, Germânia e noutras certas províncias. Que não haja bispo nenhum senão católico. Que os sacerdotes gozem dos benefícios eclesiásticos e rendas como antigamente foi ordenado e que os ministros protestantes gozem somente dos bispados e benefícios que os da sua seita procurarem para seu sustento.

2. Pedimos que no governo temporal sejamos governados pelo vice-rei, conselho e oficiais católicos e naturais, sempre com a subordinação devida a Sua Majestade, de cuja mão aceitaremos tais ofícios.

3. Pedimos que as terras e condados dos católicos que foram confiscados por causa da religião, assim no tempo da Rainha Elisabete como depois, sejam exactamente restituídos, ou ao menos a valia deles.

(...)

 

Gazeta do Mês de Julho de 1645

Memória das tropas que o conde de Harcut, general de Sua Majestade Cristianíssima, desbaratou a 22 de Junho de 1645, começando a batalha (da qual brevemente daremos inteira relação) entre as 8 e as 9 horas da manhã, nos campos de Horanse e Belaguier.

Cavalaria desfeita          600 cavaleiros das três ordens militares

                                            400 cavaleiros de Nápoles

                                            (…)

Infantaria desfeita          O regimento de D. Pedro Valenzola Castelhano

                                            O regimento de Locenzana dos Velhos Napolitanos

                                            (…)

Os prisioneiros principais são os seguintes

O marquês de Mortàra, marechal de campo general

D. Pedro Pereira, tenente general da cavalaria

(…)

Finalmente, capitães de cavalaria e infantaria, tenentes e outros oficiais são 460 e ao todo, conforme a lista que ao primeiro dia se fez e mandou a Paris, são

2500 prisioneiros                                                          2000 mortos.

 

A seguinte transcrição de uma irónica carta tem a curiosidade de ser feita em “portunhol”:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1645

Cópia da carta que se diz escreveram de Badajós a Elvas ao conde de Castelo Melhor, governador das armas portuguesas no Alentejo

Pudiera V. S, ya que se resolvio a venir a esta placa tratar de abisarnos a los besinos della para que hallase agasajo mas de gratitud en sus voluntades en los barros com que los regalo, de lo que de aspereza com la resistência de los corazones, com que aguardaban al repente.

Nuestro sentimiento es que los señores portugueses no son tan pouco para vistos que sea necesario valerse de la noche; ni los castellanos tan descuidados que los puedan culpar de desprevenidos, que fuera culpa entregarsense al sueño quando V. S. solicitava el desvelo para visitarlos.

V.S. haga las partes de amigo y de correspondiente y no quiera com aparências de barro usar rigores de inimigo, que ya que nos ocupamos en la delicia de los que embio, seria injusticia servir de ostorbo a su liberdad,

Dios guarde a V. S. y le de trégua a sus alientos, que el despertarnos tan de mañana no es para muchas bezes.

Los Bezinos

 

De facto, algumas cartas, integral e directamente transcritas, não podem ser consideradas como um género eminentemente jornalístico:

 

Gazeta Primeira do Mês de Novembro de 1642

Carta que o Rei Cristianíssimo mandou aos Senhores e Preboste dos Mercadores e Mesteres da sua boa cidade de Paris sobre a entrega da cidade e castelo de Perpinhão, na qual lhe manda que assistam ao Te Deum onde Sua Majestade se havia de achar em Pessoa.

Da parte de El-Rei

Caríssimos e muito amados:

Depois que fomos obrigados a levar nossas armas a Espanha, não só para nos opormos aos inimigos declarados do nosso Estado as também para dar à Catalunha oprimida o socorro que ela nos pedia, sempre considerámos Perpinhão como uma praça da qual dependia o sucesso destes justos desígnios, pelo que (...) a meio do Inverno (...), fomos enfim em pessoa por cerco à dita praça (...) de sorte que, havendo sofrido um cerco de cinco meses e todos os extremos que a falta de mantimentos pode causar, ela finalmente se rendeu aos 9 deste mês (...). E como o progresso e glorioso sucesso deste sítio faz verdadeiramente ver que o devemos à graça divina, (...) havemos resolvido (...) dar as graças em pessoa à Igreja de Notre Dame da nossa boa cidade de Paris (...) e para este efeito cantar nela o Te Deum Laudamus, com a solenidade requerida. Da qual vos quisemos assim avisar e mandar (...) que assistais lá em corpo (...).

 

Ao contrário das cartas, um outro género textual que ocorre na Gazeta, e que pode ser considerado jornalístico e informativo, é o explicativo:

 

Gazeta do Mês de Julho de 1645

A variedade na religião é também grande nos tempos presentes naquele Reino [Reino Unido], onde, principalmente em Londres, tem aumentado uma seita que chamam dos independentes, porque não querem ter dependência de ninguém em matéria de fé ou religião, senão crer, ou não crer, o que a cada qual melhor lhe parecer. E os desta nova opinião têm tirado todos os artigos da fé católica incluídos no credo, por este (…) ter sido composto pelos santíssimos apóstolos, que foram homens, e ser coisa de tradições, nem humanas nem divinas, querem eles crer, sendo contra a doutrina de São Paulo que diz para guardarmos e mantermos as tradições (…). Também tiraram os dez mandamentos da Lei de Deus, dando por razão, ou para melhor dizer por sem razão, que os mais dos ditos preceitos estavam já postos em leis reais ou parlamentares públicas e políticas no Reino de Inglaterra, onde castigam os matadores, adúlteros e ladrões, etc. E assim parece escusada a lei divina, onde a humana a acode. Sem considerarem estes miseráveis que os tais preceitos são mais dignos de ser guardados por serem divinos que por serem humanos e que uma coisa pode ser mandada por várias leis, civil, canónica, natural, divina e por lei universal e particular, ou municipal. Nem tão pouco consideram que Cristo Senhor Nosso declarou serem estes mandamentos necessários para a salvação das almas. Se vis a vitam ingredi serva mundata. Notável cegueira!

Os de outra seita tiraram, dos sete sacramentos, cinco, e assim querem que não haja mais que dois, que são baptismo e matrimónio. Porém, na forma do baptismo acrescentam algumas palavras ridículas e supersticiosas, porque depois de dizerem a verdadeira forma, que é Eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, acrescentam em nome do sangue, do fogo e do nosso conselho. Antes que os improbos ministros desta seita baptizem as miseráveis crianças, tomam juramento aos pais como aquela é seu filho ou filha de legítimo matrimónio e de ambos e não basta que os pais jurem que assim o cuidam senão que hão-de jurar como coisa totalmente certa e se não o fazem assim ficam as crianças por baptizar. Fundam estes ignorantes ministros seu infando abuso numa heresia de Calvino, que afirmou que os bastardos todos estavam reprovados eternamente, sendo certíssimo, na verdade, que muitos santos e santas que hoje estão na glória não nasceram de legítimo matrimónio.

 

Com frequência, as notícias da Gazeta denotam falta de informação e de capacidade de análise de situações. Mesmo alguns meros rumores foram noticiados:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

Em Caminha tomaram-se três barcos de galegos e matou-se alguma gente e outra se cativou.

(…)

O papa levanta gente na terra da Igreja, não se sabe para quê.

El-Rei de Inglaterra faz grandes levas em seus reinos e dizem que quer restaurar o Palatinado.

Dizem que estão quinze mil franceses sobre Fonte Rabia.

 

Noutras vezes, pelo contrário, os redactores da Gazeta procuraram conjecturar sobre os possíveis desenvolvimentos das situações a partir dos dados disponíveis:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1641

A armada do bispo de Bordéus reforma-se e presume-se que vem outra vez sobre Terragona.

 

Apesar da prosa escorreita, tendencialmente laica, em algumas notícias os redactores imergem na narrativa e não hesitam em recorrer à linguagem figurativa:

 

Gazeta do Mês de Novembro de 1646

Não se pode com palavras explicar o muito que padece a Alemanha por ser há tantos anos o teatro onde se representa o jogo insolente de Marte.

 

Noutras notícias, a linguagem, embora menos figurativa, é “lamentadora”, apesar de ser também prognosticadora, mas os europeus seiscentistas, de facto, não tiveram vida fácil devido às guerras que incendiaram o Velho Continente:

 

Gazeta do Mês de Outubro de 1642

Avisam que é coisa lastimosa de ver que as coisas daquele Reino [Inglaterra] estão postas em estado que não há nenhuma aparência de melhoria senão de uma sangrenta guerra de fogo e sangue, com perdião e destruição total daquele Reino e povos. El-Rei está muito severo e muito animoso e com resoluta determinação de sustentar sua autoridade Real até à morte. No que está muito seguro, e por mais que lhe digam, não quer dar ouvidos a nada, nem de alguma maneira ceder, nem desistir de sua opinião. Por todos estes Reinos se fazem levas de gente de guerra de infantaria e de cavalaria e todos estão com as armas nas mãos e cada dia se encontram os Reais e os do Parlamento com vantagem e perda de uma e de outra parte, de maneira que se vão picando guerras sangrentas.

 

Várias notícias apresentam, por seu turno, um recorte analítico, embora no geral a Gazeta seja menos analítica do que, por exemplo, as Relações de Manuel Severim de Faria (cf. Sousa  t al., 2006):

 

Gazeta Primeira do Mês de Outubro de Novas Fora do Reino [1642]

Os diferendos entre El-Rei da Grã-Bretanha com o Parlamento estão cada dia em pior condição, porque cada qual pretende sustentar sua razão e assim há grandes aparências de que antes de muitos dias cheguem a batalha.

 

Gazeta dos Meses de Novembro e Dezembro de 1642

Esta praça é de muita importância, porque além de dar um porto muito avantajado às nossas armas, abre o caminho de Cazal e mantém os inimigos em perpétuo receio e incerteza do desígnio de nossas armas pela ponte que com muita facilidade lhe pode fazer sobre o Pó naquela parte que fica fronteira a Crescentim, praça também de Madame, e finalmente Verruè foi sempre em certo modo tida por fatal aos castelhanos porque uma vez não a puderam tomar com quarenta mil homens governados pelo duque de Feria, nem a tomariam nunca se não fossem as últimas revoltas do Piemonte e agora a perderam sem tiro de artilharia.

 

Gazeta de Novembro de 1646

O porto de Piombino é tão importante por ser necessário passarem os navios por este estreito de mar de três léguas que está entre a ilha de Elba e o dito porto. Quem é senhor de Piombino fica senhor do mar e dos navios que vão de Génova para Nápoles ou vêm de Nápoles para Génova, porque além de dilatarem-se na navegação, arriscar-se-ão muito os navios que forem forçados a deixar a ilha de Elba (…) e ir buscar a costa de África além da ilha da Sardenha (…).

 

Por vezes, arcaicamente, as notícias da Gazeta misturavam assuntos, apesar de estes terem conexões geográficas ou outras, talvez porque resultassem da tradução de cartas de correspondentes noticiosos:

 

Gazeta do Mês de Março de 1643

De Paris, aos 6 de Fevereiro de 1643

A morte do cardeal duque [Richelieu] não fez inovar coisa alguma no Governo, que hoje tem o cardeal Mazarino, Xaveni e Noier, os quais guardam em tudo as ordens que o dito cardeal deixou. Sua Majestade soltou alguns presos da Bastilha e perdoou alguns desterrados.

 

Gazeta do Mês de Janeiro de 1645

Os irlandeses católicos que tomaram o partido das armas contra a Escócia estão nela tão reforçados que se diz terem até ao presente quinze mil homens. No Reino de Inglaterra estão os realistas senhores da campanha e prenderam agora ao major-general Brown, um dos melhores que a parte dos parlamentares de Londres tem.

(…)

Fugiu de Madrid com sua mulher Dom João de Meneses e já está no Reino de França, de onde passará a Portugal muito brevemente. Para a Catalunha, têm os Reis Cristianíssimos despachado a monsieur de Ancurt, príncipe da Casa de Lorena, que partirá durante Janeiro, e já partiram todos os demais cabos e marechais, com muito boa gente, além de dois regimentos da guarda de El-Rei.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1643 de Novas Fora do Reino

Na Turquia, começam a ficar sem o temor que tinham de que vindo a faltar a raça otomana lhes fosse ocasião de algumas alterações, porque além do primeiro filho do grão-senhor de que haveis ouvido falar, lhe nasceu o segundo, a 25 de Fevereiro passado. Pelo seu nascimento, fizeram-se grandes alegrias e festas em todos os lugares daquele vasto império. Aos 5 do mesmo mês, o senhor Soranzo, baille de Veneza, tinha feito a sua entrada pública em Constantinopla, ao qual o embaixador de França tinha mandado receber e conduzir até à casa do dito baille pelo senhor de Lempercur, seu secretário, acompanhado de trinta cavaleiros. Aos 19, teve audiência com o grão senhor, ao quel presenteou com alguns vestidos de brocatel, entre os quais havia um de tela de ouro de grande preço. Sua Alteza o presenteou com um vestido de brocatel e ouro. No mesmo dia, o emehor, ou grande escudeiro, foi feito paxá de Alepo e o de Alepo foi feito paxá de Damas. O embaixador da Pérsia fez também aos 10 a sua audiência de despedida e foi presenteado com trinta vestidos. Antes de o deixar partir, o vizir fez-lhe um grande festim, tendo-lhe no final feito presente, da parte do grão senhor, de trinta bolsas, cada uma com quinhentas patacas, para ajuda dos gastos da sua viagem, as quais foram acompanhadas de alguns vestidos e outras galanterias do país.  Lançaram estes dias passados sete galés novas ao mar, com as quais perfazem os turcos oitenta, que armam este ano com trinta grossos baixéis, para virem ao poente, como se crê, o que levou o grão-mestre de Malta a partir, no passado mês de Abril, para visitar as fortificações da ilha de Gozo, que ele quer por em estado de defesa, mandando entretanto com diligência algumas embarcações para lhe trazerem novas seguras dos desígnios dos turcos.

 

Gazeta do Mês de Julho de 1643 de Novas Fora do Reino

De Narbona, a 12 de Junho de 1643

Escrevem-nos de Madrid do primeiro de Maio passado, que El-Rei de Castela mandou fazer grandes devoções em todo o seu Reino, pelo período de oito dias, e que havia levado em procissão a imagem que Sua Majestade Católica fez, à imitação de El-Rei defunto, tomando a Virgem por patrona e advogada de todos os seus estados, a fim de alcançar vitória contra os seus inimigos. Essa declaração fez Sua Majestade afixar por todas as igrejas. O conde duque de Olivares está, todavia, em Luecher, não sem esperanças de tornar a seu antigo mando, visto que a condessa sua mulher é ainda valida da Rainha. O marquês de Leganes está ainda preso, acusado de ter tomado o dinheiro destinado ao exército que estava no ano passado em Aragão onde houve um grande motim, com tais dimensões que o vice-rei foi obrigado a retirar-se, dando mostras os povos de se quererem declarar por França, se brevemente não houver paz. Entretanto, o marechal da Mota vai-se pondo em campanha com um poderoso exército.

 

Podemos ver ainda, pela tabela seguinte, que os redactores da Gazeta já evidenciavam preocupações jornalísticas de tom contemporâneo, mostrando que os valores jornalísticos e as constantes norteadoras do profissionalismo jornalístico têm raízes históricas que recuam ao século XVII ou, para sermos mais precisos, recuam aos tempos clássicos em que gregos como Tucídides, Xenofonte e mesmo, até certo ponto, Heráclito começaram a escrever história animados da dupla intenção da verdade e da facticidade. Observam-se, nomeadamente

 

1) Preocupações de credibilizar a informação pela referência às fontes, ou mesmo pela crítica dessas mesmas fontes;

 

2) Intenção de verdade, traduzida, por exemplo, pela correcção de informações incorrectas;

 

3) Citações, mecanismo de defesa do jornalista e de credibilização da informação que também empresta vivacidade ao relato;

 

4) Inclusão de notícias de última hora;

 

5) Preocupação em datar e localizar as notícias.

 

Questões jornalísticas

Excerto textual ilustrativo

Referência e crítica às fontes

O que se disse de França (...) foi informação de pessoa mal intencionada e pouco afecta às coisas deste e daquele Reino. (Julho de 1643).

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