06. Gazeta: Introdução

Introdução

Jorge Pedro Sousa

Publicada, documentadamente, entre 1641 e 1647[1], a Gazeta “da Restauração” pode ser considerada o primeiro periódico impresso português, embora não o primeiro jornal impresso português, já que esta última condição pode ser adequadamente atribuída às Relações impressas de Manuel Severim de Faria, publicadas em 1626, 1627 (reedição) e 1628 (segundo número)[2].

Sendo o nosso primeiro periódico, estranha-se que pouca atenção lhe tenha sido dada pela Academia, nomeadamente se excluirmos vários textos de Alfredo Cunha (1929/1930; 1932; 1939; 1941 a; 1941 b; 1942) sobre o início do jornalismo em Portugal, escritos na primeira metade do século XX, e ainda os artigos de Lúcia Mariano Veloso (2005) e de Filomena Belo e Manuela Rocha (1988), entre outras referências pontuais em livros bibliográficos (Inocêncio Francisco da Silva, 1859; Ricardo Pinto de Matos, 1878; Silva Pereira, 1895 e 1897; Martinho da Fonseca, 1927), em histórias da imprensa (Rocha Martins, 1942...), em histórias da literatura (Mendes dos Remédios, 1914...), em enciclopédias e dicionários enciclopédicos generalistas (Enciclopédia Luso-Brasileira, por exemplo), em dicionários literários (Biblos,Dicionário de Literatura) e em dicionários históricos (Dicionário Bibliográfico Militar...). Este nosso estudo procurou suprimir essa lacuna. Estávamos, aliás, convencidos do nosso pioneirismo, quando, em Julho de 2006, apresentámos à Fundação Fernando Pessoa um projecto de investigação sobre a Gazeta. Estávamos ainda convencidos do nosso pioneirismo quanto o iniciámos, em Novembro de 2006. Mas em Dezembro desse mesmo ano fomos surpreendidos pela publicação de um sério trabalho de investigação sobre a Gazeta. Tratava-se do livro Gazetas da Restauração [1641-1648], da autoria de Eurico Gomes Dias, editado pelo Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Constatámos, porém, que o propósito original da nossa abordagem não era totalmente coincidente com o do citado autor. Os grandes méritos da obra de Gomes Dias (2006) são ter dado à estampa transcrições literais de todos os números sobreviventes da Gazeta e ter construído índices do conteúdo dos mesmos, trabalho importante e hercúleo, sem dúvida, mas, fora isso, o autor pouco adianta em relação ao que já estava escrito em numerosos, embora dispersos, textos anteriores, designadamente nos já referidos trabalhos de Alfredo Cunha. Constatámos, assim, que o nosso objectivo original não se encontrava cumprido. De facto, o nosso propósito, desde o início, foi o de fazer uma análise do discurso da Gazeta, quantitativa, qualitativa e linguística, acompanhada de uma transcrição de todos os números vertida para o português contemporâneo, de maneira a facilitar a leitura. No que respeita aos índices, encontrámos, porém, alguma coincidência de objectivos com Eurico Gomes Dias (2006). Por esse motivo, mantivemos, apenas, a construção de um índice temático de notícias.

Este nosso estudo surge na sequência de um trabalho conduzido por Jorge Pedro Sousa, Mário Pinto, Gabriel Silva, Nair Silva e Mônica Delicato sobre as Relações de Manuel Severim de Faria[3], consideradas pelos autores como o primeiro jornal português (embora não periódico), pelo menos entre os que sobreviveram às intempéries da história. Assim, a estrutura da presente obra é semelhante à da pesquisa sobre asRelações, embora tenha mais capítulos. O leitor encontrará sete capítulos neste livro. O primeiro é devotado à apresentação da conjuntura histórica do período 1641-1647 e o segundo refere a conjuntura jornalística da época. Todos os restantes capítulos exploram a forma, os conteúdos e o discurso da Gazeta, discutindo os seus contributos para o jornalismo, para a Língua Portuguesa e mesmo para Portugal, tendo em conta, neste caso, a maneira como o mundo da época foi discursivamente enquadrado. O último capítulo aborda os presumíveis redactores e impressores da Gazeta, relembrando informações relevantes para a historiografia do jornalismo português.

É nossa convicção, conforme se indicia pelos dois primeiros capítulos deste livro, que a edição da Gazeta “da Restauração”, primeiro periódico português, deve ser interpretada em função do contexto jornalístico e político-social da época.

Por um lado, o jornalismo começava a revelar-se uma pujante força social, funcionando como uma resposta às crescentes demandas sociais de informação, próprias de um mundo em mudança e transformação. Quando a Gazeta iniciou a sua publicação, há mais de um século que havia manifestações de índole jornalística, ou pré-jornalística, em Portugal e na Europa. Proliferavam, por exemplo, publicações ocasionais, algumas monotemáticas, como as célebres relações de naufrágios dos séculos XVI[4] e XVII, espécie de antepassadas dos livros-reportagem, que seriam coligidas por Bernardo Gomes de Brito na História Trágico-Marítima, publicada, pela primeira vez, em 1735; outras multitemáticas, como as duas Relações de Manuel Severim de Faria, publicadas em 1626, 1627 (reedição do primeiro número) e 1628, que são o primeiro jornal noticioso impresso em língua portuguesa que se conhece, embora não fosse periódico. No estrangeiro, em especial em França, nas Províncias Unidas (Holanda) e no Sacro-Império (Alemanha/Áustria), as gazetas periódicas, noticiosas e multitemáticas, publicavam-se, pelo menos, desde o início do século XVII. Periódicas ou ocasionais, multitemáticas ou monotemáticas, todas essas publicações tinham um objectivo estruturalmente semelhante ao das publicações jornalísticas actuais: lucrar através da venda de notícias, satisfazendo a demanda social por informação. O tipo de discurso dessas publicações era informativo, mesmo que, por vezes, fosse também dramatizado e orientado, e a distribuição, dentro do contexto da época, pode considerar-se “massiva”, pois os primeiros jornais e folhetos ocasionais eram, muitas vezes, lidos em voz alta em lugares públicos para vários ouvintes. Realce-se, aliás, que no decorrer do século XVII se intensificou a alfabetização, em especial na Holanda, na Alemanha e nos países do Norte da Europa (Suécia, Inglaterra...), pelo que nesses países cada vez mais pessoas conseguiam ler as gazetas (infelizmente, no sul da Europa, em países como Portugal, mantiveram-se taxas de analfabetismo a rondar os 90% até meados do século XIX).

A outra vertente justificativa da aparição da Gazeta “da Restauração” é política e social. A Restauração da Independência de Portugal e a ascensão de D. João IV ao trono exigiram, certamente, um órgão de comunicação social que publicitasse a causa do novo Rei e desse conta da aceitação da nova conjuntura e da nova Casa Real pela Santa Sé e pelos países europeus, em especial pelos adversários de Espanha.

Este trabalho procurou, assim, dar um contributo para o estudo da Gazeta “da Restauração” sob o ponto de vista cruzado da linguística e dos Estudos Jornalísticos, em especial no que respeita à análise do discurso desse periódico. A nossa perspectiva de investigação não foi, portanto, a das Ciências Históricas, pelo que não foi nossa ambição preocupar-nos, por exemplo, com a exactidão histórica da Gazeta, apesar de reconhecermos que o conhecimento do contexto histórico da época permite justificar alguns dos dados recolhidos.

Os principais objectivos do presente trabalho de investigação foram, então: a) discutir o contributo da Gazeta “da Restauração” para o desenvolvimento inicial do jornalismo lusófono; e b) procurar descrever e entender os conteúdos e formatos dessa publicação, debatendo-os à luz da linguística e do que convencionalmente podemos considerar como a Teoria do Jornalismo.

As perguntas de investigação que orientaram, genericamente, a pesquisa foram as seguintes:

1) Como se apresentava a Gazeta (aspecto físico, design, conteúdos e formato dos conteúdos)?

2) Como é que a Gazeta reflecte discursivamente a conjuntura da época em que foi publicada? Quais os “ecos do mundo” que se encontram nela? 

3) Quais os contributos da Gazeta para a Língua Portuguesa? 

4) Quem colaborou na redacção e impressão da Gazeta “da Restauração”?

Para o desenvolvimento da investigação, fez-se um levantamento bibliográfico exaustivo dos materiais que se referem à Gazeta nas principais bibliotecas portuguesas, elaboraram-se histórias de vida dos mais prováveis redactores e impressores da Gazeta e desenvolveu-se uma análise linguística e discursiva dessa publicação, qualitativa e quantitativa.

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O projecto de A Génese do Jornalismo. Jornais Periódicos do Século XVII em Portugal e na Europa é realizado com o apoio financeiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, através de fundos estruturais da União Europeia, designadamente do FEDER, e de fundos nacionais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

 
          

      
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Jornais UFP,
31 de out de 2010 03:27